Se antes, por causa do pecado, o homem não podia mais produzir boas obras, agora, deificado, pela graça e justificação, em Cristo Jesus, poderá novamente ser expressão do Criador e produzir obras de amor e caridade, frutos do Espírito. A celebração litúrgica será sempre o anúncio deste mistério de graça com o qual Deus se oferece ao homem como realidade de aliança deificante. O conceito teológico de “justificação” encontra-se no NT, sobretudo em Paulo.
141 OEMING, M. In Dicionário Bíblico-Teológico. Op.cit. p.
322. “O Logos, a palavra criadora de Deus, que chama o mundo à existência (Jo 1,3) é aquele mesmo que, ‘na carne’ (Jo 1,14), se encontra com os homens e, como Espírito (Paráclito), continua operando neles e no meio deles. Só assim a pecaminosidade (trevas) do mundo inteiro fica patente (Jo 1,5; 16,8-9). Sem o conhecimento da revelação divina em Cristo, os homens continuam não enxergando o pecado (Jo 9,41; 15,22-24). ‘O pecado’ constitui uma categoria universal, uma propriedade do cosmo e dos homens que nele vivem, o que se exprime também pelo fato de que geralmente o conceito é usado no singular”. OEMING, M. In Dicionário Bíblico-Teológico. Op.cit. p. 322.
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“A encarnação, como autocomunicação de Deus, ‘de tu para tu’, é um ato de vontade livre, ao qual corresponde a liberdade do homem de não receber a luz (Jo 1,5.9.11; 3,19). Por tal decisão, qualificado em João como não-crer, um mundo cego transforma-se num mundo conscientemente culpado, que se julga a si mesmo (krisis: Jo 3,19; 8,16; 16,8s; 12,31 etc.) para a morte (Jo 8,24)”. HEINE, S. Pecado/Expiação (NT). In Dicionário Bíblico-Teológico. Op.cit. p. 323.
143 HEINE, S. Pecado/Expiação (NT). In Dicionário Bíblico-Teológico. Op.cit. p. 323.
144 Cf. HEINE, S. Pecado/Expiação (NT). In Dicionário Bíblico-Teológico. Op.cit. p. 323-324. 145 HEINE, S. Pecado/Expiação (NT). In Dicionário Bíblico-Teológico. Op. cit. p. 324.
Mas, a pergunta que se põe é a seguinte: “Como os homens podem agradar a Deus? Ou, como eles podem entrar em comunhão com Deus?”146. Se tomarmos a proposta de Zubiri, na qual estamos ligados ao ser de Deus, podemos dizer que entramos em comunhão com Deus pela sua energia, pelo seu Espírito. Somente o amor extático de Deus nos justifica e nos faz participar pela graça no mesmo ser de amor. A resposta à pergunta acima pode ser curta: Graças à justiça divina147 que não condena, mas liberta, e por ela somos justificados. Esta resposta, contudo, nos remete a duas outras questões: o que é a justiça divina? E o que é a graça? “Se a justiça de Deus consiste em retribuir a cada um segundo o que lhe é devido, se portanto deve-se ‘não ter senão o que se merece’, como esperar então a salvação e a vida divina?”148.
Agostinho entende a justiça divina no sentido de Paulo: A justiça de Deus não significa aquilo pelo qual Deus é justo, mas essa justiça que Deus dá ao homem a fim de que ele seja justo pela sua graça149. Nesta graça divina somos deificados. Quem declara justo ou justificado é Deus. “Esse ‘conceito doutrinal’ encontra-se principalmente em Gl e Rm. Aí a ‘justificação pela fé’ tornou-se a expressão mais significativa da pregação paulina”150. Paulo, contudo, não inventa esta doutrina, ela se baseia no AT.
Justificar é, pois, o que cabe a Deus no julgamento sobre o homem; em última instância, no Juízo final. Decisivo para o homem é ser considerado justo por Deus. A base para isso é a relação vital com Deus, dentro da aliança que Deus concedeu a seu povo. “Justo”, pois, é o homem, não a partir de si mesmo (toda forma de auto-justificação do homem já está excluída no AT, e o está também no NT, cf. Lc 16,15; 18,19), mas por uma vida de acordo com o que Deus
146 WILLIAMS, R. Justificação. In Dicionário Crítico de Teologia. Op. cit.
p. 974. “Para a teologia cristã, só se pode responder a essa questão levando em conta os dois pontos seguintes: por um lado, a situação de pecado em que os seres humanos mergulharam os torna incapazes dessa comunhão; eles não podem libertar-se da visão deformada, nem da fraqueza ou da corrupção da vontade, que essa situação lhes impõe; por outro, a liberdade de Deus é total; ele não pode ser nem forçado nem mesmo persuadido a agir de uma maneira ou de outra. Se, pois, os homens devem encontrar graça a seus olhos, isso só pode acontecer por obra sua”. WILLIAMS, R. Justificação. In Dicionário Crítico de
Teologia. Op. cit. p. 974.
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“Trata-se de todo modo, de maneira muito evidente, de um atributo relativo a Deus (atributos divinos). Mas todo o problema consiste em saber de que relação se trata”. FERNANDEZ, I. Justiça
Divina. In Dicionário Crítico de Teologia. Op. cit. p. 971. Cf. FERNANDEZ, I. Justiça Divina. In Dicionário Crítico de Teologia. Op. cit. p. 972.
148 FERNANDEZ, I. Justiça Divina. In Dicionário Crítico de Teologia. Op. cit. p. 972. 149 Cf. FERNANDEZ, I. Justiça Divina. In Dicionário Crítico de Teologia. Op. cit. p. 972-973. 150 KERTELGE, K. Justificação. In Dicionário Bíblico-Teológico. Op. cit. p. 226.
determinou, e pelo reconhecimento disso no Juízo de Deus (cf. Lc 18,14)151.
Devemos, sem dúvida, particularmente, a Paulo152 a explicitação do tema da justificação no NT. “Justificação (ser tornado justo) é o dom de Deus ao pecador; esse dom é dado no Batismo, isto é, baseia-se na relação com Jesus Cristo, e é operado pelo Espírito Santo”153. Esta ligação entre justificação e Batismo aparece em Rm 6,7: quem está morto (no Batismo) está liberto do pecado. Justificação é a libertação do domínio do pecado; seu fundamento é o Cristo, isto é, sua morte e ressurreição e, por conseguinte, o Batismo como “assimilação” sacramental à sua morte (Rm 6,5). A isso corresponde 1Cor 1,30: Ele (Cristo Jesus) tornou-se para nós a sabedoria que vem de Deus, para justificação e santificação e libertação154.O perdão de Deus é o início de uma história na qual o homem, justificado, entra num processo de transformação, que tem a sua origem no próprio ser de Deus. Esta transformação, ontológica, compreende também a glorificação que se realiza na união com Cristo: participação na sua morte, ressurreição e pela incorporação no seu corpo, a Igreja.
2Cor 5,21 afirma, em estilo retórico: “A ele (Cristo), que não conhecia o pecado, Deus o fez pecado, a fim de que nós nos tornássemos justiça de Deus, nele”. Na morte vicária de Cristo (“por nós”) o próprio Deus lançou a base que sustenta a aplicação de sua justiça redentora a nós. E Rm 3,25s: “A ele (Cristo) Deus constituiu como expiação, pela fé, em seu sangue” – para demonstração de sua justiça por causa do perdão dos pecados anteriormente cometidos155.
151 KERTELGE, K. Justificação. In Dicionário Bíblico-Teológico. Op. cit. p. 226. 152
“Paulo estende-se longamente sobre essa questão, em particular na Epístola aos Romanos; ele se interessa, sobretudo, pelas razões mediante as quais Deus nos trata como se não fôssemos culpados, o que não se funda senão em sua livre decisão. Assim, somos ‘justificados’ pela graça de Deus manifesta em Jesus Cristo (Rm 3,24ss), ou pelo sangue de Jesus derramado na cruz (Rm 5,9). Quando reconhecemos plenamente a ação divina, recebemos os seus frutos; é assim que se pode dizer que somos justificados pela fé (Rm 3,28; 5,1; Gl 2,16; 3,24). Portanto, é inocente, aos olhos de Deus, todo aquele que tem confiança no que se realizou pela morte de Jesus (Rm 3,26). A fórmula discutível, mais tardia, a ‘justificação só pela fé’, o sola fide de alguns protestantes, não se encontra nesses termos em Paulo; e a própria expressão ‘justificação pela fé’ deve ser compreendida no contexto de todo o drama exposto em Rm e Gl, no qual Deus, em Jesus, resgata e perdoa os pecados – caso contrário, podemos esquecer que foi Deus que tomou essa iniciativa sem igual”. WILLIAMS, R. Justificação. In Dicionário Crítico de Teologia. Op. cit. p. 974.
153 KERTELGE, K. Justificação. In Dicionário Bíblico-Teológico. Op. cit. p. 226. 154 Cf. KERTELGE, K. Justificação. In Dicionário Bíblico-Teológico. Op. cit. p. 226.
155 KERTELGE, K. Justificação. In Dicionário Bíblico-Teológico. Op. cit. p. 227; Cf. HEINE, S. Pecado/Expiação (NT). In Dicionário Bíblico-Teológico. Op. cit. p. 325.
Contudo, perdão, salvação, glorificação e justificação não são atos mágicos de Deus em nosso favor. Se a natureza não dá saltos, Deus também não o faz. Tudo está revelado na economia da salvação, Deus se oferece aos humanos como graça divina revelada em Jesus Cristo em vista da nossa deificação. A “justiça” dada por Deus, que opera como perdão dos pecados, tem sua base na morte de Cristo [...]. A eficácia redentora da morte expiatória de Jesus opera “pela fé”156.
A Lei mosaica não é inválida, mas recebe uma nova força, um novo “espírito”. Continua obrigatório cumprir a vontade de Deus, que encontra o seu ápice no mandamento do amor (Rm 13,8-10; Gl 5,13s). Os textos paulinos sobre a justificação do pecador pela graça e pela fé em Jesus Cristo irão marcar a Igreja e a teologia do Ocidente, sobretudo na reforma e contra-reforma.
A teologia dos reformadores insiste, com Lutero, na eficácia exclusiva da graça de Deus no processo da justificação e, conseqüentemente, na constante dependência do pecador justificado da eficácia da graça divina “extra nos” (que o homem nunca poderá alcançar). A teologia católica, porém, depois de Trento, vê o dom da justiça expressamente como o poder divino que, no batismo e na fé, atinge o homem por dentro, o cria de novo, capacitando o justificado a fazer boas obras, as quais beneficiam o crescimento de sua vida na graça157.
Talvez a doutrina da justificação, quer dos reformados quer da Igreja católica, possa ser vista não em contradição, mas como complementação: Tudo depende da iniciativa de Deus. Uma vez acolhida esta iniciativa divina o homem é deificado; transformado numa realidade nova; porém ele nunca será Deus, mas somente
156 KERTELGE, K. Justificação. In Dicionário Bíblico-Teológico. Op. cit. p. 227.
“Em Gl 2,16, Paulo resume seu pensamento sobre a justificação na frase: ‘Nós sabemos que o homem não é justificado pelas obras da Lei, mas pela fé em Jesus Cristo’”. KERTELGE, K. Justificação. In Dicionário Bíblico-
Teológico. Op. cit. p. 227. O conceito paulino de justificação: “O homem não consegue a justificação por si mesmo, como que na base de uma reivindicação garantida por uma promessa e baseada no cumprimento da Lei, e sim pela fé em Jesus Cristo. Esta fé é fé naquele Deus que, paradoxalmente, não justifica “o justo”, mas “justifica o ímpio” (Rm 4,5). KERTELGE, K. Justificação. In Dicionário
Bíblico-Teológico. Op. cit. p. 227. “A base está no AT, a fé de Abraão (Gn 15,6; Gl 3; Rm 4). (2). A base da justificação, para os judeus e gentios, é Jesus Cristo, pela entrega de si mesmo na cruz (Gl 2,20; 3,1). É no ato de Cristo com seu sacrifício único, escatológico, que Deus se revela como justo e justificador (Rm 3,25-26). “Há nisso dois aspectos, que determinam, ambos, a importância da ‘justificação’, tanto no presente como até o fim do mundo: o aspecto teocêntrico (especialmente Rm 1,17; 3,21s) da ‘justiça de Deus’, revelada no Evangelho, isto é ‘agora’; e o aspecto cristocêntrico, do Cristo que intercede por nós, pecadores (Rm 5,6-11)”. KERTELGE, K. Justificação. In Dicionário
Bíblico-Teológico. Op. cit. p. 227. “Pela fé em Jesus Cristo o dom da justiça nos é dada por Deus. A indissolúvel relação da fé com a ação e pessoa de Jesus Cristo, em quem Deus se revelou, exclui qualquer alegação de Moisés e de sua Lei como base para a justificação, pois essa é dada ‘de graça’ (Rm 3,24; 4,4s)”. KERTELGE, K. Justificação. In Dicionário Bíblico-Teológico. Op. cit. p. 227.
“participante” da divindade, uma vez que ele é um ser que só recebe realidade de fora dele. Somente nesta “lógica” se entende o que seja deificação pela graça e justiça de Deus. Mas esta parece ser uma “página” da história do cristianismo ocidental ainda a ser aprofundada e reescrita na própria teologia cristã. Contudo, qualquer que seja o desenvolvimento da questão a teologia paulina da justificação158 será sempre referência.
A pergunta como os homens, então, podem chegar a estar “em Cristo” constitui o cerne da teologia paulina, e a resposta é desenvolvida em frases ora tradicionais, ora originais. Em primeiro lugar é precioso reconhecer Deus, bem como considerar a reconciliação na cruz e a ressurreição acontecidas “para nós”, pois “Cristo morreu por nossos pecados e foi ressuscitado para a nossa justificação” (Rm 4,25; 5,6-11; Gl 1,4)159.
No mistério da encarnação Deus se tornou um, “tu”, próximo, humano, para manifestar o amor e o perdão; tudo é sempre e eternamente iniciativa divina; pois se Deus retribuísse porque merecêssemos não seria graça; e se nós tivéssemos direito a algo, Deus não seria livre. E como vimos, Deus é o ente mais puro e perfeito porque é um Ser livre.
Quem, na fé, tomar a sério a pecaminosidade, tomará consciência de que seria uma ilusão querer acabar com os pecados por um esforço moral, em busca de perfeição [...]. No NT, Cristo é o “meio” gnosiológico (fé) e ontológico (nova criação) contra o pecado, que liberta o homem de si mesmo, e até de um altruísmo egocêntrico, que se orienta por seus próprios ideais elevados e irrealizáveis, atrás dos quais espreitam o desespero e a resignação, quando não sobrar mais nada para esperar. A situação permanentemente crítica deste mundo é capaz de alimentar sem cessar a esperança na vinda de Deus160.