Como foi mencionada no item anterior, a posição sexual desempenhada nos programas é uma questão relevante tanto para os michês, quanto para os clientes, uma vez que a existência da dicotomia ativo-passivo ressalta a relação “macho- fêmea”, presente na lógica binária da concepção de gênero. Quase sempre cabe ao cliente ser o “passivo”, aquele que é penetrado, enquanto o michê desempenharia a posição de “ativo”, penetrador, retomando, desse modo, “à lógica da dominação simbólica estabelecida nas relações heterossexuais” (FÁBREGAS-MARTÍNEZ, 2000, p.76). Assim, a persistência de afirmação do michê enquanto sujeito ativo da relação sexual “inscreve-se em um sistema classificatório hierárquico ou popular, que divide os varões participantes de relações homossexuais segundo sua posição (esperada) no coito, em macho ativo e bicha passiva”. (PERLONGHER, 1993, p. 140). Trata-se de uma visão hierárquica, pois subentende que os homens se relacionam com as bichas, que estariam em segundo plano, sendo que a carga maior de preconceito recairia sobre as mesmas, enquanto o homem em questão não perderia sua virilidade ao se relacionar com elas.
Segundo Gontijo (2004), essa classificação produz o que se poderia chamar de imagens identitárias, modelos categoriais que podem definir um mesmo sujeito em momentos ou locais diferentes, dependendo da performance ou da sobreposição de papéis. Contudo, faz-se necessário diferenciar o desejo e a identidade para que se possam compreender as práticas sexuais de homens que não se identificam como “homossexuais” ou “bissexuais”, nas relações sexuais “ativas” com outros homens (WEEKS, 1995; PARKER, 2002).
A noção de “homem”, além de se constituir em oposição à de “mulher”, se constitui também por contraste com outras categorias como as de “viado” e “bicha” (PARKER, 1994). Essa característica, em que “atividade” e “passividade” no ato sexual podem corresponder a “firmeza” e “submissão”, respectivamente, encontra- se em relatos de alguns michês como Felipe, que assim justificou sua recusa em fazer o papel passivo:
[...] eu não faço passivo por três motivos: primeiro, porque não dá certo para mim essa história. Tenho amizade aos meninos que fazem isso, mas eu não faço. Quando um cliente me aborda eu já aviso: “sou ativo”. Outro motivo é porque tenho namorada e tenho medo de fazer passivo e daqui a pouco eu começar a rebolar o traseiro, a desmunhecar, e aí como é que fica com a minha namorada? Então, eu não posso deixar o meu trono de homem macho. E [o] terceiro [motivo é] porque se um cliente gostar, ele pode não querer largar o osso e pagar mais e eu ir me envolvendo, porque, como os meninos dizem, isso é uma peste, vicia, deixa o caro lesado mesmo. Então, prefiro ser mesmo o que sou, do meu jeito, assim está bom demais. (FELIPE).
Essa resposta vai ao encontro de padrões culturais brasileiros e especialmente nordestinos, que exaltam a condição de “cabra macho, sim senhor”, ou seja, uma representação da masculinidade na qual se valorizam a força, agressividade e potência sexual35
. Além disto, reflete uma percepção do homoerotismo comprometida com a concepção de papéis de gênero, onde o “passivo” é identificado como “feminino” e, portanto, menos valorizado (FRY, 1982).
Contudo, faz-se necessário reiterar que atividade e passividade não possuem fronteiras absolutas; ao contrário, são objeto de negociações, onde, no caso brasileiro, se construiu culturalmente a dicotomia bicha-bofe. Apesar de as fronteiras não serem absolutas, a relação ativo/passivo coloca limites nas maneiras como se constroem as interações. Neste sentido, Almeida adverte:
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Em um grupo de michês, todos sabem da possibilidade de inversão de papéis no ambiente privado, mas isto não pode, nem deve ser comentado nunca. Torna-se segredo do grupo. Caso algum deles diga algo a respeito, este membro deve ser desligado imediatamente, pois ele não era um “verdadeiro homem”, um “verdadeiro michê”, mas um “bicha disfarçado” e este comentário pode prejudicar o grupo como um todo, tornando público o seu “segredo indevassável”. (1986, p. 86).
De fato, o garoto de programa sempre se apresenta como viril, penetrador ou ativo, mas em algumas ocasiões pode desempenhar a função passiva. Essa postura sexual, no entanto, não deve ser verbalizada para os outros michês nem para os clientes, para não haver perda de prestígio no ramo de atividade sexual. Ser “passivo” significa não só perdas simbólicas, mas redução da demanda de clientes, pois há os que não aceitam “michê que faz tudo”. Essa atitude não é tão rígida na privacidade, pois quando algum cliente manifesta o desejo de penetrar o michê, a negociação poderá quebrar a regra, dependendo da oferta proposta:
Tem cliente que chega pra você e pergunta: “você faz tudo”? Aí você responde: “não, eu não faço tudo, eu sou ativo; eu só faço isso e isso”. [...] acho que se deve dizer tudo na entrevista, numa conversa [...] Então, se você disse [que] faz tudo ou se você só faz o ativo, então você tem que fazer o seu papel que você mostrou. [...] existe realmente a pessoa que chega e diz: “ah! você não faz passivo.” “Não, eu não faço passivo, só faço ativo”. “Oh!, pois então eu vou lhe dar mais uma grana e você vai fazer, vai virar as costas e vai ser a minha mulher”. Existe isso sim, mas eu acho que um profissional do sexo, pelo tempo que vivo, eu acho que eles fazem tudo. [...] Existe de você gostar do cliente, você entra na onda dele, existe também de você sair com o cliente e você gostar dele, eu acho que está em fazer em cima do profissional e do contrato que você fez. Eu já saí com cliente que, quando chega a minha vez, eu faço tudo. (Rafael).
Quando se encontram em situação financeira difícil, algumas vezes até sem ter o que comer, os garotos aceitam realizar programas com posições de penetrativo e receptivo, bem como performances de gênero (gestualidades consideradas como masculinas e femininas). Assim, articulam desejo, prazer e excitação de modo diferenciado daquele apresentado pela maioria dos michês como o status de “homem de verdade”: masculino, ativo e viril. Como disse um dos garotos entrevistados,
Quando a coisa está preta, não tem nem para o “rango”, aí a gente tem que partir para o tudo ou nada. Se o cliente for bom de bolso, a gente canta o hino nacional, tem até vontade de enrolar a cara da safadona na bandeira do time, mas aí não pode e mete bronca. A gente aí é obrigada a fazer aquilo que o sujeito quer, não tem essa de ser isso ou aquilo. Essa história de ser só na posição tal é para michê que tem papai com grana, comida na mesa, cama e lençol limpinhos para dormir e uma mamãezinha para dar
uns trocados. Não é o caso de nenhum de nós aqui que tem que ralar, batalhar muito dia e noite, faça sol ou caia chuva. (Felipe)
A procura por determinadas formas de relacionamento sexual por parte dos clientes determina em larga medida as configurações da prostituição viril. Nas palavras de Simões (2008, p. 543),
As interações entre michês e seus clientes com vistas à procura e escolha de parceiros sexuais não faria [sic] mais do que refinar a combinação de acaso e cálculo, desejo e interesse, como aspectos constitutivos e indiscerníveis da deriva da paquera.
É em atendimento ao desejo dos clientes que a prostituição viril se organiza e acontece, fazendo deles personagens importantes em qualquer discussão que se refira ao assunto.
A masculinidade e os espaços territoriais na prostituição masculina são fluidos, não revelando fronteiras fixas, definidas, em diferentes contextos sociais. Contudo, é importante lembrar que se trata de negociações amparadas e justificadas pelo dinheiro. Assim sendo, para alguns profissionais do sexo, ser “passivo” significa se adequar às necessidades da clientela, daí se traduzir na busca do ter, da ascensão e da permanência no mercado, cada vez mais competitivo.
Perlongher (2008, p. 219) ressalta que a relação entre o dominador e dominado, presente na díade michê/ativo e cliente/passivo, consiste num intercâmbio econômico com regra prescrita: “o passivo é quem paga e o ativo é quem recebe”. Contudo, mesmo quando se permitem ser “passivo”, os garotos são pagos e continuam a afirmar sua masculinidade. Quando o programa termina, é como se a experiência pudesse ser apagada e tudo seguisse o seu curso:
[...] depois, saindo daquele inferno, chego em casa, tomo um bom banho, me alimento de alguma coisa e durmo um pouco. Depois, quando acordo, vou namorar uma gatinha superfeminina, com essa sim, eu faço tudo, não quero um centavo, é só love, love, love. (Felipe)
Assim, depois de aceitar um papel considerado inadequado à sua condição de prostituto viril, ele sai desse “inferno”, mergulha no sono e acorda para uma relação heterossexual. Para se reassegurar de sua identidade masculina, procura “uma gatinha superfeminina”, com quem a relação amorosa é completa, gratuita e regida por “love”.
Pode-se então pensar que, em se tratando de sujeitos envolvidos na prostituição viril, onde o desejo pelo prazer é negociado, a necessidade dos
prestadores desse tipo de serviços, em determinadas ocasiões, leva-os a romper limites. Em momentos como esses, a sexualidade os permite circular por diferentes tipos de relações.
Em suma, nem sempre os michês são “ativos” no intercurso sexual. Como disse Carrara (2005, apud BRAZ, 2010, p. 133), “para alguns, por aumentar o preconceito, a feminilidade parece politicamente incorreta nos homens. Para outros, deve ser cuidadosamente policiada pelos que se aventuram no mercado dos afetos e paixões”. Portanto, cada ser humano tem um jeito próprio de lidar com sua sexualidade, de escolher suas parcerias, de manter seus relacionamentos sociosexuais. Assim, a ambivalência prevalece.