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Uma questão básica deste estudo é que os fatores estressantes atuam nos profissionais despertando angústias, raivas, medos, insatisfações e tristezas. Esses sentimentos puderam ser canalizados a partir de encontros, onde o diálogo compartilhado e a expressão criativa funcionaram como comunicadores das situações conflitivas, como também, território de troca e elaboração das mesmas.

O processo neste trabalho foi muito profundo para todos os participantes. A todo encontro era importante se despir de todos os pré-conceitos, abrir o coração para receber os relatos de fatos delicadamente vividos e sentimentos extremamente profundos que se mobilizavam e emergiam a partir da imagem visual. A importância de cada encontro estava presente na freqüência dos sujeitos, na disponibilidade com que mergulhavam nas propostas, na confiança com que abriam os seus corações e deixavam transbordar os sentimentos. A cada sessão o processo gráfico crescia. Os desenhos de iniciantes, aos poucos, foram evoluindo na sua linguagem, apresentando-se mais amadurecidos, com imagens precisas e diferenciadas, expressando com linhas e cores, sentimentos cada vez mais profundos. Era um espaço onde transitavam não só sentimentos como também reflexões a respeito de crenças de vida e morte, o ato de cuidar frente a situações de sofrimento e a partir daí, todo e qualquer sentimento que viesse à tona. Reinava no espaço um clima de confiança e respeito pela diferenças. Cada sessão era elaborada no decorrer da semana e compartilhada com os companheiros.

Nas diferentes tarefas, o gesto, como ferramenta de construção, possibilitava o desenvolvimento de habilidades de atenção, destreza, paciência. Nos experimentos os participantes percebiam suas possibilidades ou dificuldades em desfazer os seus nós (como no caso do trabalho com a estopa) frente às situações reais vividas em seu cotidiano. Ao mesmo tempo que transformavam seu trabalho com intervenções como cores ou recortes conseguiam elaborar seus conflitos.

Alguns se conscientizavam de posturas cruciais para a sua vida e sua profissão como perceber a importância de levar em conta os sentimentos do paciente durante a sua ação; colocar-se de modo distanciando frente às famílias dos pacientes, sem, contudo ficar insensível à dor; perceber a sentimento que acompanha a morte mas não relacionar com situações familiares próprias.

O profissional vivencia diversos sentimentos nas relações com o doente que variam desde nojo e repulsa até dor e compaixão. O cuidar é sujeito a situações inesperadas, pois nunca se sabe qual será o resultado de cada jornada, pois aqueles a quem estão assistindo

muitas vezes são surpreendidos com a morte ou com o restabelecimento. É muito gratificante para o profissional quando o doente consegue ultrapassar os limites do sofrimento e se restabelece. Infelizmente, na UTI, isto não acontece com grande freqüência, mas cada paciente que sai com vida é uma vitória no embate com a morte.

Os nossos encontros deram a oportunidade de cada participante dividir e trocar com seus companheiros, aprendendo com outras visões e, assim tornando possível transformar a sua imagem de morte. Aos poucos já conseguiam assistir o sofrimento das famílias mostrando-se presente e não fugindo do contato.

A outra questão a que me propus a pesquisar dizia respeito às revelações destes profissionais frente a situações estressantes, nas quais pudemos observar que transitando entre os diferentes sentimentos cada um trazia as suas crenças, inquietações, críticas e reflexões. Os assuntos transitavam entre situações dolorosas e muitas vezes os participantes descreviam estados de doença, que os sensibilizavam pela condição em que o doente era mantido vivo. Nesta situação todos preferiam a morte, pois pensavam que o doente talvez estive numa condição mais digna.

Da morte nasce um outro tema muito explorado por todos que é o espiritual. Esse tema surge da esperança de que a finitude não seja definitiva, pois existe a crença de um caminho “luminoso” a ser atingido após a morte.

Outro assunto explorado é a relação entre os colegas de UTI, deixando muito a desejar quanto ao suporte que podiam esperar dos companheiros por haver equipes que se confrontavam na situação de serviço. As questões ligadas à instituição também tiveram um lugar de destaque em momentos pontuais.

Um fato que a todo encontro me encantava era a disponibilidade apresentada pelos participantes ao manusear o material artístico investindo em descobertas, desafiando limites e ousando em transformar os materiais. Em outros momentos ousavam, recortando a imagem do seu próprio desenho, interferindo com cores que não lhes eram habituais e criando assim uma nova configuração.

Alguns se referiam à competência dos profissionais, e sentiam que havia uma necessidade de que essa fosse cuidada. Percebia-se a preocupação com a eficiência do serviço e alguns, a partir dos nossos encontros buscaram um aperfeiçoamento em educação e saúde. Isto me fez concluir que cada participante do grupo pode usufruir deste processo e obteve algum proveito na sua vida profissional e pessoal.

A arteterapia pode ser uma ferramenta para o fazer terapêutico, na medida em que contribui na revelação e na elaboração dos sentimentos despertados nos profissionais de saúde no contato com os doentes.

É possível que algumas perguntas tenham sido respondidas, mas é provável que muitas outras mais possas ser formuladas. Como por exemplo, a questão de se saber em que medida a experiência em arteterapia, repercutiu nos serviços da UTI, e se este trabalho promoveu alguma ressonância na instituição a partir dos sujeitos que a experienciaram.

De todo modo o que fica como fator fundamental, é que acreditemos na necessidade de oferecer trabalhos como grupos de apoio a esse tipo de profissional. Podemos afirmar, com os resultados desta pesquisa, que a arteterapia muito auxiliou aos profissionais de saúde, pois permitiu que eles expressassem, inúmeras vezes, as suas elaborações e transformações.

Finalmente concluo que com o emprego da arteterapia nesse trabalho, lançou-se mais luz sobre os estressores que atuam nos profissionais de saúde, permitindo com isto a abertura de novos caminhos de atuação no cuidado com o cuidador.

Ilustração 42: Reconstrução. Trabalho de Regina.