DEL IV – ANALYSE AV UTVALGTE BØRSNOTERTE FORETAK
14. ANALYSE AV CERMAQ ASA
O Ceará, que Freire Alemão tencionava fazer entreposto para chegar às províncias amazônicas, tornou-se uma permanência de “dois anos e meio, mais dois dias”.289 Enquanto em carta a Manuel de Araújo Porto Alegre, de 6 de agosto de 1859, Martius queixa-se da falta de notícias sobre “a expedição científica, que o governo brasileiro neste momento dirige para a exploração das províncias do norte, e espero que no Ceará, tão pouco conhecida província, já se colheram faustos imensos”,290 Freire Alemão dedica-se a apreender, por tinta e papel, aquele país e sua gente: diário, memórias “em separado”,291
estudos botânicos, cópias de documentos, cartas, ofícios da Comissão Científica, contas, tabelas de preço, ordens de pagamento. Sem falar nos desenhos: mapas, traçados de vilas e povoados, objetos de construção, cercas, telhados, moringas e até mesmo a disciplina, espécie de chicote com lâminas na ponta, com que os penitentes de Lavras e Crato se supliciavam.
Martius, assim como Ferdinand Denis e outros naturalistas acionados por Gonçalves Dias e Raja Gabaglia, ansiavam por notícias a respeito do andamento da Científica para que pudessem comunicar a seus países “[...] o desvelo dos viajantes, cuja peleja contra perigos e incômodos não favorece uma correspondência comigo”.292 Como salientamos no primeiro capítulo, as disputas em torno da precedência na nomeação de novas espécies privilegiavam naturalistas da Europa e da América do Norte, uma vez que estes contavam com as vantagens do aparato institucional e das principais publicações científicas ali sediadas. A omissão de notícias, em contraponto à composição de uma série de registros memoriais executada em caminho, assinala, em Freire Alemão, o cuidado em garantir para si a “última palavra”, precavendo-se contra possíveis apropriações, como já ocorria com as diagnoses, relatadas pelo botânico Saldanha da Gama. “Nessa não caio eu, respondia-lhe Freire Alemão; hei de remetê-las
289 ALEMÃO, Francisco Freire. Diário de viagem... Op. cit., p. 559.
290 Carta de Martius a Porto Alegre. In: Revista do IHGB, actas das sessões de 1861. Tomo 64, p. 738-740. 291 Em diversos momentos do diário, Freire Alemão se refere a notícias, listas de plantas, cópias de cartas
e depoimentos que vão “em separado”, “em papel à parte”, “em notícia à parte”, “em outro lugar”, o que denota uma grande massa de material que ele teria recolhido durante sua passagem pelo Ceará, a ponto de ser preciso utilizar diferentes matrizes memoriais além do diário para melhor organizá-los.
[as plantas que descobria] somente depois de publicadas as descrições; a diagnose há de ser minha, boa ou má. Não é pouco vê-los lá na Europa, desfazendo o que eu faço e corrigindo, mudando e dando a outrem o que a mim pertence”.293
Levando-se em conta todos os esforços empregados por Freire Alemão para se inserir na comunidade científica mundial, desde publicações pagas do próprio bolso até a formação de uma extensa rede de correspondentes (com suas vantagens e riscos), essa postura reticente pode indicar nele um desejo mais ambicioso do que participar do trânsito de pareceres e amostras botânicas. E, no caso da Comissão Científica, com suas seções trabalhando de forma fragmentada, animadas ora por diretivas pessoais ora pelo que os vencimentos permitiam, é lógico supor que o propositor da arca do sigilo no Instituto Histórico adotaria, nesse caso, a mais absoluta discrição.
Nesse sentido, o silêncio poderia ser uma forma de não dar a ver os problemas internos e as críticas com que a imprensa desancava a expedição, bem como de se acautelar contra acusações que, porventura, estivessem circulando no Velho Mundo. Freire Alemão criava expectativas e atrasava notícias no fito de garantir que o Brasil não mais seria um mero fornecedor de espécies, enviando não apenas as plantas já devidamente classificadas: quem sabe até mesmo um relato circunstanciado da viagem pelas províncias do Norte, colocando seu nome no panteão dos grandes botânicos exploradores? Expedientes dos mais relevantes para angariar reconhecimento intelectual e uma posição de protagonismo tanto para si quanto para o império do qual era ilustrado servidor.
Vimos, no capítulo anterior, algumas nuances da trajetória de vida de Francisco Freire Alemão, relacionando sua formação e carreira com o projeto de nacionalidade no qual iria se engajar como naturalista a serviço do império brasileiro. Mostramos como a ascensão social e intelectual de um filho de lavradores caminhou
pari passu com a formação de instituições de ensino e pesquisa a partir da transferência da Corte lusitana, e que, no Brasil independente, contaria com esses novos vassalos ilustrados para empreender a modernização do país, dedicando-se ao levantamento e à exploração racionalizada de seus recursos naturais e à formação de uma identidade nacional. Mas seu diário de viagem e outros documentos pessoais também nos permitem entrever um homem que busca legar para o futuro uma determinada imagem
293 GAMA, José Saldanha da. “Biografia e apreciação dos trabalhos do botânico brasileiro Francisco
de si; uma imagem fiel, porque pessoal, dentro dos procedimentos e tópicas disponíveis a um homem de letras de seu tempo. Aqui gostaria de aprofundar a análise dessa trajetória de vida, focando a formação do indivíduo — mais precisamente a noção de indivíduo forjada no período moderno. Em outras palavras, desejo indagar como o homem se faz na escrita, inscrevendo seu cotidiano e reminiscências através de códigos que buscam legar ao futuro uma trajetória de vida prenhe de sentido e finalidade.
Ao longo das “Instruções para a Comissão Científica encarregada de explorar o interior de algumas províncias do Brasil”, é possível observar como o registro escrito e imagético perpassa, em maior ou menor medida, as prioridades a serem observadas pelos comissionados em campo. Isso apesar de haver uma sessão dedicada exclusivamente a produzir estudos etnográficos e a narrativa de viagem da expedição. Sabemos que tal narrativa se limitou à Parte Histórica apresentada nos
Trabalhos da Comissão Científica de Exploração; ignoramos, no entanto, se Gonçalves Dias manteve um diário a servir de base para o seu relatório, assim como fez durante a viagem pelo Rio Negro, entre 15 de agosto e 5 de outubro de 1861. É possível que o “diário do Ceará” tenha se perdido. Ou simplesmente não tenha sido redigido, a despeito da forma imperativa com que Manuel de Araújo Porto Alegre recomenda a feitura de “um diário circunstanciado e com toda a fidelidade, descrevendo tudo o que vir de curioso e merecedor de memória”. E não apenas em relação à viagem: deve ir “também notando diariamente tudo quanto ocorrer de notável relativo à expedição em geral, e mesmo a cada membro em particular”.294
Na notícia d’O Cearense de 5 de abril de 1861 sobre o naufrágio do barco Palpite, copiada por Freire Alemão, faz-se a referência, entre as perdas da Seção Geológica, “[a]o livro de registro de todas as observações meteorológicas feitas até Sobral, da mesma sorte as observações astronômicas, e a descrição geológica da província, todos os manuscritos; e enfim as notas que serviam para passar o tempo quando alguma demora em qualquer lugar [ilegível]”.295 Além das anotações de trabalho típicas da investigação de um geólogo, a matéria arrola os manuscritos pessoais de Guilherme Capanema, escritos nas horas de distração, como perda inestimável para a Comissão Científica, ainda que nos seja impossível saber do que tratavam tais
294
Instruções para a Comissão Científica encarregada de explorar o interior de alguma s províncias do Brasil. In: BRAGA, Renato. História da Comissão Científica de Exploração. Fortaleza: Imprensa Universitária do Ceará, 1962, p. 208.
anotações. É, porém, uma indicação importante da centralidade do registro para esses comissionados, tanto que extrapolavam, muitas vezes, as demandas de sua própria seção e buscavam imprimir um ponto de vista pessoal à experiência de deslocamento.
O que surpreende nas instruções da Seção Botânica é o caráter quase de “resumo” do texto, em comparação com as instruções das outras seções e tendo-se em vista o caráter polígrafo e prolífico revelado de Freire Alemão. Divisam-se, porém, a partir do uso de determinados verbos, algumas indicações que pressupõem, como desdobramento, um registro: indagar aos locais os nomes indígena e vulgar, além dos usos de cada vegetal; observar o aspecto geral da província quanto à vegetação, condições meteorológicas, natureza e acidentes do terreno. Somente nos dois últimos parágrafos, o verbo de ação será notar (que tanto aqui como em outras seções é usado no sentido de anotar, grafar).
Em cada localidade notará as espécies que naturalmente aí vegetam, com o fim de concorrer para o delineamento da geografia botânica no Brasil.
Enfim, notará as matas mais ricas em madeiras de construção naval, e em que seja mais fácil a sua extração para serem reservadas.296
Como presidente da Comissão Científica, Freire Alemão deveria ter pleno conhecimento não só das instruções que redigiu para si, como também das diretrizes de investigação das demais seções. Nunca saberemos as circunstâncias que motivaram a redação de um diário de viagem que em muito ultrapassava as demandas do trabalho de campo. A formação ilustrada de Freire Alemão justifica, em parte, essa tentativa de apreensão totalizante, a partir de uma matriz de conhecimento ainda não compartimentado em disciplinas. Mas há outro elemento a considerar: a centralidade do cargo de presidente da Comissão, destacada nas “Instruções Gerais para a Comissão Científica encarregada de explorar o interior de algumas províncias do Império menos conhecidas”, assinada pelo ministro dos Negócios do Império, Sérgio Teixeira de Macedo.
O item IX destaca que, mesmo podendo trabalhar de forma independente, os chefes de seção deveriam seguir as instruções do presidente da Comissão “tanto nos trabalhos a executar, como na direção que devem tomar nas explorações e pontos em
296
que se devem reunir, datas dessas reuniões e [...] o tempo a empregar em cada gênero de exploração”. Em seguida, no item X, atribui-se ao presidente da Comissão toda comunicação com o governo imperial. A cada mês, Freire Alemão deveria enviar um ofício dando conta “do que ocorrer de interesse”, sendo vedado aos demais chefes de seção oficiar ou fazer reclamação ao governo sem a mediação do presidente.297
Tais indícios nos indicam, em princípio, uma concentração de poderes e uma exclusividade no tocante à correspondência dentro das atribuições do cargo de presidente da Comissão. Na prática, porém, acabou não sendo seguida. Segundo anota em seu diário, Manoel Ferreira Lagos havia tomado para si, ainda no Rio e sem consultá-lo, todos os trabalhos de escrituração — incluindo as instruções, documentos, selos, papéis timbrados etc.
Nunca nos entregou nada, nem nunca nos falou nisso; dispunha e dispõe de tudo como seu. Agora, quando saímos da capital, recebeu o dinheiro e o guardou sem a menor atenção para comigo, enfim tem-se apoderado de tudo e de toda a direção, e eu faço em tudo isto a figura de Pilatos no credo. Ele é tudo, eu não apareci em nada senão para assinar pedidos de dinheiro etc. (nem me importo com isso) e queixa- se de que tem muito trabalho!
É o caráter mais singular que conheço: desabrido, despótico, arrebatado, não atende a nada, não sofre a menor oposição a seus desejos nem aceita a mais pequena reflexão que o contrarie. E nos seus furores é indiscreto quanto se pode ser. O meu amigo Lagos, sem o querer, sem pensar nisso, reputa-se senhor do seu tempo e desembaraçado de qualquer dever e responsabilidade. É um homem que viaja por si, a sua custa, e para se divertir, principalmente.298
Tais desavenças podem ter suscitado no botânico a determinação em extrapolar o que previam inicialmente suas instruções, chamando para si prerrogativas principalmente da Seção Etnográfica e Narrativa de Viagem, como a produção de um diário circunstanciado e a obtenção de “cópias autênticas de documentos interessantes à história e geografia do Brasil, [...] extratos de notícias compiladas das secretarias, arquivos e cartórios, tanto civis, como eclesiásticos; e também cópias de manuscritos importantes sobre o mesmo objeto pertencentes a particulares”.299
Inclui ainda a descrição do cotidiano e do trato com os demais chefes da Comissão Científica, o que corresponderia à atribuição para Gonçalves Dias de que, num diário, fosse notando
297
Instruções para a Comissão Científica ... Op. cit., p. 211-212.
298 ALEMÃO, Francisco Freire. Diário de viagem... Op. cit., p. 121-122. 299 Instruções para a Comissão Científica... Op. cit., p. 208-209.
diariamente “tudo quanto correr de notável relativo à expedição em geral, e mesmo a cada membro em particular”.300
Freire Alemão permitiu-se, em vários momentos, descrever suas impressões sobre os nobres colegas e o que lhes acontecia, como a falta de deferência de Capanema e Dias ao não se apresentarem ao presidente da Comissão quando chegaram ao Crato. “Eu mandei um ordenança visitá-los e oferecer a nossa casa, enquanto a não tivessem. A resposta que nos trouxe o ordenança foi: ‘Que já tinham casa’.”301 Ou a já referida cópia, no diário, da notícia lida n’
O Cearense sobre o naufrágio do iate Palpite.302 Afinal, um cargo também inclui responsabilidades, contas a prestar. É preciso, portanto, estar precavido contra versões diferentes que pudessem circular na Corte, principalmente tendo sido a Comissão alvo de escrutínio e boatos antes mesmo do embarque ao Ceará, chegando-se ao ponto de mandar, do Ceará, ofícios “provando” que não havia abandonado a presidência, como referimos no ponto anterior.
Como destacamos na introdução deste capítulo, não seria difícil supor que a viagem exploratória ao Ceará estivesse envolta em expectativas e incertezas para Freire Alemão, ainda mais nessa dupla afirmação como chefe da Seção Botânica e presidente da Comissão, portanto responsável pelo bom andamento dos trabalhos. Estamos diante de um indivíduo em busca de afirmação no meio científico, e a base dessa afirmação será o registro escrito. Mesmo com os reveses da expedição, o relatório da Seção Botânica incluía, em seu programa, a redação do Catálogo Sistemático das Plantas Colhidas no Ceará, da Flora Cearense, do Estudo da Geografia Botânica do Ceará (a ser efetuado pelo sobrinho de Freire Alemão e adjunto da Seção, Manuel Freire Alemão) e, “para fechar os trabalhos”, da Narração da Viagem pelo Interior da Província do Ceará, escrita a quatro mãos por tio e sobrinho, com “uma narração
circunstanciada das nossas viagens pelo interior da província do Ceará”.303 Não há indícios de que Manuel Freire Alemão tenha deixado algum diário, mas todo o suporte material legado por seu tio, desdobrado nos mais diversos registros, reforça o desejo de dar a palavra final, sobre si e sobre a experiência vivida nos sertões.
Um dos aspectos da moderna experiência burguesa, em que os diários, cartas e outros tipos de relato pessoal tiveram sua época áurea, tanto em termos de
300 Instruções para a Comissão Científica... Op. cit., p. 208. 301 ALEMÃO, Francisco Freire. Diário de viagem... Op. cit., p. 190. 302 ALEMÃO, Francisco Freire. Diário de viagem... Op. cit., p. 492-493.
303 Relatórios dos membros da Comissão lidos no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro – Seção
Botânica. In: BRAGA, Renato. História da Comissão Científica de Exploração. Fortaleza: Imprensa Universitária do Ceará, 1962, p. 287.
produção quanto de consumo pelo público leitor, é a emergência do que Richard Sennet chamou de “tiranias da intimidade”,304
a partir da cisão entre ritos da esfera pública e sensibilidades de foro privado. Não que os limites entre público e privado inexistissem em outras épocas ou mesmo em culturas não europeias, mais ou menos delimitados. Entretanto, como observa Peter Gay, essa distinção foi sensivelmente enfatizada na cultura de classe média burguesa do século XIX, tornando o abismo entre público e privado o mais amplo possível. Numa cultura como esta, em que imperava a valorização e a defesa obsessiva do eu interior, a escrita de si estaria destinada a florescer.
Tomados em conjunto, [...] esses registros servem para definir as fronteiras, por mais flexíveis que tenham sido, entre a revelação e a reticência durante o século burguês. A reserva mantida pela classe média emprestou alguma sustentação às suspeitas de que a burguesia do século XIX forjou uma conspiração de silêncio. Mas não havia conspiração alguma, nem tampouco, como o provam os diários, nenhum silêncio. O que havia era circunspecção, sobretudo quanto aos assuntos realmente importantes.305
Se, no Antigo Regime, a esfera pública era vivenciada a partir de códigos impessoais que balizavam o lugar de cada um, suas respectivas atribuições e relações sociais, o mundo moderno desenvolve uma aversão por esses códigos, associando-os ao esnobismo e à falsidade. Um dos motivos é a própria ampliação do sentido do que era (e quem era o) público no período moderno, significando “não apenas uma região da vida social localizada em separado do âmbito da família e dos amigos íntimos, mas também que esse domínio público dos conhecimentos e dos estranhos incluía uma diversidade relativamente grande de pessoas”.306
A concentração de pessoas nas cidades, a disseminação de mercadorias padronizadas e barateadas, acessíveis pelo preço (e não pelo lugar social), o surgimento de novos espaços de sociabilidade (cafés, parques públicos, lojas de departamentos) e a abertura de espaços antes restritos à elite (jardins e castelos reais, teatros e óperas que passaram a vender ingressos individuais) diluíam as diferenças sociais e de origem no espaço urbano. Os membros da nova classe ascendente viam-se constantemente expostos numa multidão de estranhos, sem os
304 SENNET, Richard. O declínio do homem público: as tiranias da intimidade. São Paulo: Companhia
das Letras, 1988.
305 GAY, Peter. A experiência burguesa da Rainha Vitória a Freud: a educação dos sentidos. São Paulo:
Companhia das Letras, 1988, p. 323.
códigos de discurso, comportamento e vestuário que antes demarcavam o lugar das elites em relação às classes laboriosas.
Derrubadas as regras fixas de intercâmbio entre estranhos, herdadas do regime feudal, acreditava-se que a expressão pública, num ambiente que impunha a frequente interação com grupos sociais complexos e díspares, era um reflexo preciso dos sentimentos, tornando os indivíduos potencialmente vulneráveis ao desvendamento involuntário e ao escrutínio indesejado. “Gradualmente, a vontade de controlar e de moldar a ordem pública foi se desgastando, e as pessoas passaram a enfatizar mais o aspecto de se protegerem contra ela”. A família burguesa, refúgio idealizado “onde a segurança da existência material podia ser concomitante ao verdadeiro amor marital e às transações entre membros da família que não suportariam inspeções externas”,307 será um dos principais escudos contra esse meio público hostil.
Ironicamente, essas observações nos ajudam a entender a má impressão causada pela reclusão e pelos modos excessivamente recatados das sertanejas. Ao longo do diário, o botânico fará diversas referências a esse respeito, não apenas nos rincões — onde observa numa casa de pardos, os homens se misturarem aos membros da Comissão, enquanto “o povo de saia remexia-se lá por dentro e como a casa tinha poucas paredes se deixavam ver andando da sala para a cozinha, ou espreitando-nos curiosas”308 — como também em casa de gente grada, como a do promotor de Jardim, “cuja mulher nunca vimos e só a ouvimos falar e cantar acalentando o filho”.309
Após longa observação de vários desses episódios, Freire Alemão conclui que o pudor que muitas dessas moças e mulheres demonstravam aos membros da Comissão tinha apenas a aparência de virtude.
Como em toda parte, onde há ainda pouca civilização, o belo sexo vive muito retirado. Há neste encerramento das famílias pelo menos uma aparência de modéstia e de recato; mas a falta de educação, e por consequência, dos verdadeiros sentimentos de modéstia e de pudor, lhe mistura uma quase hipocrisia ou um falso exterior de virtude e no seio das famílias, mesmo entre pais e filhos há certa licença, que às