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No processo educativo, o corpo não representa apenas um instrumento para as práticas de atividades físicas e artísticas, certamente o esporte e a arte concebem o corpo como referência, mas ele é também marcado por uma história de vida, atravessado pelas relações intersubjetivas, e pelo processo de desenvolvimento do indivíduo, pelas emoções e afetividade estudada por Wallon (1941/1995) como um elemento importante no processo educativo.

A interação estabelecida entre professor-aluno é atravessada pelo corpo e nessa relação estão presentes movimentos, concordâncias, discordâncias, entendimentos, conflitos e emoções. Essa interação, além de contribuir com a construção da autoestima, da autoconfiança, pode influenciar tanto no processo de aprendizagem do aluno, como na forma pela qual o professor lida com a docência.

Na intervenção pedagógica, o professor necessita desenvolver diferentes formas de agir, que inclui limite, acolhimento, empatia, respeito e a atenção em relação a seus alunos. Essas estratégias relacionais compõem as ações corporais do professor e podem também mobilizar seus alunos.

Em sua abordagem, Wallon (1934/1971) apresenta o caráter contagioso das emoções. “A emoção necessita suscitar reações similares ou recíprocas em outrem e, (...) possui sobre o outro um grande poder de contágio” (p. 91). O corpo do docente marca sua relação de comunicação com os alunos e, tanto um quanto o outro, possuem em seus corpos os registros dessa relação.

Em termos de educação, visualizamos o professor em sua subjetividade que está tão presente na sua prática, nos seus saberes, na sua história. Não se trata, portanto, de trazer o corpo para a sala de aula já que ele está constantemente presente, o que pretendemos é que seja valorizado, integrado, incluído, reconhecido, visto e sentido. (MOYZÉS; MOTA, 2004, p. 4)

Para Moyzés e Mota (2004), é fundamental ao professor observar não só os registros do seu próprio corpo, mas também de seus alunos procurando entender o que não é dito verbalmente. Alguns bloqueios ou a forma como o corpo responde aos investimentos podem ser percebidos e trabalhados, e assim melhorar a qualidade das relações com seus alunos.

O corpo não é mero instrumento de práticas educativas, as produções humanas são possíveis pelo fato de sermos corpo e a gestualidade ou os cuidados com o corpo podem e devem ser tematizados nas diferentes práticas educativas propostas nos currículos e viabilizados por diferentes disciplinas (NÓBREGA, 2008, p. 142).

O corpo contribui na relação professor aluno, cabendo à educação ocupar-se do corpo para instrumentalizar o processo de ensino e aprendizagem. O corpo sem dúvidas é um grande colaborador no trabalho docente e merece atenção nas discussões sobre educação. À medida que o professor se conscientiza do seu corpo e reflete sobre seu potencial pedagógico, desenvolve maiores possibilidades em seu trabalho como, por exemplo, ao utilizar sua motricidade (que significa o movimento do corpo com intenção), pode contribuir para uma melhor comunicação com seu aluno.

O professor é referência para o aluno e o modo como ele se expressa, corporalmente, dentro e fora de sala de aula, pode interferir na forma como os educandos participam no processo de aprendizagem. É importante o professor não apenas transmitir o conhecimento,

mas permitir e estimular o aluno a não permanecer inerte e participar do processo de ensino e aprendizagem.

Em um estudo realizado por Anaruma (1994) com o objetivo de identificar como o aluno sentia seu corpo dentro do contexto escolar, constatou-se que o mesmo se sentia melhor fora da sala de aula. A pesquisa demonstrou a evolução da forma como o corpo é percebido pelo aluno. No ensino fundamental, são evidentes as sensações e as expressões dos sentimentos por meio do corpo, talvez porque o aluno ainda esteja em melhor sintonia com as mensagens do seu corpo, não intelectualizadas. Já no ensino médio, observou-se um corpo alienado, fragmentado, alheio ao que acontece à sua volta, como se ao longo dos anos o corpo fosse sendo reprimido no contexto escolar. Em relação aos alunos do ensino superior, estes apresentaram a dificuldade de expressar corporalmente suas ideias em sala de aula. Muitas vezes, esse comportamento está relacionado a experiências desagradáveis que são resultado de processos educacionais anteriores.

Foucault (1987) destaca que,a partir do século XVII, foi lançado um poder de controle que agia nas diversas instituições sociais como escolas, prisões e fábricas. Essa força coercitiva também atuou sobre o corpo, limitando seus espaços e movimentos para torná-los dóceis e úteis, comprometendo a vivência subjetiva da corporeidade. Isso acabou influenciando as ações pedagógicas, um exemplo disso é o fato de os alunos permanecerem horas sentados com o olhar fixo no professor; a lógica da disposição espacial da sala em fileiras permite olhar seus colegas somente de costas.

Refletir sobre os movimentos, intenções e ações que se expressam através do corpo não é uma tarefa fácil, pois é permeada pela subjetividade. Porém, é certo que o corpo carrega essa capacidade de integrar emoções, de se expressar e estabelecer a comunicação. Nesse contexto, identifica-se que as questões relacionadas ao corpo e seu papel na educação se configuram como um importante objeto de investigação. E, para isso, é importante observar a relevância do corpo no processo de ensino e aprendizagem, bem como as dificuldades enfrentadas pelos docentes nas relações que envolvem o domínio do corpo.

Na teoria walloniana a construção do eu depende da relação com o outro, muitas vezes permeada pelo acolhimento e, em outros momentos, pela oposição. Podemos dizer também que o papel do docente é marcado por um processo de construção onde é essencial a interação com o outro que pode ser o aluno, o colega docente, o diretor do departamento e assim por diante. O professor é importante na formação do aluno, na transmissão de valores e conhecimento e assim vice-versa.

Um dos desafios dessa investigação é compreender como o corpo está presente na atuação do docente de ensino superior e identificar o lugar da corporeidade no processo de ensino e aprendizagem e na relação professor-aluno. Uma maior compreensão dessa temática também poderá contribuir com um “fazer pedagógico” mais consciente, possibilitando ferramentas eficientes para atuação do docente.