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DEL IV – ANALYSE AV UTVALGTE BØRSNOTERTE FORETAK

13. ANALYSE AV SALMAR ASA

Um dia antes de embarcar no vapor Tocantins rumo ao Ceará, Francisco Freire Alemão escreve mais uma missiva para o naturalista Carl Friedrich von Martius. Responde à reclamação sobre a demora em enviar avaliações dos fascículos do Flora brasiliensis e amostras de plantas de restingas e madeiras locais que, contrariando a ideia de seu correspondente, “não são fáceis de obter por meio de um moleque ladino”. Relata-lhe sua atual situação profissional, jubilado da Escola de Medicina, mas chamado pelo imperador a reger uma cadeira de botânica, agora na Escola Central — frustrando o plano de estabelecer-se de vez no Mendanha, onde nascera e estava vivendo há quatro anos. E, só ao final do parágrafo, anuncia-lhe estar “em véspera de uma grande viagem”.

A viagem de que trato é uma expedição científica que o governo manda a explorar algumas províncias do Brasil. Sobre o resultado dessa expedição nada quero adiantar, é antes uma expedição de aprendizado, e de experiência para habilitar alguns moços a trabalhos ulteriores, e talvez mais importantes. São estes os desejos do Imperador e de todo o brasileiro. Parece que a primeira província a explorar-se será o Ceará. Espero e confio em Deus que voltaremos, e que Vossa Senhoria será logo informado do que se fizer de bom ou de mau, grande ou pequeno.261

Anos antes (1844), em carta a Giovanni de Brignoli, após discorrer sobre “[...] a extensão de nosso país e a escassez de sua povoação: [fazendo com que] conseguintemente são [serem] as comunicações entre as províncias difíceis; e as viagens longas e dispendiosas”, Freire Alemão diz ter em mente visitar as províncias de Minas

261 Carta ao Doutor Martius, em 25 de janeiro de 1859. In: DAMASCENO, Darcy; CUNHA, Waldir da. Os manuscritos do botânico Freire Alemão: catálogo e transcrição. Rio de Janeiro: Divisão de

Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, “[...] lugar do meu nascimento; [mas qu]e eu não tenho visto nem a vigésima parte de seu território”. Parece ser o máximo a que sua ambição e condições materiais então chegavam: uma excursão às províncias circunvizinhas da Corte. Além da dificuldade em acessar áreas de mata, que, muitas vezes, só se alcançam após derrubadas,262 provavelmente o botânico faria essa viagem “longa e dispendiosa” às suas próprias expensas, como já era seu trabalho de coleta de espécies botânicas, cuja demora tanto incomodava Martius. Pois, justifica Freire Alemão, se tanto “os brasileiros se dão pouco à cultura das ciências naturais” quanto “os governos, que se sucedem rapidamente e sempre agitados pelos movimentos políticos, não têm tido repouso bastante para fazer o inventário do rico legado com que a Natureza nos dotou”, não é de admirar que as “riquezas naturais do Brasil fossem melhor examinadas e descritas pelos estrangeiros”.263

Mesmo considerando o tom geralmente obsequioso e humilde do botânico fluminense em cartas e outros textos de sua lavra, surpreende, em princípio, o tratamento “de aprendizado” dado à expedição na missiva. Como discorremos no capítulo anterior, as “circunstâncias do país”, nas décadas de 1850 e 1860, prometiam ser outras: o Brasil vivenciava as benesses do Gabinete de Conciliação, e o monarca, entusiasta das artes e das ciências, incentivava e patrocinava instituições letradas e viagens aos sertões, alinhando tais pesquisas aos imperativos políticos, econômicos e estratégicos da nação. Mas duas cartas de Freire Alemão a Sua Majestade Imperial — um rascunho datado de 8 de agosto, quando ainda estava em Fortaleza, e outro de 11 de setembro de 1859, menos de um mês após o comboio ter adentrado o sertão — revelam um grande sentimento de incerteza com a expedição, mesmo antes de partida da Corte.

Senhor

Tomo a liberdade de escrever a VM para pedir um especial favor. Não foi sem alguma difficuldade e hesitação que aceitei a honra de fazer parte da Comissão em que me acho. Então eu attendia à minha idade já impropria para semelhante serviço, é do meu desejo sempre crescente de repouso, e talvez havia já em mim um sentimento pesado ___ das coisas desagradáveis que aqui se está ___, quero dizer, coisas que me são pedidas ___ e que em nada hão de perturbar a marcha dos

262 Resposta à carta de Martius, em 20 de julho de 1844. In: DAMASCENO, Darcy; CUNHA, Waldir da. Os manuscritos do botânico Freire Alemão, catálogo e transcrição. Rio de Janeiro: Divisão de

Publicações e Divulgação da Biblioteca Nacional, 1964, p. 117.

263 Resposta à primeira carta do Senhor Brignoli, 30 de setembro de 1840. In: DAMASCENO, Darcy;

CUNHA, Waldir da. Os manuscritos do botânico Freire Alemão: catálogo e transcrição. Rio de Janeiro: Divisão de Publicações e Divulgação da Biblioteca Nacional, 1964, p. 115 e 116.

negócios da Comissão, que vai seguindo ___ cer (?) chefe da secção e com sua responsabilidade: hoje te[n]ho mais a experiencia de que na [não] presto (?) para isto. ___ incomodado e desgostoso, sem utilidade alguma para o serviço. Devo confessar a VM que queria/gostaria de___ atenção de não me demorar aqui por mais de um anno, pelos motivos acima referidos, e os meus companheiros ___ sabião disso: este proposito é agora mais firme, e espero que VM ___ a bondade de o não desapprovar.264

Diante dos muitos trechos ilegíveis desse rascunho escrito em Fortaleza, há duas possibilidades de leitura. A primeira é seguir o título sob o qual as duas cartas foram depositadas, que, em si, já carrega uma contradição. O pedido de exoneração seria motivado pelos cansaços do trabalho de campo. A idade e a necessidade de repouso, segundo diz, teriam influído para sua hesitação em aceitar fazer parte da Comissão do Ceará, e que somente ao desejo do monarca se submete a um estudo um pouco mais completo da flora dessa província, ainda que tenha se “excusado (sic) de visitar o sertão, e de assistir aos___ à uma florescência das árvores florestais, que costumam ser de outubro até janeiro”. Mas como então explicar que, ao final da carta, o botânico tenha pedido licença ao imperador para se retirar da expedição em fins de janeiro do ano seguinte, com o fito de passar dois meses no Pará, seguindo por terra pelo Ceará e Maranhão “levando unicamente o que hoje tenho aqui”?

Para Freire Alemão, como para qualquer outro naturalista de seu tempo, presidir uma expedição científica representaria não um treinamento para jovens naturalistas, como escrevera a Martius, mas o coroamento de sua trajetória profissional, tendo como principal referência a importância que a viagem ao interior do Brasil teve para seu interlocutor bávaro.265 Nunca é demais lembrar que, ao chegar ao Ceará, Freire Alemão contava com 62 anos de idade, tendo daqui saído com 64

264 Os traços indicam trechos ou palavras ilegíveis. “Carta a S. M. Imperial, solicitando exoneração da

Comissão Científica, em vista de não poder acompanhar as Seções Botânica e Zoológica nas excursões longínquas por elas planejadas. Pede ainda licença para ir até o Amazonas. Aracati, 11 set. [1859] (Ocorre outro rascunho, de 8 ago., 1859). Biblioteca Nacional, Setor de Manuscritos, Coleção Freire Alemão, I- 28, 1, 71, nº 2.

265 Com o patrocínio dos monarcas da Áustria e da Baviera, Martius e o zoólogo Johann Baptiste von

Spix foram membros da chamada Missão Austríaca, um grupo de artistas e naturalistas que acompanhou a comitiva da grã-duquesa austríaca Leopoldina, que viajava para o Brasil para casar-se com o então príncipe dom Pedro, futuro imperador Pedro I. Entre 1817 e 1820, exploraram grande parte do interior do Brasil e coletaram um grande acervo de espécies, além de dois índios. Os naturalistas foram agraciados com diversas regalias e condecorações em seu retorno. Ambos passaram a receber uma renda vitalícia da Coroa e foram elevados à nobreza, passando a carregar o “von” em seus nomes e repassá-los a seus descendentes. Além disso, Martius tornou-se membro ordinário da Academia de Munique e segundo conservador do Jardim Botânico. Até sua morte, em 1868, Martius dedicou-se quase exclusivamente ao estudo do acervo trazido do Brasil e à publicação dos resultados da viagem exploratória. LISBOA, Karen Macknow. A Nova Atlântida de Spix e Martius: natureza e civilização na Viagem pelo Brasil (1817-1820). São Paulo: Hucitec, 1997, p. 54-55.

anos, à época considerada uma idade avançada. Assim, a própria disposição que demonstra em seguir sozinho e por terra até a região amazônica, sem pedir recursos adicionais ao governo imperial, sugere o pensamento de que qualquer desgaste físico seria ali recompensado — e provavelmente o pouco que, em comparação, o Ceará tinha-lhe a oferecer, desejando não demorar nesta província mais do que um ano, “pelos motivos acima referidos, e os meus companheiros ___ sabião (sic.) disso”.

Outra possibilidade de leitura é entender o cansaço dos trabalhos como uma “justificativa oficial”. Se, por um lado, Freire Alemão tinha o intuito de fazer da viagem ao Ceará uma passagem breve (assim como outros comissionados), parecem-lhe pesar, desde antes da partida, as questões administrativas de presidente da Comissão do Ceará, “coisas desagradáveis”, “coisas que me são pedidas”266 — possivelmente uma referência aos atritos entre os chefes das demais seções que, por cargo e índole, tinha que apaziguar. Na outra versão, escrita no Aracati, Freire Alemão adota um tom mais seco: sem arrolar motivos para seu pedido de exoneração, garante ao imperador que sua ausência não será sentida. Nem seria preciso mandar vir outro naturalista (o que, para ele, seria um inconveniente), uma vez que Manoel Freire Alemão, o Freirinho, seu sobrinho e adjunto na Seção Botânica, teria toda a capacidade para bem desempenhar essa tarefa — inclusive Freire Sobrinho assumiu a Seção Botânica durante a licença do tio, como forma de não interromper os trabalhos. Em último caso, poder-se-iam fundir as seções Botânica e Zoológica numa só. “Eu sei quanto este pedido me fará suspeito, nem tento mais de justificar-me sem ___ para o Min ___”.267 Mesmo com as supressões do tempo, pode-se depreender uma preocupação em não denegrir a imagem do governo, diante das críticas que a Comissão recebia dentro e fora dos gabinetes.

Não se sabe qual das versões chegou às mãos do monarca, mas a resposta foi imediata e incisiva:

Ilustríssimo e Excelentíssimo Sr. Conselheiro Francisco Freire Alemão,

Rio de Janeiro, 12 de setembro de 1859.

266 “Carta a S. M. Imperial, solicitando exoneração da Comissão Científica, em vista de não poder

acompanhar as Seções Botânica e Zoológica nas excursões longínquas por elas planejadas. Pede ainda licença para ir até o Amazonas. Aracati, 11 set. [1859] (Ocorre outro rascunho, de 8 ago., 1859). Biblioteca Nacional, Setor de Manuscritos, Coleção Freire Alemão, I-28, 1, 71, nº 2.

267 Carta a S. M. Imperial, solicitando exoneração da Comissão Científica, em vista de não poder

acompanhar as Seções Botânica e Zoológica nas excursões longínquas por elas planejadas. Pede ainda licença para ir até o Amazonas. Aracati, 11 set. [1859] (Ocorre outro rascunho, de 8 ago., 1859). Biblioteca Nacional, Setor de Manuscritos, Coleção Freire Alemão, I-28, 1, 71, nº 1.

Sua Majestade o Imperador recebeu a carta que Vossa Excelência lhe dirigiu em 8 de agosto próximo passado, na qual pede. 1º favorável despacho ao requerimento que fez subir à sua Imperial Presença pelo Ministério do Império suplicando permissão para em fins de janeiro, ou antes, se assim lhe convier, deixar a Comissão em que se acha. 2º dois meses de licença para ir ao Maranhão e Pará, a fim de ao menos correr a vista pela bela vegetação daquelas províncias, percebendo unicamente os vencimentos que agora tem para comedorias, e obtendo passagem nos vapores da Companhia. E conclui indicando o modo como poderá ser substituído nos trabalhos da Seção respectiva.

E o Mesmo Augusto Senhor, ficando inteirado do que Vossa Excelência propõe, me ordenou que lhe fizesse as seguintes ponderações.

Ninguém desconhece que a comissão _______ confiada à Vossa Excelência e aos seus dignos companheiros, deve trazer incômodos de corpo e de espírito, e acidentes desagradáveis não só a cada um dos membros da comissão, mas especialmente à Vossa Excelência, seu presidente. Não haverá porém quem não reconheça no patriotismo e caráter de tão distintos brasileiros a resignação e dedicação necessária para vencer os obstáculos, e ______ o sacrifício; o qual todavia não terá longa duração, atenta a natureza dos trabalhos, e os meios decretados no Orçamento para esse serviço.

A retirada de Vossa Excelência, cuja presidência tem com acerto dirigido a comissão, não só terá o inconveniente de alterar o andamento dos trabalhos, se não produzirá mau efeito no ânimo do público, sempre inclinado a descobrir nos acontecimentos dessa natureza causas menos plausíveis.

Vossa Excelência terá visto nos discursos proferidos por alguns membros das Câmaras Legislativas que a comissão não tem sido considerada como cumpria, lamentando-se até a sua despesa, e mostrando-se desconfiança, antes nenhuma fé, na sua utilidade. O que não se dirá (e com aparência de verdade) se ela se for desmembrando, e se não nos esmerarmos em levar ao cabo a empresa começada? Lá se irão as esperanças do Instituto, e as daqueles brasileiros que ______ na glória da Nação tanto se esforçaram para que se tornasse fato ideia tão grandiosa!

S. M. I. Confia que Vossa Excelência continuará o sacrifício perseverando até o fim em uma obra, na qual está empenhado o brio nacional, e pela qual o Mesmo Augusto Senhor tem a maior _______. Quanto à licença para a visita das Províncias do Pará e Maranhão, S. M. I. responderá sobre ela em momento oportuno.

E no que respeita à substituição de Vossa Excelência nos trabalhos da respectiva Seção, nenhuma deliberação é por agora necessária, visto como S. M. I. ____ ____ ____ Vossa Excelência não deixará o serviço.

Transmitindo à Vossa Excelência minhas ponderações tenho de acrescentar que S. M. I. Julga conveniente que este objeto se conserve secreto, tanto assim que me foi268

É quase certo que a última página da carta tenha se perdido, e fica-se sem saber quem é o remetente. Mas não há dúvida de que se trata de um representante de Sua Majestade Imperial. O pedido de sigilo em relação ao conteúdo da missiva demonstra que as críticas e questionamentos sobre a utilidade e o dinheiro gasto com a Comissão Científica nas Câmaras Legislativas eram motivo de preocupação para o monarca. Havia também o temor de que novas histórias pudessem circular, produzindo “mau efeito no ânimo do público, sempre inclinado a descobrir nos acontecimentos dessa natureza causas menos plausíveis”. Apela-se para o patriotismo e o caráter do botânico, além das expectativas do Instituto e do imperador, para que ele levasse a cabo uma obra que punha em jogo o brio nacional; argumenta-se inclusive que a natureza dos trabalhos e o orçamento disponível para as despesas garantiriam a brevidade da permanência no Ceará. A saída de Freire Alemão, naquele momento, daria, e com razão, azo para renovadas especulações ou mesmo para um paulatino desmembramento da expedição. Por outro lado, o deslocamento para outras províncias não é de todo descartado, deixando-se a deliberação de Sua Majestade Imperial para “momento oportuno”.

Freire Alemão obedeceu. Em carta a destinatário ignorado, de 20 de outubro, Freire Alemão diz se resignar com o indeferimento de sua exoneração, mas resolve enviar outro pedido, dessa vez de licença temporária da mesma função,269 que só seria concedida em junho de 1860. Vários documentos apontam que, mesmo acometido pelas “constipações da terra”270

em seu retorno, o botânico não desistiria facilmente de seguir mais ao norte. Em 19 de março de 1861, Freire Alemão participa a Gonçalves Dias o “grande desejo de, achando-me livre, fazer uma viagem ao Amazonas; e vou mandar pedir licença para isso. Quem sabe se não nos encontramos por aí! Estimaria bem que assim sucedesse”.271

268 Sem remetente. Carta a Freire Alemão, ponderando sobre o pedido de demissão da presidência da

Comissão Científica e insistindo para que permanecesse no cargo. Rio de Janeiro, 12/09/1859. Seção de

Manuscritos da Biblioteca Nacional, doc. I-28, 03, 025. Disponível em:

<http://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_manuscritos/mss1416364/mss1416364.pdf>. Acesso em 5 fev. 2017.

269 Biblioteca Nacional, Setor de Manuscritos, Coleção Freire Alemão, I-28, 1, 73.

270 Carta de Gonçalves Dias ao Sr. Conselheiro [Francisco Freire Alemão]. Maranhão, 04/10/1860. In: Anais da Biblioteca Nacional (Correspondência ativa de Gonçalves Dias), v. 84, 1964, p. 281.

Gonçalves Dias, após dois anos atuando na expedição, a seu ver, “como um forçado”, e justificando-se pela pesquisa de tribos indígenas para sua Seção Etnográfica, segue o roteiro pretendido por Freire Alemão, e insta-o para que se encontrem em Manaus. “Venha V. Ex.ª para o Amazonas, que tem aqui muito o que fazer: ‘tout est perdu, fors l’honneur’ — dizia Francico 1º.272

Com a nossa gente não se pode aspirar a mais do que isso — salve-se quem puder!”.273

À vingança dos derrotados, isto é, de se fazer uma exploração por conta própria a se contrapor ao pouco que se conseguia pelas vias oficiais, segue, porém, uma questão belicosa.

Quanto a ardente questão da Presidência, saindo V. Ex.ª não vejo para o substituir senão Gabaglia: mas não lho desejo. Se eu caísse na asneira de ficar, e a questão se decidisse por votos, teríamos uma boa comédia — talvez. Lagos, se não votar em si, vota no Capanema, — este no Lagos: eu no Gabaglia, — o Gabaglia talvez em mim, na falta de melhor. Aí teríamos 4 votos singulares — 4 presidentes de pancada!274 (grifo do autor)

Ainda que, para um comissionado como Gonçalves Dias, seja preciso mais coragem para ficar, do que careceria para se retirar da Comissão,275 a presidência é um fardo deveras pesado para aquele esprit du corps, que nunca foi dos melhores. A falta de consenso em relação a um substituto para o cargo de presidente da Comissão Científica, que poderia acabar num jogo de empurra-empurra infrutífero (ou com quatro presidentes por voto singular), evidencia até que ponto havia chegado o desgaste daquele grupo. A permanência de Freire Alemão no cargo parecia assim um mal necessário, com sua índole veneranda e seu caráter conciliador, a amortecer críticas e demandas contraditórias vindas da Corte.

No dia 26 de maio de 1861, em resposta a uma carta do tenente-coronel Franklin de Lima, que solicitava ao botânico acrescentar um caixote em sua bagagem, destinado à filha dele, que vivia no Pará, Freire Alemão responde: “Sinto muito meu caro senhor não poder ser o portador dessa incumbência, por ser a minha viagem ao

Biblioteca Nacional (Correspondência passiva de Gonçalves Dias), v. 91, 1971, p. 225.

272 Aqui Gonçalves Dias faz uma referência ao bilhete que o rei francês Francisco I escreveu à mãe, a

duquesa d’Angoulême, após a derrota de seu exército na Batalha de Pavia e sua prisão. A referência exata é: “Para informar-te de como vão ocorrendo-me as desgraças, tudo está perdido, menos a honra e a vida, que estão a salvo”.

273 Carta de Antonio Gonçalves Dias ao Sr. Conselheiro [Francisco Freire Alemão]. Manaus, 08/04/1861.

In: Anais da Biblioteca Nacional (Correspondência ativa de Gonçalves Dias), v. 84, 1964, p. 290.

274 Idem. 275 Ibid.

Pará incerta, e talvez mesmo duvidosa; pois depende de circunstâncias alheias à minha vontade”.276

No dia seguinte, 27 de maio, anota em seu diário uma última tentativa de se retirar para explorações mais ao norte, mas tem consciência de que os boatos espalhados na Corte podem tornar esse esforço nulo: “Mandei pelo vapor, que segue hoje, um requerimento ao Governo pedindo três meses de licença para ir ao Amazonas, mandei ao mano publicar os meus ofícios sobre não ter eu deixado a presidência da Comissão quando fui ao Rio etc. etc.”277 Pelo que se denota da carta remetida dois dias antes por Gonçalves Dias, o mais certo era que a Comissão, antes destinada à exploração das

províncias do Norte, teria como legado apenas o que foi levantado no Ceará: “Contava com V. Ex.ª por estas paragens, e ainda penso que teria aproveitado imensamente com a viagem; como porém não se realizou essa minha esperança, e contando com a retirada da Comissão do Ceará [...]”. Em 24 de julho, a Comissão voltaria de vez ao Rio. Cinco dias depois, o Correio Mercantil traria o expediente do Ministério da Guerra referente a 1º de julho, em que noticia um lamentável desencontro:

Ao mesmo [Sr. Ministro da fazenda] idem [comunicando] que nesta data se concedem três meses de licença ao Dr. Francisco Freire Alemão, lente de botânica da Escola Central, a fim de que, concluindo o serviço da comissão científica no Ceará, onde atualmente se acha, possa ir visitar a floresta do Amazonas.278

Aos perigos e incômodos próprios da experiência do deslocamento, somavam-se os desgostos diante das suspeitas locais, das desarmonias entre os companheiros de viagem, dos repasses de verba em atraso, da incompreensão ou mesmo da distorção da missão exploratória a ser empreendida nos sertões. Mas Freire Alemão escreve, malgré tout. Redigidos de forma meticulosa e disciplinada, seus escritos não tencionam apenas “atravessar o serão das noites”,279

mistura de dever burocrático e