Em Wallon (1973/1975) ao passar por estágios, o indivíduo se manifesta através da motricidade expressiva e isso acontece em meio a conflitos, contradições e interações com o meio. Considera-se o meio como um conjunto de circunstâncias nas quais se desenvolve a existência individual determinante na formação do ser humano; é também o lugar onde acontecem as relações interpessoais que possibilitam ao indivíduo tomar consciência de si, do mundo a sua volta e dos valores que integram a sociedade em que vive.
O indivíduo se constitui na interação do seu organismo com o meio, considerando, também, que suas atitudes são complementares às do meio e essa construção se dá de acordo com as condições de existência. A localização do indivíduo em relação ao seu lugar e seu papel no grupo onde está inserido são fatores importantes para o desenvolvimento do eu e, para isso, o meio social e a cultura representam as possibilidades e limites para esse desenvolvimento (WALLON, 1973/1975).
Quando a criança vai à escola, ela amplia seu universo relacional, pois deixa de ter a restrição do ambiente familiar e passa a interagir em diferentes grupos externos. Nesse momento, a criança tem a oportunidade de desenvolver aptidões sociais. O professor, nesse
contexto, pode contribuir favorecendo a socialização ao incentivar a cooperação e a interação entre os alunos (PEDROZA, 1993).
Dessa forma, é através do corpo que o indivíduo se comunica e se relaciona com o meio em sua volta e assim se desenvolve. Wallon (1934/1971) considera que o processo de aprendizagem ocorre a partir do vínculo entre pessoas. Inicialmente, na relação da criança com o adulto que dela se ocupa e, no decorrer do desenvolvimento, os vínculos vão se ampliando e surge a figura do professor que também contagia e é contagiado por seus alunos.
[...] a satisfação das suas necessidades e desejos tem de ser realizada por intermédio das pessoas adultas que a rodeiam. Por isso, os primeiros sistemas de reação que se organizam sob a influência do ambiente, as emoções, tendem a realizar, por meio de manifestações consoantes e contagiosas, uma fusão de sensibilidade entre o indivíduo e o seu “entourage” (WALLON, 1943/1971, p. 262).
Pelo mecanismo do contágio emocional, o indivíduo estabelece uma comunicação imediata com o outro, evidenciando seu caráter coletivo de sintonia afetiva que envolve todos na mesma emoção. É possível observar isso em ambientes onde estão várias crianças: quando uma começa a chorar, provavelmente outras irão acompanhá-la. Isso fala do contágio emocional sobre o meio, promovida pela força da emoção. Essa simbiose com o meio provoca no bebê a satisfação ou frustração das necessidades e, assim, a criança fará associação de determinadas respostas dos adultos.
É possível identificar que a relação professor-aluno é marcada pela ação contagiante das emoções. Em pesquisa realizada por Tassoni (2009), envolvendo alunos de seis anos e quatro professores, constatou-se que a afetividade é um fator determinante na interpretação que os alunos fazem de seus professores e na relação que estabelecem com o conteúdo. Os comentários dos alunos foram organizados em duas grandes categorias, formadas por diversas subcategorias: Posturas e Conteúdos Verbais. Na primeira, os aspectos mais valorizados pelos alunos foram a Proximidade, referindo-se à presença física dos professores perto de seus alunos e a Receptividade, referindo-se à postura dos professores ao se dirigirem aos alunos para atendê-los e ou ouvi-los. Para os alunos, essas são as formas de ensinar, ajudar e tranqüilizar.
Na categoria Conteúdos Verbais, na subcategoria Incentivo, ficou evidente como o incentivo dos professores era importante na execução das atividades dos alunos. Segundo a autora, essas ações dos professores contagiam os alunos e favorecem o processo de ensino e aprendizagem.
Nessa perspectiva, a relação do indivíduo com o outro e com o ambiente marca a formação do eu. Nessa trajetória do desenvolvimento humano, Wallon (1973/1975)apresenta cinco estágios que caracterizam a formação do eu. Em cada faixa etária propõe uma forma particular de interação entre o indivíduo e o ambiente. O desenvolvimento acontece em uma construção progressiva em que se sucedem fases com predominância alternadamente afetiva e cognitiva.
No primeiro ano de vida, o bebê ainda não percebe os limites do seu corpo e a capacidade motora ainda é incipiente, as ações da criança têm por objetivo chamar atenção da mãe ou do substituto para, assim, ter suas necessidades atendidas. Nesse período, a imperícia leva a predominância da afetividade, fase que Wallon (1973/1975) chamou de Impulsivo- Emocional. Devido à sua incapacidade de agir sobre o meio, o bebê fica à mercê de suas emoções. Para Wallon (1973/1975), as atitudes da mãe, tanto de recusa como de consentimento, estabelecem uma comunicação por meio dos gestos e atitudes.
Na fase seguinte, chamada de Sensório-Motor e Projetiva (que vai até os três anos), o bebê passa então a utilizar o corpo para se expressar por meio dos gestos e até mesmo utilizar o corpo para alcançar um objeto que deseja. A expressão do bebê acontece por meio do corpo, pois, ele chora, ri, tenta alcançar os objetos, contrai os músculos em um processo de exploração do meio.
Essa exploração sensório-motora do mundo físico contribui de forma singular para o desenvolvimento e formação do eu. O efeito obtido torna cada vez mais intencional as manifestações emotivas da criança (GALVÃO, 1995). A aquisição da marcha, mesmo que ainda rudimentar, e da linguagem oferecem à criança mais possibilidades de exploração do meio e com, a repetição dos movimentos, a coordenação vai proporcionando novas conquistas. A criança utiliza os gestos e movimentos para expressar o pensamento; a ação motriz regula o desenvolvimento das formações mentais (WALLON, 1942/1978).
Na fase seguinte, estágio do Personalismo, que vai dos três aos seis anos de idade, a criança toma consciência de si por meio das interações sociais, iniciando a formação da personalidade. Esse período traz novamente a predominância dos aspectos afetivos em suas relações. Segundo Wallon (1973/1975), a criança procura não apenas o uso das coisas, mas se apropriar das coisas e esse desejo de propriedade é impulsionado por um sentimento de competição e necessidade de autoafirmação diante do outro.
Esse período é marcado por uma fase negativista que a leva a confrontar o outro apenas com a finalidade de experimentar sua independência e autonomia. A rivalidade com o adulto leva a criança a imitá-lo com a finalidade de impressionar e seduzir o outro. Ela tem
necessidade de ser admirada e assim poderá também se admirar. Ao mesmo tempo em que a criança precisa afirmar-se, precisa também de compreender os limites e aprender a conviver com o outro.
A diferenciação da personalidade inicia no estágio seguinte, chamado Categorial (seis aos doze anos), com o desenvolvimento intelectual, que impulsiona a criança na conquista do mundo exterior. Nesse período, acontece um considerável avanço da inteligência e consolidação da função simbólica com preponderância dos aspectos cognitivos e não mais emocionais como nas fases anteriores. A criança passa a ter mais interesse de agrupar-se e assumir um lugar no grupo, assimilando as regras e tomando consciência de suas capacidades e sentimentos.
No estágio da Adolescência, rompe com a tranquilidade emocional da fase anterior, despertando a necessidade de novas definições dos contornos da personalidade, retomando a predominância da afetividade. As transformações corporais hormonais evocam uma reestruturação da personalidade dando lugar de destaque novamente ao domínio afetivo.
Saindo da adolescência, o jovem adulto precisa também adaptar-se as novas responsabilidades e desafios, conquistar um espaço profissional em busca da independência e autonomia. A passagem de um estágio para o outro não se dá com uma simples soma de progressos, agregando novos conhecimentos aos já existentes. Essas transições acontecem em meio a rupturas, retrocessos, crises e conflitos, que são importantes pra o desenvolvimento do indivíduo e a formação do eu (GALVÃO, 1995).
Não podemos observar as emoções no adulto na mesma ordem que as emoções do bebê. Na fase adulta observa-se que as emoções tendem a serem mais controladas, pois a indivíduo atinge certo equilíbrio entre o intelectual e o emocional. Diante de acontencimentos negativos e mesmo positivos, muitas vezes o indivíduo se sente obrigado a controlar suas emoções. Na fase adulta a experiência emocional será uma combinação do processo avaliatório mental e a resposta dispositiva a esse processo e dirigida tanto ao corpo como ao cérebro ( DAMÁSIO,1996).
Para a teroria walloniana, a ação subjetiva das emoções quando vivida com intensaidade, pode causar um desregulação que restringe a capacidade de percepção do indivíduo, pela redução do funcionamento cognitivo e, assim, o coloca em uma posição considerada regressiva e que dependerá da capacidade cortical para retomar o controle da situação vivenciada.
Segundo Levinson (1974/1978), a vida adulta é marcada pela transição entre estabilidade e instabilidade. Nesses períodos de transição ocorrem mudanças na estrutura do indivíduo, ou seja, na forma de ele se ver a si próprio, o mundo e os outros.
Considerando estes aspectos pode-se dizer que, o corpo é, de fato, o lugar onde se registra a história de vida e se elabora as experiências do indivíduo. É por meio do corpo que a capacidade sensitiva e os relacionamentos com a família, com os amigos, no ambiente de trabalho ou em sala de aula são estabelecidos. O corpo é um importante elemento na prática educativa e, dessa forma, comunica a realidade por meio dos gestos envoltos pela emoção compartilhada.
O papel do outro no processo de aprendizagem é fundamental e as experiências vivenciadas em sala de aula podem proporcionar uma interação entre professor e aluno fortemente mediada pela afetividade. Essa relação de ensinar a aprender, segundo Tassoni (2000), transcorre a partir de vínculos afetivos que se iniciam no âmbito familiar, na relação da criança com o adulto, e, no decorrer do desenvolvimento, vão se ampliando, estendendo-se a outras pessoas. Nesse contexto, surge, então, a figura do professor.