Apresentamos até aqui, neste capítulo, a perspectiva da deificação como enfoque teológico. Procuramos a partir do Ser de Deus, do seu Amor extático
158 A obra de, Dunn, é, sem dúvida, muito apropriada para a compreensão desta questão da
justificação, bem como de toda a teologia do Apóstolo Paulo. DUNN, J. D. G. A Teologia... Op. cit. A proposta deste trabalho, ainda que modesta, pode lançar luzes sobre esta questão tão espinhosa. Pois se recuperamos a teologia na perspectiva da deificação acredito que temos muito a ganhar para superarmos os fundamentos dos teologismos.
159 HEINE, S. Pecado/Expiação (NT). In Dicionário Bíblico-Teológico.Op. cit. p. 324. 160 HEINE, S. Pecado/Expiação (NT). In Dicionário Bíblico-Teológico. Op. cit. p. 325.
(apoiado no pensamento de Zubiri) e da santidade Deus para entender o que seja a nossa ligação (religião) com ele. Procuramos compreender, brevemente, o que seja a economia da salvação: a aliança de Deus com a humanidade para restabelecer a relação – humano-divina - rompida pela queda do pecado. Agora vamos olhar por esta perspectiva, de maneira conclusiva, a realidade sacramental instaurado pelo mistério de Cristo.
Pois, aguardamos justificados por Deus, a vinda de Cristo e a vida eterna: celebrando, pela graça, a liturgia e seus mistérios que nos deificam. Pois o humano nunca deixará sua natureza, mas, por participação e comunhão, é deificado em Cristo pela graça batismal.
Segundo Zubiri161: “na criação se produzem coisas distintas de Deus; na deificação Deus se dá pessoalmente a si mesmo. É uma efusão doada à criação. Vista a partir das criaturas, é uma unificação delas com a vida pessoal de Deus”162. A deificação tem sua origem no mistério da encarnação163 e se desdobra no mistério da santificação: este é o mistério, sacramentum. Este mistério faz parte do ser de Deus. Está em sua vontade revelar-se em Cristo para recapitular todas as coisas164. Em Cristo a humanidade recebe de Deus uma transformação sacramental. O que era invisível e transcendente do mistério de Deus, e que nós necessitamos para a nossa deificação, torna-se carne, em Jesus Cristo.
Ao propormos a categoria da deificação, enquanto perspectiva, teológico- litúrgica, estamos pensando na possibilidade objetiva da teologia, como reflexão da fé, a partir dos mistérios de Deus com os quais o homem se encontra envolvido; bem como a memória e atualização desses mistérios proclamados na liturgia. Por isso, Deus deve ser “conhecido” e “experienciado” na inter-relação do mistério da Trindade, indissociável à economia da salvação, no qual Ele manifesta o seu amor pelos homens (cf. Tt 3,4). Será nesta relação Trinitária de comunhão que se
161 ZUBIRI, X. Naturaleza... Op. cit. p. 504. 162
“O ciclo do amor extático divino se completa deste modo. Na Trindade, Deus vive; na criação, produz coisas; na deificação, eleva-as para associá-las a sua vida pessoal”. ZUBIRI. Naturaleza... Op. cit. p. 504
163 Comentando as palavras do Credo de Nicéia Paul Evdokimov diz: “Se a encarnação fosse
determinada pelo pecado, seria Satânica, isto é, o mal a condicioná-la [...] Cristo desce do céu e se encarna ‘por nós homens e para nossa salvação’ [...]. O ‘pela nossa salvação’ designa a redenção; e ‘o por nós homens’ a deificação, uma e outra justificam a encarnação”. EVDOKIMOV, P. L’Ortodossia. Op. cit. p. 85.
fundamenta a perspectiva da deificação. Nela o humano é transformado, sacramentalmente, pelo próprio Deus.
A deificação é um mistério que procede do próprio ato criativo de Deus. De algum modo o ser criado está na relação com o Criador. Não tem como fugir da participação da santidade daquele que nos chama à vida. “Deus disse: ‘Façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança’ [...] Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, homem e mulher ele os criou” (Gn 1,26-27). A idéia da imagem é a da representação. Por isso o homem torna presente “Deus” na criação e no mundo. E o torna presente pela semelhança165.
Deus planejou e quis essa posição tão valorizada: “Façamos o homem [...]”. Semelhante a Deus, o homem o representa como senhor da criação: “[...] como efígie que nos corresponda; reinará sobre os peixes do mar, sobre os pássaros do céu, sobre o gado, sobre a terra inteira e tudo o que nela se move” (Gn 1,26). Juntamente com a promessa de bênção, o homem recebe explicitamente a incumbência de reinar (Gn 1,28)166.
Numa descrição mais antropológica do primeiro relato da Criação temos o humano como ser vivente: “Então o Senhor Deus modelou o homem com a argila do solo, insuflou em suas narinas uma hálito de vida167 e o homem se tornou um ser vivente” (Gn 2, 7). Mas será nesta argila, que se realiza o mistério da encarnação.
Tomamos a relação sacramental do homem com Deus das palavras de João: “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós” (Jo 1,14). Seria inconcebível Deus habitar em nós (na humanidade) se não houve um “mínimo” de identidade que lhe
165 “A semelhança divina no homem não é, pois, determinada propriedade do homem (como a
inteligência, a linguagem), mas significa sua proximidade a Deus e a incumbência particular com relação à criação e dentro dela. Mas seu reinar não é autônomo; Deus entrega ao homem sua tarefa e lhe determina os limites (Gn 1,29s; 9,2ss). Elevado acima da criação, o homem está orientado para Deus (Sl 8). E assim como os soberanos orientais viviam na presença e sob a proteção de seus deuses, o conceito de semelhança com Deus, em Gn 1, introduz o tema da intimidade com o Criador e da relação com ele. Essa intimidade e representação valem para o homem e mulher (‘criou-os homem e mulher’ Gn 1,27). Mas isso não permite concluir que Deus é semelhante ao ser humano. Pois é usado o plural (‘ele os criou...’, Gn 1,27); aliás, na época da redação de Gn 1, a proibição das imagens já estava em pleno vigor”. KREUZER, S. Imagem/Semelhança (AT). In Dicionário Bíblico-
Teológico. Op. cit. p. 189.
166 KREUZER, S. Imagem/Semelhança (AT). In Dicionário Bíblico-Teológico. Op. cit. p. 189. “O que é
dito aqui sobre a posição especial do homem corresponde ao Sl 8. Lá o poeta admira como Deus exaltou o homem: “Fizeste-o um pouco inferior a Deus: de glória e honra o coroaste; deste-lhe o domínio sobre as obras de tuas mãos”. KREUZER, S. Imagem/Semelhança (AT). In Dicionário
Bíblico-Teológico. Op. cit. p. 189.
correspondesse168 entre nós e Ele. Bem como se não houvesse uma finalidade: “um para quê”, uma “ultimidade”, na linguagem zubiriana. Aqui entra a realidade escatológica da Criação e Salvação em vista da deificação.
A partir da cristologia, podemos então perceber um novo enfoque para a temática da deificação. O homem não é mais, apenas, imagem e semelhança de Deus; é também aquele que pode “hospedar” Deus, na pessoa do Filho Jesus. Nesta acolhida se dá sacramentalmente a deificação do homem. Na encarnação a economia da salvação encontra sua “lógica” mais profunda: amor-doação. Sempre esteve na mente de Deus deificar o humano, quer pela criação, quer pela encarnação de seu Filho. A novidade é que em Jesus encarnado temos uma relação de proximidade sacramental com Deus. Na pessoa de Jesus a humanidade recupera a possibilidade de ser “Imagem e Semelhança” de Deus pelo seu amor- doação; possibilidade de religação, de religião. João, em sua primeira Carta, expressou a realidade da imagem humana, enquanto filhos de Deus. Ele coloca esta idéia em duas frases169: primeira, “que já somos filhos”, por conseguinte deificados; segunda, é que “seremos semelhantes a ele” na glorificação. “Vede que prova de amor nos deu o Pai: sermos chamados filhos de Deus. E nós o somos!” (1Jo 3,1-3).
Também o apóstolo Pedro nos convida a uma reflexão particular para acolher e compreender a perspectiva da deificação, enquanto momento escatológico, mostrando a liberdade de Deus em nos compartilhar a sua natureza deificante em Jesus Cristo. “Pois que o seu divino poder nos deu todas as condições necessárias para a vida e para a piedade [...] Por elas nos foram dadas as preciosas e grandíssimas promessas, a fim de que assim vos tornásseis participantes da natureza divina” (2Pd 1,3-4)170.
168 Cf. KARRER, M. Imagem/Semelhança (NT). In Dicionário Bíblico-Teológico. Op. cit. p. 190. 169
“Só Deus é santo. E para os homens, que são seres criados, a santidade consiste em participar da vida divina. João diz a este respeito: “seremos semelhantes a ele, já que o veremos, tal como é (1Jo 3,2). Das duas partes desta frase nasceram as duas tradições da divinização no Oriente (theosis e
theopoiesis; cf. Máximo Confessor, PG 90, 1193 D) e da visão de Deus no Ocidente (visão beatífica;
cf. Agostinho, PL 35, 1656 e 1193). “O fato de ambas terem suas fontes no mesmo texto mostra bem seu acordo e sua complementaridade”. MCPARTLAN, P. Santidade. In Dicionário Crítico de Teologia. Op. cit. p. 1610.
170 Expressão de origem grega, única na Bíblia e que causa surpresa pelo seu tom impessoal. O
apóstolo a empregou aqui para exprimir a plenitude da vida nova em Cristo, isto é,a comunicação que Deus faz de uma vida que só a ele pertence. Sobre a idéia geral aqui apresentada, ver, por exemplo, Jo 1,12; 14,20; 15, 4-5; Rm 6,5; 1Cor 1,9s; 1Jo 1,3s. Está aqui um dos pontos de apoio da doutrina da ‘deificação’ dos Padres gregos. Cf. BÍBLIA DE JERUSALÉM (Nova edição revisada). São Paulo: Paulinas, 1986. Nota de roda-pé “f”. p. 2280. As citações precedentes nos dão a idéia da nossa deificação, p. ex., recebendo Jesus nos tornaremos filhos de Deus (cf. Jo 1,12); É fiel o Deus que vos chamou à comunhão com o seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor (1Cor 1,9).
A vida sacramental nos conduz à perfeição. A idéia humana de perfeição está ligada ao temor de Deus, a escolha de um caminho, que se dá em um processo dinâmico. “‘Perfeito’ é o homem que anda com Deus, em seus caminhos, e não trilha caminhos que, por serem pecaminosos, afastam de Deus (Sl 1)”171. Contudo, há a necessidade da disposição do coração humano para a acolhida de Deus e a parceria com o Decálogo. Cabe-nos a fé nesta parceria de Aliança (cf. Gn 15,6). A palavra amar irá corresponder à atitude humana: é preciso entregar sua vontade a Deus. “Sede santos, pois eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo” (Lv 11,44s; 19,2; 20,26 etc.) está na base do convite para nos entregar ao Senhor em imitação de santidade172. Ao homem resta estar diante de Deus, querendo ou não (velis nolis),
para usar a expressão de Zubiri. Resta estabelecer um diálogo com Deus numa constante oração. A oração ocupa por isso um lugar central na vida de quem ama a Deus, e supera os sacrifícios de animais (Sl 50, 4; 51,17s) para celebrar o culto em espírito e verdade (Jo 4,23).
Quanto à dedicação da vida a Deus nos sacrifícios e no culto, o AT compartilha as práticas religiosas dos povos vizinhos com um novo conteúdo: entregar a vida à vontade de Deus. Esta vontade de Deus é revelada por sua Palavra. Moisés (cf. Ex 24,7) já estabeleceu a ‘liturgia da palavra’ no centro do culto da Aliança, bem como os profetas seguem a mesma linha de valorização da Palavra. “É por isso também que o sábado, que ocupa um lugar central na legislação cultual, era considerado não apenas como dia de entrega a Deus do valioso bem que é o templo, mas também como dia de repouso e recreação, para homens e animais (cf. Dt 5,14; Ex 23,12)”173; dia dedicado à Palavra de Deus.
A perfeição, portanto, se dá na relação com Deus, vertical, e com os humanos, horizontal. O ideal da perfeição, na comunidade de Qumran, foi muito elaborado. “A perfeição só vem da mão de Deus. Os perfeitos do caminho, os que caminham na perfeição, varões perfeitos na santidade. E na doutrina de Qumran, o nascimento do homem novo, perfeito, já se realizava nesta vida”174. Aqui já se estabelece a tensão entre o indicativo e o imperativo. A busca da perfeição não deve
171 DEISSLER, A. Perfeição (AT). In Dicionário Bíblico-Teológico. Op. cit. p. 325.
172“Essa fé aparece sempre nesta forma modelar: crer que o Senhor quer constituir uma Aliança. Ela
é, portanto, um ato de pessoa para pessoa, aceitando a palavra da revelação divina, fazendo dela o fundamento de sua vida... A fé bíblica, portanto, corresponde à expressão: ‘eu acredito em ti’ (não: ‘acredito que...’)”. DEISSLER, A. Perfeição (AT). In Dicionário Bíblico-Teológico. Op. cit. p. 326.
173 DEISSLER, A. Perfeição (AT). In Dicionário Bíblico-Teológico. Op. cit. p. 326. 174 MUSSNER, F. Perfeição (NT). In Dicionário Bíblico-Teológico. Op. cit. p. 327.
ser concebida como mera indicação divina; ela vai se impondo como um modo imperativo no qual o humano está lançado até ser plenamente deificado por Deus, transformado pelo seu Espírito, querendo ou não (velis nolis).
O que fundamenta esta relação coletiva de perfeição entre os homens é que Deus não quer salvar o indivíduo, mas a humanidade. Na encarnação do Verbo esta proposta de salvação universal é ainda mais evidente, sobretudo a entrega de Jesus na morte pela humanidade175.
Jesus expressa acerca da perfeição em dois textos: o primeiro “Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5,48) que está na base da imitação de Deus “Sede santos, pois também eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo!” (Lv 19,2). Perfeição, aqui, se identifica com amor sem medida. O segundo: Mt 19,21, quando o jovem rico almeja a perfeição. O que falta ao jovem para ser perfeito é a renúncia total às posses materiais para depois seguir a Jesus, pois ninguém pode servir a dois senhores: “não podeis servir a Deus e ao Dinheiro” (Mt 6,24)176.
Paulo também compartilha da idéia da perfeição na linha da vontade de Deus (Rm 12,2). Os cristãos são perfeitos por acolherem a mensagem de Deus (1Cor 2,6), mas estão num processo contínuo de perfeição (1Cor 14,20; Fl 3,15; Cl 1,28; 4,12). E o próprio apóstolo é modelo de perfeição (cf. Fl 3,15), embora não esteja consumada a sua perfeição (Fl 3,12) que é uma meta. A medida da perfeição cristã é de um lado o amor, e do outro o próprio Cristo celeste. Nele o cristão atinge a maturidade (Ef 4,14). “Dessa forma, o próprio Cristo celeste é o ideal e a meta de toda a perfeição cristã!”177. Na carta aos Hebreus, a existência cristã é uma existência de peregrinação com Jesus e para Jesus, em sua glória. O caminho da perfeição leva assim a uma “paralelização” de Jesus com seus irmãos (cf. Hb 2,10- 18; 3,14-16; 4,14-5,10; 13,13), mas também a uma desvalorização da ordem terrestre do AT. A Lei e o culto do AT nunca podiam “levar à perfeição” os que deles se aproximavam (Hb 7.1.19; 9,9; 10,1), Cristo chegou à consumação pelo sacrifício,
175“Particularmente visível torna-se isso para Israel na figura do ‘Servo de Deus’ do Dêutero-Isaías.
sua disponibilidade diante de Deus e seu ‘ser irmão’ levam-no a se oferecer ao senhor em substituição e como ‘sacrificio de expiação’ em favor da humanidade que rompeu a Aliança (Is 53). Conforme o texto repetidamente sublinha, essa auto-entrega ‘pelos muitos’ é a base para a salvação e exaltação desse parceiro ideal da Aliança, que realiza Mq 6,8 de maneira insuperável”. DEISSLER, A. Perfeição (AT). In Dicionário Bíblico-Teológico. Op. cit. p. 327.
176 Cf. MUSSNER, F. Perfeição (NT). In Dicionário Bíblico-Teológico. Op. cit. p. 328. 177 MUSSNER, F. Perfeição (NT). In Dicionário Bíblico-Teológico. Op. cit. p. 328.
obediente, e levou à consumação os santificados (Hb 10,14; 5,10; 7, 18) que devem trilhar o caminho para a meta celeste178.
Este caminho de perfeição é expresso pelo apóstolo Tiago como perseverança: a constância dos fiéis deve produzir uma obra perfeita, a fim de que sejam perfeitos e íntegros, livres de todo defeito (Tg 1,4). Na perfeição a pessoa adquire liberdade por estar sacramentalmente ligada ao amor de Deus. E João coloca a perfeição na categoria do amor, como vimos no ser de Deus. Em Jo 17,23, a meta dos discípulos de Jesus, a meta escatológica da comunhão com Deus e com Cristo, deve ser sua “consumação” na indissolúvel “unidade” do amor, na observância dos mandamentos (1Jo 2,5) e no amor mútuo (1Jo 4,12). O amor precede ao conhecimento e prepara o cristão para o dia do Juízo (1Jo 4,17s).
Para concluir podemos dizer que no amor extático de Deus adquirimos a plenitude da deificação que nos faz semelhantes a Ele em santidade e perfeição. Isto, sempre respeitando, contudo, os limites da nossa condição humana. Por isso, para nós, a deificação se dá apenas sacramentalmente, pois não participamos da vida de Deus, por natureza, como Jesus Cristo, mas por graça sacramental.
Será esta a missão do próximo capítulo: aprofundarmos a teologia do Batismo na perspectiva da deificação que nos faz participantes do amor extático de Deus.