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O termo argumentação é tema de interesse de estudos desde a Retórica dos gregos (a arte de persuadir), que dela fizeram o próprio fundamento das relações sociais (CHARAUDEAU, 2008).
10“[…] pode ser definida como a maneira pela qual certas palavras ou construções gramaticais de uma sentença podem
Segundo o autor, a argumentação não está relacionada à língua, mas sim à organização do discurso. Acredito que, para entender a discussão no fórum é necessário entender como a argumentação é construída nesse ambiente, de maneira a perceber como as mensagens individuais se articulam argumentativamente.
Vários são os autores, conforme retoma Charaudeau (2008), que já se debruçaram sobre o tema argumentação de maneiras diferentes. Ducrot (1978 b, apud CHARAUDEAU, 2008, p. 202) se propôs a estudar esse tema de duas perspectivas, considerando de um lado “o estudo do raciocínio linguístico” e, de outro, “o estudo da argumentação que tem por objetivo orientar a sequência do discurso”. Grize (1976, apud CHARAUDEAU, 2008, p. 202) opôs argumentação (chamada por ele de “lógica natural”, que leva em conta o contexto e os sujeitos da comunicação) à demonstração (não leva em conta “a situação concreta, do sujeito que raciocina, e daqueles aos quais se dirige”, prestando-se mais facilmente a uma formalização). Perelman (1977, apud CHARAUDEAU, 2008, p. 202) procura definir uma Nova Retórica, estudando as técnicas discursivas que permitem provocar ou aumentar a adesão dos espíritos às teses que se apresentam a seu assentimento.
Ainda segundo Charaudeau (2008), para que haja argumentação é necessário que exista uma proposta que provoque questionamento, um sujeito que se engaje em relação a esse questionamento e um outro sujeito que, relacionado com a mesma proposta, constitua-se no alvo da argumentação. Apesar de essas necessidades serem desenvolvidas no âmbito presencial, são adequadas igualmente ao ambiente assíncrono, pois essas características também nele podem ser observadas. Entretanto, não há um sujeito único como alvo da argumentação,
uma vez que ela é voltada para o grupo e pode até mesmo ser desenvolvida conjuntamente por ele.
Segundo Toulmin (2001), podemos produzir argumentos de muitos tipos. Nesse sentido, o autor se questiona até que ponto argumentos tão diferentes podem ser avaliados pelo mesmo procedimento, usando-se para todos o mesmo tipo de termos e aplicando-se a todos o mesmo tipo de padrão?
Para responder a essa questão Toulmin (2001) vai se ocupar em demonstrar até que ponto os argumentos justificatórios podem ter uma mesma forma e até que ponto podem apelar a um único e mesmo conjunto de padrões. Os exemplos utilizados pelo autor são, em geral, da esfera jurídica (TOULMIN, 2001).
Para Toulmin (2001), existem diferentes tipos de argumentos, que podem pertencer a um campo-invariável (field–invariant, “que coisas, na forma e nos méritos de nossos argumentos, não variam conforme o campo?”); e campo-dependentes (field-dependent, “que coisas, na forma e nos méritos de nossos argumentos, variam conforme o campo?”).
Na Linguística Sistêmico-Funcional, o argumento é constituído por estágios incluídos no texto. Os estágios argumentativos apresentam padrões linguísticos específicos para cada um de seus movimentos, como a apresentação da tese ou o reforço de uma posição. Segundo Coffin, Painter e Hewings (2005), a argumentação se refere a um processo maior, de propor e trocar pontos de vista. As autoras usam a Linguística Sistêmico-Funcional (HALLIDAY e MATHIESSEN, 2004; MARTIN e ROSE, 2003) como ferramenta para analisar os textos e as mensagens (dialogadas) e a relação deles com o contexto (o modo da comunicação e as regras adotadas nas interações). Elas também delineiam o tipo de gênero analisado, delimitando seus elementos obrigatórios e opcionais.
Segundo Coffin, Painter e Hewings (2005), o fórum de discussão tem potencial para criar no aluno habilidades para argumentar. Entretanto, um dos problemas dessa ferramenta é não mostrar como as mensagens estão interligadas linguisticamente, pois essa seria uma característica importante da argumentação.
Para as autoras, a argumentação envolve apresentação de pontos de vista bem desenvolvidos (argumentativamente), apresentação de pontos de vista alternativos, desafiando criticamente, reforçando ou defendendo uma tese adequadamente. No entanto, a análise de interações em fórum mostra que elas se restringem à aprovação (concordância) ou desaprovação (discordância), implícitas ou explícitas, não se aprofundando a discussão entre os participantes.
Coffin, Painter e Hewings (2005) e Coffin, Hewings e North (2006), então, propõem-se a mostrar a dinâmica dos estágios argumentativos no fórum de discussão, juntamente com a demonstração do papel pedagógico do mediador, que pode revelar diferentes formas de performance dos alunos no fórum. Propõem, também, estratégias de leitura para que eles maximizem o uso do fórum e desenvolvam a argumentação.
A construção argumentativa online não é linear e o número de estágios pode variar de acordo com o assunto debatido, diferentemente da discussão presencial, conforme lembram Coffin, Painter e Hewings (2005). Os tipos de argumentos também são variáveis. Consideram como elementos básicos:
tese (proposição de ponto de vista ou opinião); explanação prévia (elemento opcional);
argumentos (usados para sustentar ou defender a tese, apresentados em forma de dados, de autoridade, de experiência, expansão, qualificação, definição);
uso de evidência contrária / contra-argumento (reconhecimento de um ponto de vista alternativo, que não enfraquece a posição inicial);
reforço da tese (sumário dos argumentos-chaves a fim de reforçar a posição de abertura).
As autoras indicam que as maiores trocas acontecem no início do fórum e vão decrescendo. Explicam, ainda, que uma das características da argumentação, influenciada pelo ambiente eletrônico, é a construção coletiva argumentativa, graças à natureza colaborativa do ambiente, que favorece que o argumento possa ser reforçado, fortalecido pelo acréscimo de evidências.
Também consideram que o mediador tem papel importante para que o gênero seja desenvolvido adequadamente. Os dados que analisam demonstram o uso dos estágios argumentativos adequadamente; no entanto, não se restringem a mensagens que só reforçam outra mensagem, isto é, todas as mensagens analisadas pelas autoras utilizam vários estágios argumentativos, diferentemente das mensagens analisadas nesta dissertação, como veremos mais à frente.
Como este trabalho se propõe a analisar a interação entre as mensagens e como ocorre argumentação no ambiente, considerei necessário ligar as fases da interação proposta por Anderson e Kanuka (1998) aos estágios argumentativos propostos por Coffin (2004) e Coffin, Painter e Hewings (2005), por acreditar que as propostas se complementam, uma vez que uma das características da argumentação é a necessidade de haver pelos menos dois sujeitos que se engajem
na defesa de uma proposta, como citado anteriormente por Charaudeau (2008). Foi com essa perspectiva que elaborei o quadro seguinte:
Fases da interação
(ANDERSON e KANUKA, 1998, baseados na proposta de GUNAWADERNA,1997) 1. Partilha/comparação de informação
2. Descoberta e exploração de dissonâncias ou inconsistências entre ideias, conceitos ou declarações dos participantes
3. Negociação ou construção coletiva de significados
4. Teste e modificação ou construção coletiva de sínteses
5. Fase de acordo e aplicação de significados construídos
Estágios argumentativos
(COFFIN, PAINTER e HEWINGS, 2005)
- Tese
- Explanação prévia - Argumentos
- Uso de evidência contrária / contra argumento - Reforço da tese
-
Quadro 1 – Comparação entre os modelos de Kanuka e Anderson (1998) e Coffin, Painter e Hewings (2005)
A comparação entre os modelos não significa que as fases e estágios se ajustam perfeitamente. Considero que os estágios argumentativos são características do gênero discussão, enquanto as fases da interação ocorrem no fórum de discussão, mas não estão diretamente relacionadas ao gênero.
Segundo o Manual do Professor-Mediador do curso, “a interação deve ocorrer em todos os espaços previstos pelo curso” (São Paulo, 2006, p. 13), portanto, acredito que interação e gênero não estão diretamente relacionados. No entanto, no fórum de discussão, interação e argumentação podem ser complementares.
A interação pode ocorrer em outros tipos de fórum de discussão (por meio de troca de opinião, elaboração de atividades individuais ou em grupo), sem necessariamente estar atrelada ao gênero discussão.
Enquanto Anderson e Kanuka (1998) voltam seus estudos para entender como se revela o nível de interação entre os participantes, Coffin, Painter e Hewings (2005) centram sua pesquisa no estudo do gênero discussão no fórum online.
Acredito que uma abordagem que una as fases interacionais aos estágios argumentativos possa gerar um maior aproveitamento do fórum, levando em consideração a construção coletiva argumentativa, observada a partir da interação. Mesmo que a mensagem não apresente os estágios argumentativos, mas tenha valor como colaboração – reforço e interação -, pode ocorrer um subtexto argumentativo, construído com a participação e colaboração dos integrantes do fórum.
A junção da argumentação com a interação ocorre a partir de interpretações anafóricas, isto é, a qual mensagem se refere o participante ao enviar sua contribuição sem usar os mecanismos adequados no ambiente (como usar o Responder ou colocar no título a quem está se referindo). Além disso, é possível desenvolver uma interpretação também exofórica, utilizando o contexto como meio para interpretar as mensagens e me valendo de conhecimentos como aluna do curso e da turma em análise e de marcas linguísticas identificadas nas mensagens.
Estabelecidos os nortes teóricos do trabalho, no próximo capítulo tratarei da abordagem metodológica.
CAPÍTULO 2
Metodologia
Neste capítulo, trato da natureza desta pesquisa – qualitativa etnográfica – e defino o estudo de caso; reapresento os objetivos e as perguntas de pesquisa já postos na Introdução; descrevo o contexto em que os dados foram levantados, bem como estabeleço as categorias de análise.