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Tidligere forskning på vurdering av elevtekster

Após a revisão do texto das transcrições pelos entrevistados, realizamos novas leituras do mesmo, comparando sua forma anterior com a nova e compondo a versão final em nossos arquivos do computador. Valério realizou várias alterações: substituindo palavras, que esclareciam melhor o sentido de suas afirmações e que tornavam o texto mais formal; acrescentando trechos que explicavam determinados posicionamentos; corrigindo falhas na digitação e na ortografia; modificando expressões comuns da linguagem oral; atendendo às dúvidas que indicamos quanto a nomes que não foram ouvidos com exatidão durante as transcrições; suprimindo trechos que poderiam causar constrangimentos frente a colegas de profissão.

José também fez muitas intervenções em seu texto, mas seus apontamentos tiveram características diferentes. Além de retirar muitos trechos que revelavam enorme espontaneidade na expressão de opiniões, situações e comportamento de pessoas recordadas, substituiu palavras que considerou inadequadas a um texto que faria parte de um trabalho científico, e ofereceu uma riqueza de observações, à margem do texto ou no verso das folhas, por meio das quais conversava com a pesquisadora sobre questões relativas à tese, questionava trechos e posicionamentos, justificava suas alterações, refletia sobre os assuntos narrados e discutidos, fazia esquematizações para explicar seu pensamento. Em alguns momentos, enfatizava episódios, sublinhando-os, acrescentava palavras ou trechos, a fim de esclarecer suas colocações, sugeria notas de rodapé, destacava partes que considerava relevantes, indicava leituras e sinalizava dúvidas.

A partir da versão definitiva das histórias transcritas, realizamos a codificação e a seleção de suas informações, as quais foram organizadas em quadros, estruturados em categorias, subcategorias, elementos constituintes e dimensões transformadoras e limitadoras. Eliminamos do processo de codificação e agrupamento as informações indesejadas pelos participantes, apresentando apenas aquelas autorizadas a fazerem parte das análises. Posteriormente, compusemos a síntese de cada história de vida, tomando o cuidado de não alterar o sentido das palavras utilizadas pelos narradores, e de não emitir julgamentos. No decorrer dos diversos momentos dedicados ao estudo dos textos (transcrição, correção, síntese, interpretação e análise) um grande volume de anotações era registrado, armazenando reflexões, perguntas, comparações, idéias, relações com o referencial teórico. Esses registros facilitaram a redação do relatório da tese.

A decisão por apresentar uma reescrita sintética das histórias de vida se deve à preocupação com a compreensão do trabalho de análise, em sua totalidade, considerando que o texto original daria grande volume ao relatório. Por outro lado, não julgávamos conveniente apresentar apenas fragmentos das narrativas, negando aos(às) leitores(as) uma visão mais ampla do material que analisamos. No entanto, é preciso enfatizar que evitamos uma versão pessoal dos relatos, e apenas procuramos resumi-los, sem alterá-los ou interpretá-los, mantendo as situações, palavras e sentidos oferecidos pelos autores. A revisão do material analisado, feita por eles, nos garantiram a validade da síntese.

A reescrita das histórias de vida foi estruturada de modo a mostrar dois momentos diferentes, identificados nas narrativas: momento de rememoração dos tempos vividos, em que os formadores contam e interpretam suas experiências em cada etapa da vida; e momento de reflexão sobre o parentesco entre tempos (FREIRE, 2003a), nos quais estabelecem relações entre o que viveram e como se constituem e trabalham na atualidade. Os dois momentos foram especialmente importantes como fonte de dados para a construção dos quadros de análise. No entanto, as reflexões sobressaíram como depoimentos claros dos elementos constituintes de cada sujeito, enquanto indivíduos e profissionais. Elas são apresentadas na forma de citações, no interior do texto da reescrita, ou por meio de destaques recuados do texto.

Os elementos que participaram da constituição de cada participante, identificados por eles mesmos como relevantes, ou pela pesquisadora, mediante consenso com os investigados, foram relacionados a categorias teóricas prévias (eixos do roteiro de entrevista), subcategorias empíricas não previstas (destacadas em cada eixo) e dimensões (transformadoras e limitadoras), na construção dos quadros de análise das histórias de vida. Depois de interpretados e analisados separadamente, os elementos dos dois formadores foram confrontados em novos quadros, de modo que pudessem evidenciar aproximações e diferenciações, permitindo um olhar crítico sobre as possibilidades e limitações que revelavam, articuladas às dimensões transformadoras e limitadoras. Vale ressaltar que a fragmentação das histórias em diferentes classificações (categorias, subcategorias, elementos, dimensões) serviu à organização dos dados para as análises, mas não eliminou a conexão entre os elementos, espaços e tempos que constituem a inteireza45 do estar sendo dos formadores participantes.

45 Palavra utilizada por Freire para designar os seres humanos em sua totalidade, incluindo os âmbitos da razão e das emoções, como aprendizagens do corpo.

Cabe lembrar que, no processo de elaboração do roteiro de entrevista, não prevíamos a simultaneidade de atividades na vida das pessoas, que implicariam em relações entre eixos do roteiro, como os referentes à escolarização e à trajetória profissional (como educadores, ou em outras funções), por exemplo. Por isso, a intersecção entre eixos (categorias) foi considerada na montagem dos quadros de análise e, consequentemente, na interpretação das informações.

As discussões sobre cada história de vida, bem como a análise dialógica das aproximações e diferenciações entre os sujeitos, possibilitaram a construção dos resultados, como contribuições para as pesquisas e propostas de formação de educadores(as), sob o referencial da pedagogia freireana. Todas as etapas que compõem o processo de tratamento dos dados foram dialogadas e validadas junto aos participantes, garantindo que as proposições objetivadas pela pesquisa se fizessem de forma compartilhada, entre pessoas que participam da história de formação dos(as) formadores(as) de professores(as).

Esclarecemos, mais uma vez, que os componentes da MCC, em torno dos quais se dá o processo de análise, ou seja, as dimensões transformadora e limitadora, foram repensados para o estudo da constituição dos formadores nesta pesquisa. Considerando que os sujeitos com os quais trabalhamos não pertencem a grupos excluídos ou discriminados dentro de nossa sociedade, pensamos que seria mais adequado conceber os obstáculos que enfrentaram, no decorrer da vida e da profissão, como limitadores e não exclusores. Além disso, a maneira como os participantes se manifestam sobre as barreiras sociais que encontraram, durante suas trajetórias de formação e de trabalho, para construírem seus caminhos como educadores, demonstra que puderam contar com condições favoráveis à profissionalização, mesmo diante de muitas lutas. Porém, é necessário reconhecer que Valério, enquanto membro de uma família de trabalhadores rurais, que não teve acesso à universidade pública, necessitando procurar emprego em diferentes funções até alcançar a docência, empreendeu uma luta maior para enfrentar dificuldades e concretizar seu sonho de ser professor.

Julgamos de fundamental importância explicitar que as dimensões transformadoras ou limitadoras, utilizadas para descrição, interpretação e análise da realidade, não representaram formas estanques, mecanicistas de entender os processos de desenvolvimento dos seres humanos, quanto aos fatores que impulsionam avanços ou funcionam como fortes impecilhos à emancipação humana, considerando suas escolhas e práticas sociais e educativas. Muitos elementos envolvidos na constituição dos formadores se mostraram igualmente limitadores e transformadores, pois ofereceram obstáculos à luta por

suas convicções e proposições, mas também promoveram crescimento intelectual e reação às condições adversas do cotidiano profissional.

Ao finalizarmos todo o processo de organização, descrição, interpretação e análise dos dados, enviamos o material aos participantes, propondo que realizassem cuidadosa leitura dele, e tecessem suas considerações quanto às análises, oferecendo contribuições aos resultados da pesquisa, que seriam consensuados por meio de um diálogo com a pesquisadora. Antes do encontro para as discussões, os participantes receberam um texto sobre a abordagem freireana do diálogo46, que esclarecia as concepções que assumíamos para a construção compartilhada de uma nova proposta de pesquisa e de formação no campo da Educação Contínua de educadores(as).

Além do referencial teórico freireano, que justifica essa construção dialogada, partimos da premissa da MCC de que as pessoas sabem interpretar suas próprias ações e atuar em conseqüência. Por isso, participam da implementação de mudanças históricas em seu contexto social e nos sistemas em que trabalham. Os pressupostos desta metodologia de natureza participativa nos fornecem caminhos para construirmos conhecimentos com as pessoas, e não sobre elas, buscando respostas às questões e problemas, junto aos sujeitos pesquisados, considerando que as possíveis soluções não se encontram prontas, nas mãos de quem investiga, a espera de que sejam implementadas. Nesta perspectiva, as pessoas que conhecem e vivenciam os contextos, fazendo-os e sendo feitas por eles, têm legitimidade para participar do estudo dos mesmos.

Os diálogos com os participantes configuraram não somente oportunidades de discussões sobre a temática estudada, mas de esclarecimento de dúvidas e aprofundamento de episódios, que foram explicados de maneira superficial nas histórias de vida. Nesses diálogos, o tratamento que oferecemos aos dados, permeado pelo referencial teórico-prático de Paulo Freire, foi compartilhado com os sujeitos participantes, numa construção democrática de proposições rumo a uma formação de educadores(as) humanizadora, ética, curiosa e crítica.

A reflexão sobre a própria história consistiu numa prática constante que verificamos nas narrativas dos formadores, pois estabeleceram muitas sinapses47 entre as formas anteriores e atuais de pensar, comportar-se e lidar com situações. Essa atitude dos

46 Apêndice F.

47 Termo utilizado pelas Ciências Biológicas para nomear a comunicação estabelecida entre os neurônios (células nervosas), para a transmissão de impulsos nervosos, a partir do contato entre os axônios de uma célula e os dendritos de outra. Este termo foi adotado no texto pelo sentido análogo que oferece ao funcionamento da memória, a qual dispõe de uma zona de aproximação (fenda sináptica) entre aspectos da vida, na qual as relações de sentido são construídas de diferentes maneiras, em diferentes momentos. Hoje, com os conhecimentos e experiências que detemos, formulamos determinadas relações entre capítulos da vida; amanhã, com outro repertório de visões de mundo, poderemos edificar outras relações.

narradores revelou o forte potencial do que Freire (2004) chama de percepção da percepção

anterior, processo que ocorre na descodificação do mundo objetivo, do qual os indivíduos fazem parte, permitindo-lhes a consciência deste mundo. Esse processo é explicado pelo autor na explanação que realiza sobre seu método de alfabetização de adultos.

Ao terem a percepção de como antes percebiam, percebem diferentemente a realidade, e, ampliando o horizonte do perceber, mais facilmente vão surpreendendo, na sua “visão de fundo”, as relações dialéticas entre uma dimensão e outra da realidade. (FREIRE, 2004, p. 109)

Certamente, muitas dessas percepções ocorreram no momento exato da narrativa, enquanto os entrevistados buscavam caminhos para a construção de suas memórias. O resgate da própria história impôs a necessidade de organizar, relacionar, justificar, compreender os elementos imbricados na trama da vida. A narrativa dos participantes também revelou suas preocupações em demonstrar a visão que têm sobre pontos positivos e negativos referentes às situações que vivenciaram, e as relações entre estas e os contextos nos quais ocorriam.

Isso nos mostrou que um mesmo elemento constituinte, presente na história de vida dos(as) educadores(as), pode representar, simultaneamente, a propriedade de limitar e transformar, pois o desenvolvimento humano, no âmbito das relações que as pessoas estabelecem no movimento da vida cotidiana, ou no contexto dos sistemas em que atuam, é dialético. Portanto, algo que é potencialmente sinalizado como impedimento à superação de problemas, em cada percurso de vida, pode desencadear a busca de recursos, ou formas de luta, que modificam as situações conflituosas ou opressoras, gerando transformação e não adaptação, conformismo ou indignação a tais situações. A identificação destas dimensões é o primeiro passo para a concretização de ações superadoras.

Conforme explicamos, estas dimensões, que constituem componentes próprios da MCC, são identificadas e analisadas nos discursos dos entrevistados pela pesquisadora que, posteriormente, discute suas análises com os mesmos visando buscar um consenso. O consenso, que é de natureza democrática, na perspectiva desta metodologia, centraliza o diálogo nas relações intersubjetivas, e pauta-se na validade de argumentos. Na ação comunicativa exercida entre a pesquisadora e os entrevistados, a primeira deve tomar posição diante dos temas discutidos, sem omitir seus posicionamentos.

Porém, seu posicionamento não ocupa lugar de destaque ou domínio; sua palavra não é a de um especialista, no sentido de ter valor em si pela posição social ocupada. O/a investigador/a está em relação de igualdade com os demais: sua palavra é apresentada e tomada pela validade dos argumentos, como ocorre com todas as falas. (MELLO, 2006, p. 6)

A diferença entre a interpretação dos participantes e da pesquisadora reside na função que ocupam, e não numa estrutura hierárquica, ou de poder. A ruptura do desnível interpretativo ocorre pelo entendimento de que todos(as) somos capazes de interpretar e explicar as situações vividas. No entanto, a pesquisadora tem a responsabilidade de cumprir os critérios estabelecidos pela comunidade científica internacional. As relações de igualdade, estabelecidas entre aqueles(as) que pesquisam e aqueles(as) que são pesquisados(as), não os caracteriza como portadores(as) de conhecimentos iguais, mas demanda compartilhamento do que cada um sabe, baseados em argumentos e conhecimentos. (MELLO, 2006)

Mello (2006) chama a atenção para a contribuição que Paulo Freire oferece à reflexão sobre a pesquisa e a construção do conhecimento sobre a realidade, pois descreve a perspectiva dialógica de aproximação do objeto investigado como processo que implica buscar a distância epistemológica do que se investiga. Nesse processo, os seres humanos colocam-se em permanente disponibilidade para aprender, movidos pela curiosidade epistemológica, entendida como capacidade de surpreender-se, e necessidade de compreender para explicar, o que leva ao conhecimento teórico.

De acordo com a autora, Paulo Freire indica a necessidade da experiência dialógica como favorecedora da curiosidade e da reflexão epistemológicas, pois é constituída por uma postura crítica e pela preocupação em apreender a razão de ser do objeto que medeia os sujeitos do diálogo. “Isso implica conhecer os sujeitos por meio de suas relações com os outros, refletindo sobre suas interpretações em contextos habituais”. (MELLO, 2006, p. 9) Neste sentido, a análise dos dados ocorre de forma compartilhada por meio do diálogo crítico.

O diálogo comporta uma postura crítica para a qual é fundamental a construção da curiosidade epistemológica. Quando, por meio do diálogo, põem-se em dúvida questões que até o momento considerávamos válidas, vemo-nos obrigados a utilizar processos dialógicos para compreender as interpretações dos outros e buscar argumentos para refutar, afirmar ou reformular a situação. Por meio deste processo chegamos a interpretações consensuadas.” (CREA, 1998, p. 57 apud MELLO, 2006, p. 9)

Portanto, ao partir da Teoria da Ação Comunicativa de Habermas e do conceito de dialogicidade de Freire, a MCC, desenvolvida pelo CREA (Centro Especial de Investigação em Teorias e Práticas Superadoras de Desigualdades), ancora-se na compreensão

de que a interlocução e a interpretação nos trabalhos de pesquisa são guiadas por processos de entendimento mediante argumentações amparadas por pretensões de validade. A interação e a comunicação entre as pessoas levam a conclusões consensuadas. (MELLO, 2006)

A orientação teórica assumida pela MCC explica as razões pelas quais a análise dos dados é constituída na participação efetiva dos sujeitos (chamados de participantes), o que atribui maior rigor científico à pesquisa por contribuir para a superação das parcialidades analíticas, produzidas pela parcialidade referente à visão de mundo dos(as) pesquisadores(as). A consideração às dimensões transformadoras e exclusoras (sendo essas últimas chamadas de limitadoras neste trabalho) agregam utilidade e relevância social à pesquisa, pois identifica os obstáculos e as formas encontradas para superá-los. (MELLO, 2006)

Recusando a perspectiva de que as pessoas não são conscientes de suas ações e de suas motivações, adotada por muitas abordagens de pesquisa nas ciências humanas, Flecha, Gómez & Puigvert (2001) afirmam que a questão que deve guiar a atuação das ciências sociais no presente século é “(...) em função de que fatores as pessoas e os grupos se aproximam ou se afastam mais de suas intenções?” (p. 154). Em outras palavras, afirmam que se há de buscar clarificar quais esforços levam a se atingir mais objetivos perseguidos e quais levam a deles se distanciar. Trata-se de descrever os obstáculos e os elementos transformadores já presentes na atual sociedade. Além disso, tal busca deve ser feita diretamente com os participantes. (MELLO, 2006, p. 14)

A investigação comunicativa pressupõe, em todas as etapas do processo de pesquisa, a participação dos sujeitos na descrição e análise da realidade, para a construção de conhecimentos que contemplem diferentes olhares sobre um mesmo objeto, que compõem parcialidades analíticas para a compreensão da totalidade. “Conjugam-se os âmbitos objetivo, o social e o subjetivo de todas as pessoas implicadas na temática. Há, assim, a possibilidade de construção de um conhecimento rigoroso e multifacetado”. (MELLO, 2006, p. 15)

Ao mesmo tempo, as técnicas de coleta de dados, que implicam práticas de diálogo igualitário, tornam-se, elas mesmas, momentos de reflexão e aprendizagem para todas e todos os envolvidos na pesquisa, possibilitando a busca de entendimento para coordenação de ações pelos participantes. Além disso, a organização dos dados em categorias analíticas que evidenciam os aspectos transformadores já presentes na realidade investigada, e a serem potencializados, e os aspectos que se apresentam como obstáculos para a transformação da realidade na direção desejada pelo grupo (ex. agentes educativos de uma determinada escola), configura-se como retorno imediato e efetivo para o grupo participante na pesquisa. Assim sendo, a possibilidade de superação das práticas que impedem ou dificultam a construção de uma escola com e para todos e todas torna-se mais evidente. (MELLO, 2006, p. 15)

Em todo o processo de pesquisa, nos deparávamos com a grande responsabilidade que representa adentrar na história de vida das pessoas, manipulando-as, desvelando-as, buscando compreendê-las epistemologicamente, decidindo sobre o que fazer com seu precioso conteúdo. Por isso, o referencial teórico-metodológico da MCC, bem como a práxis histórica de Paulo Freire, nos mantinha cuidadosas em relação ao risco de fazermos análises parciais, equivocadas, injustas, falsamente neutras, generalizadas ou centradas nos indivíduos, pois os procedimentos científicos exigem o compartilhamento dialogado de todas as etapas de investigação, bem como a consideração das relações dialéticas entre subjetividade e objetividade, ação e reflexão, aprender e ensinar, anúncio e denúncia, leitura do mundo e leitura da palavra, concreto e conceito.

Dessa forma, o estudo do percurso de cada pessoa, numa abordagem dialógica, serve ao entendimento das formas de ação, dos diferentes modos de constituir a própria experiência e tratar problemas vivenciados no sistema em que os indivíduos convivem e ajudam a construir, ao contrário de perspectivas subjetivistas, cujo foco é a pessoa e não as suas relações com mundo. Optar pela práxis histórica de Paulo Freire, como referencial orientador da investigação sobre as histórias de vida, significa observar e considerar as possibilidades e limitações presentes nas relações dos indivíduos no mundo, com o mundo e com os outros, sem deter-se apenas nas formas subjetivas de construir conhecimentos, ou na elaboração de processos históricos, nos quais seus personagens encontravam-se inseridos. Paulo Freire constata a dialeticidade envolvida na interação sujeito-mundo, ou seja, o movimento constante das pessoas que se fazem e refazem ao fazerem o mundo e serem influenciadas por ele, em seus condicionamentos, ideologias, forças opressoras e alienantes. Por isso defende uma visão global, e não focalista, da constituição humana.

Partindo de uma abordagem dialética e crítica das relações que se dão entre os seres humanos e o mundo, Paulo Freire anuncia a possibilidade de transformação dessas relações, no sentido da vocação humana para a busca de sua emancipação, de sua libertação, do ser mais. Entretanto, essa busca apenas tem início ao encararmos os temas que envolvem a vida como problemas que nos desafiam, como objetos cognoscíveis, como questões a serem