• No results found

Samira, outra entrevistada, salienta que “Acreditar na escola pública significa não desqualificá-la. Uma boa parte de minha educação foi na escola pública e não acho que tive uma formação ruim”.

Auxiliar de escritório de um frigorífico, a universitária Samira construiu a trajetória escolar – Educação Infantil ao Ensino pós-Médio – na escola pública.

Solteira e vivendo em casa própria, com mais quatro pessoas, afirma que sempre gostou de estudar. Nas atividades diárias, cumpre uma jornada de 12 horas de trabalho e estudo. Ela afirma que tem de organizar muito bem o tempo, para conseguir cumprir todas as atividades exigidas tanto pelos professores da faculdade

em que estuda quanto no trabalho. Para desempenhar bem seu papel como estudante de um Centro Universitário, reserva um tempo para estudar quando chega a casa, após o término das aulas, às 22 horas.

Na organização da agenda incluiu leituras diárias, consulta à internet no horário de almoço e o desenvolvimento dos trabalhos da faculdade elaborados também aos sábados. O domingo reserva para passear e namorar. Indicada por unanimidade como uma aluna “exemplar” pelos docentes da instituição universitária em que estuda, ela afirma que sempre quis cursar o Ensino Superior.

O Ensino Superior sempre foi uma vontade minha; eu sempre gostei muito de estudar mesmo. Eu sempre vivia falando pra minha mãe: vou fazer faculdade, quando nem entendia direito o que era faculdade. Eu sempre tive vontade de estudar, de conhecer mais. É uma questão que tem relação com o conhecimento. Querer saber mais.

Alguns alunos enxergam o curso superior como extensão da ascensão social e de acesso ao conhecimento elaborado; entretanto, uma questão com que as pesquisas acadêmicas deveriam se ocupar seria analisar como o conhecimento tem sido produzido nas instituições universitárias. Essa preocupação está relacionada ao fato de Semeraro (2001), refletindo sobre o pensamento de Gramsci no tocante à transformação da consciência das classes populares, ter identificado que os elementos de ruptura e de superação em relação à concepção dominante só se viabilizarão por meio do conhecimento. Gramsci coloca, assim, o conhecimento na esfera da libertação do indivíduo quando afirma que a conquista de um conhecimento crítico, criativo e autônomo é crucial para a liberdade e a afirmação do projeto político dos setores subjugados.

Samira enfatiza que um aspecto positivo na trajetória de vida é o reforço positivo recebido da mãe em todos os projetos que empreende. Essa postura contribuiu para a construção da própria autonomia. Ela reconhece que o pai age de forma diferente, uma vez que é uma figura ausente em seu cotidiano, ao contrário da mãe, uma grande incentivadora de seus projetos pessoais.

Minha mãe tem papel muito importante em minha vida. Ela nunca foi de ficar fazendo cobranças, mas vibra muito com todas as minhas conquistas, com todos os meus êxitos. Quando passei no curso técnico e quando consegui a bolsa do Prouni, ela até chorou.

A mãe da estudante é referência, pois dela recebe confiança, segurança e incentivo.

Samira destaca a importância da escola pública na vida dela ao relatar:

Existe uma desqualificação da escola pública, como se ela não ensinasse nada, como se você saísse de lá totalmente despreparado. Este não foi o meu caso, eu aprendi muito lá. Acredito muito na escola pública. Às vezes, a gente encontra professores desmerecendo a escola pública, inclusive os alunos. Quando me formar, quero trabalhar na escola pública, ou como professora ou como gestora, ainda não defini. Uma coisa é certa, quero ajudar a recuperar o conceito da educação pública.

Como era de se esperar, todos os alunos desta pesquisa tiveram uma trajetória escolar marcada pela experiência de processo de ensino e aprendizagem na escola pública básica. Não queremos apontar o dedo acusativo contra essa instituição de ensino, ao contrário, sabemos que ela também tem altos e baixos, pois sempre esteve à mercê de políticas descontínuas. É certo, que ainda sentimos reflexos de um processo de sucateamento (em todos os sentidos) da política da década de 1990, que foi particularmente pródiga na permissão de uma concepção privatista na educação brasileira.

Ao se referir à tentativa de seleção no vestibular de uma universidade federal, ela comenta:

Eu terminei o Ensino Médio e iniciei o cursinho. O meu primeiro vestibular foi para o curso de Administração na UFMG. Não gostei muito do cursinho, ele era fraco, mas sei que para passar na federal é muito difícil, por isso minha classificação não foi boa.

Samira complementa:

Para passar em uma universidade pública precisaria de mais conhecimento mesmo. Eu não me achava preparada até então. E nem o cursinho me ofereceu esse mais. Até por uma questão financeira, pois um cursinho que lhe possibilite uma nota boa na UFMG, por exemplo, é mais caro.

O acesso ao Ensino Superior privado é explicado da seguinte maneira:

Por saber que é mais difícil ser aprovada em uma universidade pública, optei pela faculdade privada mesmo sabendo das dificuldades de arcar com as despesas financeiras. Eu não queria perder tempo.

No primeiro ano de faculdade, consegui a bolsa do Prouni, pois fiz o Enem neste período. Eu não acreditava que seria possível receber a bolsa. Esta bolsa representa muito, pois era muito difícil arcar com a mensalidade, eu é que pagava, o dinheiro que recebia era só para pagar a faculdade. Meus pais me ajudavam com outras coisas. O Prouni foi fundamental em minha vida. Eu considero êxito pessoal ter conseguido esta bolsa, pois o meu resultado no Enem foi muito bom. Minha prova de redação foi ótima. É muito bom ser reconhecida pelo meu esforço.

A fala de Samira sobre as dificuldades para pagar a mensalidade e, posteriormente, ter conquistado uma bolsa do Prouni traz subjacente o significado do Programa Universidade para Todos na vida dos alunos de baixa renda. Outro aspecto que deve ser destacado é o sentimento de valorização que essa universitária nutre pela escola pública ao confirmar o seu bom desempenho nas avaliações do Enem.