Segundo o empresário, o volume das latinhas diminui um pouco na época do frio, acompanhando o movimento do consumo da população. O valor do dólar define o valor do quilo do alumínio; se está alto, crescem as exportações e, conseqüentemente, há um aumento no valor do alumínio internamente. O Sr. Magid explicou ainda que não é
interessante acumular os materiais, uma vez que o preço oscila muito. Quando perguntamos se a concorrência era grande, a resposta foi afirmativa. Ele definiu a indústria da reciclagem como um negócio lucrativo e também como uma “máfia”, em que
só permanece quem pode mais.104
A acirrada disputa que se estabelece no comércio dos restos pode ser vislumbrada na avaliação que o Sr. José Antônio da Silva, um coletor de papel, faz acerca da trajetória do Butelão, empresa atuante na compra de recicláveis em Uberlândia há anos:
O Butelão tem mais de 30 anos que ele se estabeleceu com o papelão. ...Há 3 anos atrás aqui em Uberlândia, tinha 3 depósito de papelão grande como o Butelão. Na época, o papelão chegou a 13 centavos o kg, porque tinha concorrente né? E se pagava menos, a gente ia vender pro outro que paga mais. Aí aquele que pagava menos aumentava e aí ficou nessa guerra e tal. Só que, o Butelão já tem muitos anos que trabalha aqui. Tem uma estrutura melhor, aumentô. Daí aumentando o preço, daí que os otro não conseguiro, não aguentaro pagá o que ele tava pagano e fecharo as porta. Aí ele baixô e hoje tá 4 centavo. É só ele que compra põe o preço, tem que vender pra ele... De certa forma, ele tá explorando a gente, podia pagar bem melhor, porque se ele chegou a pagar 13 centavos e continuava tendo lucro ele podia pelo menos uma média de 8 né? Continuava tendo lucro e a gente ganhano um pouquinho mais.105
Esse depoimento é elucidativo da atuação dos sujeitos envolvidos no comércio de materiais recicláveis e de certos aspectos da vida na cidade. Sua fala mostrou, sobretudo, a consciência que esse trabalhador tem da exploração a que estão submetidos os catadores. Em sua explicação, o empresário comprador de papel é alguém que detém um certo capital que lhe possibilita sustentar e eliminar a concorrência de outros
104 Observa-se que, atualmente, os pequenos comerciantes (sucateiros) que se inserem no mercado de recicláveis começam revendendo os materiais que compram dos catadores dos bairros mais distantes a empresários como o Sr. Magid, que já estão consolidados neste ramo. Para esses coletores, torna-se difícil trazer os materiais até um local mais central, se residem num bairro localizado em um setor que, além de distante, é diametralmente oposto ao local do depósito. Daí, configura-se uma verdadeira rede de atravessadores, na qual esses trabalhadores são extremamente explorados. Sobre as relações entre catadores e sucateiros, Amilton de Souza reflete como ambos estão inseridos no mercado do lixo, constituindo importante elemento de sua sustentação. Cumprem, porém, papéis diferenciados nesse universo. Se os catadores começam a atuar nesse ramo devido à precarização das condições de trabalho, os sucateiros representam justamente o elemento de ligação entre os trabalhadores e as indústrias, que conseguem obter significativos lucros em detrimento daqueles que buscam sobreviver recolhendo restos pelas ruas da cidade. SOUZA, José Amilton de
Catadores/carrinheiros (as): imagens e diálogos com os territórios cotidianos da cidade de Santo André.
105 José Antônio da Silva, catador de papel, 45 anos, natural de Currais Novos-RN. Saiu de casa aos 15 anos de idade, viajou por vários estados, Goiás, Mato Grosso, Pará e Minas Gerais. Ao longo de sua vida, trabalhou na roça e também como ajudante na construção civil. Residindo em Araguari, tendo ficado desempregado, começou a coletar sucata na rua e ao vir para Uberlândia, há mais de dez anos, estando na mesma situação, começou a catar papel. Entrevista realizada em 07 de Março de 1999.
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compradores. Ele também se revela consciente de que para o empresário, bem sucedido por ter se sobressaído nesse ramo, há melhores condições de definir as normas para a comercialização do papel. Desse modo, o relato do Sr. José Antônio expõe não apenas alguns mecanismos do mercado dos restos, como também situações de classe e diferenças de oportunidades na cidade.
No que se refere ao comércio de papel e papelão, o Butelão é a única empresa que compra esse material em grande quantidade. Existem outras empresas, mas somente ele compra o papel durante todo o ano e em maior volume. As outras empresas compram o papelão somente para suprir pequenas necessidades, como o Café Estância, que troca o papelão por suas embalagens. Além do mais, esse parece ser, ao menos no âmbito local, um mercado um tanto incerto em que alguns pequenos empresários atuam esporadicamente. Ao passo que o Butelão conseguiu firmar-se na cidade há vários anos
e, hoje, conta com estrutura para comprar, acumular e revender o papel.106
No início dos anos de 1980, o Butelão lidava também com o comércio de cacos de vidro, conforme relatou o Sr. José Francisco. Em 1988, segundo uma reportagem publicada no Correio de Uberlândia, a empresa comprava e revendia “desde o mais simples retalho de papel até os especiais como listagem de bancos e papéis de cigarro”. A maneira como o jornal dá visibilidade à atuação desse empresário transparece nesta notícia:
... O Butelão revende seu estoque para indústrias de papéis por todo o país ... Em matéria de plásticos, a empresa compra 40% do mercado Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba – e sua revenda também é a nível nacional. Atualmente, contando com 20 funcionários diretos, o Butelão, empresa que pagou 2 milhões de cruzados de ICM no último mês, comercializa indiretamente com mais de 600 catadores de papéis – denominados de “profissionais do lixo”.107
Nota-se como o texto enfatiza a idéia de que a empresa tem uma grande atuação nesse mercado local, ainda em constituição. O Butelão é apresentado pelo jornal como um empreendimento que paga impostos e gera empregos, oferecendo oportunidade de trabalho aos catadores.
Na abordagem do jornal sobre as atividades dessa empresa, cujo proprietário aparece como um grande empreendedor, evidenciou-se um processo em que os restos
estavam constituindo um negócio na cidade. Ao ressaltar isso como tendo um caráter tão positivo, podemos perceber o jornal atuando/intervindo ao dar visibilidade a essa dimensão da vida e do trabalho urbanos. O que expressa também outras dimensões dos restos na cidade, que, para alguns, configurava um modo de sobrevivência, já para outros, possibilidade de lucro. Nesse comércio, enquanto uns se consolidavam como empresários, outros continuavam tentando garantir a subsistência.
Em sua entrevista, o Sr. José Francisco referiu-se às origens do Sr. Élvio Prado, o dono do Butelão. Ele contou lembrar-se da época em que o empresário recolhia o lixo na Companhia Souza Cruz e que esta foi-lhe uma excelente oportunidade, pois, ao retirar os refugos do espaço da fábrica, havia sobras de cigarro que o empresário também revendia em pequenos bares e mercearias. Segundo o Sr. José Francisco, com oportunidades assim, seria fácil sobressair. Nessa narrativa, sua intenção é justamente mostrar a diferença de oportunidades e de classes na cidade, pois, enquanto ele continuou trabalhador, o Sr. Élvio Prado afirmou-se como empresário.
Falamos anteriormente sobre o Sr. Magid Cury, também um empresário no mercado dos restos. Sua trajetória, e a do Sr. Élvio Prado, ilustra a dinâmica e as mudanças em torno desse comércio. Em 1988, o Butelão tinha seu estoque abastecido por “90% das empresas de Uberlândia e região”. Já possuía três galpões na BR-050 e um depósito de quatro mil metros no setor industrial. Em seu depósito, o papel era recebido, pesado e prensado em até quinhentos quilos. Naquela ocasião, o Correio publicou uma notícia sobre a empresa: falando sobre suas atividades ao jornal, o empresário acentuou como o comércio do papel parecia ser de grande importância para a manutenção de seu negócio. Comentou que, à “época do Plano Cruzado”, ele conseguiu exportar papel para outros países, como Argentina e Venezuela, e que, à medida que “o poder aquisitivo do povo aumenta, há um maior consumo de papéis” e para ele, “que vive do lixo”, isso era garantia de aumentar os estoques e os lucros. Nessa mesma reportagem, entretanto, mencionou que o mais lucrativo era a revenda de plásticos. Seja como for, o Sr. Élvio Prado investia no comércio de vários produtos; vidro, papéis de cigarro, plásticos e todos os tipos de papel. Talvez porque houvesse uma procura pelos diversos tipos de matéria prima para a
107 O lixo de todo o dia vira o sustento de muita gente. (O outro lado da história). Correio de Uberlândia, 06 de novembro de 1988, p. 14.
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indústria de reciclagem. Enquanto comercializava vários produtos, ao mesmo tempo, o empresário tentava se acertar no que fosse “mais lucrativo”.
A existência de uma empresa como o Butelão, com sua capacidade de atuação, já em 1988, é um elemento revelador da expansão do comércio dos restos na cidade. Também demonstra como, naquele período, o Butelão já havia se consolidado como referência na comercialização de materiais recicláveis em Uberlândia e na região. Nos dias de hoje, essa empresa tem suas atividades centralizadas no comércio de papel. Curioso observar como as investidas do empresário faziam sentido no contexto de algumas transformações no mercado dos restos na cidade. Essas mudanças se evidenciam, outra vez, nos anúncios:
Casa da Garrafa.
Compra e vende todo tipo de garrafas e litros. Rua: Itumbiara, 339. Fone: 235-7735. Paga o melhor preço da praça.108
O estabelecimento responsável por tal anúncio, a “Casa da Garrafa”, exercia suas atividades no mesmo endereço há várias décadas, porém, 1992 foi o último ano em que os jornais pesquisados divulgaram o comércio desses produtos. O anúncio acima foi publicado no Guia Sei, uma publicação semelhante à lista telefônica, com mais propagandas. Já no jornal Correio do Triângulo, nessa mesma data, encontrava-se um tipo diferente de anúncio, indicativo das mudanças em curso no comércio dos restos:
Compra-se:
Sucatas de plásticos, sacarias vazias de adubo e lonas pretas. Tratar com Rosângela. Fone: (034) 238-5159.109
Na verdade, os anúncios apregoados nos jornais se modificaram, o que sinalizava algumas transformações na natureza dos restos comercializados. A exemplo disso, o fato de que posteriormente não se publicam mais anúncios para a compra de garrafas, garrafões e vasilhames, uma amostra de que a procura por tais produtos tenha talvez diminuído. Afinal, começava a ganhar força o comércio de outros materiais para a indústria da reciclagem, como o plástico, em suas várias modalidades. Essas modificações também expressavam e se articulavam às novas maneiras como as
108 In. Guia Sei. Anúncios, p. 07. Uberlândia: Sabe, 1992. 109 Correio do Triângulo, 04 de julho de 1992, n. 15.982, p. 10.
pessoas começaram a se abastecer na cidade, ou seja, modificavam-se os hábitos de consumo e a população passava a adquirir, com maior freqüência, produtos industrializados, agora contidos em embalagens de plástico.
Talvez possamos dizer que, por essa época, começasse a surgir o encantamento com a novidade que consistia o uso do plástico. Inúmeros produtos principiariam a ter suas embalagens confeccionadas em plástico, variando as cores, tamanhos e formatos. Diversos outros produtos surgiriam, num crescente ciclo de consumo e “desuso”. Vislumbramos isso claramente quando ficamos atordoados diante dos inúmeros objetos
expostos à venda nas vitrines das lojas, nas ruas e calçadas da maioria das cidades.110
Sobre a utilidade ou não desse mundo de parafernália que nos é imposto, de maneira intrigante, o autor Gilles Lipovestsky convida-nos a pensar a respeito da infinidade de “produtos estudados para não durar”, disponibilizados a todo instante no mercado, de como são aperfeiçoados para melhor competir e, ironicamente, do modo como logo se tornam obsoletos. Diante da premissa de que “o novo é superior ao antigo”,
o destino das mercadorias é, quase sempre, um “desuso sistemático”.111
De fato, nisto consiste uma das grandes contradições de nosso tempo: o trinômio consumo, desperdício e lixo. O que faremos com tantos restos que produzimos? Se, de um lado, uma alternativa seria combater o desperdício, de outro, esse é um princípio que já soa antagônico porque afronta diretamente o paradigma de felicidade humana em vigor, profundamente enraizado na aspiração de se consumir mais e mais mercadorias.
Assim, determinadas transformações no comércio dos restos, a exemplo do crescente interesse por materiais como plástico, papel e alumínio, em detrimento das embalagens de vidro; garrafas, garrafões e vasilhames, já entremostrava o desenvolvimento desse, cada vez mais, intenso ciclo de consumo e descarte. Sem dúvida, tal processo pode ser considerado elemento expressivo das mudanças nas
110 Dentre as definições dicionarizadas para o termo substantivo plástico, considero a que o descreve como algo apto a receber diferentes formas, ou a ser modelado com os dedos, como a mais apropriada para pensarmos sobre os sentidos das várias possibilidades que a sociedade de consumo encontrou para o uso desse produto. Sobre isso, o autor Roland Barthes reflete que, “mais do que uma substância, o plástico é a própria idéia de sua transformação infinita, é a ubiqüidade tornada visível, como o seu nome vulgar o indica; e, por isso mesmo, é considerado uma matéria milagrosa: o milagre é sempre uma conversão brusca da natureza. O plástico fica inteiramente impregnado desse espanto: é menos um objeto do que o vestígio de um movimento”. In: BARTHES, R. Mitologias. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1993, p. 111-112.
111 LIPOVESTSKY, Gilles. O império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. p. 160.
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formas de consumir, descartar e, consequentemente, na natureza do aproveitamento dos refugos. O que resultou, ainda, num visível aumento do lixo produzido na cidade.
Como nos dias de hoje, vivemos o império do descartável, a atividade do Sr. José Francisco, de comprar e revender garrafas, remete-nos a um período em que o descarte das embalagens dos produtos norteava-se pela idéia de aproveitamento e reutilização, um tempo em que, ao se adquirir uma certa mercadoria, ainda se trocava o vasilhame no supermercado, sinal de uma outra forma de reaproveitamento dos restos.
De todo modo, a atividade de catadores de papel como o Sr. José Antônio, de garrafeiros como o Sr. José Francisco, de sucateiros como o Sr. Magid Cury, de empresas como o Butelão, e de outras menores existentes em Uberlândia, revelam algumas dimensões da produção e destino dos restos na cidade, nas quais se envolvem diferentes sujeitos. Nesse processo, trabalhadores e empresários empreendem uma disputa pela apropriação dos restos, contribuindo para conferir a eles novos sentidos. À medida que começam a ser aproveitados como materiais recicláveis, os restos deixam entrever seu uso empresarial, o que possibilitou, também, a atuação dos coletores.
Uma atuação que precisa ser avaliada, ainda, sob uma outra perspectiva, a de que a inserção dos trabalhadores no mercado do lixo revelou, sobremaneira, uma precarização de suas condições de vida e trabalho na cidade. O Sr. José Francisco, por exemplo, trabalhou durante vários anos na Souza Cruz, a companhia de cigarros que se instalou em Uberlândia por volta de 1978. Até meados da década de 1990, os trabalhadores dessa fábrica detinham um certo status, em razão de suas condições de trabalho; perfaziam uma jornada de seis horas diárias e recebiam salários razoáveis para o contexto local. Isso nos leva a refletir que, ao perder seu emprego na fábrica e ao recorrer à coleta de garrafas para sobreviver, o Sr. José Francisco viu-se diante de uma brusca ruptura em sua vida.
Desse modo, sua experiência tornou-se importante referência para pensarmos acerca da contradição existente no fato de que, a despeito do expressivo aumento do consumo da população, nos anos de 1980, isso não significou uma melhoria de vida para todos os que habitavam na cidade. Ao contrário, para trabalhadores como o Sr. José Francisco, e muitos outros que passaram a sobreviver da exploração dos restos, essa
realidade já se apresentava, lamentavelmente, como um súbito e contínuo “declínio no padrão de vida”.112
Entretanto, há, ainda, outras questões sobre a atividade desses trabalhadores que merecem ser realçadas. Em primeiro lugar, o modo como o trabalho do Sr. José Francisco e de tantos outros, garrafeiros e catadores de papel, indica um tipo de relação com o lixo em que esses trabalhadores tornam-se, de certa forma, ambulantes na cidade. Um elemento que, sem dúvida, muda a relação que esses sujeitos vivenciam com o trabalho: ao realizarem determinados percursos, traçam certos caminhos e se familiarizam com os lugares e com seus moradores. Nessa convivência, estabelecem uma relação de apropriação de espaços na cidade, na qual também constroem diferentes percepções e saberes, que lhes são extremamente úteis no cotidiano.
Em segundo lugar, entendemos que, nessa atividade de explorar recantos à procura dos restos da cidade, são os trabalhadores que vão em busca do lixo e, para muitos deles, há uma visão de que os materiais que recolhem pelas ruas da cidade não podem ser considerados lixo. Ainda que, por vezes, possam estar em meio a ele. Delineia-se, nessas relações, a complexidade que marca diferentes percepções sobre os restos, sobre seu valor, sua utilidade e o que significam as diversas possibilidades de seu uso.
Nessa perspectiva, é possível dizer que os traços que, paulatinamente, definiram o perfil dessa cidade foram marcados por significativas alterações nas relações vividas no espaço urbano. Elas carregavam muitas implicações e expressavam, sobretudo, sensíveis mudanças no comportamento e nos hábitos culturais da população no que se refere aos restos.
Na verdade, essas relações faziam parte de todo um processo social em que o viver na cidade começava a demandar maior organização, acarretando, também, a necessidade de conviver com outros problemas causados pelo acúmulo de vários tipos de restos produzidos por diferentes sujeitos, em distintos lugares do espaço urbano, tornando visível um processo em que os serviços limpeza pública passariam a assumir dimensões cada vez mais complexas.
Com o desenvolvimento urbano, as relações que as pessoas estabeleciam com a cidade também começava a mudar. Os problemas em torno das condições de limpeza articulavam-se ao comportamento da população e à questão da especulação imobiliária,
112 THOMPSON, E. P. op. cit., p.184.
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fatores que contribuíam para aumentar as demandas de capina e limpeza dos terrenos vazios. Por meio da imprensa e de outros registros, vimos que a presença de mato e de sujeira nos terrenos baldios exprimia diferentes e conflitantes concepções de limpeza, traduzindo noções, olhares e expectativas sobre o processo de urbanização da cidade.
As transformações nos hábitos de consumo da população delineavam um mercado dos restos: o comércio de materiais recicláveis, em que transparecia certas mudanças e permanências nas formas de produção e aproveitamento dos restos, desvelando como a cidade se organizava e se transformava com a complexidade da vida urbana.
Nesse processo, a problemática do lixo veio assumindo crescente visibilidade, o lixo doméstico, os restos da construção civil e o lixo hospitalar, à medida que precisavam ser gerenciados pela administração pública, representavam vários problemas e, de forma ambivalente, tornavam-se objeto da elaboração de novos discursos, projetos e interesses, que revelavam, também, mudanças nas maneiras de ver e agir em relação ao lixo. Discutir as ingerências que a cidade desenvolve tentando lidar com a diversidade dos restos é a referência norteadora dos capítulos que se seguem.