Existe, no Centro da cidade, uma ambientação ampla, na qual os profissionais do sexo se sentem mais seguros para o nomadismo, o agenciamento e desempenho de suas funções prostitutivas, permitindo que se visualize a existência de uma relação de proximidade entre corpo e espaço – espaço este que “é vivenciado e interpretado de formas distintas pelos diferentes grupos sociais” (SILVA, 2007, p. 135).
A boate Sereia encontra-se nesse pedaço da cidade e é o maior equipamento de lazer noturno para segmentos homoeróticos, com festas animadas por DJs, shows com top drags, muito som, bebida e “pegação”. Geralmente, as festas terminam ao amanhecer, todos os sábados. Aos domingos, começam e terminam mais cedo: por volta das 21h os frequentadores começam a chegar, e saem antes da meia noite.
Ao lado da boate, situa-se o Bar Mercúrio, frequentado por um público de homens e mulheres, com idades variadas. No interior do estabelecimento, sente-se um forte odor de cigarro, bebida, suor e urina, principalmente nas proximidades do banheiro, onde lixo se acumula, atraindo insetos. No interior deste, alguns homens relacionam-se sexualmente.
Quase em frente ao Mercúrio, situa-se o bar Lulas, também conhecido como o “bar do Romeu”. Durante os dias de semana, atende a um público comum, porém às sextas-feiras e aos sábados, das 22h às 6h, o bar conta com maior frequência homoerótica. Em mesas para quatro pessoas, ocupando a calçada, homens e mulheres bebem, fumam, conversam e dançam, preferencialmente, ao som de Fábio Jr., Alcione e Ivete Sangalo. Casais igualitários masculinos e femininos paqueram, “ficam”, namoram ou saem para moteis próximos.
Indo-se para a Av. Duque de Caxias, na esquina com a Rua Floriano Peixoto, encontram-se o Super Bar e a poucos metros dali, o Big Lanches, já mencionados. O primeiro, quase sempre, encontra-se lotado, inclusive durante o dia, quando funciona um self-service. À noite, muitos clientes ocupam mesas espalhadas pela calçada, facilitando a aproximação daqueles que transitam na avenida. Nele se
pode encontrar um público homoerótico: travestis, lésbicas, gays e outros, inclusive, os michês. Estes chegam, quase sempre, sozinhos. Discretamente, passam a observar os presentes, aproximam-se dos homens com mais idade, na tentativa de “dragar cliente”. Minutos depois, sentam-se à mesa, tomam uma bebida, conversam e, em seguida, sai um, e depois o outro – o negócio foi acordado na invisibilidade, para quem o desconhece. No jogo, esse ritual faz parte da “sociabilidade marginal”.
No bar e restaurante Big Lanches, bem próximo, a movimentação é maior ainda, inclusive por ter dimensões mais amplas. Nele também funciona, durante o dia, um self-service logo na sala de entrada, com balcão, mesas e cadeiras. Saindo desse espaço, por um corredor se chega à parte interna, onde se encontram mesas com cadeiras e banheiros. Às sextas-feiras e sábados acontecem as serestas: são noites de casa cheia. Apesar de se tratar de um ambiente um pouco mais discreto no que refere à conduta dos usuários, nos banheiros desse bar também acontece “pegação”53.
Enquanto a frequência de boates e bares abrange um público mais diversificado, os “cinemões” são, tipicamente, espaços de prostituição viril. A descrição apresentada por um entrevistado sintetiza bem essa característica: “[...] todos [os cinemões] são de pegação, todos são masculinos e mulher só pode entrar se estiver acompanhada por um homem” (Marley).
Ressalte-se que nem todos os proprietários de cinemões aceitam de bom grado a entrada de michês, pois, segundo um colaborador da pesquisa, há garotos que roubam o cliente ou agem com violência, o que afasta a clientela e prejudica o negócio. Mesmo nesses casos, os garotos não se intimidam e permanecem nas imediações dos cinemões, onde se insinuam para os clientes, com gestos que mostram partes do corpo, informando-os que estão prontos para o programa.
O cine Alvorada, situado na Rua Major Facundo, existe desde 1917, mas, a partir de 1996, passou a exibir somente filmes pornôs. Na recepção, muitos cartazes indicam as atrações disponíveis, os horários e o valor cobrado: R$ 4,00, de segunda a quarta-feira e R$ 5,00, de quinta-feira a domingo, quando acontecem shows eróticos. Em seguida, adentra-se um grande salão, com 260 lugares e um telão. Na parte térrea do prédio, num pequeno espaço, encontra-se um banco de cimento e
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Nas primeiras vezes que fui ao Big Lanches, não percebi nada. Depois de inúmeras visitas, quase uma “cliente cativa”, é que fui perceber que as relações entre michê e cliente naquele espaço acontecem discretamente, por meio de códigos, pequenos gestos e alusões que implicam poder, libido e sexualidade, mas que tornam as interações difíceis de visualizar, no primeiro momento.
uma árvore. O local, chamado de “jardim” pelos usuários, fica em frente a alguns banheiros, que também são usados para atos sexuais. O segundo piso tem doze cabines para uso de sexo, bastante pequenas, com cama, TV e ar condicionado. Por ocasião do trabalho de campo, observei que, no hall, entre as cabines – todas ocupadas – alguns pares (inclusive um homem e uma travesti) faziam sexo. Outros homens, de pé, se masturbavam, enquanto aguardavam que alguma cabine desocupasse para que pudessem usá-la. No início do corredor, em forma de L, um pequeno salão, com bar, algumas mesas e um aparelho de som, onde os clientes bebem, fumam, dançam e negociam seus programas.
O Cine Atenas, também localizado na Rua Major Facundo, permaneceu fechado para reforma por quase um ano, sendo reaberto em agosto de 2011. Diferencia-se dos demais cinemões pelos equipamentos, como exaustores que propiciam equilíbrio térmico, mais salas e cabines, todas climatizadas e revestidas com cerâmica nas paredes e no piso. Assim, o estabelecimento oferece conforto, segurança e discrição, além de cobrar valores satisfatórios pelo atendimento prestado, em suas dependências.
O Cine Sodoma, situado na Rua Floriano Peixoto, tem aproximadamente 30 lugares. Na recepção, alguns cartazes de propaganda de filmes eróticos e outras atrações disponíveis, os horários e o valor cobrado: dois reais, por hora. Na parte de trás, há uma área pequena e aberta. Em uma das observações realizadas para a presente pesquisa, lá se encontrava um policial-militar. Um dos garotos entrevistados me informou que os policiais, mesmo que sejam clientes, quase sempre estão de farda e portando arma de fogo. Muitas vezes, aproveitando-se da situação desigual em termos de poder, não pagam aos garotos.
No Cine Pop, situado na Rua Floriano Peixoto, por ocasião de minhas visitas, a movimentação era pequena, com poucos homens no local. Com idades diversas, todos aparentavam pertencer a estratos populares. Nenhum tinha traços de beleza e muitos gesticulavam intensamente, de forma atribuída a “homossexuais”. Faziam coreografias as mais diversas ao som da música que tocava (Rebolation, de uma banda baiana). Enquanto dançavam, acariciavam-se, abraçavam-se e beijavam-se.
O Cine Mayor, situado na Rua Solón Pinheiro, ocupa uma casa pequena e quente. A parede dos cômodos tem pintura descascada e suas dependências exalam um odor de urina, bebida e suor. A casa está localizada numa quadra
relativamente tranquila. No início da noite e nos finais de semana, principalmente, a área tem pouco movimento, e por ela transitam apenas michês e clientes potenciais dos motéis e dos cines do pedaço. São homens com idade variável: os michês têm em torno de 25 anos e os clientes aparentam ter entre 45 e 60 anos. Talvez sejam mais novos, mas seu aspecto é envelhecido, e tanto eles como os garotos usam roupas modestas, desbotadas. Quase todos fumam, bebem cerveja e confabulam baixinho, dentro da casa.
O Cine Alfa, um dos mais procurados, ocupa uma casa antiga, em frente à praça Murilo Borges. Logo na entrada, há uma placa anunciando: “Promoção R$ 2,00 (dois reais), domingos e terças-feiras. Proibida a entrada de menores de 18 anos. Diariamente 8 filmes”. O cine funciona de segunda a domingo, tendo aos domingos maior procura.
Logo no hall de entrada, no alto da parede, cartazes de homens segurando os órgãos sexuais uns dos outros. Após um corredor pequeno e escuro, com quartos na lateral, já ocupados por alguns casais homoeróticos, chega-se a um pequeno salão, aberto para os fundos, onde há um bar com mesinhas e cadeiras e uma TV no alto de uma parede. Sabrina, uma travesti, me disse que ali faz shows eróticos. Uma vendedora que trabalha no bar atendia aos clientes, que começam a chegar por volta das 8h da manhã, quando o cinema abre, e permanecem até por volta das 22h, quando o estabelecimento encerra suas atividades. No segundo andar há duas salas: uma delas tem uma televisão de 29 polegadas presa num suporte de parede, um projetor, para exibição de filmes pornôs e umas 15 cadeiras de plástico enfileiradas. Na outra sala, apenas algumas cadeiras.
Por ocasião de minhas visitas ao local, havia aproximadamente uns 18 homens bebendo, fumando, namorando e umas quatro prostitutas que também bebiam, fumavam e conversavam com os homens, no espaço aberto, logo em frente ao bar. Note-se que de todos os cinemões pesquisados, este foi o único onde encontrei mulheres prostitutas em busca de programas.
Homens entrando e saindo, fluxo pequeno de usuários. A partir das 16h, aos poucos, os michês vão chegando, uns sozinhos, outros acompanhados, conversando como bons amigos. Adentram a casa. A funcionária do bar já conhece a preferência da clientela em relação a bebidas, sendo cerveja e refrigerante as mais consumidas, com tira-gostos como espetinho de carne e salgadinhos. Eles pedem música, tipo axé, forró, Alcione e as bandas regionais. Dançam, bebem, fumam,
conversam, namoram no pequeno pátio, que nem sempre se encontra limpo. Outros chegam e ficam observando aquele movimento frenético, trocam olhares com outros usuários, tentam uma paquera e consequentemente um programa. Passam de mesa em mesa, bebem um gole nos copos de alguns clientes e quando pinta alguma proposta, eles vão às cabines, na parte interna e escura do ambiente, ou a um motel nas proximidades.
Tanto nos cinemões, como nos bares, procurei ficar atenta às cenas que se desvelavam a partir da banalidade desses ambientes, onde, cotidianamente, homens vivem suas aventuras eróticas com outros homens. Nos primeiros, a fantasia erótica é potencializada pela escuridão que caracteriza a sala de exibição e a cabine, e se torna ela própria um fetiche, ao permitir a sedução do desconhecido, o encontro de corpos sem rosto, o prazer do sexo anônimo:
[...] A única luz que se tem dentro do cine é a da TV [e da tela]. Quando a gente fica mais tempo sai de lá tonta da escuridão, quando chega fora, na claridade. O dark room54 é mais um fetiche, uma forma de provocar a curiosidade de quem não conhece, provocar atração. Também é uma maneira de não ficar olhando na cara e sem ser visto, [o que] provoca a sedução. Todos são negros, é tudo black. (Marley).
Assim, os cinemões se tornam um espaço simbólico ou “cena”, no sentido de pertencerem a uma dimensão da vida social que poderia ser considerada ensombreada, misteriosa, efêmera, para usar o vocabulário de Crapanzano (2005). Parafraseando este autor, Paiva considera que
[...] a cena está próxima daquilo que é experimentado como “fantasioso”, como “artifício”, como “esses deslocamentos de atenção que relacionamos a sentimentos, emoções e humores”, “elementos decorativos” da existência que constituem, para o autor, “uma dimensão significativa e efetiva do mundo em que vivemos, pensamos e agimos”. A cena é “aquela aparência, a forma ou refração da situação “objetiva” em que nos encontramos, colorindo-a ou nuançando-a e, com isso, tornando-a diferente daquilo que sabemos que ela é quando nos damos ao trabalho de sobre ela pensar objetivamente”. (PAIVA, 2009, p. 4).
Tanto nas cabines dos cinemões como nos banheiros dos bares, as pegações e práticas sexuais entre homens acontecem durante o dia e parte da noite, ou melhor, durante quase todo o horário de funcionamento dos estabelecimentos. Nos banheiros de alguns bares, os garotos procuram ficar bem
54 O dark room é uma sala sem iluminação, localizada em boates ou cinemas e destinada a encontros sexuais ocasionais. Para uma discussão aprofundada sobre o significado dos encontros que ali acontecem, ver: Díaz-Benítez (2008).
perto da porta para ver o movimento do frequentador que, algumas vezes, propositadamente se deixa ver enquanto se masturba. O michê entende isso como um convite e encontra um jeito de entrar naquele recinto, onde o programa acontece. Como disse Simmel, “[...] a questão erótica entre os sexos é de oferecimento e recusa” (1983, p.174): neste caso, um movimento sexual característico, a masturbação, no contexto de um banheiro público, significa o acionamento de uma rede de significados implícita naquele cenário, operando entre os sujeitos que o conhecem e frequentam. Assim, o local é transformado em espaço de interações sócio-sexuais. Nas cabines dos cinemas, a situação é diferente, pois são partilhadas apenas por parceiros sexuais, o que exclui, ou torna mínima, a vigilância de terceiros. Trata-se de uma situação que deixa os homens mais à vontade para viverem sua sexualidade da maneira que julgar conveniente. Em ambos os casos, verifica-se o uso de lugares públicos para uma prática que diz respeito à intimidade, transgredindo normas estabelecidas na sociedade (ELIAS, 1994).