5.3 Gjennomføring
5.3.2 Validitet og reliabilitet
Com o decorrer dos anos e o desgaste sofrido pelas noites mal dormidas ou passadas em claro, pelo uso frequente de drogas lícitas e ilícitas (cigarro, álcool, maconha, cocaína, crack) e pelo cansaço do corpo que pede repouso, os michês se preocupam com a saúde, temem pelo futuro e reclamam das experiências negativas que a prostituição lhes submete:
[...] o lado ruim dessa atividade é quando você se depara doente, porque com saúde ou sem saúde, você tem que sair em busca do dinheiro, porque como você está todo dia na rotina, de repente um cliente liga e para você não perder aquele cliente você se obriga a sair mesmo com febre, com gripe, doente, você tem que estar lá, pronto para atendê-lo. Muitas vezes eles ficam chateados, pelo fato de não ter lhe dado preferência, por você ser exclusivo, é uma pessoa escolhida para fazer sexo, mas, ao mesmo tempo, eles ficam satisfeitos, apesar de não sair assim uma coisa muito
legal, por você fazer sexo com febre ou com uma gripe ou com coisa parecida, eles ficam satisfeitos pela atenção que você está dando a eles. É isso aí. (Marley).
Um dos maiores riscos para a saúde é a prática do sexo sem o uso de preservativo. Tal prática não é incomum, sendo proposta por alguns clientes, que se dispõem a pagar um preço mais alto pelo programa nessa condição. Em que pesem as campanhas de prevenção realizadas junto a esse público, são ambivalentes as atitudes dos michês em relação ao risco de contrair doenças sexualmente transmissíveis, inclusive a AIDS. Alguns mencionaram não sentir medo, pois na qualidade de “penetrantes” acham que estão livres desse tipo de risco. Outros relataram que temem contrair doenças e são conscientes de que o sexo anal sem proteção é a prática sexual que oferece mais risco para a transmissão do vírus da imunodeficiência humana
Eu sempre uso [preservativo]. Têm alguns clientes que dizem: sem camisinha é melhor, [...] Mas, eu sempre uso. Já para proteger os dois, não é, pra me proteger, proteger o cliente que está comigo e proteger o meu namorado, que está me esperando em casa também. Tem que se proteger. (Marcelo).
[...] nessas horas a gente tem que usar a cabeça para não fazer besteira, porque o que ele paga hoje só dá pra hoje e a saúde da gente é para toda a vida, nada paga. Tivemos um colega que caiu nessa, pegou AIDS e já se foi e não sabia nem de que pegou, é muito triste. Ele não transou só, mas morreu sozinho. Então, antes de pensar na grana, pense também se o caro é sadio e exija a camisinha. (Rafael).
Entretanto, nem sempre os michês trazem consigo o preservativo. Nos cinemas e na rua, a falta de “camisinhas” é quase regra, contrariando o discurso dos participantes40, o que, certamente, os torna mais vulneráveis.
Ademais deste e de outros fatores de risco, observa-se que os homens que se prostituem nas ruas vivenciam outros tipos de desgaste, como o tempo de exposição para a clientela. Os entrevistados relataram que, todos os dias têm “gente nova no pedaço”. Os iniciantes costumam ser mais procurados, o que gera disputas e conflitos com os michês veteranos que, algumas vezes, perdem clientes para os mais novos:
Quando ficamos muito vistos em um local, assim, quando já somos considerados como gastos [com muito tempo na profissão] pelos clientes,
40 No decorrer da pesquisa, tive a oportunidade de participar da distribuição de preservativos, juntamente com Clayton e Ritchie, do Projeto Entre Nós. Muitas vezes, ouvimos de clientes, michês, travestis e outros a seguinte frase: “eu não tinha nenhum, chegou na hora certa”.
deixamos de ser novidade e vamos perdendo programa, perdendo dinheiro e aí a solução é deixar aquele local por uns dias, até que as coisas melhorem e apareçam outros clientes. (Gabriel)
A preocupação com a concorrência está intimamente ligada à expectativa do envelhecimento. No mercado do sexo, a boa forma corporal, a virilidade e a juventude são qualidades indispensáveis. Na preocupação com o futuro incerto, transparece o medo da velhice:
Hoje, eu já consegui uma casa, já tenho um teto, uma sombra para morrer debaixo, o que me falta agora é eu conseguir um trabalho, uma coisa para eu sobreviver e sair dessa vida porque enquanto a gente está novinho, bonitinho, todo mundo quer. Depois, quando você vai chegando aos 30 anos, ficando mais velho, ninguém lhe quer mais, porque vem a nova geração: tem os de 18, 19, 20 anos e aí tem a concorrência e você tem que ter clareza, ter uma meta e não querer fazer só isso. (Marley).
Como se pode constatar, o corpo é construído por histórias e fantasias. Emerge de várias maneiras e desdobra-se em múltiplas linguagens e movimentos, capaz de expressar uma sinfonia de discursos e de práticas a todo o momento. No que se refere às práticas prostitutivas, é importante ressaltar que as experiências sexuais entre homens não se articulam em um espaço vazio e em um tempo homogêneo e repetitivo. Neste sentido, o território e suas territorialidades dizem sobre os corpos, como eles se posicionam, como se constituem, atraem sua clientela e “batalham” no sentido de se manterem nos “circuitos” por eles produzidos, ao longo do tempo.
CAPÍTULO 4
TERRITÓRIOS E TERRITORIALIDADES NO ESTUDO DA PROSTITUIÇÃO MASCULINA
“Os lugares são histórias fragmentárias e isoladas em si, dos passados roubados à legalidade por outro, tempos empilhados que podem se desdobrar, mas que estão ali antes como história à espera e permanecem no estado de quebra- cabeças, enigmas, enfim, simbolizações enquistadas na dor ou no prazer do corpo”. (Michel de Certeau).
A tarde vai caindo. Intensifica-se a movimentação nas ruas centrais da capital cearense. Enquanto muitos deixam seus trabalhos e correm para tomar o ônibus de retorno à sua residência, para o descanso por mais um dia de trabalho, tantos outros saem às ruas, à procura de diversão nos bares, boates, danceterias e casas de forró, espalhadas pelos quatro cantos da cidade. Em meio a eles, estão os garotos de programa e entre estes, os michês que batalham na área central de Fortaleza.
Este capítulo analisa como o espaço se constitui em elemento de tensionamento da reprodução da matriz normativa de exclusão, marginalização e estigmatização do garoto de programa. Para compreender a prostituição masculina numa perspectiva teórica que integre a dimensão espacial, é necessário discutir as diversas concepções sobre o território, com o intuito de vislumbrar como a territorialidade dos profissionais do sexo se define, constitui e condiciona a prática da prostituição.