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A rua e os espaços públicos, em geral, são os locais mais procurados para a prática da prostituição, pois seu uso é gratuito e suas características de acesso livre e movimento potencializam o encontro com clientes e a realização de programas. Embora as áreas de prostituição organizada se encontrem espalhadas por diferentes espaços das grandes cidades, tendem a se fixar no centro e na sua circunvizinhança, onde é intenso o fluxo de pessoas, e a presença de multidões favorece o anonimato (SILVA, 2011).

Convém ressaltar, embora não seja objeto deste estudo, que a prostituição desenvolve-se também em recintos fechados, onde se encontram profissionais do sexo que podem ser contactados pessoalmente, por telefone ou internet. Mais comum ainda é procurar por garotos (ou garotas) de programa em saunas, casas de massagem para executivos e em agências especializadas nesse tipo de serviço. A ambiência sofisticada, os preços, as formas de negociação e de pagamento têm características muito diversas da prostituição de rua, estudada aqui mais detidamente.

Em verdade, pode-se dizer que os michês que dependem da batalha nas ruas correspondem ao segmento mais exposto à violência, pois a rua “é o lugar onde o homem comum aparece ora como vítima, ora como figura intransigente e subversiva” (RIBEIRO, 1997, p. 88). Por vezes, são garotos que não têm acesso a recursos que lhes permitiriam tornar seus corpos mais atraentes para esse mercado.

Outras vezes, deixaram de ser aceitos nos ambientes fechados de prostituição devido ao envolvimento com drogas, problemas de saúde ou em virtude de terem perdido atributos físicos que os tornavam desejáveis. (RIBEIRO; MATTOS, 1996).

Assim, na hierarquia existente entre os modos de exercer a prostituição, os que dependem das ruas centrais para encontrar clientes ocupam um patamar subalterno. Simbolicamente, à rua associam-se as figuras dos “meliantes”, “pilantras” e “marginais em geral” (Da MATTA, 1987, p. 60). Nela, os indivíduos estão sozinhos, não podem contar com a solidariedade de estranhos e estão expostos a perigos de todo tipo. Para os michês, não se trata apenas de estereótipos, pois têm sua vida exposta, criminalizada, assemelhando-se à “vida de homens infames” (FOUCAULT, 2006).

Os trabalhadores do sexo estão cientes de que a rua é um local onde correm riscos: “é o lugar de se paquerar, arranjar programa, conseguir um dinheiro, mas, também, do perigo, da polícia e de gente ruim”, afirma Rafael. Embora cientes dos riscos e perigos que os aguardam, eles se jogam nas ruas e enfrentam o medo, o estranho e desconhecido:

A rua representa o meu meio de sobrevivência, porque sem ela eu não sobreviveria, pois de onde eu iria tirar o dinheiro para o meu alimento, para as minhas necessidades se não fosse a rua? Então, se não fosse a rua eu teria que achar outra coisa. Por isso, a rua é o meu chão e a minha vitrine. Nela me mostro, sou visto, sou desejado. Pra mim, representa isso – um meio de vida, de sobreviver. (Marley).

Para conhecer a trajetória realizada pelos praticantes da prostituição no Centro da cidade, utilizei as categorias “manchas”, “pedaços” e “circuitos”, propostas por Magnani (2002), para o entendimento de práticas de lazer na metrópole. Para esse autor, manchas são “áreas contíguas do espaço urbano dotadas de equipamentos que marcam seus limites e viabilizam – cada qual com sua especificidade, competindo ou complementando – uma atividade ou prática predominante”. (2002, p. 22). A denominação de mancha aplica-se às áreas que englobam estabelecimentos e serviços que dão suporte a um estilo de vida e que se complementam ou, não raro, concorrem entre si pelo mesmo público.

Neste sentido, o espaço delimitado pela localização de ruas, praças, bares, boates, cinemas e outros equipamentos frequentados por profissionais do sexo e seus clientes pode ser considerado uma mancha de prostituição, caracterizada pela concentração de atividades ligadas a tal fenômeno. Note-se que tal espaço não é

necessariamente um gueto, pois nele localizam-se equipamentos, edificações e vias de acesso utilizadas por um público mais amplo. Muitas vezes, como será visto no Capítulo 5, um conjunto de estabelecimentos e trechos de logradouros públicos, conhecidos como territórios de prostituição em determinados dias e horários (sobretudo à noite e nos fins de semana), são frequentados por outro tipo de pessoas no chamado horário comercial, como os empregados no comércio e em serviços. Daí a relevância do conceito de “pedaço”, proposto por Magnani (2003) para o estudo do lazer na periferia e em áreas centrais de São Paulo. Tal conceito permite trabalhar a noção de identidade social e territorial de uma forma não essencialista, pois os sujeitos se definem por gostos, símbolos, valores, hábitos de consumo e modos de vida que se assemelham, sem que lhes sejam inerentes. Em outras palavras, eles se reconhecem pela identificação de preferências, hábitos e expressões culturais compartilhadas (grupos funk, afro, veganos, gay, travestis, michês, prostitutas etc.). Entre os elementos dessas identidades está justamente a frequência a determinados lugares ou “pedaços”, que servem como “ponto de referência para distinguir determinado grupo de frequentadores como pertencente a uma rede de relações” (MAGNANI, 2002, p. 22).

O conceito de circuito aplica-se ao conjunto de equipamentos e espaços que ofertam determinados serviços e concentram certas práticas, mas não se localizam de forma contígua. Sua articulação se dá por meio de itinerários feitos por seus frequentadores, que transitam de um para outro local em busca de variedade, mantendo, porém, o mesmo objetivo. Esse trânsito facilita o exercício da sociabilidade e, no caso dos prostitutos, constitui uma estratégia para facilitar o encontro de parceiros e maximizar as oportunidades de programas. Trata-se de

uma categoria que descreve o exercício de uma prática ou a oferta de determinado serviço por meio de estabelecimentos, equipamentos e espaços que não mantêm entre si uma relação de contigüidade espacial, sendo reconhecido em seu conjunto pelos usuários habituais: por exemplo, o circuito gay, o circuito dos cinemas de arte, o circuito neo-esotérico, dos salões de dança e shows black, do povo-de-santo, dos antiquários, dos clubblers e tantos outros. (MAGNANI, 2002, p. 23-24).

Ainda segundo esse autor, os conceitos de mancha, pedaço e circuito não abarcam as dimensões da segregação e as lutas simbólicas pela apropriação do espaço. Estas categorias procuram dar conta do sentido de implantação e utilização de aglomerados, de estabelecimentos e serviços na paisagem urbana, dialogando

com concepções renovadas de territorialidades itinerantes e flexíveis (MAGNANI, 1996). Assim, existem diferentes circuitos para os que vivem da prostituição viril, em diferentes espaços. Seus atores sociais são agrupáveis não só pelo comportamento sexual, mas pelo estilo e pelo modo como manifestam suas preferências sexuais. Como assinala Momesso (2008, p.188), “existem áreas dentro da cidade que independentemente de seus respectivos projetos oficiais servem a grupos que as subvertem, adotando normas, condutas, valores e atitudes muitas vezes oposta aos esperados42

”.

A fim de observar a produção do espaço interdito, a circunscrição do território da prostituição masculina viril, consequentemente, a instituição do “negócio do michê” a partir de suas distintas espacialidades, parte-se da concepção de território como espaço apropriado por meio de relações de poder que têm uma dinâmica muito tensa e, ao mesmo tempo sutil, como já foi salientado. Essa dinâmica entretece o espaço da prostituição masculina marginal no centro da cidade, de modo que se instituam posições insider/outsider em um território que é simultaneamente instituído e instituínte do poder dos sujeitos envoltos nas práticas prostitutivas, bem com dos demais sujeitos que com eles se relacionam. Um território constituído, portanto, por separação/conexão entre eu e o outro diferenciado, marginalizado; ou entre o centro e a margem de relações de poder a envolverem sexo, gênero e prostituição.