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ANALYSE AV LERØY SEAFOOD GROUP ASA

DEL IV – ANALYSE AV UTVALGTE BØRSNOTERTE FORETAK

15. ANALYSE AV LERØY SEAFOOD GROUP ASA

A despeito dos episódios de “inversão do olhar” que tanto desconcertavam nosso diarista, a observação dos usos e costumes mais íntimos dos locais era uma temática constante no diário de viagem. Não havia hotéis ou hospedarias nos sertões — quando muito, ofertava-se a Casa de Câmara ou uma eventual habitação vazia para abrigar os comissionados, como ocorreu no Crato. O mais corriqueiro, principalmente no percurso entre uma vila e outra, era o comboio se arranchar num alpendre, quartinho ou casa de farinha, nas casas pobres e fazendas que encontravam pelo caminho. Esse simples pedido de abrigo ensejava ao botânico a chance de divisar certas peculiaridades da fala local e, por conseguinte, de toda uma cultura sensível. Após utilizar 36 vezes, ao longo do diário, a palavra pouso (usual no sul do país) para designar uma casa ou lugar onde o comboio encontrou guarida, Freire Alemão faz uma pausa na narrativa da chegada em Umari para esclarecer um desentendimento que, certamente, ocorreu diversas vezes ao utilizar essa palavra:

A respeito de pouso devo dizer que muitas vezes me via embaraçado quando chegávamos a uma casa e pedia pousada; o dono da casa ficava abestado sem me entender: é que aqui o modo de pedir pousada é um descanso, quando é por algumas horas, uma dormida ou para passar a noite, quando se quer dormir; é a resposta do dono da casa:

“É, Vossa Mercê pode arranchar-se”. Não se conhece a palavra pouso, ou pousada.371

A explicação dos termos deslindava a prática, difundida desde o período colonial, de não se recusar abrigo aos viajantes, dada a precariedade dos caminhos e a dispersão de moradias nos sertões. Um “[...] exercício de hospitalidade [que] constituía menos demonstração de afabilidade que necessidade cotidiana a que se viam obrigados todos os habitantes da área rural”,372

o que permite pensar que tais relações, ainda que necessárias pela forma de ocupação da terra, eram marcadas pela desconfiança. Tanto assim que, observa o botânico, enquanto os da terra francamente ofereciam água,

371 ALEMÃO, Francisco Freire. Diário de viagem... Op. cit., p. 265.

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SILVA FILHO, Antonio Luiz Macêdo e. Nota Explicativa. In: ALEMÃO, Francisco Freire. Diário de Viagem de Francisco Freire Alemão. Fortaleza-Crato, 1859. Fortaleza: Museu do Ceará, 2006, p. 29.

alpendre e até a própria rede para o recém-chegado — “Entrando-se na casa dum pobre, ele levanta-se de sua rede e a oferece a quem chega”373 —, criavam, por sua vez, toda sorte de dificuldade quando o assunto era comida. Freire Alemão lembra que, no pouso Carrapicho, perguntou à hospedeira, uma mulher cabra, se não tinha leite, ou ovos, por estar em jejum; respondeu-lhe que nada havia em casa. Mas, ao oferecer aos filhos da mulher pão, queijo e goiabada que trazia, “veio de dentro um filhinho trazendo no prato em que levou o doce uns poucos de ovos!”374

Nesse sentido, ele questiona o comentário de um certo Dr. Ildefonso, provavelmente um homem grado da terra, que lhe dissera que os vaqueiros podiam tomar por ofensa o oferecimento de dinheiro pelo leite, sendo que, na povoação de Tropas, Freire Alemão não apenas pagou pelo leite como ofereceu moedas para as filhas do vaqueiro (o que pode denotar que a tal oferta não foi feita sem algum contragosto). Não se sabe se a fala desse Dr. Ildefonso é dirigida por uma visão idealizada do homem pobre — prestativo por inclinação natural, tão pródiga para os “de cima” — ou se havia uma diferença no trato com os potentados locais e a “gente de fora”, europeus a excursionar pelo Brasil-Ceará.

O fato de colocar empecilhos mesmo para vender gêneros alimentícios aos transeuntes ocasionais, alegando não dispor do que vender, pode advir da pouca utilidade do dinheiro em locais mais isolados e da própria escassez de víveres, uma vez que um regalo comum dado por pessoas de posse dos sertões eram frutas e doces, como registra o próprio Freire Alemão. Também denota que a transação prevalente, nessas regiões, seria a troca, o escambo, já que, mais de uma vez, o botânico relata o “aparecimento” de ovos, galinhas, café e frutas depois que os científicos ofereciam ao hospedeiro algum alimento de sua matalotagem. “O nosso Lagos irritava-se com isto e maldizia de tudo; mas se este é o costume da terra”.375

Freire Alemão não deixa de registrar movimentos de uma gente obsequiadeira, que não cansa de fazer presentes e agrados. Em Pacatuba, recebe de D. Maria Teófila um prato de arroz de leite, uma compoteira de doce, uma porção de linguiças feitas em casa, laranjas de umbigo e limas, “tudo enfeitado com papel picado, e boa porção de flores. Sobre o prato de arroz se via um folhado em desenho e no meio

373 ALEMÃO, Francisco Freire. Diário de viagem... Op. cit., p. 197. 374 ALEMÃO, Francisco Freire. Diário de viagem... Op. cit., p. 241. 375 ALEMÃO, Francisco Freire. Diário de viagem... Op. cit., p. 241.

a palavra ‘amizade’, duas vezes em letra redonda, feito com canela em pó”.376 Na capital e regiões próximas, percebe-se maior disponibilidade de alimentos e doces mais refinados para a terra. Além das bandejas de frutas, aparecem compoteiras, queijo, canjica, capões, galinha assada, pão de ló e até um bolo inglês. Desagradam-lhe, por seu turno, certos estratagemas utilizados pelos miseráveis das vilas para conseguir dinheiro. Uma das coisas que mais aqui nos atormentam é a quantidade de pobres, de órfãos, de aleijados, de cegos, de presos da cadeia, que nos vêm pedir esmolas, de joelho e chorando. É uma miséria terrível e nós não podemos satisfazer a todos e nos achamos em grande embaraço. Eles supõem que seremos muito ricos e que podemos fartar a todos. O que fazer? Como resistir a tanta desgraça? Uma maneira que eles têm de levar-nos dinheiro é singular: trazem-nos um presente (são ovos, mangas, animais, galinhas etc. etc.) e é claro que a esmola deve ser superior ao valor do presente. O que fazemos é dar-lhes alguns cobres e restituir-lhes o presente, com um presente que lhes fazemos. Não é um modo engenhoso de obter dinheiro? Às vezes nos vemos tão aborrecidos, que tomamos o presente e o restituímos no mesmo momento sem lhes dar nada, com o que não vão contentes.377

O trato com a gente feminina, a que já fizemos breve referência anteriormente, também nos fornece pistas sobre a forma de sociabilidade local. Logo no início da viagem, ao chegar a uma palhoça junto ao córrego da Amarela, Freire Alemão a descreve como se estivesse desabitada, “[...] tudo silêncio, só as cabras davam sinal de vida no curral”. Mas à medida que o comboio se aproximava, percebia-se um leve burburinho e uma movimentação dentro da casa. Foi quando “nos aproximamos à parte de trás e chamamos; acudiram duas mulheres, mas não queriam chegar-se a nós e correram quando nos aproximávamos a elas”.378

Essa ausência era percebida algumas vezes mesmo em casa de gente grada, como numa vila importante como o Aracati, em que o botânico faz referência por três vezes à presença de “rótulos” nas casas térreas, por onde se podiam entrever algumas moças ao olhar a partir da rua principal.

Parece costumavam ir à missa de madrugada, segundo o que me disse em Pacatuba a senhora do Valentim. Mas hoje não há aqui senão um padre e este dá a missa na Matriz das nove às dez horas do dia, e poucas vão à missa, pois não as vejo passar pela rua [...].

376 ALEMÃO, Francisco Freire. Diário de viagem... Op. cit., p. 510. 377 ALEMÃO, Francisco Freire. Diário de viagem... Op. cit., p. 162. 378 ALEMÃO, Francisco Freire. Diário de viagem... Op. cit., p. 48.

Tenho visto aqui um ou dois cabriolés e um carrinho de cabeça, ainda não vi cadeirinhas e não tenho visto senão uma senhora na rua com seu marido, ou parente.379

Somente nas “casas que dão o fundo para o campo, ficando-lhes de tarde o sol contrário, [as moças] saem pelos quintais e põem-se sumidas fora do portão, onde podem ser vistas”. A casa onde a Comissão se hospedou dava para alguns desses quintais, donde se viam “cinco ou seis bonitas moças, alvas, coradas, bem-feitas, de belos cabelos pretos, das feições não pude bem julgar, mesmo usando do óculo”.380 Tal proximidade gerou inclusive um incidente, quando um menino interpelou Lagos e Vila Real sobre as intenções destes para com a irmã, para quem faziam “gaiatices” da varandinha; o episódio foi registrado no diário num tom de preocupação no confronto com os costumes locais: “Aqui (como na capital) em se frequentando uma casa com moças, em se cortejando, as moças entendiam logo que é arranjo de casamento; já o mesmo Vila Real se achou [num] embaraço em Pacatuba, com uma das filhas de Manoel Valentim”.381

Ao trazer esses pequenos indicadores, procuro destacar vivências do e no

privado na província cearense, proporcionadas pelo convívio do nosso diarista com famílias de todos os estratos sociais e culturais, seja como hóspede, médico ou benfeitor a oferecer esmolas. Uma observação muitas vezes dificultada pela postura de reserva ou, em alguns momentos, de animosidade em relação àqueles homens de intenções desconhecidas e hábitos esdrúxulos. Por isso mesmo, é importante chamar a atenção para a forma como Freire Alemão, munido de um olhar treinado, consegue engendrar certas reflexões sobre a cultura, a forma de pensar, as relações interpessoais dos cearenses.

Um objeto, uma palavra ou um pormenor muitas vezes se convertem em chave de leitura para usos e costumes locais, como o fato de encontrar, mais de uma vez, mesas demasiadamente altas nas casas de fazenda. Em Córrego do Queijo, um moço chegou a justificar esse aparato porque, à falta de capelas, os padres que, de tempos em tempos, vinham para fazer a desobriga nas casas serviam-se das mesas de jantar como altar, e por isso as faziam com essa altura. Mas, após ter observado o jantar de oito trabalhadores na fazenda do Sr. Manoel Inácio de Sampaio, vem-lhe outra

379 ALEMÃO, Francisco Freire. Diário de viagem... Op. cit., p. 51. 380 Idem.

hipótese: as mesas eram altas para que os trabalhadores comessem de pé diante dos donos da casa.382 “De um pormenor em princípio irrelevante emerge o vislumbre da autoridade patriarcal disseminada nas mais diversas condutas e atividades do dia-a-dia, de tal maneira arraigada que mesmo durante a refeição demandava o gestual da submissão e do respeito”.383

Temos no diário de Freire Alemão um olhar arguto e aberto para experiências e práticas que outros, pela força do costume e da inserção no cotidiano, tenderiam a perceber de forma naturalizada, a enxergar tão somente o já sabido. Mas esse olhar exógeno não deixa de ter seus limites, uma vez que é informado por uma racionalidade alheia aos modos de vida daqueles que procura investigar. Por um lado, o dever de profissão e a formação desses naturalistas faziam com que tivessem uma percepção aguçada para tudo o que vissem, ouvissem ou experimentassem na vida cotidiana das populações visitadas, configurando-se assim numa fonte importante para depreender os costumes, as tensões e as vivências sociais na esfera pública e no domínio privado nos territórios explorados. “Como estranho ao grupo, [o viajante] observa padrões de comportamento e idéias que passam despercebidas ao habitante do país. [...] O óbvio, para o habitante, pressupõe no viajante um ato de espanto e interrogação”.384

Por outro lado, não se pode concluir que essas observações fossem neutras, como se quer fazer crer o discurso científico de então. Tais sociabilidades eram “percebidas e descritas mediante olhares comprometidos com a gramática comportamental burguesa que se constituiria ao longo do século XIX”.385

A percepção alargada pelas demandas da exploração de ambientes, costumes e gentes tão díspares do que esses naturalistas vivenciaram em seus locais de origem não deixou de ser filtrada por pressupostos que, não raro, balizavam o contato com o outro pelo viés da superioridade do observador. Nesse sentido, o diário de viagem de Freire Alemão, ao fornecer ao leitor determinadas visões sobre a natureza, a geografia e as populações das áreas exploradas pela Comissão Científica, nos faz voltar a atenção ao próprio autor do relato e seu lugar de fala, como num jogo de espelhos em que dizer do outro implica também dizer de si.

382 ALEMÃO, Francisco Freire. Diário de viagem... Op. cit., p. 261-262. 383 SILVA FILHO, Antonio Luiz Macêdo e. Nota Explicativa... Op. cit., p. 31.

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LEITE, Miriam Lifchitz Moreira. Livros de viagem (1803-1900). Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1997, p. 18.

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MARINS, Paulo César Garcez. Através da rótula: sociedade e arquitetura urbana no Brasil, séculos XVII a XX. São Paulo, Humanitas/FFLCH/USP, 2001, p. 29.

As observações de Freire Alemão sobre os usos e costumes locais, analisadas em conjunto, dão-nos o vislumbre de uma sociedade eminentemente rural e patriarcal, “apoiada na dominação patrimonial que se originava no poder doméstico organizado, cuja essência se baseava na submissão em virtude de uma devoção rigorosamente pessoal, representada por excelência pelo elemento masculino”.386 Para um naturalista a serviço do Império brasileiro e imbuído de uma concepção de nacionalidade que buscava legitimar o poder e a autoridade do soberano sobre todo o território brasileiro, observar a continuidade de formas de organização sociais, políticas e econômicas arraigadas à tradição colonial certamente suscitava grande inquietação. Fruto de três séculos da política portuguesa de colonização, que deixou a cargo da iniciativa individual dos colonos a tarefa de povoamento, essa sociedade, cujo núcleo era a família patriarcal, fechada em seus interesses locais e imediatos, configurava-se, no século XIX, como importante foco de resistência às políticas de reordenamento social empreendidas pelo Estado brasileiro.

A manutenção da hegemonia política do latifundiário dependia, então, da coesão de sua família. Ainda de acordo com os argumentos de Costa (1999), encontramos a especificação de alguns mecanismos que serviam a essa finalidade. O primeiro deles era o que o autor

denominou de “autorreferência” e se manifestava na tendência em

orientar a conduta dos membros da família exclusivamente em função dos interesses desta, o que representaria uma dificuldade para o Estado, na medida em que o sentimento familiar estava acima de todos os outros. O segundo mecanismo era a centralidade da figura do pai no governo da família, de quem os demais membros eram inteiramente dependentes, o que representaria outra dificuldade no caminho do poder estatal na assunção dessa tutela.

Como o poder, até o começo do século XIX, estava repartido na cartografia do país entre litoral e zona rural, sendo o primeiro o território político da administração, e o segundo, o domínio das famílias oligarcas, as tensões eram relativamente acomodadas ou se resolviam a partir do controle jurídico-punitivo da metrópole. No entanto, a partir do adensamento das cidades, as tensões ficaram mais evidentes.387

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NADER, Maria Beatriz. Composições familiares e gênero: a historiografia brasileira em foco. Comunicação apresentada no XII Seminário Nacional Mulher e Literatura e III Seminário Internacional Mulher e Literatura – Gênero, Identidade e Hibridismo Cultural, Grupo de Trabalho. Ilhéus: Universidade Estadual de Santa Cruz, 9, 10 e 11 de outubro de 2007. Disponível em: <http://www.uesc.br/seminariomulher/anais/sessoes.html>. Acesso em 21 out. 2014).

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OLIVEIRA, Cristiane. Higiene Matrimonial, Sexualidade e Modos de Subjetivação no Brasil do Século XIX (1847-1870). Revista EPOS. Rio de Janeiro, Vol. 4, nº 2, jul-dez de 2013. Disponível em: <http://revistaepos.org/?p=1031>. Acesso em 21 out. 2014.

A preocupação com os costumes locais mais comezinhos também reflete as mudanças operadas no pensamento médico novecentista. No capítulo anterior, destacamos, na trajetória profissional de Francisco Freire Alemão, a política joanina de estabelecimento do ensino médico no Brasil, o que permitiu ao nosso diarista estabelecer-se como professor de Botânica na Faculdade de Medicina da Corte e médico do imperador Pedro II. Para além de uma preocupação com a saúde da população, o reconhecimento da demanda por médicos pelo poder real permite entrever o estabelecimento de uma nova forma de regular politicamente a vida social no Brasil. Interessava, então, implementar um espaço normalizado, ordenar a circulação de pessoas e bens e constituir uma população saudável e apta ao trabalho, solucionando os problemas sanitários e as epidemias que grassavam nas crescentes concentrações urbanas.

Nas décadas que se seguem, observa-se um esforço de institucionalização da classe médica formada a partir das políticas joaninas, mas que se opõe à tradição médica portuguesa, por meio das reformas empreendidas no currículo das academias médico- cirúrgicas do Rio de Janeiro e Salvador (convertidas em faculdades de medicina a partir de 1832) e das lutas por autonomia, tendo como uma das principais bandeiras o deslocamento da fiscalização e da concessão de títulos para o exercício profissional do Estado para as associações classistas. Numa relação marcada por tensões e solidariedades com o poder estatal e a família patriarcal, as corporações médicas procurarão se inserir nessas duas instâncias, numa ingerência em nome da saúde individual e da própria nação.

A inscrição do saber médico na formação discursiva do progresso nacional implicou mudanças em diferentes registros. Em primeiro lugar [...], houve uma transformação do saber médico, a partir da primeira metade do século XIX, que passava a se ocupar não apenas da saúde individual, mas sobretudo da saúde das populações. Além disso, houve uma sofisticação nas táticas de inserção em nichos políticos de interesse da corporação médica: mudando o objeto, a medicina assumiu-se como colaboradora do Estado e da família, desestabilizando seus poderes e oferecendo-se como mediadora dos conflitos. Desta forma, inflacionava-se paulatinamente o prestígio social e político do médico no Brasil. Mas isso não se fez senão por um conjunto complexo de correlações de força e por mecanismos intricados de exercício de poder, que se exerciam entremeados por tensões internas e externas.388

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Se, por um lado, as corporações médicas instavam o Estado a proporcionar mais apoio e reconhecimento às suas demandas, há um progressivo alinhamento de interesses dessas duas instâncias, dirigido à necessidade de normalização do espaço citadino e da população por meio da difusão da medicina social. No vácuo de um efetivo controle metropolitano num território tão vasto quanto a terra brasilis, a iniciativa privada, representada pela instituição familiar latifundiária, estabeleceu, durante três séculos de colonização, a ordem social e econômica de acordo com suas conveniências. Assim, ao novo poder estatal interessava minar a “autorreferência” da estrutura social patriarcal e a disputa de poder político que prevalecia em muitas regiões do Império, por meio de uma maior intromissão estatal na regulação dos indivíduos, bem como de uma reestruturação dos próprios mecanismos de controle da ordem social. Aos médicos, caberia o papel de “agentes” dessa inserção num âmbito até então fechado, impermeável a intervenções externas, estabelecendo uma autoridade que prevalecesse até sobre a figura masculina do patriarca.

Como médico e membro das principais instituições médicas de seu tempo, que pretendiam dar a esses profissionais o status de classe com força política e poder de intervenção social, Freire Alemão certamente estava a par das teses então defendidas em prol da higienização da sociedade e na consolidação da família medicalizada. E como vassalo ilustrado do Império brasileiro, está imbuído de um sentido de nação único, ao qual as antigas oligarquias locais deveriam se submeter. Talvez por isso haja momentos em que a leitura do diário de Freire Alemão suscite no leitor menos um itinerário ou a sensação de um deslocamento pelo espaço, do que o caminhar por uma temporalidade outra, que se julgava (ou se desejava) superada. Não porque a estrutura e a cultura patriarcais estivessem circunscritas às regiões próximas ao Equador, mas porque todas essas mudanças são sentidas e promovidas primeiro na Corte, e as concepções de seu local de origem, que leva consigo para balizar os sertões, trabalham para a instauração dessa nova ordem.

Essa instabilidade cronológica pode ter motivado a atenção dada por Freire Alemão à história de “um sujeito por nome Belmiro, filho dum personagem da Serra