O primeiro participante a ser convidado33 para protagonizar esta pesquisa é um Supervisor de Ensino, de 48 anos, solteiro, que atua na Diretoria de Ensino de uma cidade do interior de São Paulo, e desde muito jovem, desenvolve ações de formação continuada com professores(as). Cresceu na zona rural, observando e compartilhando a vida sacrificada das pessoas, sempre sonhando em ser professor. A luta por mudanças em suas condições de vida, e pela conquista de seu sonho, o levaram a iniciar a docência aos 20 anos, a gestão escolar aos 25 anos, e a supervisão de ensino aos 28 anos. Em toda a sua trajetória profissional, vivenciou e ofereceu diversas modalidades de Educação Contínua, na rede de ensino estadual do Vale do Ribeira, e também na região de sua cidade.
Conhecemos o supervisor Valério quando estávamos à procura de outra pessoa na Diretoria de sua cidade, que trabalhava como Professora Coordenadora do Ciclo I, na Oficina Pedagógica34, e que nos foi indicada por uma supervisora. Estabelecemos contato com a coordenadora por telefone, e agendamos uma conversa para apresentar o convite à participação nesta pesquisa. Ao descobrir que a possível participante detinha pouco tempo de trabalho como formadora na Educação Contínua de professores(as), verificamos a inviabilidade de sua participação, pois atendíamos ao critério de, no mínimo, 20 anos de experiência neste tipo de trabalho, dedicado a educadores(as) das séries iniciais.
Imediatamente, ela nos indicou e apresentou o professor Valério, que atendia aos critérios de escolha dos sujeitos a serem pesquisados. Ele ouviu a proposta e resolveu colaborar conosco revelando-se, já num primeiro contato, um grande contador de histórias, de excelente memória. Após essa conversa, encaminhamos a ele, por e-mail, textos35 elucidativos sobre a pesquisa, e aguardamos seu retorno sobre uma data para o início das entrevistas.
Apesar de fornecermos, durante o contato presencial, todas as informações necessárias para que o participante tomasse ciência das características desta pesquisa,
33 O convite à participação dos sujeitos nesta pesquisa foi feito por meio de uma carta convite, oferecida em mãos e por e-mail. Também foram feitos contatos por telefone, após o aceite à participação. Esta carta oferecia informações sobre a pesquisa: problema, questão, objetivos, metodologia. Apresentamos esta carta no Apêndice C.
34 Setor da Diretoria de Ensino onde atuam docentes formadores(as) de professores(as), de diversas áreas do conhecimento, responsáveis pela oferta de cursos e orientação pedagógica dos(as) docentes da rede.
35 Carta de informações sobre a pesquisa (Apêndice D), termo de consentimento livre e esclarecido e roteiro de entrevista.
julgamos importante oferecer também material impresso, contendo detalhamento dos objetivos, procedimentos, justificativa e outras informações relevantes. Deste modo, o participante poderia solucionar possíveis dúvidas e aderir conscientemente a este trabalho, que exige comprometimento no trato com os dados. Informamos ao entrevistado que poderia, inclusive, realizar intervenções na composição do roteiro de entrevista das histórias de vida, se julgasse adequado.
Após os primeiros contatos que tivemos, e que o fez aceitar o convite para participar desta pesquisa, a experiência da entrevista nos colocou diante de um narrador em potencial que, apesar de seus 48 anos, nos apresentou uma trajetória repleta de histórias para contar. Em todos os encontros com a pesquisadora, Valério se mostrava incansável em seus relatos e diálogos, mesmo diante da necessidade de conciliar seu trabalho com as entrevistas. Procurava sempre escolher um momento tranqüilo de sua semana e reservá-lo às nossas interações, em sua sala na Diretoria de Ensino .
Há dezoito anos, Valério atua como supervisor de ensino, em uma Diretoria Regional de Ensino, localizada numa cidade do interior paulista. Mas, suas atividades como formador de professores(as) remontam a um passado mais remoto. Preferimos chamá-lo de professor, por respeito a essas atividades e ao sonho que alimentou, desde menino, em exercer essa profissão. Apesar de também cumprir atividades administrativas, mostra-se mais envolvido com funções pedagógicas relacionadas, principalmente, à capacitação de professores(as) do sistema público estadual de ensino.
Aos nossos olhos, o professor Valério revela-se um homem discreto, reservado, organizado, ponderado com as palavras, e de bom humor. Uma pessoa que parece não ter receio de compartilhar as críticas que tece sobre si mesmo, as opiniões que sustenta, os posicionamentos que defende, os erros cometidos e as lutas travadas, incansavelmente, no sentido de superar as condições de vida que não queria e conquistar as posições que almejava. Diante das estratégias que mobilizou para a superação de tais condições, e para o enfrentamento de problemas que surgiam eventualmente, dentro das instituições e nas relações que estabelecia com outros profissionais, identificou-se como uma pessoa extremamente dedicada aos estudos, perfeccionista, analítica, batalhadora quanto às causas educacionais, confiante no potencial das mulheres. E também como alguém que se percebe com falta de habilidade social e confiança nas pessoas, acarretadas, possivelmente, pela solidão vivida enquanto criança, da qual diz ter conservado as características de “birrento” e “pirracento”. Ao mesmo tempo, revela ser uma pessoa que procurou compreender o temperamento difícil de alguns indivíduos e as inexplicáveis perturbações mentais de outros.
Apresentamos no Quadro 2 algumas características que delineiam o perfil de Valério, revelando a diversidade de cursos e atividades profissionais que vivenciou ao longo de sua carreira como educador. Necessitando ingressar rapidamente no mercado de trabalho, e visando o sonho de tornar-se professor, Valério concluiu o Ensino Médio profissionalizante e depois realizou três cursos superiores de graduação em licenciatura curta – Estudos sociais, Letras e Pedagogia. Ingressou como professor na rede pública de ensino aos 20 anos de idade, e desempenhou várias funções em poucos anos: Orientador de educação Moral e Cívica, Diretor de Escola, Assistente Pedagógico, Supervisor de Ensino e formador de professores(as) para concursos.
QUADRO 2. DADOS GERAIS SOBRE OS SUJEITOS: Valério
IDADE 48 anos (nasceu em 1962)
OCUPAÇÃO ATUAL Supervisor de Ensino na Diretoria de Ensino
Regional de uma cidade no interior do Estado de São Paulo, desde os 28 anos.
GRAU DE ESCOLARIDADE Graduação
ESCOLARIDADE DO PAI E DA MÃE Pai: 1ª. a 4ª. série (curso incompleto)
Mãe: 1ª. a 4ª. série (curso completo)
FORMAÇÃO ESCOLAR E ACADÊMICA Ensino Técnico de Contabilidade
Licenciatura curta em Estudos Sociais e Letras, Pedagogia (Administração Escolar), Direito
ANO E IDADE DE INGRESSO NA
DOCÊNCIA 1982 20 anos
MODALIDADES DE TRABALHO NA
EDUCAÇÃO
Professor de História (5ª. a 8ª. séries)
Professor de Língua Portuguesa (5ª. a 8ª. séries) Orientador de Educação Moral e Cívica (5ª. a 8ª. séries)
Diretor de Escola Assistente Pedagógico Supervisor de Ensino
Formador de professores em cursos preparatórios para concursos.
O segundo participante convidado é um professor universitário aposentado, de 66 anos, viúvo, que mantém atividades de pesquisa junto à universidade pública na qual trabalhou, e participa de uma equipe de formadores(as) que elabora projetos educativos voltados ao Ensino Médio, em órgãos vinculados à Secretaria de Estado da Educação de São Paulo. Filho de um casal de imigrantes italianos, o professor José nasceu numa cidade da área metropolitana de São Paulo, e foi motivado por uma professora a entrar para a Escola Normal, pois, segundo ela, seria um excelente professor. Assim como o professor Valério, ingressou na docência aos 20 anos, como professor das séries iniciais; iniciou sua atuação como Coordenador e Orientador Pedagógico aos 23 anos, como formador nos órgãos oficiais
estaduais de políticas educacionais aos 32 anos, e como professor universitário aos 48 anos, na cidade de São Paulo.
A sugestão de seu nome como sujeito desta pesquisa partiu da orientadora da tese, que já conhecia a trajetória profissional do professor José e mantinha contato esporádico com ele, quando necessitava tratar de assuntos acadêmicos. Enviamos a ele uma carta- convite36 formal por e-mail, no mesmo formato daquela encaminhada ao professor Valério, contendo informações sobre a pesquisa e aguardamos sua resposta. Ao receber sua mensagem de aceite, telefonei a ele para apresentar-me e oferecer detalhes sobre os procedimentos referentes à coleta e análise dos dados, confirmando sua participação e demonstrando interesse pelo agendamento da primeira entrevista. Posteriormente enviamos, como arquivo anexado por e-mail, e na forma impressa pelo correio, os textos37 necessários para o início dos trabalhos.
Na época em que se deu a coleta de dados, José ainda desenvolvia trabalhos voltados à Educação Contínua de educadores(as), os quais iniciou em 1967, quando atuava no Grupo Escolar e Ginásio Experimental “Dr. Edmundo de Carvalho”, mais conhecido como “Experimental da Lapa”. A partir do trabalho realizado nesta escola, como professor, coordenador de período e Orientador Educacional, ele foi convidado a trabalhar para o CENAFOR38 e, posteriormente, para o MEC39, nos quais planejou, executou e avaliou programas, projetos e ações voltadas à formação de professores(as), orientadores(as) educacionais, supervisores(as) escolares, diretores(as) e secretários(as) de escola, além de coordenadores(as) de cursos, áreas e disciplinas do currículo de ensino de segundo grau40. Sua dedicação ao trabalho teórico-prático de formação de educadores(as) também se deu no âmbito da universidade, onde participou como docente e pesquisador dos cursos de Pedagogia e nas Licenciaturas, e ajudou a elaborar e desenvolver cursos de educação contínua para educadores(as) da rede municipal, a partir de parcerias entre a universidade e a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo.
Embora esteja aposentado desde 2006, José não deixa de contribuir para as pesquisas e projetos destinados à formação de educadores(as), dentro da universidade e dos
36 Apêndice C
37 Apêndices A, B e D.
38 Uma fundação denominada Centro Nacional de Aperfeiçoamento de Pessoal para a Formação Profissional, órgão instalado pelo MEC em São Paulo, com a finalidade de formar, desenvolver e aperfeiçoar recursos humanos para as demandas da implantação da profissionalização do Ensino de 2º. Grau no Brasil, proposta pela Lei 5692/71. (informações retiradas da tese do pesquisado)
39 Ministério da Educação, órgão criado pelo governo federal em 1930, que mantém a sigla MEC pela denominação que recebeu, no período de 1953 a 1985, como Ministério da Educação e Cultura.
órgãos responsáveis pelas políticas de educação contínua. Ele revela que se sente muito ligado a esta temática e deseja continuar suas discussões e produções relacionadas a ela. Em seus relatos, manifesta grande preocupação com a situação vivida pelos(as) professores(as) brasileiros(as) em sentido amplo, ou seja, com relação à sua formação, à carreira, às condições de trabalho, à política salarial, etc.
Ao contrário de Valério, que alimentava o sonho de ser professor desde a infância, José foi impulsionado a ingressar na profissão por recomendação de uma professora do Ginásio41, a qual previu que seria um excelente professor. Ele mesmo admite que se tornou um ótimo professor tradicional, como resultado de toda escolarização tradicional que vivenciou, desde o Jardim da Infância até o curso de Pedagogia.
Em nossas interações, José demonstrou ser muito organizado, desembaraçado com as palavras, franco, crítico, bem-humorado e gentil. Nossos encontros eram sempre entremeados por um café com biscoitos, que ele mesmo servia em sua casa em São Paulo, a fim de fazermos uma pausa das gravações. José identifica-se como uma pessoa e um profissional que guardou algumas características da educação tradicional que recebeu, como a organização do trabalho, o cuidado com a apresentação estética e ética de suas produções escritas, o gosto pelos estudos, mas que também sofreu transformações por força das experiências de ruptura, dentro das instituições e junto a outros(as) profissionais.
No Quadro 2 encontramos alguns dados sobre a trajetória escolar e profissional de José, que também ingressou na docência aos 20 anos, mas como professor dos anos iniciais do Ensino Fundamental (“Ensino Primário”); cursou Licenciatura Plena em Pedagogia; realizou cursos de pós-graduação stricto sensu – Mestrado e Doutorado e, assim como Valério, desempenhou várias funções como educador – coordenador de período, Orientador Educacional Pedagógico, Coordenador Educacional e Técnico, professor universitário.
QUADRO 3. DADOS GERAIS SOBRE OS SUJEITOS: José
IDADE 66 anos (nasceu em 1944)
OCUPAÇÃO ATUAL Professor universitário aposentado desde 2006,
atuando na universidade pública desde 1992, e em programas de políticas públicas para a formação de educadores(as) desde 1976.
GRAU DE ESCOLARIDADE Pós Graduação - Doutorado
ESCOLARIDADE DO PAI E DA MÃE Pai: 1ª. a 4ª. série (curso completo)
Mãe: 1ª. a 4ª. série (curso incompleto)
FORMAÇÃO ESCOLAR E ACADÊMICA Escola Normal
Graduação em Pedagogia
Pós Graduação em Educação (Mestrado e Doutorado)
ANO E IDADE DE INGRESSO NA DOCÊNCIA
1964 20 anos
MODALIDADES DE TRABALHO NA
EDUCAÇÃO
Professor Primário (Ciclo I do Ensino Fundamental)
Coordenador de período (séries iniciais) Orientador Educacional Pedagógico
Coordenador Educacional e Técnico (CENAFOR/MEC)
Professor universitário
Os dois participantes sempre se mostraram inteiramente disponíveis para o agendamento das entrevistas. Por vezes, devido a certos imprevistos, o professor José precisou adiar alguns encontros, o que não prejudicou o andamento da tese. Os dois participantes não sugeriram modificações para o roteiro de entrevista.