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DEL III – TIDLIGERE FORSKNING OG DAGENS PRAKSIS PÅ OSLO BØRS

8. DAGENS PRAKSIS PÅ OSLO BØRS

8.5. R ESULTATENE FRA ANALYSEN

Em busca de uma narrativa do passado norteada pela questão nacional, o IHGB promove, em 1844, um concurso acerca do “Modo pelo qual se deve escrever a história do Brasil”, a partir de uma proposta do imperador Pedro II. Como vimos no tópico anterior, a formulação dessa historiografia nacional busca consolidar o regime monárquico enxertado por representantes da antiga metrópole, garantindo a integridade política e territorial frente à republicanização e às revoltas escravas na América, e ao mesmo tempo dar-lhe caracteres de singularidade, a partir de uma determinada seleção e interpretação dos fatos pretéritos.

No parecer de 20 de maio de 1847, a comissão avaliadora (Francisco Freire Alemão era um dos pareceristas) premiou o trabalho do naturalista bávaro Carl Friedrich Philip von Martius. Mas por que o pensamento histórico de um botânico estrangeiro teve tanta relevância entre os nossos letrados? A escolha ocorre em detrimento do texto de Henrique Júlio Wallenstein, que propunha a narração e distribuição dos fatos dignos de se recordar pelo sistema de décadas, considerada ultrapassada pelo comitê, “uma vez que, organizada unicamente pelo critério cronológico, não fornecia ao leitor contemporâneo o sentido e a finalidade desse trabalho de escrita da história”. A opção é justificada ainda pelo alinhamento do texto de Martius às demandas da moderna historiografia e, por sua vez, às diretrizes que o próprio IHGB deseja imprimir à escrita da história pátria.112

Parece à comissão que o autor desta memória [Henrique Wallenstein] não compreendeu bem o pensamento do vosso programa, porquanto as vistas deste Instituto não se podiam contentar com a simples distribuição das matérias, e isto por um método puramente fictício, que poderá ser cômodo para o historiador, mas de modo algum apto a produzir uma história do gênero filosófico, como se deve exigir atualmente113(grifo meu).

Assim, a “incompreensão” do programa do concurso por Júlio Wallenstein, conforme a avaliação da comissão julgadora do IHGB, evidencia, nos membros dessa

112 SALGADO GUIMARÃES, Manoel Luiz. “A disputa pelo passado...”. Op. cit., p. 100. 113 Revista do IHGB (atas), Rio de Janeiro, n. 9, p. 279, 1847.

elite intelectual, a importância de não apenas narrar os fatos do passado e localizá-los temporalmente, mas reconstruir o passado, no qual o historiador/autor intervém de forma direta na seleção e hierarquização desses fatos na narrativa. Uma concepção de história tanto filosófica quanto pragmática. Filosófica por não se contentar em fazer a crônica de pequenos ou grandes acontecimentos, devassando os movimentos profundos da história a partir de uma visão de unidade de um povo. E pragmática na medida em que o passado serviria de referência e inspiração para as questões do presente. Uma escrita que, portanto, deveria fornecer ao leitor sentido e finalidade, guiada pelo sentimento de pátria — concebida “[...] não apenas como referência a um lugar de nascimento, mas, sobretudo, como sentimento de pertencimento a uma comunidade, que se expressaria territorial, política e culturalmente”.114

Postura concatenada com a constituição das nações modernas no século XIX, mas que, no caso brasileiro, tentará resolver os impasses para a definição de uma cronologia do Novo Mundo anterior à chegada do europeu.

O programa de Martius, em linhas gerais, defende que, diante da grande extensão do território brasileiro, da variedade tanto da natureza quanto dos grupos humanos que nela habitam, há que se engendrar uma escrita que procure integrar a soma dessas particularidades no todo integrado e coeso chamado Brasil. Um todo a ser abordado a partir da uma perspectiva “pró-naturalista”, em que as ações humanas são determinadas por condicionamentos semelhantes aos do mundo físico, desconsiderando padrões tipicamente humanos ou culturais.115 A história do Brasil é, antes de tudo, uma história natural: o brasileiro é resultado da mescla das raças branca, indígena e negra, em que se “reconhece” a contribuição desses dois últimos na formação de um espírito nacional — nos momentos em que estes souberam adotar a civilidade do português desbravador, contribuindo no processo de colonização.

Mas como incluir regiões e populações que não possuíam documentos, monumentos e outras marcas de historicidade, à luz da cultura oitocentista? O autor de

Como se deve escrever a história do Brasil coloca a natureza como um equalizador dessas temporalidades, ou pelo menos um caminho possível para a escrita da história dos chamados povos americanos. Martius acredita que diversidade territorial ou mesmo o caráter das populações nada tinham a ver com as delimitações provinciais,

114 SALGADO GUIMARÃES, Manoel Luiz. “A disputa pelo passado...”. Op. cit., p. 105.

115 WEHLING, Arno. “A concepção histórica de von Martius”. In: Revista do IHGB, ano 155, n. 385,

estabelecidas a partir de demandas administrativas e, portanto, artificiais. Mais válido, seria entender cada elemento dessa nação a partir das fronteiras naturais, detentoras de maior sentido no tocante ao juntar e ao separar.116 Para escrever uma narrativa capaz de engendrar a história da natureza e a história dos homens, Martius defende que o historiador deve lançar-se ao coração desses sertões, munido de um saber capaz de compor um quadro amplo, diverso e devidamente formatado pelo e para o olhar europeu.

O naturalista fala com conhecimento de causa. Designado pelo rei da Baviera para realizar uma viagem científica a regiões pouco exploradas da América do Sul, Martius e o zoólogo Johann Baptiste von Spix aportam no Rio de Janeiro em julho de 1817, juntamente com o séquito que trouxe da Áustria a arquiduquesa Leopoldina, noiva do príncipe herdeiro dom Pedro. Após seis meses de preparativos na Corte, seguiram para São Paulo, Minas Gerais e sul da Bahia. Subiram para os sertões de Pernambuco, Piauí e Maranhão até chegarem à Bacia Amazônica, onde fizeram incursões pelos rios Amazonas, Solimões, Negro e Japurá, alcançando as atuais fronteiras do Peru e da Colômbia. No total, permaneceram três anos no Brasil, tendo percorrido cerca de 10 mil quilômetros de território, estudando aspectos da fauna, flora, geografia, clima, além das comunidades indígenas. Até sua morte, em 1868, Martius dedicou-se quase exclusivamente ao estudo do acervo trazido do Brasil e à publicação dos resultados da viagem exploratória.117

Martius, agora o viajante-historiador, realiza com este texto emblemático as condições para a emergência do texto histórico no sentido moderno. O ter visto e o ter estado no Brasil asseguram-lhe as condições de produção do seu texto, reafirmando o sentido implícito

no termo “história” em que o ver é a condição para o saber. Aliás, não

é outra a sua postura quando ao sublinhar que para a escrita de uma verdadeira história do Brasil, capaz de comportar um retrato de todas as regiões do vasto território, tornava-se indispensável “que o historiador tivesse visto estes países, que tivesse penetrado com os seus próprios olhos as particularidades de sua natureza e população” (op. cit., 400, grifo do autor). Ou seja, que pudesse fundar sua escrita a partir de uma experiência semelhante a que realizara duas décadas antes em companhia de von Spix.118

116 RAMOS, Francisco Régis Lopes. Op. cit., p. 22.

117 LISBOA, Karen Macknow. A Nova Atlântida de Spix e Martius: natureza e civilização na Viagem pelo

Brasil (1817-1820). São Paulo: Hucitec, 1997, p. 54-55.

Num tempo em que ciências “naturais” e “humanas” se interpenetravam, a escrita da história de uma nação originada de sociedades iletradas passaria necessariamente pelo estudo das ciências naturais e da cultura material dos povos autóctones, na busca de um ordenamento inteligível da diversidade e exuberância do mundo tropical pela narrativa. É a partir dessa perspectiva que vamos trabalhar o papel da história natural como fornecedora de modelos interpretativos e representações da nação brasileira. Tendo em vista nosso objeto de estudo, o diário de viagem de um botânico brasileiro que atuou no limiar da Ilustração luso-brasileira e de um Romantismo que relaciona, de maneira orgânica, natureza e sentimento pátrio, tentaremos não estabelecer periodizações rígidas. Trataremos também do movimento de naturalistas em direção ao Novo Mundo e as implicações dessas viagens para a configuração geopolítica do período e a (difícil) afirmação de uma ciência nacional, com destaque para a botânica.

Se tal movimento vinha ocorrendo desde o período colonial — com a aclimatação inicialmente empírica de plantas e animais na Terra de Santa Cruz, ou quando a metrópole promoveu, de forma mais sistemática, a formação e o envio de “vassalos ilustrados” às suas possessões ultramarinas com o objetivo de descobrir artefatos, técnicas, plantas ou minerais que reforçassem o erário real — no século XIX, essas viagens ganharão outra configuração. As diversas formas de confronto dos doutos com os sertões concorreriam, no Brasil independente, não apenas para a necessidade estratégica em conhecer as potencialidades geográficas e naturais de seu território, balizada tanto pela herança ilustrada quanto pelo historicismo de matriz romântica. Ao promover iniciativas como a Comissão Científica de Exploração, buscava-se também “instituir um discurso de saber, de cariz nacional e devidamente autorizado (posto que assentado nos princípios de observação direta e rigor metódico) para inserir o país no prestigioso âmbito da comunidade científica internacional”.119

Entender a importância e a repercussão das viagens científicas nos leva, para além dos interesses econômicos, políticos e estratégicos envolvidos na exploração de plantas, animais e minerais, a entender a emergência de uma nova percepção sobre a natureza a partir do século XVII, em que a observação seria investida de novos privilégios e primazias a partir dos aperfeiçoamentos teóricos e técnicos nas áreas de

119 SILVA FILHO, Antonio Luiz Macêdo. Nota Explicativa. In: ALEMÃO, Francisco Freire. Diário de

ótica (microscópio, câmara escura), matemática (perspectiva) e física (leis do movimento).

O microscópio deslindava a existência insuspeitável de seres invisíveis a olho nu, como protozoários, bactérias e cadeias de fito-plâncton, enquanto o telescópio redefinia a posição da Terra num universo para além da percepção tangível. A busca por novas rotas para o Oriente, bem como os descobrimentos, expandiram a noção do mundo conhecido, rompendo com a antiga noção de unidade terrestre e do pecado original como responsável pelas características físicas da natureza, perante espécies e formas de interação diversas com o mundo natural. E a geologia, além de questionar a cronologia bíblica, expandindo a idade da Terra de milhares para milhões de anos, permitiu a descoberta de fósseis que viveram e se extinguiram antes do homo sapiens.

Novos ambientes e formas de vida desafiavam a ideia de criação destinada ao uso e felicidade do homem, abrindo caminho, na segunda metade do século XIX, para a emergência das teorias do evolucionismo. Não foi uma mudança imediata, nem mesmo unânime, na medida em que essas novas evidências questionavam crenças culturais e espirituais arraigadas. Se nenhuma observação é neutra, envolvendo categorias mentais a partir das quais o homem classifica e ordena o conjunto de fenômenos que se lhe apresentam, tais categorias fazem parte de nós, moldam nossa percepção; tanto que, uma vez aprendidas e incorporadas, torna-se bastante difícil ver o mundo de outra maneira.120 Essas descobertas implicaram paulatinamente em novas atitudes e sensibilidades em relação a plantas e animais, uma vez que, se a ordem natural não dependia de um Desígnio intangível, este poderia ser desvendado pelo homem.

O primado da observação e o estabelecimento de sistemas de classificação comuns e partilháveis para a nomeação do visível promoveram um novo tipo de conhecimento, baseado no que Michel Foucault chamou de separação entre as palavras

e as coisas. Se até o século XVII a tarefa do historiador era estabelecer a grande compilação dos documentos e dos signos — na medida em que conhecer implicava interpretar os registros —, a partir dali retomar-se-ia a narrativa grega, no sentido de “pousar pela primeira vez um olhar minucioso sobre as coisas e de transcrever [...] em

120 THOMAS, Keith. O homem e o mundo natural: mudanças de atitude em relação às plantas e aos

palavras lisas, neutralizadas e fiéis. Compreende-se que, nessa ‘purificação’, a primeira forma de história que se constituiu tenha sido a história da natureza”.121

No verbete sobre história natural, Diderot e D’Alembert destacam essa perspectiva universalizante do conhecimento, em que seu objeto é “tão extenso quanto a natureza — os astros, o ar, animais, vegetais e minerais do globo terrestre, em sua superfície e profundidade”.122

Por seu turno, as diversas formas assumidas pelos gabinetes de história natural (coleções, herbários, museus e jardins botânicos) almejavam reconstruir a natureza de forma ordenada, domesticando-a. Heranças da Ilustração que, mesmo com a gradual especialização das ciências e o ideário romântico — que se debruça sobre o processo da vida a partir de uma visão genética da natureza orgânica, contrapondo-se à apreensão genérica dos seres em sistemas taxonômicos —, vão impingir nos viajantes naturalistas do Oitocentos uma prática investigadora para dar conta do mundo natural como um todo, incluindo o ser humano.

Não é aleatório que essa nova disposição do visível e do enunciável tenha como referência fundamental a botânica. Em princípio, a primazia do estudo das plantas pode ser explicada pelo suporte que dava a matérias práticas de grande valor econômico e estratégico, como a medicina e a agricultura. No tempo de Alexander von Humboldt, um dos primeiros naturalistas a explorar e descrever a América do Sul pelo viés científico, plantas (especialmente as variedades pequenas) eram mais estudadas do que minerais, além de serem passíveis de aclimatação fora de seus locais de origem. Além de mais leves para o transporte nos longos e caros percursos dos navios, técnicas de secagem garantiam a conservação de boa parte de seus caracteres para estudo.

Como ressalta Michel Foucault, a história natural privilegia o ordenamento a partir de variáveis visíveis e simultâneas dos seres, sem levar em conta seu funcionamento interno. Os órgãos da planta são exteriores, evidentes, enquanto os dos animais são vedados pela pele ou recobertos por outras estruturas, o que torna o conhecimento botânico mais adequado aos limites do conhecimento taxonômico do que o zoológico. Não foi o interesse pela botânica nos séculos XVII e XVIII que engendrou o exame exterior dos seres como método de classificação. Mas porque não se podia saber ou dizer fora de um espaço de visibilidade que só as plantas poderiam proporcionar na história natural.123

121 FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas. 8ª ed., São Paulo, Martins Fontes, 1999, p. 179. 122

Apud LISBOA, Karen Macknow. A Nova Atlântida de Spix e Martius... Op. cit., p. 67.

O princípio antropocêntrico, segundo o qual o mundo havia sido feito para usufruto do homem e todas as espécies eram a ele subordinadas, vai sendo gradualmente minado no curso do período moderno. As plantas, até então, eram classificadas principalmente a partir do conhecimento de seu uso medicinal e/ou utilidade alimentar, misturando-se a isso o uso de analogias simbólicas dos caracteres das espécies com virtudes e valores “morais” — isso quando os autores não decidiam simplesmente enumerar as plantas em ordem alfabética. Há um esforço dos metodistas em estabelecer sistemas de classificação artificiais da natureza, agrupando racionalmente as espécies a partir de um traço exterior visível, como o aspecto das folhas (como no sistema de Mathias de l’Obel), frutos (Andrea Cesalpino) e flores (Augustus Quirinus Rivinus). Mas a grande quantidade de sistemas taxonômicos — entre 1623 e 1750, foram contabilizados 25 métodos de classificação para a botânica; outros 27 sistemas para a mineralogia estiveram em voga de 1647 a 1775124 — produzia uma profusão de nomenclaturas e ordenamentos desencontrados, dificultando a comunicação entre os estudiosos.

Com a publicação do Systema Naturae (1758), do naturalista sueco Carl von Linné, ou Lineu, um sistema classificatório comum irá emergir, baseado, no caso das plantas, no número, situação e proporção dos órgãos sexuais.125 Dividindo o mundo entre os reinos vegetal, animal e mineral, Lineu estabeleceu um sistema hierárquico com cinco categorias: classe, ordem, gênero, espécie e variedade (essa última evitaria a criação de novos taxa para acomodar todas as espécies surgidas por enxertos, cruzamentos e outras técnicas de cultivo). Outra inovação foi a nomeação das espécies por meio do método binomial. No Critica botanica (1737), Lineu defende que todas as plantas deveriam ser nomeadas por dois termos latinos, um para o gênero e outro para a espécie, que não poderiam ser associadas ao que ele chamava características subjetivas, como cheiro, gosto, símbolos, propriedades medicinais ou associações religiosas, tão peculiares à nomeação vernacular.

“Encontro-me a todo instante embaraçado, pela incerteza dos nomes indígenas, que variam segundo as localidades (às vezes é o mesmo nome que designa árvores bem diferentes; ou ao contrário, é a mesma árvore, que é chamada por nomes bem diversos)”, escreve Freire Alemão ao diretor do Jardim Botânico de São

124

LISBOA, Karen Macknow. A Nova Atlântida de Spix e Martius... Op. cit., p. 68.

Petersburgo.126 O crescimento de um mercado de plantas e flores na Europa exercia, por um lado, forte pressão para que os nomes fossem padronizados, a fim de evitar fraudes como a venda de uma mesma planta com denominações distintas.127 A nova nomenclatura procurava substituir igualmente os nomes descritivos no meio erudito, compostos por um nome genérico e por uma frase descritiva da própria espécie. Esses nomes não eram fixos; cada autor parafraseava o descritivo, acentuando os caracteres que considerava mais relevantes, causando desencontros e equívocos na classificação.

Por outro lado, a aceitação do sistema não foi unânime, e suas vantagens, questionadas. Entre os vários opositores estava Georges-Louis Leclerc, conde de Buffon (1707-1788), um dos primeiros naturalistas a estudar cientificamente a origem das espécies. Buffon considerava o sistema lineano excessivamente abstrato e artificial e alertava para o problema da assimilação de espécies exóticas numa taxonomia do Velho Mundo. Ele advertia que sua prática poderia levar a confundir, por exemplo, felinos sul- americanos de pelo listrado com tigres. Não havia um nome latino para o búfalo, pois os antigos jamais tiveram contato com esse animal: utilizar o nome “búfalo” indicaria sua origem exótica. Os nomes nativos, para Buffon, eram os mais adequados, pois proporcionariam indícios da distribuição geográfica das espécies e sinalizariam parentescos entre animais encontrados em locais diferentes. Outra voz contrária foi a do botânico Michel Adanson (1727-1806), que chegou a rejeitar a classificação Adansonia

para o gênero dos baobás que ele havia descrito após viagem exploratória às Ilhas Canárias e ao Senegal, argumentando que a vaidade dos botânicos em associar seus nomes às espécies impedia o progresso da ciência.128

Fora da Europa, nos domínios espanhóis de Nova Espanha (atual México) e Nova Granada (Colômbia, Equador, Panamá e Venezuela) de fins do século XVIII, comunidades científicas de longa tradição, que buscavam fundir conhecimento local de plantas com os métodos científicos em voga na metrópole, criaram taxonomias próprias. Diferente de holandeses, franceses e ingleses, os espanhóis concebiam seus domínios americanos não como colônias, mas como parte integrante de uma monarquia estendida, proporcionando a esses locais um aparato de universidades, jardins botânicos,

126 Cópia de uma carta que, em resposta, escrevi ao Senhor Doutor [Friedrich Ernst Ludwig von] Fischer,

Diretor do Jardim Botânico de São Petersburgo (13 de maio de 1847). In: DAMASCENO, Darcy; CUNHA, Waldir da. Os manuscritos do botânico Freire Alemão, catálogo e transcrição. Rio de Janeiro: Divisão de Publicações e Divulgação da Biblioteca Nacional, 1964, p.123-124.

127 THOMAS, Keith. O homem e o mundo natural... Op. cit., p. 116-120.

128 SCHIEBINGER, Londa. Plants and empire: colonial bioprospecting in the Atlantic World.

tipografias e hospitais para que as elites formassem uma “ciência crioula” autossuficiente em relação à Europa. “In Spain’s Peruvian territories of the seventeenth century, the University of Lima turned down a proposed new chair of medicine devoted to botanical studies on the grounds that physicians should instead study Quechua”.129 O padre e botânico José Antonio de Alzate y Ramírez argumentava que a nomenclatura latina obscurecia informações cruciais sobre a localização, florescimento e características de solo favoráveis às plantas.

Somente no Congresso Internacional de Botânica de 1905, que estabeleceu o primeiro Código Internacional de Nomenclatura Botânica, o sistema lineano seria oficialmente reconhecido como o ponto de partida para o reconhecimento universal da flora. Para Londa Schiebinger, a história da ciência é moldada por idiossincrasias pessoais e políticas institucionais. A classificação de Lineu era uma entre muitas, mas o