No mistério da Páscoa de Cristo encontramos as razões do mistério da encarnação de Jesus. Podemos viver o mistério da encarnação como passagem de Deus em meio aos homens pela qual os torna participantes351, por graça, de sua natureza, que muda a nossa natureza. E assim rezamos: “Ó Deus, o sacramento que recebemos [...] santifique nossos pensamentos e desejos e nos torne participantes da natureza divina” (Odc352. Comum de Santos e Santas. 3. In MR. p. 773). Somente uma natureza aberta à ação do Espírito acolherá o mistério da Páscoa como mistério de Deus encarnado:
O mistério da Páscoa é um mistério novo e antigo, eterno e transitório, corruptível e incorruptível, mortal e imortal. É mistério antigo em relação à Lei, novo em relação à Palavra encarnada; é transitório na sua figura, eterno pela graça; é corruptível pela imolação do cordeiro, incorruptível pela vinda do Senhor; é mortal pela sua sepultura na terra, imortal pela sua ressurreição de entres os mortos353.
celebração ritual: a memorial e o sacrifício. Assim, para a atualização de um evento fundante, “memorial”, se celebra, em rito, imolando o “cordeiro” em sacrifício. “Pelo fato de ser um rito memorial, a Páscoa é essencialmente um rito destinado a “reatualizar” em todo o seu valor o acontecimento ao qual se refere. [...]”. MARSILI, S. A Eucaristia... In Anámneses. III. Op. cit. p.145. O rito tem esta força de trazer ao presente um evento “passado” e pela sua lógica lançar o presente ao “futuro”. O rito, na celebração, apresenta o passado e o futuro. Por isso ele tem poder simbólico de uma realidade, tornando-a figurativa.
351“[...] Fez-se homem do nosso gênero, para nos podermos tornar consortes da natureza divina. A
fonte de vida que tomou no seio da Virgem, pô-la na fonte do batismo; deu à água o que tinha dado a sua Mãe: porque o poder do Altíssimo e a sombra do Espírito Santo, que fez com que Maria desse ao mundo o Salvador, essa mesma faz que a água regenere a quem crê”. PAPA LEÃO MAGNO.
Sermões para o Natal. 5. In Antologia Litúrgica... Op. cit. p. 1021.
352 Odc. Oração depois da Comunhão.
A Páscoa de Cristo pode ser celebrada pela Igreja expressando em suas orações o mistério da Encarnação do qual participamos e somos deificados. A deificação humana consiste em contemplar e receber com alegria Jesus encarnado, o Redentor. Para isto, o Pai reacende em nós a jubilosa esperança da salvação, que no mistério do Natal se torna salvação sacramental pelas oferendas da Eucaristia, corpo e sangue de Jesus. Estas oferendas nos tornam mais fervorosos para a acolhida do mistério da Encarnação. Ao recebemos o alimento e a bebida que é o Filho em sacramento somos renovados na deificação.
A nossa deificação consiste em participar da divindade de Jesus que se uniu a nossa humanidade354 pela Encarnação (cf. Oso355. Missa da Noite de Natal. In MR. p. 152). Ele é luz verdadeira que nos ilumina no sacramento do Batismo e nos antecipa a plenitude do mistério que gozaremos no céu do seu eterno convívio. Na pessoa de Jesus as oferendas eucarísticas assumem o sentido pleno de intercâmbio do divino e do humano: o céu e a terra trocam os seus dons, pois só podemos nos oferecer ao Pai deificados em Cristo. A passagem de Deus em nossa humanidade neste mistério do Filho que invade o nosso coração é assim rezada pela Igreja: “Ó Deus onipotente, agora que a nova luz do vosso Verbo Encarnado invade o nosso coração, fazei que manifestemos em ações o que brilha pela fé em nossas mentes” (Odd356. Natal do Senhor: Missa da Aurora. In MR. p. 153). O Verbo Encarnado invade o coração humano para transformá-lo: nisto consiste a iniciativa de Deus, a graça deificante, iniciada no mistério do Natal e coroada na ressurreição e glorificação do Verbo. A este mistério acorremos na Eucaristia, com as oferendas dos frutos da terra, que nos trazem ó que é divino e nos dá a graça de crescer no amor de Jesus encarnado.
A deificação é a participação na divindade de Jesus que assumiu a nossa humanidade357. Em Jesus a humanidade tem restabelecido em sacramento a
354 “Depois que a carne foi deificada (pela encarnação de Jesus) e a natureza humana teve por
hipóstase o mesmo Deus, o muro (a separação) torna Miron (que é a comunhão do Espírito) e aquela dessemelhança não teve mais lugar, porque uma só hipóstase é Deus e ele assume o homem, eliminando assim a distância entre a divindade e a humanidade com o ser, fim comum de uma e de outra natureza [...]. Deificada a nossa natureza no corpo salvífico, não se tem mais nenhuma divisão entre Deus e o gênero humano, porque de agora em diante não se tem mais para nós nenhum impedimento de participar às suas graças, exceto o pecado”. CABASILAS, N. La Vita in Cristo. 4ªed. Roma: Città Nuova, 2005. p. 168.
355 Oso. Oração sobre as oferendas. 356 Odd. Oração do dia.
357 “Não se trata da ordem da natureza, mas da excelência da graça. Aliás, mesmo no que diz
dignidade perdida pelo pecado. E assim celebramos o Natal de Jesus caracterizando a passagem do Filho em nossa natureza: “Ó Deus, que admiravelmente criastes o ser humano e mais admiravelmente restabelecestes a sua dignidade, dai-nos participar da divindade do vosso Filho, que se dignou assumir a nossa humanidade” (Odd. Natal do Senhor: Missa do Dia. In MR. p. 154). Nesta “páscoa”, nascimento de Jesus, a humanidade é deificada358. Por isso Ele nos reconcilia com Pai, deixando-nos a Eucaristia como plenitude do culto divino que nos alimenta da vida divina e da imortalidade: “Ó Deus de misericórdia, que o Salvador do mundo hoje nascido, como nos fez nascer para a vida divina, nos conceda também sua imortalidade” (Odc. Natal do Senhor. In MR. p. 154).
Celebramos a nossa imortalidade na ressurreição de Cristo. O Pai ressuscitando o Filho unigênito, encarnado, abre para nós as portas da eternidade. Neste mistério somos renovados pelo mesmo Espírito para celebrarmos a ressurreição de Cristo da qual participamos, por graça, e que nos da vida nova. “Ó Deus, por vosso Filho unigênito, vencedor da morte, abristes hoje para nós as portas da eternidade. Concedei que, celebrando a ressurreição do Senhor, renovados pelo vosso Espírito, ressuscitemos na luz da vida nova” (Odd. Domingo da Páscoa. In MR. p. 295). No sacrifício de Cristo a Igreja nasce, renasce e se alimenta dos sacramentos pascais, sobretudo do Batismo e da Eucaristia que nos deificam com a luz da ressurreição.
A Igreja expressa no prefácio da oração eucarística II este estreito vínculo entre a encarnação do Verbo e da realidade de sua cruz e ressurreição: “Ele é a vossa palavra viva [...]. Ele é o nosso Salvador e Redentor, verdadeiro homem, concebido do Espírito Santo [...]. Ele [...] estendeu os braços na hora da sua paixão, a fim de vencer a morte e manifestar a ressurreição” (OE359. II. Pref. In MR. p. 477).
foi gerado pela Virgem e, com isso, negamos a ordem natural, pois Maria não concebeu de um homem, mas recebeu (o Verbo) em seu seio, por força do Espírito Santo, como diz Mateus:
Encontrou-se grávida por virtude do Espírito Santo (Mt, 1,18). Portanto, se o Espírito Santo, descendo
sobre a Virgem, realizou a concepção e a obra da geração, não se pode duvidar de que, descendo sobre a fonte, ou seja, sobre os que recebem o batismo, realize na verdade a sua consagração”. AMBRÓSIO DE MILÃO. Os Mistérios. In Antologia Litúrgica. Op. cit. p. 538.
358“A festa de hoje renova para nós o sagrado início da vida de Jesus, nascido da Virgem Maria. E
enquanto adoramos o nascimento do nosso Salvador, celebramos realmente também o nosso nascimento. Efetivamente, a geração de Cristo é a origem do povo cristão; o natal da Cabeça é também o natal do Corpo”. PAPA LEÃO MAGNO. Sermões para o Natal. 5. In Antologia Litúrgica... Op. cit. p. 1022.
No mistério da Cruz e da Ressurreição Cristo inaugura o Reino do Pai no qual nos ingressamos pela graça e acolhemos pela nossa adesão.
O último episódio do êxodo é o ingresso na terra prometida que nos apresenta paradoxalmente ao mesmo tempo a ação de Deus intervindo em favor do povo e a longa batalha do povo de Israel para conquistar a terra prometida. Isto nos mostra um duplo aspecto da páscoa cristã como dom de Deus no qual o Cristo triunfou definitivamente sobre o mal e a morte (Lc 22,52), mas também a adesão da pessoa e sua luta para vencer pessoalmente com a ajuda e a presença de Deus o pecado e a morte.
Nisto consiste a necessidade da recepção e vivência dos sacramentos: sobretudo do Batismo e da Eucaristia, memória de nossa união e participação sacramental no Cristo, nossa vitória. “A eucaristia é o ‘sinal’ da vitória e do combate do cristão [...] o ‘dom’ que o Pai oferece à Igreja, para que cada batizado esteja em condições de triunfar sobre o pecado e a morte, tomando posse assim da graça e do reino da salvação”360.