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Para entender o conceito de motivação para a prática de um instrumento musical, a teoria de Flow foi utilizada em diversos estudos (ADDESSI; PACHET, 2005, 2007;

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ARAUJO; PICKLER, 2008; CUSTODERO, 2005, 2006; O´NEILL, 1999; SINNAMON, MORAN; O’CONNEL, 2012).

Na Teoria do Flow, Csikszentmihalyi (1999) sugere que indivíduos que tenham um envolvimento e concentração total com uma atividade específica, entrem num “estado de fluxo” que lhe proporciona a perda de noção de tempo, estados de prazer e alegria.

Segundo o autor, para que esta experiência ocorra, existe um inter-relacionamento de alguns conteúdos, designados como “conteúdos da experiência”, tais como emoção, as metas e as operações mentais (operações cognitivas). As emoções são consideradas por Csikszentmihalyi (1999) como os elementos subjetivos da consciência que se traduzem por vezes em sensações e reações físicas. Para o autor, as emoções condicionam a forma como o sujeito canaliza a sua energia psíquica. Isso pode acontecer quer de forma negativa e pouco eficiente gerando “entropia psíquica”, em que o sujeito utiliza a sua energia para restaurar a sua “ordem interior subjetiva”, ou de forma positiva através de estados de “negaentropia psíquica”, no qual o indivíduo pode utilizar toda a sua atenção e energia para fluí-lo em uma atividade. Esse conjunto de argumentos é encontrado por apoio da tese de Damásio sobre a relação entre emoção e cognição (1995; 2000) e, em especial, “O mistério da consciência” (2001).

Outra característica descrita por Csikszentmihalyi (1999) para atingir o estado de flow diz respeito às metas, uma vez que estas direcionam a energia psíquica do indivíduo e criam a ordem na experiência realizada. O sujeito deve conseguir estabelecer metas adequadas para o seu desenvolvimento, de forma que não sejam tão difíceis que ele não consiga realizar, ou demasiado fáceis que provoquem tédio. O estabelecimento de metas está relacionado com a autoestima do indivíduo uma vez que “uma pessoa pode desenvolver uma baixa autoestima porque estabelece metas elevadas demais, ou porque alcança muito poucos sucessos” (CSIKSZENTMIHALYI, 1999, p.31).

A última característica diz respeito às operações mentais cognitivas. Essas são realizadas através do pensamento e são responsáveis pela ordenação da atenção na atividade específica, o que faz com que o sujeito entre em estado de fluxo. Para Csikszentmihalyi (1999), a consciência encontra-se geralmente num estado desordenado. Através do esforço em concentrar-se, o sujeito teria um controle sobre a sua vida psíquica dirigindo eficazmente a sua atenção para a atividade proposta. As emoções positivas e a motivação, por sua vez iriam

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facilitar a concentração e a entrada em estado de flow, resultando num prazer, bem estar bem como perda de noção do tempo.

Nos “conteúdos de experiência” atribuídos por Csikszentmihalyi, as metas estabelecidas parecem estar, de alguma forma, relacionadas com os processos cognitivos de autorregulacão e metacognição descritos anteriormente nos processos de ensino- aprendizagem de experts, uma vez que estes sujeitos parecem regular a sua aprendizagem e, portanto, as metas que estabelecem de forma efetiva e eficiente. Quanto às operações mentais cognitivas, a concentração descrita por Csikszentmihalyi como indutora de estado de “flow” parece também estar associada ao processo deliberado. De fato, a concentração e o foco, foram descritos como mecanismos indispensáveis no capitulo anterior, para a aquisição de habilidades de alto nível. Como descreve Csikszentmihalyi (1999), é necessário um esforço para a concentração e para o domínio da vida psíquica. Para a participante Helena, o estudo concentrado é algo que tenta alcançar e melhorar diariamente.

No estudo eu sou, eu gostaria de ser mais concentrada, mais focada, às vezes eu acho que perco um pouco de tempo, assim, a mente viaja um pouquinho. Gostaria de melhorar isso. Sempre tento melhorar isso. (Helena, pianista)

Como resultante dessa concentração ultrafocada ao que chamamos de estudo deliberado resultariam estados emocionais como prazer, bem-estar e perda da noção de tempo. O estado emocional de prazer faria com que trouxesse motivação para continuar a estudar. O que podemos perguntar é se a atividade é prazerosa por si só ou se esse estado de emoção resulta do trabalho e do esforço, como sugere Csikszentmihalyi (1999).

Pelas falas dos participantes é possível constatar que a atividade parece ser prazerosa por si só e que é realizada durante muitas horas. Para Luiza, estudar não era algo sacrificante, mas, sim, uma atividade ao qual se dedicava com prazer. Ela gostava muito de estudar e, assim, enquanto criança, a primeira coisa que fazia quando chegava da escola era estudar piano. Nas suas palavras “gostava, gostava muito, gostava demais”. Para Pedro, estudar era algo natural que não precisava de esforço da sua parte. Não precisava, nem precisa de forçar a sua natureza para estudar. Para o expert Artur, estudar é uma atividade que ele “adora”, que poderia fazer para sempre. Estudava continuamente, manha, tarde e noite se pudesse. Para Julio, estudar é algo que se dedica com prazer.

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Eu chegava da escola, eu nem tirava o uniforme, eu já ia para o piano. Eu tocava o tempo todo. Não era uma coisa assim, não era um estudo sacrificante. Era uma coisa boa. Que eu chegava e ficava tocando (...) Não eu sempre estudei porque eu gostava, eu gostava muito, gostava demais, sempre foi. (Luiza, Pianista)

Sempre. Eu não me lembro na minha vida de alguma vez de ter me forçado, forçado a minha natureza a ter que estudar. (Pedro, pianista)

(...) adoro, se pudesse seria estudante para sempre, alguém que me dissesse o que eu tenho que fazer, e tal, ai eu sentava estudava, estudava manha tarde e noite, estudava assim, mas 10horas 12horas por dia, era uma pessoa que mais estudava naquele conservatório, era eu. E tranquilo, em determinado momento isso me incomodava um pouquinho. (Artur, pianista)

Gosto. Eu tenho prazer em estudar. (Julio, cravista)

Assim, experts parecem sentir um enorme prazer no envolvimento com a atividade. E não se trata apenas de estar em contato com o instrumento, como o fato de tocar, descrito como em algumas pesquisas sobre o momento prazeroso de tocar ou prazer estético sensual (KEMP, 2006). Segundo a participante, o processo intelectual de estudar, de resolver problemas, “botar o tijolo em cima do tijolo, a matéria prima”, ou seja, a concretização de metas estabelecidas, seria algo prazeroso. Ainda destaca que não se trata apenas da quantidade de horas que fica em contato com o instrumento, mas a qualidade desse trabalho, tanto de natureza física como intelectual.

Então eu acho que eu tenho isso no piano, e isso é que me faz estudar, não é só o som bonito, eu acho que é a mão de obra, pegar o tijolo botar em cima do outro com cimento, acertar direitinho, isso para mim é matéria prima assim. E isso eu tenho prazer (...) não é só o fato, não são as horas de estudo, mas é o trabalho intelectual que eu acho que é muito bom e o trabalho físico também que eu acho que tem um prazer naquela feitura ali. Isso não quer dizer quantidade, porque às vezes não dá para estudar muito, mas eu acho que nessa profissão o estudo tem que ser prazeroso, se não, porque se não acontecem duas coisas, ou você não , não quer fazer nada que seja diferente daquilo que você já fez, e ai vai dando um certo desgaste porque o repertório vai repetindo, vai ficando com preguiça, ou você acredita muito na sua leitura, que as vezes ha pessoas que têm leitura boa e ficam tocando sempre sujo e aquilo chega um ponto que começa a incomodar até os outros, ou você se desestimula muito. (Iris, pianista)

Outra aspecto importante da teoria de Csikszentmihalyi (1999), é a de perda de noção de tempo durante a atividade. Para a expert, estudar com foco, saber exatamente o que tem que resolver naquele momento e de que forma, faz com que passe uma hora “e você nem viu”. Com isso, é possível constatar uma perda de noção de tempo. Finalmente, segundo a ultima participante, estudar também é uma atividade a que se dedica muitas horas. A participante “estudava muitas horas” e “não parava de estudar”.

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Nesse nível de foco, de saber exatamente o que eu tenho que resolver naquele momento. Este nível de detalhamento. Então o tempo voa. Quando você estuda assim. Passou uma hora você nem viu. (Helena, pianista)

Ai eu já estudava muito, muitas horas por dia, e quando eu passei para o cravo eu mantive (...) Ah sim claro não parava de estudar. Estudava o tempo todo. (Fernanda, cravista)