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BETYDNINGEN AV VALUTA FOR ET REGNSKAP, REGNSKAPETS NYTTE

DEL IV – ANALYSE AV UTVALGTE BØRSNOTERTE FORETAK

10. BETYDNINGEN AV VALUTA FOR ET REGNSKAP, REGNSKAPETS NYTTE

Em consonância com Gabaglia, citado no tópico anterior, Freire Alemão registra outros confrontos de visões, dessa vez relacionados especificamente à “natureza” das gentes. “Vieram os senhores a este nosso Brasil”, teria provocado um

morador da vila de Aracati, “homem de 68 anos e completamente cego de cataratas”.151 Um pouco antes, no vale do Pirangi, onde passaram a noite, o dono da casa sentou-se num banquinho e passou a noite a falar, fazendo questões “às vezes impertinentes”.

Contava ele que nós (digo, a comissão) vínhamos ao Ceará descobrir minas de metais preciosos, fartar a província de águas e ensinar a

trabalhar: “Porque, dizia ele, nós estamos ainda muito brutos; na sua

terra (parecia que se referia à Europa) há tantos meios de abreviar o trabalho que nós desconhecemos, vejo coisas vendidas por preço tal que seria impossível fazê-los entre nós” (isto é, o Ceará); referia-se

sem dúvida aos artefatos europeus. “Eu aqui tenho tanto trabalho para

plantar, limpar e de fazer a mandioca em farinha, desejava ver algum

meio de fazer esse serviço mais depressa”; e era nisto, como em outras

coisas, que ele esperava que a comissão desse ou ensinasse modos de facilitar os trabalhos, e quando eu lhe expliquei qual era o objeto da minha seção e da do Lagos, o homem caiu das nuvens e não podia compreender-me; e enfim disse: “Já vejo que com os senhores não

ganho nada”.152

Percebe-se nessa fala que os dois “nós” a que o fazendeiro do Pirangi se refere são completamente distintos, a despeito da coincidência do pronome. Assim como também são distintas as expectativas dos locais e dos naturalistas no tocante ao trabalho e aos resultados que a expedição deveria alcançar. “Já vejo que com os senhores não ganho nada” — qualquer admiração que o homem tivesse por aqueles “europeus” dá lugar a um desdém temperado com ironia, questionando o sentido de aqueles homens estarem ali. Sobre tais episódios, o botânico comenta: “É notável como o povo do Ceará entende a sua nacionalidade: para eles o Brasil é o Ceará, os mais provincianos são estrangeiros” — incluindo-se aí os próprios membros da Comissão, que, ao longo da viagem, eram muitas vezes confundidos com europeus, quando não eram acusados de serem agentes infiltrados com o intuito de rapinar riquezas que os da

151 ALEMÃO, Francisco Freire. Diário de viagem... Op. cit., p. 61. 152 ALEMÃO, Francisco Freire. Diário de viagem... Op. cit., p. 46-47.

terra desconheciam. E, se demonstram falta de estima às gentes das províncias limítrofes, a ideia que fazem da Corte é ainda pior. “A gente do Ceará que tem uma certa cultura mostram-se invejosos e prevenidos contra o Rio de Janeiro; todas as desgraças de sua província são causadas ou ao menos não remediadas pelo governo, que só trata do Rio de Janeiro”. O botânico conclui que o sonho dourado “desta gente” é o Ceará formando um Estado independente, cujo estribilho é: “‘Deem-nos chuvas, dois meses só, todos os anos, que o Ceará não precisa de nada e pode fartar a todo o Império’”.153

Seguem-se, no diário de Freire Alemão, outros episódios relacionados à percepção dos locais sobre o Império brasileiro. O que aparentemente pode parecer o registro anedótico com que o botânico dá destaque às “ideias extravagantes” dos cearenses reforça, de fato, a preocupação de um servidor do Império com uma província partícipe de alguns dos principais movimentos insurrecionais da primeira metade do Oitocentos — como a Confederação do Equador (1824) e a Revolta de Pinto Madeira (1832). Lugar onde os habitantes guardavam uma forte memória dos atos de violência e subjugação do poder central, como denota pela fala e pela idade o morador de Aracati acima citado, habitante de um Brasil outro, que o presidente da Comissão faz questão de sublinhar.154

Assim, ainda que a vila de Lavras celebre o aniversário de D. Pedro II em praça pública e Freire Alemão seja convidado a “tirar o hino” e dar “as vivas ao imperador, à flâmula imperial, à nação brasileira, à província do Ceará e aos habitantes de Lavras”, chegando ao Crato, descobre muitos a considerar que “a corte é a depravação personificada, é o servilismo nu e cru” e as “arbitrariedades das autoridades subalternas, os distúrbios e morticínios nas eleições, tudo provém do Rio de Janeiro, e mesmo diretamente do imperador!”.155 Mesmo atribuindo tais afirmações a “mal- intenciosos” que se guiam “pela imprudência e licenciada imperança”, tal recorrência de declarações diante de representantes do imperador é vista com preocupação.

São estes sentimentos perigosos para a tranquilidade e integridade do Império, que convém por todos os meios destruir. Infelizmente o procedimento do governo, não dando toda a atenção às províncias

153 ALEMÃO, Francisco Freire. Diário de viagem... Op. cit., p. 61-62, grifos do autor.

154 De acordo com a nota explicativa tanto da edição do Diário..., optou-se pela substituição das frases

sublinhadas do original pelo uso do itálico nas frases que denotam marcas enfáticas, “preservando o cuidado de assegurar o destaque tencionado pelo autor” (RAMOS et al., 2011, p. 30).

longínquas, dá argumentos em que se podem firmar! Creio que a política mais conveniente era olhar ainda mais para as extremas do Império que para o centro.156

A despeito do padrão totalizante que os relatos de viagem buscam impingir aos seus leitores, com sua escrita aparentemente neutra e inocente a salvaguardar as dinâmicas de posse das áreas exploradas, é possível observar, nessas apropriações do trabalho e das intenções dos expedicionários da Corte pelos locais, um viés do que Mary Louise Pratt chamou de transculturação. Termo originário da etnografia, a transculturação busca dar conta das maneiras pelas quais grupos subordinados ou periféricos absorvem e reinventam, em graus variáveis, os conteúdos que emanam da cultura dominante. No caso dos relatos de viagem, Pratt procura demonstrar em que medida as construções europeias sobre povos subordinados teriam sido moldadas por esses últimos, pela construção de si e do seu ambiente, tal como eles os apresentaram aos europeus.

Se a metrópole imperial tende a ver a si mesma como determinando a periferia (seja, por exemplo, no brilho luminoso da missão civilizatória ou na fonte de recursos para o desenvolvimento econômico), ela é habitualmente cega para as formas como a periferia determina a metrópole — começando, talvez, por sua obsessiva necessidade de continuamente apresentar e re-apresentar para si

mesma suas periferias e os “outros”. O relato de viagem, entre outras

instituições, está fundamentalmente elaborado a serviço daquele imperativo; da mesma forma, poder-se-ia dizer, que grande parte da história literária europeia.157

No caso da Comissão Científica de Exploração, podemos indagar em que medida a recorrência do registro dessas incompreensões no diário de viagem de Freire Alemão não trabalha para demarcar o distanciamento cultural entre os enviados do Império, inscritos na narrativa como possuidores de um conhecimento avançado e transformador, e os locais que, na visão do botânico, viviam, por sua indolência, na “abundância de uma terra fértil e mal administrada”.158

Mas também até que ponto não apenas as visões desabonadoras da Corte, distorcidas e fabulosas aos olhos do chefe da expedição, mas também esses vários episódios que envolviam as percepções desacertadas entre nativos e forasteiros, demonstram um intento daqueles em confundir

156 ALEMÃO, Francisco Freire. Diário de viagem... Op. cit., p. 199. 157 PRATT, Mary Louise. Os Olhos do Império... Op. cit., p. 31.

158 RIOS, Kênia Sousa. “Apresentação: a Comissão Científica e a seca do Ceará”. In: CAPANEMA,

Guilherme Schüch de; GABAGLIA, Giácomo Raja. A seca no Ceará: escritos de Guilherme Capanema e Raja Gabaglia. Fortaleza: Secult-CE/ Museu do Ceará, 2006, p. 10.

ou resistir ao escrutínio dos exploradores. A viagem, com sua perspectiva de deslocamento de pessoas e informações, proporciona a formação contínua de “zonas de contato”, lugar que enseja “a presença espacial e temporal conjunta de sujeitos anteriormente separados por descontinuidades históricas e geográficas cujas trajetórias agora se cruzam”, em encontros permeados por dimensões “interativas e improvisadas”.159

Ao mesmo tempo em que desconfiavam de possíveis intenções escusas da Comissão Científica, Freire Alemão rotula como “mania da terra” a indicação que os locais faziam de terem minas em seu sítio, ou relatar como indícios de minerais preciosos estouros ou fumos saídos do interior das montanhas — o que pode indicar uma forma de valorizar a si mesmos e à própria terra perante os de fora.

Ainda que a apreensão feita pelo botânico das diversas reações dos visitados procure transmitir o registro neutro de impressões exóticas, curiosas ou mesmo espantosas do “outro”, é preciso analisá-lo como estratégias de afirmação do “eu”, ainda que este se encontre numa posição desconfortável. Os “falatórios e murmurações”, muitas vezes, precediam a chegada dos expedicionários a uma determinada vila ou cidade, o que acarretava “certa reserva, certos olhares, e um acolhimento frio”. Na memória que escreve sobre suas impressões do Icó, Freire Alemão dedica um tópico inteiro à recepção que ali tiveram.

Vários rumores, cada um mais desarrazoado, nos precediam, e que foram confirmados, pelo que de nós aqui espalhou uma pessoa da capital, empregado público, e que pela sua posição, e por ter estado conosco na capital não podia deixar de ser acreditada, e que ou por um mau gracejo, ou por nos ter má vontade (sem que eu saiba pelo quê) ou enfim porque teve a ingenuidade de acreditar em alguns boatos falsos que se espalharam pela capital, desabonou-nos quanto pôde: é verdade que ele especificava três membros da Comissão (Lagos, Dias e Capanema) como os mais perigosos.

Assim o povo inteiro temia-nos e via em nós estrangeiros, ou ingleses, que vinham armados de força para os escravizar, para os recrutar, enfim para lhes tomar o país. A gente mais grada temia-nos como homens audazes, perturbadores e desonradores das famílias etc. [...] Um miserável que é aqui empregado do Correio, indo lá o Lagos e o Reis procurarem cartas e ofícios, tratou-os mal, e uma carta que tinha atirou com ela em cima do balcão, e quando dias depois mandamos lá o ordenança perguntar se tínhamos cartas, respondeu-lhe: Cá não tenho nada, e para essa gente tenho balas!160

159 PRATT, Mary Louise. Os olhos do Império. Op. cit., p. 32.

160 ALEMÃO, Francisco Freire. “Notas sobre a cidade de Icó”. In: DAMASCENO, Darcy; CUNHA,

Waldir da. Os manuscritos do botânico Freire Alemão, catálogo e transcrição. Rio de Janeiro: Divisão de Publicações e Divulgação da Biblioteca Nacional, 1964, p. 289.

Interessante notar também que o botânico procura cercar suas análises não apenas pelos seus escritos, mas entesoura escritos de outros, talvez como forma de garantir a veracidade do que contava. É bem provável que as informações contidas na memória anteriormente citada tenham sido fornecidas em resposta à carta que se segue, enviada por Freire Alemão a destinatário desconhecido:

Fortaleza, 3 de maio de 1860. Ilustríssimo e ___,

Se bem me lembro Vossa Senhoria fez-me a honra de dizer ontem que no ofício do delegado do Icó havia semente de desairosas à Comissão as palavras v exceto se foram serviços ilícitos!!

Como isso se passou em conversação particular desejo saber de Vossa Senhoria se o posso comunicar aos meus companheiros.

Peço perdão a Vossa Senhoria de o importunar, e o faço por escrito para não causar mais incômodo.

Sou ____ todo respeito De Vossa Senhoria Francisco Freire Alemão161

Por mais que a narrativa de Freire Alemão procure cooptar o leitor para o entendimento do episódio como um exemplo do comportamento descabido dos cearenses com um possível fundo conspiratório — já que é um homem da capital, um empregado público com as devidas “credenciais” de confiabilidade quem se incumbe de espalhar rumores desarrazoados sobre a expedição — não se pode ver nessas reações dos locais uma simples reação passiva e uma crença total em tais boatos. Antes de missões científicas, o governo imperial já se fizera presente nas províncias do Norte por comissões militares, enviadas para abafar movimentos antirregalistas. E, anos depois, daria mais demonstrações de sua força coercitiva na imposição de um novo sistema métrico e no recrutamento para a Guerra do Paraguai, desdobrados na Revolta do Quebra-Quilos (1874-1875) e no Motim das Mulheres de Mossoró (1875) — ações em

161 ALEMÃO, Francisco Freire. Carta de Freire Alemão a destinatário ignorado. Fortaleza, 03/05/1860.

Seção de Manuscritos da Biblioteca Nacional, doc. I-28, 1, 35. Disponível em: < http://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_manuscritos/mss1416229/mss1416229.pdf>. Acesso em: 5 fev. 2017.

que a destruição de pesos e medidas e documentos oficiais em praça pública é simbólica da maneira de perceber as iniciativas vindas da Corte, bem como justificam o que Freire Alemão percebeu como mero preconceito ao “considerar-nos estrangeiros, e que viemos tomar suas terras, seus mitos, seus tesouros, e escravizá-los etc. etc. [...] ou antes estão persuadidos que as rendas gerais [para financiar a Comissão] procedem do Ceará, e assim não podem tolerar.”162

Longe de premonições, é plausível supor nessas reações uma postura ativa, um misto de sageza e prevenção dessas populações no trato com pessoas e saberes estranhos.

As notícias e “causos” sobre a passagem dos comboios da Comissão Científica faziam também o caminho inverso: corriam de boca em boca, de vila em vila, chegando muitas vezes a Fortaleza e ganhando versões impressas, que, por sua vez, também repercutiam nas folhas do Rio de Janeiro, como foi o caso do “processo Abel” e do naufrágio do iate Palpite, de que trataremos na parte final deste capítulo. Nesse ponto, é importante destacar que tal circulação não passou despercebida a Freire Alemão, ainda que, muitas vezes, enquadrada na rubrica de “coisas notáveis” com que procurava delimitar tudo aquilo que ele dizia não compreender. Em seu retorno para Fortaleza, no caminho de Lavras até Icó, correu a notícia de que o botânico havia morrido em Barbalha, após comer duas mangas. Até mesmo num lugar inóspito chamado Urubu, onde o botânico foi dar com os costados na pobre palhoça do sapateiro Peba, este “sabendo [quem eu era], disse-me que tivera muita pena, que por aqui correu que eu era morto”.163 Mesmo sem dar detalhes sobre as circunstâncias que motivaram tal boato, é plausível supor que este estivesse associado às interdições que remontam ao período colonial em relação ao consumo da fruta,164 potencializados no caso de quem desconhecesse — ou, no caso de homens doutos, ignorasse tais interditos como superstição — ou tivesse um organismo mais sensível para um alimento “pesado”.

Não pretendo fazer aqui a tentativa quimérica de apurar o nível de veracidade de tais boatos ou a intenção de quem os espalhava, fosse pelo prazer do

162 ALEMÃO, Francisco Freire. “Sentimento da gente do Ceará a respeito da Comissão”. In:

DAMASCENO, Darcy; CUNHA, Waldir da. Os manuscritos do botânico Freire Alemão, catálogo e transcrição. Rio de Janeiro: Divisão de Publicações e Divulgação da Biblioteca Nacional, 1964, p. 313.

163 ALEMÃO, Francisco Freire. Diário de viagem... Op. cit., p. 147 e 199, p. 240.

164 Em sua História da alimentação no Brasil, Câmara Cascudo relata que os tabus em relação à manga

advém da tradição lusitana de não se misturar substâncias, principalmente os de origem vegetal (frutas) com os de origem animal (leite), daí vindo a ideia de que o consumo de manga com leite poderia causar congestão. Também se dizia que o consumo excessivo de mangas poderia causar coceiras. CASCUDO, Luís da Câmara. História da alimentação no Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1968, p. 403.

mexerico ou por uma ação deliberada de impedir os trabalhos da Comissão Científica. Interessa-nos aqui observar, primeiro, o prisma a partir do qual o botânico interpretava essas atitudes dos locais. “A gente baixa é de boa índole; quem os perverte são os que se acham de cima, quer por sua posição, quer por sua riqueza, quer por sua audácia, e depravação”.165

Diante dos potentados e pessoas de autoridade que, de forma corriqueira, faziam equivaler em suas falas o local e o nacional, capazes de manobrar a “gente rude”, crédula e sensível a ameaças externas, era preciso reforçar a ação dos verdadeiros portadores do sentido de nação, os próprios comissionados.

O “espanto e cuidado” que o chefe da expedição demonstra por essa concepção de nacionalidade, desconectada da unidade política e territorial do Império a que servia, não impede que encontremos, seguidamente, no diário, o botânico se referindo aos habitantes da província do Ceará como a “gente do país”, incorporando ao seu discurso uma relação de alteridade e diferença em relação aos compatriotas do Norte. O fato é que, ao longo da ocupação portuguesa, o território chamado Brasil não era uma única colônia, mas sim uma série de colônias. Ou “Brasis”, no dizer dos ingleses entre os séculos XVII e XVIII. Espaço que coadunava áreas com intensa concentração populacional e de instituições, enquanto outras eram tratadas em separado e gozando certa independência do governo-geral, porém com ocupação mais rarefeita. Isso porque a promoção de vínculos diferenciados entre as capitanias era parte da política da Coroa lusitana, que visava “[...] limitar o poder do governador-geral e dos vice-reis, incentivava a correspondência entre cada capitania e a metrópole, proibia o estabelecimento de uma universidade na colônia e agia para coibir o desenvolvimento da unidade colonial”.166

O que se depreende do relato de Freire Alemão é que as fraturas de todo o processo de formação do Brasil ainda eram vívidos na percepção da nacionalidade tanto para quem vinha da Corte quanto para os habitantes da província.

O fato é que, independente de tratarmos de regiões mais ou menos ocupadas, de populações imbuídas de brasilidade ou ligadas a patriotismos locais, o Brasil era palco da reatualização da ideia do Novo Mundo, terra de oportunidades a explorar e passível de novos descobrimentos. Nem todos os viajantes que aqui estiveram no transcurso do século XIX, de forma permanente ou passageira, eram

165 ALEMÃO, Francisco Freire. “Notas sobre a cidade de Icó”. In: DAMASCENO, Darcy; CUNHA,

Waldir da. Os manuscritos do botânico Freire Alemão, catálogo e transcrição. Rio de Janeiro: Divisão de Publicações e Divulgação da Biblioteca Nacional, 1964, p. 289.

166 SCHWARTZ, Stuart B. “Gente da terra braziliense da nasção”. Pensando o Brasil: a construção de um

povo. In: MOTA, Carlos Guilherme (Org.). Viagem Incompleta: a experiência brasileira. 3. ed., São Paulo: Editora Senac, 2009, p. 112.

naturalistas de profissão. A abertura dos portos e a independência impulsionaram a vinda de comerciantes, missionários, diplomatas, militares, artistas (que poderiam acompanhar expedições científicas ou atuar de forma independente) e até educadores de diversas nações, em busca de novas oportunidades num país em formação.

O Império Britânico se destacava tanto pela aliança com Portugal quanto pela prevalência no mundo neocolonial, mas, a partir de 1808, começaria a sofrer a concorrência de franceses, alemães e norte-americanos. Instalaram aqui as primeiras colônias estrangeiras no Rio de Janeiro, ativando o processo de reeuropeização brasileira e difundindo padrões da burguesia urbana nos trópicos. Em menor proporção vieram russos, italianos, dinamarqueses, belgas, suecos. O elemento comum desses grupos nacionais é a busca pela expansão de suas economias, com a abertura de mercados e a descoberta de novas matérias-primas. Mas havia quem se refugiasse no Novo Mundo exatamente para escapar desse capitalismo industrialista, atraídos pelo ideal romântico de uma vida silvestre, longe dos vícios e da claustrofobia dos grandes centros urbanos.167

Não eram raros os que registravam em diários e desenhos essa natureza tão complexa e diversa da de seus locais de origem. O comerciante anglo-português Henry Koster estabeleceu-se na província de Pernambuco, realizando várias incursões pelos sertões entre 1809 e 1815. Os apontamentos e observações desse período deram origem, em 1816, ao relato Travels in Brazil,168 publicado na Inglaterra com a colaboração do historiador Robert Southey — algo notável para um homem que buscava o clima tropical para minorar os sintomas da tuberculose que o acometeu durante toda a vida.

À primeira vista, o caso de Koster parece um típico exemplar sobre a atração exercida pela natureza fora da comunidade científica. O aumento do conforto e do bem-estar entre as camadas médias europeias levou a um investimento sensível no