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DEL IV – ANALYSE AV UTVALGTE BØRSNOTERTE FORETAK

12. ANALYSE AV MARINE HARVEST ASA

12.1.1. Valutaeffekter som inngår i omsetningstallene

Seria ingênuo, nesta parte final, propor um retrospecto do que foi a Comissão Científica de Exploração. Fazer um cotejo crítico das “histórias” da Comissão Científica (ainda que, como foi dito na Introdução, elas existam em número reduzido e, quase sempre, remetam à “história matriz” de Renato Braga) ou aventurar-me numa “versão”, além das limitações de um fecho de capítulo, levariam à mesma disputa de protagonismo percebido no episódio da proposição da Científica. Por isso, procurei abordar aqui a expedição às províncias do Norte como um projeto político-científico, a partir das percepções e falas produzidas sobre a Comissão na imprensa, na correspondência e em outros escritos dos naturalistas-expedicionários. Meu intuito não é encontrar novos fechos ou definições sobre a Comissão e o seu legado, e sim contribuir com novas possibilidades de tratamento interpretativo de um fazer científico feito de arranques, expectativas, conflitos e descontinuidades.

As primeiras críticas ao projeto surgiram menos de seis meses após sua proposição. Uma das matérias de capa do Diário do Rio de Janeiro intitulava-se “A Comissão Exploradora e o Ceará”, fazendo considerações sobre as instruções de viagem redigidas por Cândido Batista de Oliveira, aquelas que já indicavam a província como destino da expedição. Apesar de louvar a “inteligência tão vasta quanto esclarecida” de Oliveira, então diretor do Jardim Botânico (1851-1859) e senador pela província do Ceará (1849-1865) — ressaltando, com ironia, este representante vitalício de uma província “que tão espontaneamente o elegeu para advogar [...] a sua causa e os seus interesses”232 —, a matéria questiona o artigo 14 das instruções, que coloca como medida para combater as secas na região a sondagem para a instalação de poços artesianos. Ora, fontes artesianas atenderiam, segundo a matéria, apenas o fornecimento de água para a população e os animais, desnecessárias numa província cujos povoados quase todos estão situados à margem dos rios, bastando cavar “dois ou três palmos de areia para rebentarem veias abundantes e inesgotáveis de água doce e salubre”. O flagelo da seca só seria aplacado com a “introdução de uma grande massa de água

232 Os senadores, nesse período, eram escolhidos pelo imperador a partir de uma lista tríplice, com

candidatos eleitos nas províncias por votação indireta e majoritária. Para o cargo, que era vitalício, somente podiam ser candidatos cidadãos natos ou naturalizados com idade mínima de 40 anos e rendimento anual acima dos 800 mil réis.

corrente e perene [...], [qu]e entretenha a umidade atmosférica, melhoramento que só por si bastará para conservação da verdura das matas, e por conseguinte para a extinção das secas”. A melhor solução seria canalizar o rio São Francisco para encher o leito do rio Jaguaribe. Afinal, o autor diz esperar que o “tão ilustre brasileiro a quem nos referimos não poupará nenhum dos imensos recursos de que dispôs para livrar a província que tão dignamente representa no parlamento, de um flagelo assustador que ameaça tragá-la nas voragens de um abismo, qual é a seca”.233

Na imprensa, pululam manifestações acerca da utilidade ou desvantagem desse tipo de exploração, com destaque ora para o engrandecimento da nação pelo conhecimento, ora para os “imensos recursos” que mobilizam — e que melhor seriam aproveitados em outras necessidades do país. Para o bem ou para o mal, a Comissão Científica figura como referência nessas questões. Novamente o Diário do Rio de Janeiro alerta sobre a inutilidade de enviar uma outra comissão para explorar o rio Tibagi, no Paraná, por já se conhecer de antemão suas inúmeras corredeiras e a pouca profundidade de seu leito (o que inviabilizaria fazer o trajeto em canoas), bem como o risco de expor os viajantes a caminhos com poucos recursos, em que é preciso “carregar os objetos em costas de animais, por cujo frete se pede grande quantia”.

Destaca, porém, o papel aglutinador que se esperava da Comissão Científica, considerada mais proveitosa do que pequenas explorações. “Pois que o governo há de auxiliar essa comissão e lhe há de fornecer dinheiros, pois que essa comissão científica há de fazer aquilo que as comissões exploradoras foram encarregadas, é claro a todas as luzes o que deixamos dito”.234 Mesmo assim, denota-se, no texto, uma discussão há muito superada, em que o imperativo da exploração do interior já se sobrepõe a perigos e despesas, numa tradição iniciada com a ambiciosa (e trágica) expedição La Condamine (1735-1745), passando pelas viagens científicas de Alexander von Humboldt (1799-1804) e a já citada de Martius e Spix (1817-1820) — para ficarmos apenas em explorações na América do Sul.

Estes vastos conteúdos seriam conhecidos não por meio de linhas finas sobre um papel em branco, mas por representações verbais que por sua vez são condensadas em nomenclaturas ou por meio de grades rotuladas nas quais as entidades são inseridas. A totalidade finita

233 “A Comissão Exploradora e o Ceará”. Diário do Rio de Janeiro, 27 de novembro de 1856, p. 1.

Acervo da Biblioteca Nacional.

234 “A opinião e o governo e as explorações dos rios interiores”. Diário do Rio de Janeiro, 23 de outubro

destas representações ou categorias constitui um “mapeamento”, não

só de linhas costeiras ou rios, mas de cada polegada quadrada, ou mesmo cúbica, da superfície terrestre.235

Um mês antes, o Correio Mercantil iria na contramão, conclamando os cidadãos, na festa do 7 de setembro, a estimar e prezar o que é da pátria. Pátria esta que surpreende os que aqui vêm estudar nossos usos, costumes e grau de adiantamento, desvanecendo a reputação inferior pintada no estrangeiro. O artigo referia-se à recente partida no porto do Rio de Janeiro da fragata Novara, trazendo os membros da comissão austríaca que fariam uma viagem de circum-navegação pelo globo, considerada a última grande expedição científica global do século XIX. Informa que a fragata voltaria ao Rio antes de aportar definitivamente na Europa, a fim de fazer permutas científicas com a nossa Científica, que, a esse tempo, já haveria retornado à Corte. A comparação tanto das iniciativas quanto dos dois países reforça o valor de uma exploração em nossas províncias interiores.

Este exemplo, dado por um governo absoluto, e que, como diz o vienense Saphir, está atrasado de um século, deve mostrar que não foi um plano absurdo o de mandar ao nosso interior uma Comissão Científica dirigida pelo sábio Dr. Freire Alemão. Se a Áustria colherá disso não pequenas vantagens, por que não tirará o Brasil igual ou maior proveito de uma expedição do mesmo gênero?236

Nos dois artigos, evidencia-se uma compreensão extremada do fazer científico; por um subestimado pela “inutilidade” diante de outras urgências, e por outro exagerando a capacidade de a comissão, por si só, equiparar o Brasil às demais nações civilizadas. Não se levava em conta que o historiador natural era guiado por demandas distintas de conquistadores e comerciantes — embora, várias vezes, tenha se associado a estes para alcançar regiões mais remotas e atuado como agente da expansão imperialista. Sua área de atuação era precisamente o sertão; e os conteúdos dessas massas de terra a água, cuja pujança e diversidade se impunham como verdadeiras barreiras naturais, quase intransponíveis, seu objeto de estudo. No meio de densas florestas ou entocada em áreas de caatinga, poderia muito bem haver eldorados ou vestígios de civilizações tão antigas quanto os astecas, incas e maias, das quais os

235 PRATT, Mary Louise. Op. cit., p. 64.

236 “Páginas menores. 7 de setembro”. Correio Mercantil, 7 de setembro de 1857, p. 1. Acervo da

indígenas seriam “descendentes degenerados”. Ou, como destacara Manuel Ferreira Lagos em seu argumento a favor da Científica, a descoberta de uma simples folha ou animal que abrisse novos mercados ou rivalizasse com os existentes era justificativa mais do que suficiente para o investimento em viagens científicas.

Nos papéis de Freire Alemão, encontra-se outra cópia do Correio Mercantil, dessa vez reproduzindo notícia do jornal francês Le Moniteur. A cópia foi feita no Crato, em 9 de fevereiro de 1860, enquanto a notícia traduzida saiu na edição de 8 de dezembro de 1859. Diante da demora na chegada de notícias do exterior, a matéria original pode ter saído semanas ou meses antes:

— Lê-se no Moniteur francês:

Bem que conte muitos sábios distintos o Brasil, ainda não foi explorado e conhecido completamente. Há apenas alguns anos que um jovem naturalista, conhecido por trabalhos notáveis elogiados pelas nossas sociedades científicas, o sr. Manuel Ferreira Lagos, propôs no instituto geográfico do Rio de Janeiro a nomeação de uma comissão que fosse explorar o vasto e belo império brasileiro. Sua voz foi ouvida, e Sr. Visconde de Sapucaí, presidente do instituto, apresentou em breve um projeto completo para a organização dessa comissão. O governo e as câmaras resolveram dar-lhe todos os meios de poder levar ao cabo tão útil pensamento.

O Dr. Freire Alemão, um dos mais hábeis naturalistas brasileiros, foi nomeado diretor da comissão. Bem que sexagenário, o Dr. Freire Alemão tem rara agilidade e grande vigor. Quando os indígenas da Flórida viam herborizar o incansável e famoso Bertram,237 chamavam- lhe o caçador de flores. Graças à perícia com que maneja as armas de fogo, o Dr. Freire Alemão merece mais do que o botânico inglês tal título. Se uma flor rara desabrocha em grande altura, onde só chegam as canindes e as araras, o Sr. Dr. Freire Alemão com um tiro conquista a flor com pasmo de seus companheiros.

O Dr. Guilherme de Capanema, engenheiro distinto, encarregou-se da seção geológica e mineralógica. Os trabalhos astronômicos e geográficos estão confiados ao distinto professor Gabaglia. O Sr. Lagos tem a seu cargo a seção de zoologia. A narração da viagem será feita pelo Dr. Gonçalves Dias, jovem escritor cujas poesias são

237 Acreditamos que a referência trata, na verdade, do naturalista norte-americano William Bartram (1739-

1823). De 1773 a 1777, Bartram encetou expedição a oito colônias do Sul. A pesquisa sobre flora, fauna e os nativos norte-americanos deu origem ao livro Travels through North & South Carolina, East & West

Florida, the Cherokee Country, the Extensive Territories of the Muscogulges, or Creek Confederacy, and the Country of the Chactaws, Containing an Account of the Soil and Natural Productions of Those Regions, Together with Observations on the Manners of the Indians, publicado em 1791. O chefe

indígena da tribo Seminole, Ahaya Secoffee, apelidou Bartram de Puc Puggy (caçador de flores), devido ao seu interesse em estudar plantas e animais locais.

populares no Brasil, e que também já tem publicado trabalhos importantes como filólogo e etnógrafo.238

Na época, Freire Alemão encontrava-se bastante desgostoso com os rumos da expedição, chegando a solicitar ao imperador, ainda em 1859, sua saída da presidência da Comissão Científica, o que lhe foi negado. O tema será tratado com mais profundidade no próximo capítulo, mas, por ora, é importante destacar a importância dessa notícia, vinda do exterior, contrapondo-se às que circulavam na imprensa nacional. Tanto que mereceu uma cópia a bico de pena, em vez de lápis, bem como um destaque lateral nas referências à sua pessoa, colocando-o como maior do que William Bartram.

238 ALEMÃO, Francisco Freire. Notícia sobre a Comissão Científica extraída do Correio Mercantil.

Crato, 9 de fevereiro de 1860. Seção de Manuscritos da Biblioteca Nacional, doc. I-28, 9 7. Disponível em: <http://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_manuscritos/mss1449270/mss1449270.pdf> . Acesso em: 6 fev. 2017. Notícias Diversas. Correio Mercantil. Rio de Janeiro, ano XVI, n. 336, edição de 8 de dezembro de 1859, p. 1.

Figura 1: Francisco Freire Alemão. Notícia sobre a Comissão Científica extraída do Correio Mercantil. Crato, 9 de fevereiro de 1860.

Mesmo em condições ideais de financiamento, equipamento e pessoal, era impossível prever todos os percalços de um percurso. Ou, sendo a viagem bem- sucedida, garantir a descoberta de conhecimentos e produtos que pudessem ser utilizados a curto e médio prazo. Entre expectativas e disputas, apoios e críticas, Freire Alemão parte para o Ceará. De todas as seções da Comissão, a Botânica havia sido a mais profícua tanto em materiais coletados — levando para a Corte um herbário com 14 mil amostras de plantas — quanto na produção escrita, incluindo um diário de viagem, memórias avulsas, desenhos, estudos botânicos in loco, entre outros registros. A profusão de seus escritos acaba por extrapolar as instruções que ele mesmo redigira, englobando atribuições e prerrogativas da Seção Zoológica bem como da Narrativa da Viagem. Para Karen Lisboa, mais do que registrar a observação de uma cultura declarada estrangeira, o relato do viajante nos oferece amplas evidências da cultura do indivíduo. “Portanto, ao mesmo tempo em que o viajante fala do lugar visitado, [o autor-viajante] reelabora o seu próprio lugar de origem, permanecendo em constante diálogo com as suas referências, que podem ser revistas, negadas ou reiteradas”.239

Talvez uma das vozes mais aguerridas contra a Comissão Científica tenha sido a de Antônio Luís Dantas de Barros Leite, o Senador Dantas. Segundo Renato Braga, tudo começou com um primo de Dantas, o médico e historiador alagoano Alexandre José de Melo Morais. A motivação deste em depreciar a viagem ao Ceará seriam “velhas contas literárias a ajustar com Gonçalves Dias, Lagos e Capanema, solidários com Joaquim Norberto nas suas críticas ferinas aos trabalhos do historiador alagoano. Vaidoso, aguardou uma oportunidade para vingar-se”.240 A crítica ganharia primeiramente as páginas da Corografia histórica, cronográfica, genealógica, nobiliária e política do Império do Brasil, publicada entre 1858 e 1860. O trecho a seguir chegou a ser transcrito por Freire Alemão em seu diário,241 ao dar com um exemplar da obra de Melo Morais em Fortaleza:

239 LISBOA, Karen Macknow. A Nova Atlântida de Spix e Martius... Op. cit., p. 47.

240 BRAGA, Renato. História da Comissão Científica... Op. cit., p. 53. Para entender melhor a questão

entre Melo Morais e Joaquim Norberto, quando aquele tentava pleitear uma vaga de sócio correspondente no IHGB a partir do oferecimento de documentos e obras de sua lavra, consultar SANTOS, Pedro Afonso Cristóvão dos. “Compilação e plágio: Abreu e Lima e Melo Morais lidos no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro”. Revista História Historiografia. Ouro Preto, n. 13, dezembro de 2013, p. 45-62.

241 Freire Alemão transcreveu o trecho da seguinte maneira: “O governo do Brasil, até agora, só se tem

limitado a gastar com mãos largas, e improficuamente os dinheiros públicos, não só com o fantasma da colonização, como com outras coisas de nem uma utilidade como por exemplo, a viagem científica, aparatosamente decretada, que o resultado provável que há de apresentar, é envergonhar-nos com o estrangeiro. Não era mais proveitoso mandar-se colonos para o cultivo das terras, que uma comissão a apanhar borboletas, e ossos de animais esbrugados pelos urubus! Se a comissão científica fosse explorar

O governo do Brasil, até agora, só se tem limitado a gastar com mãos largas, e improficuamente os dinheiros públicos, não só com o fantasma da colonização, como com outras coisas de nenhuma utilidade, como, por exemplo, a viagem científica, aparatosamente decretada, que o resultado provável que há de apresentar, é envergonhar-nos com o estrangeiro. Não era mais proveitoso mandar- se colonos para o cultivo das terras, que uma comissão a apanhar borboletas, e ossos de animais esbrugados pelos urubus! Se a comissão científica fosse explorar as minas de metais preciosos, e diamantes, para nos dar um verdadeiro conhecimento das riquezas delas; demarcar topograficamente o continente brasileiro, para facilitar aos geógrafos o conhecimento da nossa terra, mui proveitoso seria, porém gastar-se tanto dinheiro com a classificação das plantas já por demais estudadas, não só pelos naturalistas estrangeiros, como por alguns dos nossos sábios; apanhar borboletas, e ossos, [palavra apagada] de quem, é o maior dos desperdícios!!! A fitografia no Brasil é de uma dificuldade a toda a prova, porque em parte não são conhecidas, em todas as províncias, pelos mesmos nomes; e assim, deixando dúvidas, seria um grande serviço feito à ciência, se alguém se propusesse a indicar a sinonímia das plantas do Brasil, e sua aplicação em relação à medicina, e às artes.242

Renato Braga segue seu comentário afirmando que o Senador Dantas teria aproveitado a “deixa” dada pelo primo e, da tribuna do Senado, cunhou o nome pelo qual a expedição ficaria mais conhecida: Comissão de Borboletas. A primeira referência encontrada a esse epíteto foi na sessão do Senado de 23 de maio de 1860, durante a resposta à fala do trono, em que o Senador Dantas assim se expressa:

Abre-se outra sessão e a coroa nos diz: “O povo sofre fome, o meu governo cuida de medidas para aliviar os seus sofrimentos”; e, acabado o ano, o que se fez? A criação de uma comissão de borboletas no Ceará, comissão cuja despesa anda já por mais de 800:000$; e note

as minas de metais preciosos e diamantes para nos dar um verdadeiro conhecimento das riquezas delas; demarcar topograficamente o continente brasileiro, para facilitar aos geógrafos o conhecimento da nossa terra, mui proveitoso seria, porém gastar-se tanto dinheiro com a classificação das plantas já por demais estudadas, não só pelos naturalistas [f. 248] de uma dificuldade a toda a prova, por que em parte não são conhecidos em todas as províncias, pelos mesmos nomes; e assim deixando dúvidas, seria um grande serviço feito à ciência, se alguém se propusesse a indicar-se pronúncia das plantas do Brasil e a sua aplicação em relação usual à medicina e às artes”. A ausência de alguns trechos, como se verá a seguir, pode ser atribuída à pressa com que usualmente se toma este tipo de nota e a passagem entre uma página e outra, quando é comum cometer-se o erro de “pular” algum trecho. ALEMÃO, Francisco Freire. Diário

de Viagem... Op. cit., p.471-472.

242 MORAIS, Alexandre José de Melo. “Utilidade dos Índios, em relação à Colonização Europeia[a, que

tem vindo para o Brasil”. Corografia histórica, cronográfica, genealógica, nobiliária e política do

Império do Brasil (tomo II). Rio de Janeiro: Typographia Americana de José Soares de Pinho, 1859, p.

448-449. Disponível em:

<https://books.google.com.br/books?id=VYovAAAAYAAJ&printsec=frontcover&hl=pt- BR#v=onepage&q&f=false>. Acesso em 11 maio 2015.

V. Ex. que na resposta à fala do trono ainda se mostra a necessidade de mais comissões desta mesma natureza e para os mesmos fins.243

Da tribuna, o senador Dantas, munido de ironia e uma calculada desatenção a contradições, peculiares à retórica política, associava a Comissão Científica ao exemplo mais acabado das ações dispendiosas e impensadas do governo imperial. Ora atacava a pretensão das instruções em encontrar veios de ouro e outros metais nos subterrâneos cearenses, quando dizia que a agricultura da província estava morta e a população sofria o flagelo da fome. “Eu, Sr., presidente, comparo estes ministérios anteriores, que, se esquecendo que o alívio dos nosso males está na cultura da superfície da terra, o vão buscar nessas dispendiosas, com[o] certas aves carnívoras que deixam intacta a superfície do cadáver para alimentar-se dos intestinos”.244 Ora o senador Dantas tratava mesmo as tentativas de modernização da agricultura como parvoíce que só servia para arranjar colocação para afilhados, sem qualquer utilidade prática, “como os tais chins para colonizar o Brasil, a tal comissão de borboletas e o tal instituto agrícola que há de ser um novo funil por onde pode vazar as nossas rendas”.245

Nesse sentido, percebe-se que as ideias proferidas pelo senador permitem- lhe imprimir, junto aos demais tribunos e aos leitores dos jornais que reproduziam as sessões das Câmaras Legislativas, uma determinada imagem de si, fazendo-se sujeito a partir de seus discursos e posicionamentos sobre as propostas de modernização do Império brasileiro.

Os discursos e pronunciamentos não falam de um objeto externo a eles, mas constituem o próprio objeto, dando a ele nome, conceituação, versões, inteligibilidade, verdades. Tanto que somente ao pronunciar ou escrever esses discursos e pronunciamentos, ou seja, somente ao expressar suas ideias, pensamentos, emoções, afetos, posições políticas, éticas, estéticas, morais ou religiosas, é que o emissor vai adquirindo uma dada identidade de sujeito, vai emergindo