Bruken av regelverket i den samiske allmuens hverdag
2.15 Bosetning på begge sider av Deatnu i 1766
Fotografia tirada pela pesquisadora em outubro de 2004.
Na parte da frente da casa, o garrafeiro acumula os materiais com que trabalha. Ao ver esse amontoado de coisas, temos a impressão de uma verdadeira desordem, de uma “bagunça” tal que impossibilita tanto a circulação como a convivência naquele espaço. Mas, observando melhor, percebe-se uma lógica que organiza, seleciona e hierarquiza, dando sentido e possibilitando apreender toda a riqueza do significado da palavra aproveitar.
Nota-se a grande quantidade de garrafas, em formato, cores e tamanhos distintos. Vasilhames de vinho, cerveja, aguardente, enfim, todo um amontoado de objetos que têm finalidades específicas e, sendo assim, aceitação no comércio local e externo. Por exemplo: as garrafas pequenas de cerveja, denominadas long neck, não são reutilizadas na embalagem desse produto, por não ter retorno ao fabricante. Mas o garrafeiro, ao ter uma quantidade suficiente dessas garrafinhas, envia para as fábricas de refrigerante da região, tais como a indústria do guaraná Apolo em Araguari-MG ou do guaraná Cacique em Carmo do Paranaíba-MG. Nesse caso, às vezes, é preciso que ele desembolse o valor do frete, e, em certas circunstâncias, caso as empresas precisem entregar uma
carga de seu produto em Uberlândia, elas fazem o transporte das embalagens sem custo algum para o garrafeiro.
A atividade exercida pelo Sr. José Francisco e outros garrafeiros que sobrevivem da coleta desse produto, ou seja, o vidro, contribui para elucidar aspectos em torno do comércio dos restos em Uberlândia. Ao ouvi-lo contar sobre como se estrutura o comércio desses materiais, avaliamos que se configura uma verdadeira rede de negociações, todo um conjunto de relações que exige esforço, persistência e inventividade, essenciais a quem precisa garantir a subsistência contabilizando “lucro (que) são centavos”.
No que se refere ao uso das garrafas, pelo que conta o Sr. José Francisco, elas podem ser aproveitadas, uma vez limpas e esterilizadas, como novas embalagens, ou então, podem servir para moagem, processo no qual o vidro, ao ser fundido, é transformado em novos vasilhames ou quaisquer outros artigos desse mesmo material. Esse segundo caso já implica algumas dificuldades para o garrafeiro, pois é necessário que ele disponha de recursos para o pagamento do frete, uma vez que as indústrias mais próximas que reciclam esse produto localizam-se em Guarulhos-SP.
Isso significa dizer que o comércio do vidro destinado à reciclagem deixa de ser interessante porque é muito dispendioso. Mas, com a sua experiência e habilidade, o Sr. José Francisco desenvolveu algumas estratégias para enfrentar essa situação. Uma das alternativas encontradas consiste na permuta de mercadorias com alguns de seus fornecedores, a empresa que comercializa o guaraná Arco-íris em São José do Rio Preto- SP, que lhe oferece, em troca do vidro, bebidas como refrigerante e aguardente. Estas mercadorias são revendidas pelo Sr. José Francisco a comerciantes das redondezas e também a alguns vizinhos, que, em troca da aguardente, oferecem-lhe outras garrafas que ajudam a recompor o seu estoque. Todo esse intercâmbio faz parte do rol de pequenos ajustes inerentes à atividade que o garrafeiro vem tecendo ao longo de quase duas décadas de experiência nesse ramo. Como ele próprio diz: não se pode ter apenas um fornecedor, mas vários, pois é preciso “diversificar a sua área”.
Essa grande diversidade para complementar a renda e ajudar na sobrevivência diária ainda inclui a confecção de algodão doce em festas de aniversário infantis, herança da época em que começou a trabalhar com o comércio de garrafas e contava com a ajuda da esposa. Como ainda possui a máquina de fazer o algodão doce, o Sr. José Francisco, durante a tarde aos fins de semana, presta esse serviço às pessoas interessadas, basta
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que o busquem em sua casa, pois ele não tem um transporte adequado para levar a máquina.
Tratando-se de incrementos criativos para auxiliar na subsistência, interessante lembrar o fato de que os fornecedores do Sr. José Francisco, em sua maioria, são catadores, carroceiros, trabalhadores idosos, enfim, pessoas que, para ajudar a complementar a renda e a suprir alguma necessidade imediata de alimentação, oferecem a ele garrafas, vidros e outros produtos. Interessante notar como essas relações sinalizam uma interação entre o garrafeiro e parte da vizinhança local, mediante a prática de aproveitamento dos restos, o que tem um sentido especial no contexto das relações que envolvem a produção e o descarte do lixo na cidade.
Um dos outros produtos adquiridos pelo Sr. José Francisco são as cacharias ⎯ grades de plástico que servem para abrigar embalagens de cerveja e refrigerante ⎯ as quais também têm servido como objeto de comércio. A cacharia caracteriza outro produto que vale a pena ser negociado somente no comércio externo e, que geralmente, é remetido a uma indústria em Piracicaba-SP. De certa forma, podemos dizer que a comercialização dessa mercadoria sinaliza o início de um processo que desencadeia uma série de mudanças no comércio dos restos em Uberlândia. A verdade é que, além de garrafas e vidros, outros materiais começaram a ser incorporados nesse circuito. O Sr. José Francisco comentou que, “o processo de aparecer o plástico” e as (embalagens) “não retornáveis” tornou mais difícil o seu trabalho “na área do vidro, da garrafa”.97 Isso,
além de nos fazer inferir sobre as mudanças nos hábitos de consumo da população e no comércio local de materiais recicláveis, permite situar esse momento como um marco na história dos restos, que, até então, eram considerados como simplesmente lixo. A própria denominação de materiais reaproveitáveis dá-nos uma idéia de como essa visão veio se modificando.98
97 José Francisco Galdino, depoimento citado.
98 Para além dos anúncios, os jornais trazem algumas referências sobre certas campanhas beneficentes realizadas por organizações privadas, as Damas da Casa da Amizade, em meados dos anos de 1980, na qual também podemos perceber uma forma de reaproveitamento dos restos, cujo comércio já configurava possibilidades de ganho material. “Numa iniciativa das Damas da Casa da Amizade dos quatro clubes de Rotary da cidade, coordenadas pela companheira Judith Barata, presidente do Departamento Feminino do “Cidade Industrial”, será iniciada, na próxima segunda-feira para ter seqüência durante toda a semana, uma campanha de jornais usados. Segundo a coordenadora, objetivo é de conquistar muitas toneladas e, com o produto da venda, arrecadar uma importância expressiva, para que as Casas da Amizade dos Rotares uberlandenses possam seguir com a sua assistência social e aplicar filantropia aos nossos irmãos mais carentes”. Campanha de jornais velhos será aberta na próxima segunda-feira. Correio, 09 de fevereiro de 1985, n. 14.065, p. 06. Campanha de jornais velhos. Correio, 7 de novembro de 1984, n. 14.015, p. 06.
Ao comentar sobre as transformações que pôde observar nesse comércio, o Sr. Magid, empresário do ramo de sucatas, afirmou que, até a década de 1970, poucas pessoas trabalhavam direta ou indiretamente envolvidas com a indústria da reciclagem. Em outras palavras, a concorrência praticamente não existia. Mas, daquele período até os dias atuais, houve “um enorme impulso”. Esse movimento, a que se referiu o empresário, deixa entrever algumas transformações ocorridas ao longo de mais de três décadas. Do ferro velho à indústria da reciclagem, as mudanças foram ocorrendo gradativamente e, de muitas maneiras, diversificaram-se os restos, mas não a prática de comercializá-los.
Houve uma ampliação do mercado de materiais recicláveis e do número de pessoas envolvidas nessas atividades, mas, com isso, materiais como o ferro velho deixaram de
ser utilizados como no passado. A indústria da reciclagem implicou um aproveitamento
maior de produtos como papel, plástico e alumínio. De qualquer modo, ferro velho, garrafas, plásticos, alumínio, papel e papelão são restos que, historicamente, têm sido recolhidos e revendidos, e, mesmo variando de intensidade, o comércio deles na cidade demonstra intenso vigor.99
Na pesquisa sobre catadores de papel em Uberlândia, apontamos que quase todos os trabalhadores mais velhos, dentre os quais entrevistamos, sobreviviam ou já estavam envolvidos, de alguma forma, na coleta de certos materiais, como sucatas e ferro velho, desde a década de 1970. Mesmo hoje, denominados como catadores de papel, alguns trabalhadores, ao andar por ruas e terrenos baldios dos arredores em que moram, ainda recolhem diferentes materiais como ferro velho, alumínio, cobre, bronze, baterias e outros tipos de metal.100
Assim, esses trabalhadores circulam por quase toda a cidade, nos bairros mais distantes ou em áreas adjacentes ao centro. Com a desvalorização desse tipo de material, a maioria dos catadores começou, então, a recolher o papel. Quem andar pelas ruas do centro, após as 18h, poderá ver os sacos plásticos cheios de papel, ou então, as caixas de papelão em frente às lojas e bancos. São materiais que permanecem por pouco
99 A reciclagem é o aproveitamento de materiais como papel, plástico, papelão, alumínio, vidro e outros, que são recolhidos por muitos trabalhadores que sobrevivem coletando esses restos pelas ruas da cidade. Quando repassados aos compradores, esses materiais são revendidos à indústrias em outras localidades, que realizam novo processo de reciclar, de transformá-los em novo produto.
100 O valor do quilo do ferro velho no mercado, em 1999, eqüivalia a 0,05 centavos de real, sendo difícil o acesso e a venda desse material. São diferentes segmentos do comércio do ferro velho. Para o seu reaproveitamento, ao ser desmanchado, dentre outras coisas, é utilizado para recuperar peças e outros materiais.
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tempo nas calçadas, tendo em vista que estão sendo cada vez mais disputados pelos coletores. Ao fazer diariamente determinados percursos, os trabalhadores saem dos diversos setores e dirigem-se à região central, onde o comércio das lojas, supermercados, papelarias, escritórios, bares, restaurantes e lanchonetes “facilitam” a aquisição desses materiais.
A atividade dos coletores torna visível um panorama geral do universo de trabalho e sobrevivência engendrado pelo comércio de materiais recicláveis em Uberlândia. Ademais, a ocupação realizada por eles demonstra como algumas transformações articuladas à problemática do lixo foram gerando novas possibilidades de trabalho, às quais alguns trabalhadores apelam. Além disso, serve para apontar os circuitos desses restos na cidade.
Numa pesquisa sobre as experiências dos carroceiros em Uberlândia, nas três últimas décadas do século XX, Morais discute como uma parcela desses trabalhadores, a partir da década de 1980, recorre à coleta de materiais recicláveis como alternativa de sobrevivência. Isso acontece devido às transformações nas atividades de transporte de pessoas e produtos, entre outras modalidades de prestação de serviços à população
desenvolvidas pelos carroceiros na cidade.101
Se, por um lado, atividades como transportar pessoas, pequenas mudanças e, posteriormente, recolher entulhos, indicam as múltiplas possibilidades de serviços prestados por esses trabalhadores à população, por outro, as transformações na natureza desse trabalho articulam-se diretamente às mudanças nas formas de produção do lixo na cidade. Ao serem substituídos pelo transporte rodoviário, muitos carroceiros passaram a recolher entulho e a coletar materiais recicláveis, o que remete novamente a uma dimensão do lixo como possibilidade de trabalho.
A exemplo disso, o fato de que o comércio dos restos tem movimentado um mercado no país. Em Uberlândia, há vários anos, esse mercado é expressivo por seu volume e sua diversidade. Sobre o desenvolvimento desse ramo de negócios na cidade, o jornal Correio informa:
101 MORAIS, Sérgio Paulo. Trabalho e Cidade: trajetórias e vivências de carroceiros na cidade de Uberlândia, 1970-
Só em Uberlândia, cerca de 500 pessoas estão diretamente envolvidas no comércio de ferro velho. Do proprietário de pequenas e médias empresas ao mais humilde catador de sucata. O setor se divide em vários mercados distintos: o comércio de papel e plásticos usados, de sucatas e o mercado de peças de veículos. De uma maneira geral, as empresas se especializam em um desses setores.102
Naquele momento, já se percebia a amplitude do mercado de restos em âmbito local, assim como o envolvimento de diferentes sujeitos. Uma inserção que, na interpretação do jornal, configurava-se democrática e em condições de igualdade para todos, fosse um médio empresário ou o “mais humilde catador”.
O que o texto não disse é que a especialização das empresas, a que se refere, pode ser entendida também como sinônimo de como a indústria da reciclagem vem crescendo de maneira satisfatória para quem tem recursos para investir. O Sr. Magid Cury é um médio empresário nesse ramo e contou que trabalha com a comercialização de materiais recicláveis desde a década de 1960. Inicialmente, sua idéia era ter uma indústria de transformação de metais, por isso, começou comprando materiais para a indústria, mas os recursos necessários à fundição eram vultosos, daí ele não levou o projeto adiante.103
As atividades de empresários como ele demonstram que o lixo na cidade veio sendo alvo de diferentes propostas. Quando começou em 1963, ele comprava cacos de vidro para serem revendidos a fábricas em outros estados. Na década de 1970, tinha uma fábrica de panelas, instalada no mesmo local. Mas atualmente, diz que lida somente com a compra e revenda de metais e alumínios, que são recolhidos, principalmente, por coletores.
Ao ouvir o Sr. Magid explicar o funcionamento de seu negócio, consideramos como esse é um universo de obscuras e interessantes relações. Segundo ele, são diferentes os processos que envolvem o comércio de materiais recicláveis. Para quem lida com o ferro velho, este já não é mais tão interessante de comercializar. No que se refere a outros materiais, o comércio mais lucrativo é o das latinhas de alumínio, por serem muito valorizadas na indústria e circularem em grande quantidade no mercado, um aspecto indicativo da relação entre os hábitos de consumo da população e a produção dos restos.
102 No ferro velho nada se cria, tudo se transforma. Correio de Uberlândia, 25 de junho de 1989, p.01.
103 Magid Cury, 55 anos, descendente de pais libaneses, casado, possui 3 filhos, proprietário da empresa Comércio Metais Tabor Ltda., no Bairro Presidente Roosevelt. Conversa informal com a autora em 29 de Fevereiro de 2000.
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Em seu depósito, o Sr. Magid compra cerca de 100 toneladas de material por mês, que chegam por meio de seus fornecedores: as usinas de lixo, as oficinas, pequenos comerciantes que estão se inserindo no ramo, mas, sobretudo, as mãos dos coletores. Ele trabalha com mais dez funcionários, todos envolvidos nos vários processos de organização desses materiais. O depósito ocupa uma área de aproximadamente 9.500m² e é dividido em duas alas, sendo que numa delas prevalece maior organização, trata-se do local onde se prensam as latas de alumínio. Quanto à outra ala, na verdade, consiste num verdadeiro armazém de sucatas, em que se amontoam centenas de panelas velhas, arames, fios de cobre e outras peças de metal. No lugar, funcionários também trabalham prensando os metais. O setor das latas de alumínio pode ser visto na fotografia abaixo:
Foto 2. Trabalhadores carregam o alumínio prensado no depósito do Sr. Magid. Embaixo da cobertura, há um caminhão