Discutir sobre o corpo é um exercício instigante, principalmente se se buscar nas diversas maneiras de visualizá-lo as interpretações e explicações que possam oferecer. Para explicitar as questões pertinentes a essa temática, faz-se necessário lançar olhares mais atentos, a fim de perceber nuances que, no dia-a-dia, são reveladoras da conduta, do desejo, da ética e da estética humanas.
Por se tratar de um tema complexo, que comporta diversas interpretações, observar o corpo implica visitar espaços onde ele se expressa e viajar nos gestos, mímicas e movimentos que dão vida ao personagem no teatro, ao jogador que persegue a bola no estádio de futebol, ao acrobata que se exibe no trapézio, aos dançarinos que rodopiam na avenida, embalados pelo som do frevo ou do samba, aos modelos que desfilam na passarela da moda. Assim ocorre também com os garotos que se mostram no vaivém do asfalto, buscando garimpar clientes.
O corpo se revela na grandeza de sua obra, no encanto do seu trabalho, na importância de sua produção enquanto condição central da existência humana. Tentar compreendê-lo é experimentar a realização de um diálogo com seus gestos, suas necessidades, prazeres, desejos e paixões. Em outras palavras, é percorrer roteiros íntimos, questionar condutas, ter cuidado ao mover as lentes na busca do ângulo capaz de captar as imagens que escapam ao nosso olhar, antes que se escondam na rapidez da hora.
A sociedade, por meio de sua cultura e história, apresenta diferentes corpos. Um corpo vivo, saudável, disciplinado, emocionado, humanizado; um corpo que possui marcas, que tem interrogações, um corpo original, pessoal, único; um corpo útil, produtivo. Enfim, o corpo expressa conceitos que o extrapolam.
Trata-se de uma materialidade sujeita a mutações, transitória, incompleta. Sofre as mais variadas formas de intervenção, promovidas ou legitimadas pela ciência, tecnologia ou religião, justificadas por imperativos éticos ou estéticos. O corpo é visado por dispositivos transgressores ou conformado a padrões culturais, econômicos, políticos e sociais. Em suma, “o corpo não é universal e absoluto, mas plástico, flexível e relacional, portanto, produzido através de sua socialização e coletividade”. (PERES, 2011, p. 71). A aprendizagem social inscreve nos corpos o gênero, o status e outros marcadores da identidade dos indivíduos: “[...] é a sociedade que ensina o corpo e nele marca as diferenças que ela reconhece e/ou estabelece: de sexo, de idade, de hierarquia social.” (KOFES, 1989, p. 47-48).
O corpo representou, na história da humanidade, várias características: a classe social, as condições de vida, a cultura dos povos, o poder vigente, a adequação aos diferentes climas do planeta, a diferenciação dos gêneros, entre outras. (DAOLIO, 2005). Ao longo do tempo, diferentes sociedades adestram indivíduos, ensinando-os a andar, dançar, praticar esportes e comunicar-se mediante gestos, posturas, olhares (KOFES, 1989).
A dualidade matéria-espírito permeou toda a civilização cristã, influenciando as visões da sexualidade, marcadas por dicotomias como normal/pervertida, natural/antinatural, permitida/proibida. Na Idade Média, o corpo era considerado instrumento do mal e do pecado, enquanto que a alma era a única fonte de bondade. O desejo, expresso na materialidade corpórea, tinha que ser reprimido, mediante castigos e torturas, se assim se julgasse necessário. A flagelação era um meio de evitar ou castigar a luxúria.
Na modernidade, o corpo passa a ser objeto de manipulação, submetido ao controle disciplinar, que o transforma em um corpo dócil. Trata-se de uma forma de dominação destacada por Foucault (1991), para quem o poder, em si, não existe; o que existe são as práticas ou relações de poder que se estabelecem na sociedade. Nesse sentido, o corpo
[...] está diretamente mergulhado num campo político; as relações de poder têm alcance imediato sobre ele; elas o investem, o marcam, o dirigem, o supliciam, sujeitam-no a trabalhos, obrigam-no a cerimônias, exigem-lhes sinais. [...] (FOUCAULT, 1991, p. 28).
O disciplinamento do corpo envolve um amplo adestramento, que não se limita à imposição de “uma série de gestos definidos”, pois vai muito além:
[...] impõe a melhor relação entre um gesto e a atitude global do corpo, que é sua condição de eficácia e de rapidez. No bom emprego do corpo, que permite um bom emprego do tempo, nada deve ficar ocioso ou inútil: tudo deve ser chamado a formar o suporte do ato requerido. Um corpo bem disciplinado forma o contexto de realização do mínimo gesto. Uma boa caligrafia, por exemplo, supõe uma ginástica - uma rotina cujo rigoroso código abrange o corpo por inteiro, da ponta do pé à extremidade do indicador (FOUCAULT, 1991, p.138).
Foucault (1991) descreve o modo como o saber sobre o sexo se organizou na cultura ocidental e aponta para uma hermenêutica do desejo, destinada capturar e explorar os mínimos detalhes e as mais diversas verdades científicas da sexualidade humana. Criada com base em vários conhecimentos como a medicina, a demografia, a pedagogia e a psiquiatria, a scientia sexualis constrói a sexualidade moderna de acordo com uma conjunção de poder e saber que investiga as verdades mensuráveis e confessáveis da sexualidade que governa os corpos e seus prazeres.
A época contemporânea assistiu, sobretudo a partir da Segunda Guerra Mundial, a uma explosão de discursos sobre as manifestações corporais, como a sexualidade, a dança, as práticas esportivas, as terapias com fins estéticos e outras. Na atualidade, o corpo é preparado para expor-se e competir. Submete-se aos
chamados da estética e do erotismo, agora também objeto da cultura de massa midiatizada. A mídia dissolve as fronteiras entre o público e o privado, tornando a noção de intimidade cada vez mais tênue, ao veicular shows onde pessoas comuns têm sua vida devassada e acompanhada por milhares de espectadores. O voyerismo é, assim, estimulado, sancionado e mesmo louvado em nome do sucesso comercial.
Em que pese a permissividade em relação a formas comerciais ou artísticas de nudez e de exibição da intimidade, em geral, e da sexualidade em particular, não foram eliminadas a repressão nem a normatização da corporalidade. Sentir o corpo, tocá-lo e exibi-lo continuam sendo práticas carregadas de interditos, envolvendo a dúvida, a dor e a culpa, mesmo que permeadas pelo prazer. Permanece a dicotomia entre o “eu” e o “corpo”, que o contato com as sensações e com a própria história emocional do indivíduo ainda não conseguiu dissolver e integrar.
Nos dias atuais, mais do que em outros períodos da história, o corpo pode se metamorfosear para suprir as demandas de cada indivíduo. O corpo pode ser modelado, treinado; pode tornar-se hábil e multiplicar suas forças e potencialidades. Contudo, ele também reage às tentativas de normatizá-lo ou controlá-lo: possui motividade, que se manifesta pela espontaneidade de seus gestos e vivacidade de suas expressões. Um corpo que canta, vibra, brilha, pulsa, compartilha e tem sentimentos. Se atormentado, ele sofre, chora, mutila-se, penaliza-se. Se negado ou reprimido, ele definha, padece, adoece. É certo que, independente da maneira como as pessoas se comportam, “[...] o corpo é lugar de imaginários, de ligações contestáveis cujas lógicas sociais é preciso compreender”. (LE BRETON, 2006, p. 72).
Como objeto de culto, diz-se de um corpo controlado, com o tamanho, as proporções, a cor, a textura, os movimentos, as roupas, a maquiagem, o corte do cabelo, tudo o mais que produz fascínio. Um corpo a carregar a mente: uma deusa, um ídolo; uma celebridade, santidade, autoridade. Corpo que integra/incorpora outros: corpo médico, corpo científico, corpo político, corpo intelectual.
O tempo deixa suas marcas, pois a realidade corporal é diacrônica e, assim, mutável: “[o] corpo se altera com a passagem do tempo, com a doença, com a mudança de hábitos alimentares e de vida, com possibilidades distintas de prazer ou com novas formas de intervenção médica e tecnológica”. (LOURO, 2000, p. 8). Por outro lado, o corpo pode ser visto como um instrumento de luta contra o tempo e o
espaço quando, numa maratona, vence ao chegar na hora, ou em um salto, derrota o espaço. Corpo que luta, confronta, enfrenta e se faz atleta, ídolo e herói.
Nesta perspectiva, a visão naturalista vai, paulatinamente, sendo superada por uma nova leitura que toma o corpo como uma produção sócio-histórica, cultural e política, em constante construção que lhe imprime marcas variáveis, de acordo com os tempos, espaços, conjunturas econômicas, grupos sociais, sexuais, de gêneros e outros. Assim, observa-se que, historicamente, o corpo tem sido mostrado de várias formas e em qualquer conjuntura pode ser tomado como importante recurso para a compreensão da ação recíproca entre o meio social e a condição humana.
No atual contexto social, os padrões de normalidade comportamental, corporal e sexual vêm sinalizando mudanças e apresentado uma diferenciação entre grupos sociais e entre indivíduos. Novos valores, crenças e ideologias têm levado a novas maneiras de pensar e a estilos de vida alternativos, como as tribos urbanas, como ravers (jovens que participam de festas raves, com música eletrônica em alto volume, fazem uso de drogas e se dizem livres (SANTOS, 2011), ursos (do inglês bear, homens corpulentos, pesados, usualmente peludos e barbudos, homoeróticos com aparência “masculina”) e outros. (SILVA, 2007). São indivíduos que experimentam diversas formas de ser e pensar, que transitam pela desterritorialidade urbana, da experiência na internet à vivência nômade da rua. Como afirmou Bauman (2005, p.96), “neste mundo fluido, comprometer-se com uma única identidade para toda a vida, ou até menos que a vida toda, mas por um longo tempo à frente, é um negócio arriscado”.
Assim como, no passado cristão, a alma caracterizou o humano, a questão se desloca, na atualidade, para o corpo. Porém, a nova ordem mundial, baseada na economia de mercado globalizada, tende a ver o corpo também como mais uma mercadoria e a cada dia se exige mais desse corpo.