Atualmente com 27 sete anos e cursando o 8o período de Pedagogia, Ângelo
é filho de uma costureira que cursou as séries iniciais da Educação Básica. Órfão de pai, é o primeiro de toda a família a ingressar no Ensino Superior.
Na data da entrevista, Ângelo trabalhava em duas escolas públicas, uma na cidade de Santa Luzia e outra em Belo Horizonte, como coordenador do Projeto
Jovem de Futuro, financiado pelo Instituto Unibanco. Conveniado com a
Universidade Federal de Juiz de Fora, o projeto tinha por objetivo capacitar os estudantes a monitorar os resultados de seus desempenhos nas provas do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb).
As atividades de Ângelo envolviam assessoria e coordenação do projeto, dando ênfase à melhoria da proficiência da Língua Portuguesa e da Matemática dos alunos do Ensino Médio.
Por considerar importante o universitário construir uma rede de relações e conhecimentos, Ângelo conta que foi por meio do site do sistema de gestão acadêmica da instituição na qual estuda que teve acesso às informações de disponibilização das vagas do instituto em que trabalhava.
Eram três vagas; lá não diziam que era para trabalhar na coordenação no Projeto Jovem de Futuro. Eu me interessei e fui para o processo seletivo. A consultora representante da Universidade Federal de Juiz de Fora percebeu que o meu perfil era adequado para as atividades. Este é o meu segundo ano, pois tive o meu contrato renovado.
O entrevistado está convicto que esse projeto tem um significado especial para os alunos de baixa renda, porque representa a chance deles permanecerem na escola, com sucesso. Neste momento, Ângelo relaciona a análise que faz à condição de bolsista. Nesta perspectiva, entende que, pelo fato de ser um aluno de bom desempenho acadêmico, fez surgir a chance de ser contratado para trabalhar no projeto como assessor e coordenador. Por isso, discorda das avaliações que consideram o Prouni um programa que garante apenas o acesso:
As pessoas dizem que o Prouni dá a bolsa, mas o que é importante é manter o aluno na universidade. O que eu acho é que, recebendo a bolsa e se empenhando, as oportunidades aparecem, as portas começam a ser abertas. No meu caso, o Instituto Unibanco me abriu oportunidade; não porque eu sou aluno do Prouni, é porque eu sou um bom aluno dentro da minha universidade.
Nas entrevistas, identificamos que os jovens beneficiários do Prouni têm uma relação ambígua com o Programa. Reconhecem a sua importância, admitem até que se não fosse por ele não estariam cursando o Ensino Superior. Mas, não é incomum identificarmos alunos que por vezes escondem sua condição de bolsista. Esse tipo de postura pode ter relação com questões como o estudante não querer expor a condição social ou estar sempre sendo cobrado pelo seu desempenho; entretanto, observamos. nas três instituições universitárias focalizadas nesta pesquisa, que os alunos Prouni são os que mais se destacam em sala de aula.
É possível que a avaliação do universitário sobre a importância de ter conseguido uma vaga no Prouni em uma instituição de qualidade se relacione com o desejo de aprovação em uma universidade pública, pois:
Eu estava muito tempo parado no Ensino Médio. Assim, fiz um cursinho pré-vestibular, tentei federal; eu só queria esta instituição no período. Infelizmente, não deu porque eu precisava de mais conhecimento. No cursinho, assim como no Ensino Médio, não tive o reforço necessário.
Ângelo também comenta sobre as defasagens pedagógicas na formação no Ensino Médio:
A escola pública tem suas limitações. A gente tem muita defasagem de conteúdo, pois às vezes eles só constam no livro do professor. Em alguns casos, você tem que caminhar com suas próprias condições, tendo como nota máxima 60 pontos. Às vezes o professor ajuda e acaba lhe aprovando. Se você conseguir 58 pontos, no conselho de classe o professor lhe ajuda. Deparei com minhas deficiências lá no cursinho e, como o conteúdo do vestibular da UFMG é puxado, não deu para passar.
O estudante reporta-se às dificuldades que teve de enfrentar na trajetória na escola pública. Chega mesmo a culpá-la e aos professores que lá ensinam; entretanto, essas questões demandam análises mais amplas das políticas propostas pelas várias esferas governamentais a um projeto de educação que encare o aluno como sujeito de direitos plenos, sem balizar pela origem de classe, conforme afirma Arroyo (2004).
Para Ângelo, a bolsa do Prouni também garante o acesso da população de baixa renda a uma universidade de qualidade, pois:
Financeiramente, eu nunca teria a mínima condição de fazer uma universidade. A minha família não tem condição financeira favorável. Estou sendo o primeiro da minha casa e de toda a família (avós, tios e primos) a ter acesso ao Ensino Superior e de qualidade. Em meu trabalho, ganho pouco mais de um salário mínimo. Eu não teria como manter a mensalidade, a minha passagem, o meu lanche, o meu xérox, um livro ou outro que tenho que comprar.
A pontuação obtida por Ângelo no Enem possibilitou-lhe o acesso a uma universidade em Belo Horizonte; entretanto, ele argumenta que o estudante tem de se preocupar com a instituição na qual pretende estudar, porque:
Algumas instituições superiores ficaram assim..., vou usar a palavra “prostituídas”. Elas quase que pescam os alunos, facilitam o ingresso
através do vestibular agendado, análise de currículo e outros “n” fatores. Você faz um processo seletivo do Enem e eles descobrem que você fez, aí lhe oferecem uma bolsa, um incentivo para você entrar mesmo sem prestar vestibular. Eu não precisei destes recursos. Utilizei minha motivação e os bons resultados conseguidos no Enem.
Considerado destaque acadêmico no curso, o universitário fala da inserção acadêmica no Ensino Superior:
Hoje no Ensino Superior posso comparar a minha Educação Básica foi um fiasco. Quando fui aprovado no Enem, fiz um compromisso comigo e com as pessoas que vivenciaram aquele momento comigo: “Vou me dedicar exclusivamente ao que estou fazendo, mesmo trabalhando”. Não foi fácil, eu ficava muito cansado fisicamente, porque além do trabalho eu levava três horas para chegar à universidade. Mesmo assim, me dediquei e me tornei destaque acadêmico.
Ângelo revela que a troca de experiências é importante para o bom desempenho acadêmico:
No primeiro período, eu fui uma pessoa muito reservada, de pouca conversa. Eu até participava porque acho que o aluno não pode se excluir, ele tem que contribuir. Acho que tive sucesso porque entrei em um grupo que tinha uma colega com muita experiência. Ela já tinha feito outra faculdade, assim ela me ajudou muito. Aprendi a discutir trabalho em grupo, consegui fazer uma leitura crítica dos fatos. Eu antes não tinha essa compreensão, pois a escola tradicional ensina que você deve manter uma distância do seu professor.
O universitário então se descobriu como sujeito do processo educativo:
O professor é importante, mas ele não é a figura central do conhecimento no processo de ensino e aprendizagem. Eu tenho que saber que o professor é um instrumento de ajuda para minha transformação. Quando penso nos conhecimentos que terei que dominar em minha profissão, acho fantástico saber que a figura central do processo educativo sou eu, pois também faço história.
Ângelo trabalha com o princípio de que no processo de ensino-aprendizagem, o aluno deve ser visto como protagonista e não como coadjuvante. A proposta pedagógica que coloca o sujeito no centro do processo educativo encontra em Freire (1996) sua expressão maior. Para esse educador, na prática de uma educação que visa à autonomia, uma das tarefas mais importantes é possibilitar condições para que os educandos possam “assumir-se”. Isso envolve assumir a condição sócio-
histórica, a condição de ser pensante, comunicante, transformador, criador, sonhador, que ama e sente raiva.
A tese freireana explica por que Ângelo afirma que as escolhas feitas pelo sujeito durante o processo de formação exige que o aluno tenha consciência dos objetivos que pretende alcançar.