No Evangelho apócrifo de Filipe293 encontramos o Batismo como mistério. “O Senhor fez tudo num mistério: um Batismo, uma unção, uma Eucaristia, uma redenção, um quarto nupcial”294. A Epístola de Barnabé se apóia sobre o profeta Isaías295 e comenta sobre a revelação antecipada do mistério da água e da cruz. “Notai que ele designa ao mesmo tempo a água e a cruz, pois quer dizer o seguinte:
288 Cf. TERTULIANO. O Batismo 19. In Antologia Litúrgica. Op. cit. p. 200. 289 Agostinho. Sermão 260. In Antologia Litúrgica. Op. cit. p. 947.
290 Cf. Agostinho. Sermão 260. In Antologia Litúrgica. Op. cit. p. 947.
291“[...] prescrevemos pelo presente mandato que todos, fazendo marcha atrás nos seus erros ou na
sua ignorância, se apresentem à igreja no primeiro dia da Quaresma com os seus filhos, para que estes, depois de receberem a imposição da mão nos dias fixados e de terem sido ungidos com o óleo santo, participem na solenidade do dia legítimo e sejam regenerados pelo santo batismo, que lhes permitirá, se a vida os ajudar, exercer as funções sacerdotais e participar na solenidade de cada uma das celebrações”. II Concílio de Mâcon (585). In Antologia Litúrgica. Op. cit. p. 1253.
292 No tempo pascal seja dada a devida atenção aos neófitos, juntamente com seus padrinhos.
Colocados em lugar especial e sejam lembrados na homilia e preces. Para encerrar o tempo da mistagogia, realiza-se uma celebração ao seu termino do tempo pascal. Sejam envolvidos no aniversário de seu Batismo. E o Bispo cuide de celebrar a Eucaristia, ao menos uma vez por ano, com os neófitos e todos comunguem das duas espécies. Seja o Tempo da Mistagogia marcado pela vivência da graça sacramental recebida nos sacramentos de iniciação. A participação da celebração da Eucaristia será o ponto alto na qual os neófitos possam saborear em antecipação do Banquete Celeste numa vida deificada. O Tempo da Mistagogia nos mostra a intenção da Igreja em levar os batizados à celebração dos mistérios, pois não basta ser batizado, apenas, mas celebrante da Eucaristia, numa vida espiritual de oração e caridade.
293 O Evangelho de Filipe deve ter tido a mesma procedência e conteúdo ao do Evangelho de Matias. A sua data deve fixar-se nos últimos anos do século II. In Antologia Litúrgica. Op. cit. p.166.
Nota de rodapé.
294 EVANGELHO APÓCRIFO DE FILIPE. In Antologia Litúrgica. Op. cit. p.166.
Felizes aqueles que, tendo posto na cruz a sua esperança, desceram à água”296. O mistério do Batismo terá por fundamento as Escrituras que serviram para os Padres explicitar a teologia batismal. O mistério do Batismo, contudo, se fundamenta na relação entre Adão e Cristo: relação da figura humana de vida, pecado, morte e figura humano-divina de vida, graça, ressurreição297. Grande mistério também é a relação entre Cristo e a Igreja da qual nasce o povo cristão, mistério da nossa deificação.
Ambrósio, expondo sobre o mistério do sacramento do Batismo298, dirá que somos mergulhados na fonte para dela recebermos, de volta, os benefícios do Paraíso que perdemos pelo pecado. E, João Crisóstomo, descreve os bens que o batizado recebe pelo mistério deste sacramento como realidade existencial: iniciando-se na participação da santidade, termina como instrumento do Espírito. A deificação consiste, portanto, em recuperar o Paraíso, participar da santidade de Deus por herança, ser templo do Espírito e seu instrumento no mundo.
Os que outrora permaneciam na vergonha do pecado estão agora na certeza e na justiça. Eles são não apenas livres, mas ainda santos; não apenas santos, mas justos; não apenas justos, mas filhos; não apenas filhos, mas herdeiros; não apenas herdeiros, mas irmãos de Cristo; não apenas irmãos de Cristo, mas seus co-herdeiros; não apenas seus co-herdeiros, mas seus membros; não apenas seus membros, mas templos; não apenas templos, mas instrumentos do Espírito.299
Orígenes, antes de Crisóstomo, já havia também descrito os dons e os bens que provém deste Sacramento: “o novo nascimento, a renovação, a imortalidade, a incorruptibilidade, a impassibilidade, a liberdade da morte, da escravidão e de todos os males, e também a experiência da liberdade e a participação nos bens futuros e
296 ESPÍSTOLA DE BARNABÉ. In Antologia Litúrgica. Op. cit. p. 120.
297 Cf. PACIANO DE BARCELONA. Sermão sobre o Batismo. In Antologia Litúrgica. Op. cit. p. 512. 298“O que é o batismo? No princípio, o Senhor nosso Deus fez o homem imortal, com a condição de
ele não cometer o pecado. O homem cometeu o pecado, tornou-se sujeito à morte, foi expulso do Paraíso. Mas o Senhor, que queria fazer durar os seus benefícios, destruir todas as artimanhas da serpente e eliminar tudo o que ela estragara, lavrou em primeiro lugar uma serpente contra o homem: Tu és pó e ao pó voltarás, tornando o homem sujeito à morte. Era uma sentença divina, que não podia ser anulada pela humanidade [...] Escuta. Para destruir neste mundo o laço do Diabo, encontrou-se o meio de fazer morrer o homem enquanto vive e de o fazer ressuscitar enquanto vive [...] Enquanto vive a vida do seu corpo, virá à fonte e será mergulhado na fonte. Donde vem a água senão da terra? [...] Deste modo a fonte é como se fosse uma sepultura”. AMBRÓSIO DE MILÃO. Os
Sacramentos. Livro II. In Antologia Litúrgica. Op. cit. p. 522.
sublimes”300. Cirilo de Jerusalém, por sua vez, apoiando-se sobre o apóstolo Paulo,
irá expor acerca do mistério do Batismo pelo qual o batizado é inteiramente integrado a Cristo numa verdadeira fusão de natureza. A natureza humana é plenamente divinizada pela natureza do Filho de Deus, plenamente deificada pela incorporação.
Se estamos integrados n’Ele por uma morte idêntica à sua, também o estaremos pela sua ressurreição. A expressão integrados n’Ele é muito feliz. [...] Ele não disse: Fomos integrados n’Ele pela morte, mas por uma morte idêntica à sua. Na verdade, em Cristo houve uma morte real, pois a alma se separou do corpo, houve uma verdadeira sepultura, pois o seu corpo sagrado foi envolvido num lençol limpo, e foi verdadeiro tudo quanto n’Ele ocorreu. Mas em nós há apenas uma semelhança da morte e dos sofrimentos. A salvação, porém, não é semelhança, mas realidade301.
Neste sentido da participação humana em Cristo pelo mistério do Batismo, que o batizado mergulhar na morte e sepultura de Cristo e sai ressuscitado com Ele, que João Crisóstomo escreve: “Sepultura e ressurreição, eis o que o batismo é: O homem velho está sepultado com o pecado e ressuscita o homem novo, renovado à imagem do seu Criador (Cl 3,10)”302. Também, Basílio, escreve: é a nossa
participação sacramental na morte, sepultura e ressurreição de Cristo303. O Mistério do Batismo conduz o batizado à participação em Cristo por obra do Espírito Santo. Somente pela força do Espírito podemos, de fato, nascer de novo, numa segunda natureza: “O batismo é figura destas coisas: tal é a obra do Espírito Santo. [...] morres e ressuscitas com Cristo, [...] nasces para uma vida nova, [...] segundo nascimento e, atraído por estes sinais, acabas por participar na sua realidade”304.
300 ORÍGENES. Homilias sobre Josué. In Antologia Litúrgica. Op. cit. p. 264.
301 CIRILO DE JERUSALÉM. Segunda catequese mistagógica. In Antologia Litúrgica. Op. cit. p. 487. 302 JOÃO CRISÓSTOMO. Catequese II. In Antologia Litúrgica. Op. cit. p. 595.
303 “É dupla, com efeito, a finalidade do batismo: abolir o corpo do pecado, para que nunca mais
produza frutos de morte, e vivificá-lo pelo Espírito, para que dê frutos de santidade. [...] Por ele se nos dá a confiança de chamar a Deus nosso Pai, de participar na graça de Cristo, de sermos chamados filhos da luz, de tomar parte na glória eterna, numa palavra, de receber a plenitude de todas as bênçãos, tanto na vida presente como na vida futura, e de poder contemplar, como num espelho, como se já estivessem presentes, os bens que em promessa nos estão destinados e que pela fé esperamos vir a usufruir. Ora, se tais são as arras, qual não será a realidade perfeita? E, se tão grandes são as primícias, qual não será a plenitude final?”. BASÍLIO DE CESAREIA. O Espírito
Santo. In Antologia Litúrgica. Op. cit. p. 400s.
Conforme Teodoreto de Ciro, o mistério do Batismo305 abrange uma realidade escatológica maior, que vai além do perdão dos pecados, trata-se da garantia dos bens futuros dos quais participarão os batizados. Pelo mistério do batismo é que nos tornamos “cristos”306, no dizer de Cirilo de Jerusalém307. Este último Padre expõe uma significação espiritual para este mistério, tendo por fundamento as Escrituras, sobretudo, o NT e a Tradição da Igreja primitiva (cf. Gl 3,27; Rm 8,29; Ef 1,5; Fl 3,21; Hb 3,14). Por isso, a fonte batismal é dádiva, é graça, nela somos repletos dos bens inumeráveis e dos dons espirituais308. Eis o mistério da fonte na qual mergulhamos e recebemos vida abundante, consciência pura e a deificação.
Tomando o conceito de natureza de Agostinho compreendemos que o mistério do Batismo liberta o humano dos vícios, do pecado e das obras más309. O humano não deixa de ser humano por causa do Batismo; mas radicaliza a sua condição de humanidade, ainda mais, filiada à graça batismal, à deificação.
Quanto ao ministro do Batismo, Cromácio de Aquiléia, nos ajuda a compreender o mistério que também cerca esta realidade. O serviço é realizado pelo humano, mas a realidade do rito pertence ao Senhor310.
O Batismo é, portanto, sacramento do Mistério311. É a celebração litúrgica sensível, com sinais, símbolos, gestos e palavras de uma realidade mistérica
305 Cf. TEODORETO DE CIRO. Heresias comparadas. In Antologia Litúrgica. Op. cit. p. 1052s. 306 Cristos sentido genérico de pessoa ungida.
307 Cf. CIRILO DE JERUSALÉM. Terceira Catequese Mistagógica. In Antologia Litúrgica. Op. cit. p.
487.
308 “Uma vez que nos é dada uma tal fonte, um manancial de vida tão abundante, uma vez que a
nossa mesa está repleta de bens inumeráveis e nos inunda com os seus dons espirituais, aproximemo-nos de coração sincero e consciência pura, para obtermos a graça e a misericórdia no tempo oportuno. Pela graça e misericórdia do Filho unigênito, nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, pelo qual seja dada ao Pai e ao Espírito Santo, fonte de vida, a glória, a honra e o poder, agora e para sempre e pelos séculos dos séculos. Amém.”. JOÃO CRISÓSTOMO. Catequese III. In Antologia
Litúrgica. Op. cit. p. 600. 309
“[...] os hábitos viciosos dos adultos, sejam eles quais forem, não lhes tiram a condição de homens, mas neles permanece a obra boa de Deus, por maiores que sejam as obras más dos ímpios [...] Deus condena o homem pelo vício, pelo qual a natureza foi degradada, não pela natureza, que não foi destruída pelo vício”. AGOSTINHO DE HIPONA. A graça de Cristo e o pecado original. In
Antologia Litúrgica. Op. cit. p. 783. 310
“Agora, com efeito, o Senhor lava os pés dos seus servos, daqueles que Ele convida para a graça do batismo salvador [...] Nós realizamos o ofício, mas é Ele que concede o benefício. O ofício pertence-nos a nós, a ordem vem d’Ele. A graça vem d’Ele, apesar de sermos nós que realizamos o serviço. Nós lavamos os pés dos corpos, Ele lava os pés da alma; nós mergulhamos o corpo na água, Ele perdoa os pecados; nós batizamos, Ele santifica”. CROMÁCIO DE AQUILEIA. Sermão 15. In Antologia Litúrgica. Op. cit. p. 588.
311
“O Senhor fala de um único batismo que, depois de o homem entrar na fonte eterna e receber o sacramento da bebida celeste, não deixa que nenhum de nós tenha sede [...]”. CESÁRIO DE ARLES.
insensível312. Na ritualidade deste sacramento se visualiza uma realidade invisível e dela se faz a experiência da fé, que tem a potencialidade de transformar o humano. Pelos gestos, atitudes e sinais com que Cristo realizava milagres podem extrair a base para os sacramentos.
Um homem é enviado à piscina de Siloé. Então Cristo não podia abrir- lhe os olhos apenas com saliva? Ele podia até fazê-lo mesmo sem saliva e sem lama. Podia. Mas essas figuras (materiais) dos milagres são, de certa maneira, as palavras dos sacramentos313.
A necessidade do sacramento do Batismo se impõe pela sua origem e seu fundamento: a Paixão e a Ressurreição do Senhor. Este é o evento objetivo da fé, origem e fundamento da Igreja314. Agostinho mostra o valor deste sacramento considerando o fato do próprio Senhor haver recebido315. Nesta visão, o sacramento tem um valor em si mesmo. E por trazer consigo um valor que independe da apreciação humana e da santidade do ministro é que podemos conceber o Batismo de criança316. “Conseqüência da celebração e da força de um sacramento tão grande”317. A força do sacramento é tão grande que independe das qualidades do ministro para a sua validade e eficácia, ainda que se suponha o mínimo de correspondência entre a santidade do sacramento e a santidade do ministro, pois qualquer ação humana implica sempre no envolvimento da pessoa. Ou seja, é inconcebível uma ação humana na qual o sujeito não esteja, pessoalmente, envolvido318.
A ação do Espírito age pela graça de Deus na vida da pessoa que a recebe em sacramento. Podemos dizer que o sacramento constitui uma força própria em
312
“Qualquer sacramento é a indicação, em sinais e símbolos, de coisas invisíveis e inefáveis... Se se tratasse apenas de realidade materiais, seria supérfluo explicá-las, pois os olhos bastariam para nos mostrar o que cada uma delas é. Mas, uma vez que no sacramento nós temos os sinais daquilo que ainda terá lugar ou já o teve antecipadamente, é preciso explicar o sentido dos sinais e dos mistérios”. TEODORO DE MOPSUÉTIA. Homilias catequéticas. In Antologia Litúrgica. Op. cit. p. 671.
313 AGOSTINHO DE HIPONA. Sermão 136. In Antologia Litúrgica. Op. cit. p. 877. 314 Cf. TERTULIANO. O Batismo. In Antologia Litúrgica. Op. cit. p.198.
315
“É difícil dizer qual é o valor e qual é o fruto da santificação do sacramento, quando ele é aplicado corporalmente ao homem [...] Se o sacramento não tivesse um grande valor, o Senhor não o teria recebido do seu servo. Mas é preciso considerá-lo em si mesmo, independentemente da salvação que ele tem por finalidade dar ao homem”. AGOSTINHO DE HIPONA. O Batismo. In Antologia
Litúrgica. Op. cit. p. 703.
316 Não entramos aqui na questão de batismo de criança, por não ser nosso objetivo primeiro.
317 AGOSTINHO DE HIPONA. O perdão dos pecadores e o batismo das crianças. In Antologia Litúrgica. Op. cit. p. 740.
318
“Que sacramento tão santo! Não fica profanado, ainda que o administre um homicida!” AGOSTINHO DE HIPONA. Tratados sobre o Evangelho de João. In Antologia Litúrgica. Op. cit. p. 785.
virtude da força divina que lhes é comunicada. “Como chegou o tempo do sacramento e vós ides, com a graça de Deus, participar no santo batismo, é preciso, e a ordem exige-o, que vos fale da força do sacramento e das coisas que nele se realizam”319. Realiza, portanto, a nossa transformação em Cristo. O Batismo vem acompanhado pela graça que lhe antecede. Ele realiza a remissão dos pecados, nos liberta da morte, nos dá um título de responsabilidade divina de Mestre e Doutor320, pois nos faz participar, deificados, da realidade de Deus pelo Espírito.
Uma vez que as obras do Diabo são destruídas pelo Batismo, o homem não está mais sob o jugo do pecado e da morte, mas liberto para a sua deificação. “O Filho de Deus destruiu as obras do Diabo libertando o homem pelo Batismo e revogando o contrato de morte”321. Nesta libertação o ser humano encontra a sua realidade; encontra, ainda, a centralidade do seu ser, que é divino. O que se pressupõe para a recepção de qualquer sacramento é a abertura humana ao dom da graça; na acolhida do dom de Deus é que celebramos liturgicamente os sacramentos que nos deificam em Cristo.
Numa palavra: podemos afirmar que os Padres construíram e desenvolveram a teologia do mistério do Batismo, tendo por base e fundamento a revelação das Escrituras e o Mistério Pascal. É impensável falar sobre o mistério do Batismo sem passar por esta Tradição teológica dos Padres. Nela descobrimos que tudo é mistério, é dom celeste, é graça que brota da fonte batismal: tudo é um casamento espiritual322. É um segundo nascimento que se dá pela obra da Trindade323; é admirável, porque nele se dá nossa salvação324 e deificação. E como este mistério é da iniciativa de Deus, Agostinho interpretou-o como sendo uma realidade sacramental dada por Deus e realizada pela Igreja. Assim, a filiação não está desamparada, mas é gerada e alimentada pela Igreja que também surge como Mistério nascido do lado de Cristo. “E como se tornam filhos de Deus? Nascendo não do sangue, nem da vontade do homem, nem da vontade da carne, mas de Deus
319 TEODORO DE MOPSUÉTIA. Homilias catequéticas. In Antologia Litúrgica. Op. cit. p. 671.
320 “Nós dissemos-Lhe: Senhor, como é possível que estes três títulos (de Pai, de Mestre e de
Doutor) sejam um só em nós? Ele respondeu e disse-nos: Sereis chamados Pais, porque revelareis aos homens [...] que é pela minha própria mão que eles receberão o batismo da vida e a remissão dos pecados; sereis chamados Mestres e Doutores, porque direis a minha palavra sem dificuldade”.
CARTA DOS APÓSTOLOS, In Antologia Litúrgica. Op. cit. p. 146. 321 TERTULIANO. A castidade. In Antologia Litúrgica. Op. cit. p. 224.
322“Pois é mesmo casamento espiritual o que aqui se realiza [...]” JOÃO CRISÓSTOMO. Catequese VI. In Antologia Litúrgica. Op. cit. p. 604.
323 Cf. CROMÁCIO DE AQUILEIA. Sermão 18. In Antologia Litúrgica. Op. cit. p. 590 324 Cf. GREGÓRIO DE NAZIANZO. Sermão 40. In Antologia Litúrgica. Op. cit. p. 502.
[...] o segundo nascimento origina-se de Deus e da Igreja”325. Uma vez nascidos deste “mistério”, dentro da Igreja, iniciamos o processo da nossa deificação que será mantido pela graça da Eucaristia. “No santo batismo deixareis os pecados, mas não deixareis as paixões, com as quais, depois de regenerados, haveis de lutar. A batalha continuará dentro de vós mesmos”326. Mas pelo Batismo somos ontologicamente transformados no amor de Deus sem deixar a nossa humanidade. Tal sacramento imprime no batizado a filiação divina: mistério da deificação.
Concluindo. A Igreja aprendeu de Jesus ser mistagoga. Jesus levou a Samaritana a reconhecer Nele o Cristo. Levou a Samaritana a mergulhar no seu mistério e dele saciar-se, deificada. Quando Jesus disse a Samaritana: “quem beber da água que eu lhe darei [...] tornar-se-á nele uma fonte de água jorrando para a vida eterna. E se alguém tem sede, venha a mim e beba [...] de seu seio jorrarão rios de água viva” (Jo 4,14; 7,37s) descobrimos a imensidão do Espírito com que Jesus quer “nos saciar”, naquela mulher; e, nela, a humanidade inteira.
As Escrituras, a Tradição da Igreja e a reflexão teológica nos oferecem um universo de sabedoria litúrgico-sacramental, ou seja, basta banharmo-nos nesta fonte e dela bebermos, para nunca mais esquecê-la. E esta fonte é apenas o “aperitivo” até que se chegue ao Banquete da Eucaristia. Todos os que nascem são dignos do alimento. Todos os que descem à fonte batismal sobem à mesa da comunhão, prenúncio do Banquete celeste, para saciar-se de Cristo Glorioso.
Isto, nós veremos no próximo capítulo: Eucaristia Sacramento de Deificação.
325 AGOSTINHO DE HIPONA. Sermão 121. In Antologia Litúrgica. Op. cit. p. 866. 326 AGOSTINHO DE HIPONA. Sermão 57. In Antologia Litúrgica. Op. cit. p. 866.