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4.1. A enfermagem diante do estresse associado às perdas e ao luto

Na dinâmica do hospital, cabe ao enfermeiro acompanhar, cuidar e acolher, portanto cabe-lhe o contato íntimo e cotidiano com o paciente e seus familiares, situação esta na qual é submetido a todas as pressões e tensões. Em muitas ocasiões, o enfermeiro situa-se entre o doente e o médico vivendo muitas momentos difíceis entre os dois pólos de pressões. (PITTA, 1999).

O trabalho com pacientes, fora e dentro das instituições, pode desencadear sentimentos fortes naqueles que cuidam. Assim, podem aparecer sentimentos considerados como positivos e desejados, como piedade, compaixão e amor, como também sentimentos de conflito, culpa, ansiedade, ódio e ressentimento. O profissional tem muito pouco espaço para tratar destes sentimentos fora das suas casas. Isto acontece devido ao acúmulo de responsabilidades que recaem sobre os médicos e enfermeiros no exercício da tarefa de prover cuidados contínuos aos pacientes (PITTA, idem).

Sabemos que dentro da instituição existe falta de condições de troca (reflexões) entre os colegas. O profissional muitas vezes é tocado nos seus sentimentos pelo vínculo que nutre com o paciente e fica impossibilitado de refletir sobre os sentimentos que emergem; além do mais, muitas vezes, estes sentimentos gerados pela dor e história de cada paciente se acumulam com situações de sua vida pessoal, dificultando mais ainda a elaboração do profissional. Infelizmente, a sobrecarga de atividades e o número reduzido de pessoal impossibilitam um espaço de reflexões e ajuda para trabalhar sentimentos muitas vezes tão contraditórios.

De outro lado, os familiares, bem como os doentes, nutrem sentimentos complicados a respeito das relações com o hospital e muitos desses sentimentos são direcionados aos enfermeiros que os atendem, criando angústias e confusão nos mesmos (1971, MENZIES, citado por PITTA, idem).

Muitos desses fenômenos psíquicos são projetados de forma inconsciente, dificultando ao profissional administrá-los de forma adequada. Daí a necessidade da existência de sistemas que ofereçam cuidados psicológicos aos cuidadores para ajudá-los a perceber os sentimentos, bem como refletir quais seriam as intervenções apropriadas para essas situações. É evidente

que frente a essas situações, muitos dos profissionais, dependendo da estrutura de sua personalidade, desenvolvam sistemas de defesa para melhor lidar com seu mundo emocional.

Pitta (1999) enumera quatro defesas usadas pelo profissional:

1 - Fragmentação da relação profissional e paciente: quanto mais íntimo for o relacionamento, mais o técnico estará propício a experimentar angústia, portanto vale qualquer iniciativa na direção de parcelar as tarefas, para reduzir os tempos de contato do técnico com o doente. Essa fragmentação ocorre na medida que o profissional que não trabalha o seu próprio luto, possa estar protegido, criando uma situação evitativa entre ele e o doente.

2 - Despersonalização e negação sobre a importância do indivíduo: Todos os pacientes são iguais não há uma diferenciação no registro afetivo sobre os pacientes que são atendidos. A idéia de que todos os pacientes são iguais é enganosa, pois não se leva em conta a empatia do profissional com o cliente, como o paciente tocar em sua história de vida e no momento em que está vivendo. “Existe uma ética implícita de que todos devam ser tratados de igual

maneira e que não existem doentes ou doenças que se individualizem e personifiquem” (PITTA, idem, p. 66). Apesar disto sabe-se que o registro afetivo é diferenciado, na medida que a relação empática se estabelece entre as pessoas.

3 - Distanciamento e negação de sentimentos: Os sentimentos devem ser controlados, o envolvimento refreado, as identificações perturbadoras evitadas, formando uma necessária couraça. A atitude de frieza que se instala na atitude do profissional serve de proteção para não haver envolvimento do profissional com o cliente atendido.

4 - Tentativa de eliminar decisões pelo ritual de desempenho das tarefas. A procura de rotinas e padronização de condutas são utilizadas com a intenção de criar um ritual de procedimentos de proteção ao profissional.

5 - Redução do peso da responsabilidade: O sistema de enfermagem utiliza como estratégia o parcelamento e a fragmentação de tarefas diante do cuidado aos doentes como uma possibilidade de reduzir as angústias causadas pela responsabilidade e tomada de decisões impostas pelo serviço hospitalar. O trabalho é organizado de maneira que exista uma linha de definições de funções e uma distribuição de poderes para diluir e criar soluções quanto a projeções e fugas de quaisquer descuido e imperícia

“As enfermeiras, enquanto subordinadas, tendem a se sentir muito dependentes de suas superioras sobre quem elas investem psicologicamente através da projeção” (1970, MENZIES, citado por PITTA, idem).

Podemos perceber que este esquema de organização cria um peso psicológico sobre as superioras e um clima de receio de tomar qualquer decisão para os demais funcionários.

O que isto tem a ver com o estresse?

Para Pitta (1999) estes recursos diminuem o desgaste do profissional, mas mesmo assim não anulam totalmente o estresse. Como a natureza deste trabalho está ligada em atender a dor, o sofrimento e a morte isto interfere na produção de sintomas psíquicos. Além do mais é considerado uma tarefa insalubre e perigosa promovendo alguns problemas de saúde e alimentando a situação de estresse.

4.2. A morte na UTI como fator de estresse

Segundo Meneses (2002) é na UTI que se desenvolvem recursos da Medicina Intensiva, cuja característica principal é cuidar do doente cuja condição fisiológica se intensifica ou se deteriora. O paciente da UTI e os procedimentos da terapia intensiva geram diversos fatores potencialmente estressantes no profissional que está exposto a esta situação.

O cuidar dos doentes gravemente comprometidos e lidar com a morte não são os únicos elementos que provocam o estresse para estes profissionais, como podemos ver neste quadro organizado por Zimmermann e Bertuol, (2002):

Estressores numa equipe de UTI Médicos

Privação do sono. Sobrecarga de trabalho.

Longos períodos de trabalho ininterruptos. Cuidados em função de alta tecnologia. Lidar com a morte. Lidar com pacientes crônicos/severamente doentes.

Sentir-se responsável pela família do paciente.

Ser exposto a doenças contagiosas e /ou fatais.

Sentir-se sem capacidade ou inseguro. Realizar procedimentos complexos e invasivos.

Ser sobrecarregado de informações. Ter problemas financeiros.

Ansiedade sobre má prática. Enfermeiros

Ter pouco tempo para lidar com as necessidades emocionais.

Lidar com a morte.

Lidar com prolongamentos excessivo de vida.

Providenciar cuidados com alta tecnologia. Ter horários imprevisíveis.

Estar submetidos aos distúrbios ambientais (barulhos).

De outro lado o ato de viver e morrer faz parte da vivência do homem na relação com o mundo, mas traz consigo situações de perda, dores e sentimentos que estão fora do nosso controle. Diante disto podemos dizer que essa escolha do profissional não acontece por acaso, portanto esta pessoa deve possuir algumas características de personalidade que o encaminham para tal opção, pois cada enfrentamento com a morte afeta as atividades do cuidador no que se refere à vida afetiva emocional.

Muitas vezes o paciente internado desenvolve vínculos afetivos com a equipe, de maneira que a relação se amplia de profissional para pessoal fazendo com que a luta pela vida seja batalhada e desejada.

Bromberg nos fala “que a chave para aprender a lidar com a morte está em saber

como lidar com a vida, uma vez que a morte é parte inextrícável da vida” [a morte do outro nos faz lembrar que] “somos todos mortais” (1997, p. 5).

Considerando como princípio importante para a formação do profissional a necessidade do mesmo ter como tarefa de vida discriminar e elaborar suas perdas pessoais, Bromberg (idem) nos sugere grupos que tenham como objetivo compartilhar os momentos difíceis com a equipe de maneira que ao circular a dor da perda, possa também evitar o estresse.

O que poderia desenvolver como mediação qualitativa junto a estes profissionais promovendo o seu poder criativo?