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Norwegian School of Economics (NHH)

O pecado é a decadência do homem em sua relação com Deus para não descobri-lo na natureza132. E como vimos, em Zubiri, é a soberba na qual o homem se esconde para não reconhecer a sua ligação com Deus. No AT, pecar (hâtâ,

130 HEINE, S. Criação (NT). In Dicionário Bíblico-Teológico. Op. cit. p. 74-75.

131 Cf. DOHMEN, CH. Criação (AT). In Dicionário Bíblico-Teológico. Op. cit. p. 73.

132 “‘Pecado’ é o termo que Paulo usa para a compulsão ou coação que os humanos geralmente

experimentam dentro de si mesmos ou em seu contexto social, compulsão para atitudes e ações nem sempre de sua própria vontade, ou com sua aprovação [...] Especialmente, pecado é a força que faz os seres humanos esquecerem sua criaturidade e dependência de Deus, a força que impede a humanidade de reconhecer sua verdadeira natureza, que engana o adam, levando-o a pensar que é igual a Deus e o torna incapaz de compreender que é apenas adamah. É poder que faz a humanidade girar em torno de si mesma, preocupada em satisfazer e compensar sua própria fraqueza como carne. É o poder que levou incontáveis indivíduos de boa vontade mas de determinação inadequada a gritar desesperados: ‘Eu não tenho culpa’, ‘não consigo evitá-lo’”. DUNN, J. D. G. A Teologia do Apóstolo Paulo. São Paulo: Paulus, 2003. p. 150.

hebraico) consiste fundamentalmente em descumprir os mandamentos de Deus133 e não honrá-lo pela sua criação e salvação. É sempre a tentativa do homem se “desligar” de Deus, afastando-se da comunhão deífica. Na objetividade do pecado está a ruptura da relação entre o humano e o divino. O pecado é marcado pela iniciativa e ação humana. Ao passo que a criação e a salvação são da iniciativa de Deus134. Como o pecado se origina está ilustrado em Gn 3,1-13.

Diante da ruptura humana causada pelo pecado, o próprio Deus toma a iniciativa da salvação, revestindo o homem com dignidade (cf. Gn 3,21), numa constante liberdade de acolhida (cf. Is 59,20s; 2Cr 7,14.17-22). O humano está perdido, mas pode ser encontrado. O homem pode restabelecer a sua comunhão com Deus, que lhe oferece a graça e o justifica. Somente pela força de Deus, superamos a indução ao pecado. Daqui podemos já antecipar a necessidade litúrgica do sacramento, enquanto momento celebrativo da graça de Deus, pois quando Deus encontra o humano, deve constituir-se um sacramento. Quando Deus se encarna no humano, muda a nossa história.

Se tomarmos o pecado de nossos pais como instituição (original) de um “estado pecaminoso” poderíamos nos isentar de nossa responsabilidade. Ao passo que, se tomarmos o pecado como possibilidade “inscrita na natureza” (chamamos de “risco de Deus”) se descobrirá a responsabilidade individual do pecado. Nisto se fundamenta a perspectiva da “deificação”. Deus deifica o homem decaído, o pecador. Esta é a gratuidade oferecida por Deus. Não obstante as escolhas do homem, Deus o deifica. Este mistério só encontra razão na lógica misteriosa de Deus. Caso contrário, não nasceríamos com possibilidade de pecar. Curiosamente, Jesus se encarna plenamente em nossa natureza. Ele pode nos salvar porque não

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“Em teologia moral, a noção de mandamento de Deus tem por função seja indicar o fundamento primeiro da obrigação moral, seja determinar seu conteúdo, seja por fim dar-nos o meio de saber o que é exigido de nós. Ela não dá conta do conceito de obrigação enquanto tal”. BIGGAR, N.

Mandamento. In Dicionário Crítico de Teologia. Op. cit. p. 1081. “Para a teologia moral, é em Deus que se encontra o fundamento da obrigação. E se ele se acha assim alojado na razão divina, os seres humanos terão acesso a esse fundamento apreendendo pela ordem pela consciência a ordem da moralidade ou da lei natural, tal como ela estrutura a realidade criada e reflete a lei eterna do espírito divino”. BIGGAR, N. Mandamento. In Dicionário Crítico de Teologia. Op. cit. p. 1082. “Alguns teólogos preferem situar o fundamento da obrigação na vontade de Deus. São então os mandamentos divinos que criam nossos deveres”. BIGGAR, N. Mandamento. In Dicionário Crítico de

Teologia. Op. cit. p. 1082.

escolheu o pecado. Em Jesus somos deificados pelo Pai pela via da liberdade de filhos e não de escravos.

O “porquê” do pecado, o apóstolo Paulo encontra nas Escrituras: “segundo a qual existe um fundamento de todo e qualquer pecado: ser homem é ser pecador, realidade essa que começou com o primeiro homem, Adão (Rm 3,9-20; 11,32; Gl 3,22)”135. Podemos então interpretar, a partir do Apóstolo, que o pecado está inscrito em nossa natureza. O pecado será sempre original por ser uma ação do homem, contra a vontade de Deus. A originalidade está, portanto, no homem, ser sujeito de uma ação que não lhe convém, pois ele não aprendeu com Deus, nem viu Deus pecando. Original não quer dizer, necessariamente, hereditário. Somos herdeiros da natureza de Adão e não, necessariamente, herdeiros do pecado do Adão.

A compreensão da origem do pecado abre a perspectiva tipológica para a interpretação do ato salvífico de Cristo: “Assim como por um homem veio a morte, assim também por um homem vem a ressurreição dos mortos. Assim como em Adão todos morrem, assim em Cristo todos reviverão” (1Cor 15,21s). Cristo se torna o arquétipo da humanidade escatológica. Em Rm 5 a relação entre Adão e Cristo é elaborada no contexto da doutrina da justificação, a fim de esclarecer a superioridade e abundância da graça divina em comparação com a iniqüidade humana: “[...] o pecado entrou no mundo e, pelo pecado, a morte, e assim a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram... De modo que, como pela desobediência de um só homem, todos se tornaram pecadores, assim, pela obediência de um só, todos se tornarão justos (Rm 5,12.19)136.

A doutrina paulina sobre o “pecado original”137 insiste em que o homem depende radicalmente de uma redenção vinda de Deus, em Jesus Cristo. Fica assim fundamentada a necessidade da Encarnação e todo o sentido da economia da salvação, como iniciativa divina oferecida por Deus ao homem. Paulo mantém, assim, o acento da responsabilidade do homem por suas ações, já presente no AT e no judaísmo, bem como a dialética entre o homem que nasce no pecado (natureza pecadora) e sua responsabilidade individual para superar, pela graça, este estado

135 OEMING, M. In Dicionário Bíblico-Teológico. Op. cit. p. 315. 136 OEMING, M. In Dicionário Bíblico-Teológico. Op. cit. p. 315-316. 137

“A expressão ‘pecado original’ foi criada por Agostinho (PL 40, 106) para designar aquele pecado que ‘entrou no mundo’ (Rm 5,12) pela falta de Adão e que afeta todo homem pelo fato mesmo de nascer (PL 40, 245): é o que se chamará mais tarde de pecado original ‘originado’, por oposição ao pecado original ‘originante’ do próprio Adão. A análise teológica dele está sempre ligada a uma reflexão sobre o livre-arbítrio, a graça e a concupiscência (ou cobiça)”. SENTIS. L. Pecado Original. In Dicionário Crítico de Teologia. Op. cit. p. 1370.

decaído e recobrar a natureza divina. Na acolhida da graça de Deus se pode pensar a expiação, sobretudo na idéia de acolher um mediador, que, pelo sacrifício e o sangue, possa restabelecer a relação perdida com o pecado.

O NT registra o pecado e a expiação presente na pregação de João Batista. O rito do batismo proposto por João compreendia a conversão e confissão dos pecados. Ao ato do batismo, com que João combina sua pregação, segue o sinal do perdão dos pecados (cf. Mc 1,4). Jesus, contudo, apresenta algo que vai além da proposta de João Batista: a realidade do Reino de Deus. Frente ao Reino, a medida adotada é a própria perfeição de Deus em sua grande misericórdia, sua santidade que nos deifica.

A convivência de Jesus com os pecadores mostra que não é a obediência à Torá que é a condição para participar do Reino de Deus, e sim a compreensão de que não se pode dispor de Deus e de que o homem precisa ser acolhido e reconhecido, mas também criticado por Deus. Por trás disso está implicitamente o entendimento do pecado como falta de relação com Deus como parceiro138.

Essa intenção fundamental da pregação de Jesus que liberta o homem do egocentrismo e do conseqüente isolamento, por exemplo, na acolhida de Zaqueu, Lc 19,1-10. Procurar e trazer à comunhão com Deus o que estava perdido: eis o centro das palavras e das ações de Jesus139.

Por isso a definição (frequente na história da exegese) do pecado como desobediência a Deus é no mínimo equívoca, já que a submissão à onipotência de Deus contradiz o centro cristológico do NT. Por sua vinda em Cristo, Deus renunciou ao exercício de seu poder, a fim de se tornar um “próximo” para os homens e de introduzi- los numa relação consigo, abrindo-lhes com isso os olhos para ver os outros (Lc 10,25ss; MT 25,40). Com isso o pecado toma a figura de uma falta de fé, pela qual o homem terá de responder140.

Jesus é o ponto de referência e decisão. Nele o homem está em posse de uma proposta positiva, única, que permite restabelecer a sua natureza, em seu estado original, de filho de Deus e ser por Ele “deificado”. “O julgamento não está a serviço de uma vontade de punir, mas da perfeita justiça de Deus; por isso os

138 OEMING, M. In Dicionário Bíblico-Teológico. Op.cit. p. 321. 139 Cf. OEMING, M. In Dicionário Bíblico-Teológico. Op.cit. p. 321. 140 OEMING, M. In Dicionário Bíblico-Teológico. Op.cit. p. 321.

homens não devem julgar (Mt 7,1s; Lc 6,37s)”141. A adesão a Deus e à comunidade de fé será então o grande convite de Jesus à humanidade, para que ela se liberte do pecado e viva na graça de Deus por meio de Jesus Cristo: nesta proposta encontra- se a fundamentação da Igreja, dos sacramentos e da liturgia.

Aqui o mistério da Encarnação se dá como auto-comunicação de Deus: “de tu para tu”142. Na liberdade o homem pode acolher ou não esta luz encarnada. Por isso João, em seu evangelho, não se pergunta sobre a origem do pecado, apenas mostra a miséria humana diante da luz. Encontrar Deus próximo de nós é só renunciar ao pecado, se abrir e acolher o outro. Isto é dado de fé: “crer, porém, significa ser realmente livre (ontos: Jo 8,36), para a vida e a ressurreição (Jo 5,29; 6,35ss; 11,25)”143. Somente superando o egoísmo144, fonte de isolamento, a pessoa poderá fazer experiência da gratuidade divina revelada, por Jesus, à humanidade. “Só Deus pode romper esse círculo vicioso, o que aconteceu por Jesus Cristo: ‘Tudo vem de Deus que estava em Cristo e reconciliou o mundo consigo’ (2Cor 5,18.19); ‘quem está em Cristo é uma nova criação (2Cor 5,17)”145.