configurando-se à vida e à pessoa de Jesus Cristo. Podemos dizer que as etapas dos ritos que precedem conduzem os iniciados na fé à celebração do Batismo: à deificação sacramental, acolhida da graça de Deus. Contudo, o que vemos no tempo do catecumenato é uma verdadeira expressão da Graça de Deus se manifestando para com os seus filhos e filhas que, na liberdade, são convidados a aderir a Cristo, no seio da Igreja, de modo sacramental.
1. Sacramento do Batismo
O termo sacramento tem sua origem no termo grego mysterion (latim mysterium ou sacramento). Ele pode ser considerado já um termo teológico no sentido que expressa, tardiamente, a compreensão do mistério e desígnio de Deus revelado nas Escrituras. Estando, pois, para nós, estritamente ligado ao mistério de Jesus Cristo (cf. Cl 2,2; Ef 4,3), Sacramento do Pai182. Será, portanto, na conotação da revelação que o mistério deixa o seu caráter de categoria transcendental para mergulhar em nossa imanência e nos deificar. Nela, Sacramento, se expressa em linguagem comunicativa.
Desde logo, se o mistério conota sempre um pouco um segredo de Deus acerca de seu “desígnio benévolo” sobre o mundo (Ef 1,9), ele não é mais destinado, como os mistérios pagãos, a ficar oculto: ele é, ao contrário, objeto de um anúncio público (Rm 16,25s) e é doravante tornado visível até entre os pagãos (já que o mistério é “Cristo no meio de vós”: Cl 1,27); e precisamente, o ministério apostólico não tem outro objeto que não o “anúncio do mistério do Evangelho” (Ef 6,19) “a intendência dos mistérios de Deus” (1Cor 4,1)183.
Tanto o Mistério de Deus quanto o do Sacramento está estritamente ligado à pessoa de Jesus Cristo, bem como à missão da Igreja, depositária da fé e do sacramento, sobretudo na celebração litúrgica do Batismo e da Eucaristia: Sacramentos que constituem a Igreja184, Corpo de Cristo. A Igreja deduziu do NT os
182 A obra de SCHILLEBEECKX, E. Cristo Sacramento do Encontro com Deus: estudo teológico sobre a salvação mediante os sacramentos. Petrópolis: Vozes, 1967, ainda é referência para esta
temática.
183 CHAUVET, L-M. Sacramento. In Dicionário Crítico de Teologia. Op. cit. p. 1574.
184 “A Igreja é a continuação, a permanência atual desta presença real escatológica da vitoriosa
ritos litúrgicos dos sacramentos185. Os Padres da Igreja assumem estes sacramentos como sendo da Tradição Apostólica e que, por isso mesmo, recebidos do próprio Cristo, na linha direta.
Cristo é o instituidor-autor dos sacramentos da igreja, porque é o grande sacramento da salvação. Desse modo, os sacramentos estão ligados a Cristo não por meio de simples mandamento e não se apresentam como ritos genericamente manifestadores da fé em Cristo, mas dependem do próprio ser sacramental de Cristo, como de uma fonte sacramental de onde a salvação passa para os sacramentos; e, sendo a salvação uma realidade “revelada”, tem sempre uma realidade de “sinais” para ser captada pelo homem. Os sacramentos são, pois, a continuação do sacramento da salvação, que se tornou real uma vez por todas em Cristo. Por isso, os Padres, aludindo ao simbolismo certamente entendido por Jo 19,34 (“um soldado abriu o lado de Cristo e logo saiu sangue e água”; cf.1Jo 5,6), dizem muitas vezes que “do lado de Cristo adormecido”, isto é, morrendo no alto da cruz – o que vale a dizer: no momento máximo do sacramento de salvação que se operava em Cristo -, brotaram os sacramentos, por meio dos quais seria constituída a igreja186.
A reflexão teológico-litúrgica que se desenvolve a partir dos Padres irá afirmar que os sacramentos são meios eficazes da graça.
Se na primeira Aliança (AT) a circuncisão constituía um rito que exteriorizava a realidade de pertença ao povo do mesmo sangue, na segunda Aliança (NT), o rito do Batismo terá a mesma função para aquele que adere a Cristo, constituindo, o novo Povo de Deus em Jesus Cristo. O batizado é marcado, assim, por identidade própria, não mais de sangue, mas de pertença sacramental, de ideal de caminho, marcado pelo selo do Espírito Santo e, ontologicamente, deificado.
Contudo a pessoa que deseja tornar-se cristã, deificada, deve haver acolhido o chamado de Deus, o primeiro anúncio do Deus vivo; possuir, portanto, a fé inicial no Cristo Salvador. Ou seja: tenha sido evangelizada, iniciada na conversão pessoal, estar vinculada a uma comunidade de fé cristã e manifestá-la no sentido
permanente dessa protopalavra sacramental da graça definitiva que é Cristo no mundo, palavra que atua o dito, ao ser isto dito no sinal. A Igreja, como tal permanência de Cristo no mundo, é realmente o proto-sacramento, o ponto de origem dos sacramentos no sentido próprio da palavra”. RAHNER, K.
La Iglesia y los Sacramentos. Barcelona: Editorial Herder, 1967. p. 19.
185 Como: a) Batismo: Atos 1,38.41; 8,12.16.38; Rm 6,3; 1Cor 1,13-17; 12,13; Gl 3,27; Ef 4,5; 1Pd
3,21; b) Imposição das mãos para o dom do Espírito Santo: Atos 8,17; 19,6; c) Fração do pão – Eucaristia: Atos 2,42-46; 20,7.11; 1Cor 11,20; d) Unção dos enfermos: Tg 5,14; e) Imposição das mãos para inserir alguém na hierarquia ou no ministério: Atos 6,6; 1Tm 4,14; 2Tm 1,6.
eclesial. Só, então, após ter acolhido o Evangelho, proceda-se à admissão do candidato ao catecumenato por meio do Rito de Acolhida187.
Na perspectiva da deificação é importante frisar a estrutura deste Rito por expressar o início de um verdadeiro “rito de passagem”, um processo que vai do “antes”, fora da igreja, e, do “depois”, entrada na igreja. O indicativo, contudo, é caracterizar o “antes” do catecumenato, fora da comunhão eclesial e o “depois” da adesão à comunhão eclesial na comunidade cristã, que se dá pela acolhida e pelo mistério da assinalação do Sinal da Cruz (cf. RICA. 83-85. p. 38-39). Nesta perspectiva o candidato é exortado, sobretudo, à perseverança neste itinerário de fé, até a celebração dos Sacramentos de Iniciação cristã, caminho que completa a deificação sacramental da pessoa.
O Rito de Acolhida exorta o candidato ao Batismo a responder ao chamado de Deus pela experiência da fé, pois a iniciativa é divina: é Deus quem escolhe, chama e inspira a pessoa a desejar o Batismo e completa a sua obra por ação do Espírito Santo. O diálogo entre quem preside e o candidato nos evidenciam este fato. O candidato se apresenta, diz o seu nome e expressa a sua intenção de ser batizado; expressa o que pede da Igreja e a consciência de que sua adesão batismal lhe concede a deificação, a vida eterna (cf. RICA. 75-76. p. 36-37).
Embora outras respostas possam ser admitidas, o importante é o seu sentido. O candidato deve desejar a vida eterna, a deificação, desejar, sobretudo, a configuração de sua vida com a vida de Cristo para ser incorporado a Ele na comunidade de fé. Pois a deificação consiste no desejo e na busca da vida eterna. Consiste em conhecer o verdadeiro Deus e Jesus Cristo, enviado do Pai. Quem quiser ser seu discípulo, membro da Igreja, deve ser instruído em toda a verdade revelada por Ele, ter os mesmos sentimentos de Jesus Cristo e procurar viver segundo os preceitos do Evangelho. Por isso a comunidade de fé que celebra o Rito de Acolhida expressa sua Ação de Graças a Deus que inspira, atrai e chama novos filhos e filhas à Graça do Batismo, para serem deificados pelo sacramento
Uma vez acolhido na comunidade de fé, o candidato deve ser acolhido também pelo Cristo que o chama à amizade. Se de um lado Cristo lhe oferece o sacramento da salvação, por outro, lhe pede a amizade e a fidelidade no seguimento. Nisto se manifesta a celebração do encontro pessoal que se celebra no
sacramento, estabelecendo um vínculo de deificação em Cristo. Assim expressa o nosso rito: Cristo chamou a você para ser seu amigo; lembre-se sempre dele e seja fiel em segui-lo! Para isso, vou marcar você com o sinal da cruz de Cristo, que é o sinal dos cristãos188. Este sinal vai daqui em diante fazer que você se lembre de Cristo e de seu amor por você. “Receba na fronte o sinal-da-cruz: o próprio Cristo (+) te protege com o sinal de seu amor (de sua vitória). Aprende a conhecê-lo e segui- lo, para que você tenha a vida eterna”. (cf. RICA. 84. p. 38). Este rito faz parte dos ritos da “nova circuncisão” que se completará no banho batismal.
Na oração conclusiva do Rito de Acolhida se pede a Deus pelo candidato ao Batismo que, marcado com o sinal-da-cruz, possa seguir os passos de Cristo, conservar em sua vida a graça da vitória da cruz e a manifestar por palavras e gestos a sua adesão a Cristo. Após este rito, o candidato é convidado a entrar na igreja (espaço litúrgico), para participar da mesa da Palavra de Deus.
O Batismo, portanto, abre as portas à deificação, à santidade. Só Deus é santo. Para os homens, a santidade consiste em participar da vida de Deus. João diz a este respeito: “seremos semelhantes a ele, já que o veremos, tal como é” (1Jo 3,2)189. Esta participação batismal na santidade é alimentada pela Eucaristia. Segundo Lubac, referindo-se a santo Agostinho, esta é a motivação da conversão pessoal, numa vivência eclesial de comunhão com Cristo.
Agostinho mostra bem que a santidade é eclesial ao comparar a fabricação do pão eucarístico com o processo de entrar na Igreja [...]. Receber o Cristo é, na realidade, ser recebido por ele na Igreja. “Ele mesmo é o corpo do qual aqueles que o comem se tornam o alimento”190.
188 Se os candidatos forem poucos, segue-se o rito proposto. Se forem muitos quem preside pode
solicitar que os catequistas e introdutores lhes ajude na assinalação. Para isso diz: “... E a
comunidade inteira cercará vocês de afeição e se empenhará em ajudá-los”. Além da fronte se
parecer oportuno a quem preside poderá assinalar também os sentidos: ouvidos, olhos, boca, peito, ombros. Esta prevista pelo RICA. 86. p. 40 , cantar uma aclamação de louvor a Cristo.
189
“Das duas partes desta frase nasceram as duas tradições da divinização no Oriente (theosis e theopoiesis; cf. Máximo Confessor, PG 90, 1193 D) e da visão de Deus no Ocidente (visão beatífica; cf. Agostinho, PL 35, 1656 e 1895). O fato de ambas terem suas fontes no mesmo texto mostra bem seu acordo e sua complementaridade”. MCPARTLAN, P. Santidade (B. Teologia Histórica e
Sistemática). In Dicionário Crítico de Teologia. Op. cit. p. 1610.
190 MCPARTLAN. Santidade (B. Teologia Histórica e Sistemática). In Dicionário Crítico de Teologia.
A deificação encontra no sacramento do Batismo sua máxima expressão. Pelo Batismo afirmamos que somos filhos de Deus, unidos, sacramentalmente, a Jesus Cristo; nele somos justificados por Deus; dele recebemos a graça e a identidade de filhos deificados, ontologicamente, no amor.
Jesus oferece a todos os crentes a participação na santidade de Deus. Santificador e santificados têm todos uma mesma origem (Hb 2,11). Por uma oferenda única, ele leva à perfeição aqueles a quem santifica (Hb 10,14). A Igreja é doravante a nação santa, o povo que Deus adquiriu (1Pd 2,9; cf. Ex 19,5s). Santos por vocação (Rm 1,7), os cristãos podem já receber este título, mesmo que sua vida ainda não seja perfeita. A vontade de Deus é a santificação deles, o que implica rupturas (1Ts 4,3-8). O Espírito Santo age na Igreja desde o Pentecostes (Atos 2,1-13) e a via da santidade consiste em se deixar guiar pelo Espírito que habita em cada um e que intercede pelos santos (Rm 8, 1-17)191.
Segundo Lubac, ainda, a justificação faz habitar o Cristo na alma do fiel. E a vida mística dos fiéis começa com a acolhida que Cristo recebe deles. Tudo acontece pela graça criada e não pode separar-se de Deus os que a recebem: eis o Mistério.
Pode-se, portanto, ver na graça criada o vínculo do cristão com o Cristo que o habita, e já que Cristo senta-se atualmente à direita do Pai, o efeito da graça criada é, pois, o de nos fazer sair de nós mesmos para viver na Igreja celeste que partilha sua glória (Cl 3,1-4). “O fruto da vida sacramental é que o Espírito de adoção deifica os fiéis ao uni-los vitalmente ao Filho único, o Salvador [...]”192.
O conteúdo explícito da catequese batismal será o envolvimento do batizando no mistério da cruz de Cristo, na recepção do dom do Espírito para formar um só
191 MCPARTLAN. Santidade (B. Teologia Histórica e Sistemática). In Dicionário Crítico de Teologia.
Op. cit. p. 1609. “O concilio de Trento também ensina que os cristãos crescem na vida da graça (DS 1535). Afirma, com Lutero, que a graça é necessária a todas as etapas da justificação, mas ensina, contra ele, que a vontade humana deve cooperar para isso, e que a justificação não é somente perdão, mas também santificação (DS 1521-1529). A graça de caridade é presente nos justos, a justiça de Cristo não lhes é simplesmente imputada (DS 1530,1561). Esses textos fundam a doutrina católica da graça santificadora, transformação operada nos justos pelo dom do Espírito Santo (Rm 5,5). Pelo fato desta transformação se produzir numa criatura, chama-se ‘graça criada’, um conceito que desagrada aos ortodoxos [...] tanto quanto aos reformadores – mas o dom mesmo é ‘graça incriada’”. MCPARTLAN. Santidade (B. Teologia Histórica e Sistemática). In Dicionário Crítico de
Teologia. Op. cit. p. 1612.
192 MCPARTLAN. Santidade (B. Teologia Histórica e Sistemática).In Dicionário Crítico de Teologia.
Corpo com o Senhor e os irmãos: em vista de um acontecimento escatológico ressuscitar com Cristo. Estes elementos bíblico-teológicos constituem os fundamentos para o rito litúrgico da celebração do Batismo. Nesta base bíblico- teológica encontramos a nossa perspectiva da deificação que nos permite a nossa participação no sacramento da Eucaristia.
Após esta introdução podemos olhar mais de perto a teologia do sacramento do Batismo e a sua relação com a perspectiva da deificação.