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A mutação, no jornalismo, é uma repentina mudança no estado de percepção, captação e processamento dos fatos – que são o DNA da notícia –, o que provoca diferenças nas rotinas, nos produtos e subprodutos. Desta maneira, a apresentação da notícia adquire nova forma a qual, mesmo que tenha algumas características da matriz, a define como um ser mutante. Tal como na natureza podem ocorrer mudanças no estado dos seres vivos, a notícia hoje: (a) muda do estado “sólido” para o estado virtual35; (b) em termos de composição, agrega novos produtos, como as ciberentrevistas e os flashes; (c) as propriedades são alteradas (não tem mais as cores do papel, mas as cores de uma tela eletrônica; não pode mais ser manuseada, deve ser apenas vista, ouvida ou assistida); e (d) há uma mudança na energia, quando a capacidade de fazer o trabalho, pelos jornalistas, passa a ser pressionada pela velocidade.

Na Tabela 7 podemos ver as fases históricas da notícia em comparação com as categorias de mutação das ciências biológicas. A notícia começou por via oral e isso estaria no gene do relato jornalístico. Uma primeira mutação gênica teria sido, por exemplo, quando se desenvolveu a fala humana e a notícia pôde ser comunicada boca a ouvido. Depois, os cromossomos se modificaram quando se encontrou a expressão escrita (mutação cromossômica): no suporte físico, pela primeira vez os fatos tiveram memória e

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Chalus compara a invenção da escrita às “emergências” dos biólogos e indaga: “Essa transformação do manuscrito em livro impresso não será uma outra ‘mutação’”?

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documentação. No início, a narrativa impressa possuía um caráter opinativo; foi necessário promover uma ruptura (ou uma supressão de características) para separar notícia de comentário. A partir daí, os gêneros próprios do jornalismo se desenvolveram, donde uma etapa somática. A pirâmide como modelo de texto que veio contribuir na valorização do produto jornalístico e organizar a edição seria uma mutação pontual36.

Tabela 7 – Mutações históricas da notícia

Tipo de mutação histórica

Característica genética Resultado

mutação gênica Alteração de base que ocorre dentro da seqüência que carrega a informação genética (gene). Genes criam campos de tendências, que reagem ao contexto

Notícia falada

mutação cromossômica Mudanças invisíveis no DNA dos cromossomos afetam a aparência ou o número de cromossomos

Notícia escrita

mutação somática Alteração restrita, visível, pode ser transmitida aos descendentes e provocar outros tipos de

desenvolvimento

Gêneros jornalísticos

mutação supressora Determina a supressão de uma característica. Às vezes a existência de um gene só é notada quando ele muda ou desaparece

Notícia x comentário

mutação pontual Incide sobre o código do sistema, causando mudanças de âmbito restrito

Pirâmide invertida

Se mutações acontecem espontaneamente na natureza e levam milênios, existem fatores que influem no processo e funcionam como íons ou luzes ultravioletas sobre a unidade primordial do jornalismo, afetada por todo o fenômeno de súbita transição para a pós-modernidade: a) as novas exigências sobre o jornalista, que passa a ser um indivíduo multitarefa e com o dom da ubiqüidade; b) a velocidade, que se tornou um fetiche (Moretzsohn) a escravizar as redações; c) a atualidade, valor-notícia do Novo, que é um elemento da rapidez; d) as novas ferramentas tecnológicas que, ao contrário de facilitar o trabalho, juntam mais funções aos profissionais. A mutação no jornalismo digital é

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Consideramos as notícias no rádio e na televisão como extensões, aplicações do texto jornalístico, desenvolvido primeiro nos meios impressos. Para nós, as notícias adquirem formatos diferentes em cada meio (ver Gráfico 1).

conseqüência de todos esses componentes, que agora parecem inseridos nos genes da própria notícia.

Ringoot e Utard (2005: 37, 41, 44) não vêem a mutação como um processo continuado no jornalismo. Eles encaram a formação discursiva jornalística como “um foyer de tensão entre ordem e dispersão”. Para ver mutações no jornalismo, dizem os autores, é preciso ter como postulado que ele é homogêneo, e que vez por outra admite perturbações na ordem, o que não acreditam ser verdade. “As mudanças (...) são resultado de uma dinâmica própria à prática jornalística”, asseguram. Os autores não têm dúvidas em afirmar que os objetos do jornalismo são dispersos a priori e, “paralelamente, a dispersão jornalística apreende a diversidade e a mutação das formas jornalísticas como traços constitutivos modulares, mais que como desvios da norma.” Trata-se de um outro modo de visualizar a transformação, que existe mesmo não se assumindo o jornalismo como um processo contínuo e alinhado.

Schudson (1999: 51-55) afirma que muita coisa mudou “desde o jornal como propaganda ao jornal como meio de educação e auto-educação; (...) do jornal como negócio ao jornal como cão de guarda e guardião; do jornal como perturbador da ordem e representante de interesses ao veículo como instrumento essencial, embora imperfeito, dos governos democráticos; e do público como massa a ser modelada, ao público como mentes a serem informadas”. O autor norte-americano lembra que poucas coisas são “mais características e reveladoras da moderna cultura” que a invenção e os modos de apresentação da notícia. “O mundo pode estar lá (‘out there’) e nós todos concordamos com isso, em nosso senso comum. Mas nenhuma pessoa e nenhum instrumento o apreende diretamente. Nós transformamos a natureza em cultura no momento em que nós falamos, escrevemos e narramos.”

Díaz Noci ([2001]: 25-26) indica que o momento atual é, na realidade, uma fase, uma plataforma que levará “ao verdadeiro estudo do discurso multimídia (e hipermídia) como verdadeira retórica do novo produto eletrônico”. Ele antevê que, no futuro próximo, teremos produtos jornalísticos com informação de atualidade, feitos por profissionais que integrem cada vez mais tipos de informação (textual, icônica, sonora) e “com maior capacidade de resposta e personalização”, juntando outras vantagens como a interatividade (facilidade de atender às demandas), a acumulação (potentes bancos de dados) e a virtualidade (quebra do espaço e do tempo).

Díaz Noci e Salaverría (2003: 19) consideram que tanto o texto como a bidimensionalidade do suporte papel são “reduções comunicativas”. Com Vouillamoz, os

autores crêem que o desenrolar da comunicação leva a uma evolução de “etapas isoladas e independentes, sem uma sucessão de estágios acumulativos integrados em um processo de justaposição”. A irrupção de um novo estágio não significa o rompimento com o anterior, mas a presença cumulativa de outros fenômenos que vêm se acrescentar para propor novos modelos culturais. Registramos aqui que esta idéia aborda o tema da transição, com os conceitos aí implicados: o tempo, os câmbios súbitos, a mutação de sistemas internos ao jornalismo. “Desenha-se um novo paradigma”, revelam os autores, reforçando a hipótese de mutação por etapas, mais acentuada pelo vertiginoso carrossel digital:

Um ano de vida na internet corresponde a cinco em outros terrenos. E se compreende esta rapidez de desenvolvimento, já que, como ocorre com os seres vivos, as etapas de evolução mais drásticas e rápidas costumam coincidir sempre com os estágios iniciais de vida. As redes digitais e ainda mais o ciberjornalismo apenas acabam de dar os primeiros passos. Assim é que, deste carrossel de mudanças vertiginosas próprio da imaturidade em que estamos imersos, seria uma aventura, quando não absolutamente gratuita, tentar adivinhar como será o jornalismo de amanhã. Ninguém sabe.

Vandendorpe (1999: 249-250) arrisca-se a fazer previsões num campo mais amplo, que se aplica, entretanto, ao jornalismo. Ele acha que a mutação na internet vai permitir ao usuário gerir a massa textual e juntar os textos recolhidos na Web “em ambientes significativos”, sob a forma de cadernos virtuais fáceis de ler e manipular. “A circulação do texto na rede mundial deverá acentuar ainda a ruptura do texto com o autor e o contexto da escrita, e devolver sua autonomia e abstração tão necessárias.” O autor já via um “crescimento do indivíduo na segunda metade do século XX, com o que chama “escritas do eu”, os blogs, consubstanciando-se em um retorno à subjetividade na escrita, que estava perdida desde que as pessoas deixaram de escrever diários domésticos e treinar o uso da primeira pessoa. Nesse ponto, a cultura jornalística, com a insistência no uso da terceira pessoa, teria auxiliado a impessoalidade do discurso. Para compensar a imaterialidade do texto na Web, hoje se incorporam ícones visuais, jogos de cores na tela do computador. No futuro, segundo Vandendorpe, assistiremos a uma preponderância da forma sobre o conteúdo, onde a linguagem será mera coadjuvante para as imagens. A coexistência dinâmica de meios culminará no nascimento de novos objetos de leitura e novas formas de expressão:

A conclusão mais certa é que estamos assistindo a uma hibridação e a uma diversificação dos suportes de leitura, ao mesmo tempo que uma modificação dos gêneros textuais e dos tipos de leitura. A nova mídia que representa o HT se caracteriza notavelmente pela riqueza de seu potencial de interatividade e as bruscas mudanças de contexto que envolvem o leitor. Essas características parecem aproximá-lo de uma situação de oralidade.

Jean-François Fogel e Bruno Patiño, em seu novo livro Une presse sans Gutenberg (apud Castilho, 2006), acreditam que está nascendo uma nova imprensa, com nova identidade, nova linguagem, onde os jornalistas têm a colaboração de parceiros (blogueiros, internautas) para atualizar as notícias nos sites. Eles tentam avançar na antecipação do porvir, prevendo que a imprensa terá que se reinventar em função do predomínio da internet sobre todos os outros meios de captação de informações; da obrigação de reorganizar sua presença na rede; e da convivência de dois mundos – um virtual e outro real – que os jornalistas terão que cobrir. Fogel e Patiño não tratam de mutações, nem acham que a imprensa está escrevendo mais um capítulo de sua história: para eles, o jornalismo está compondo uma nova história.