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A notícia como conhecimento sempre foi mais virtual que real, uma vez que requer interferências de vários tipos para se materializar – de quem provoca, participa, envolve-se e colhe o fato (qualquer pessoa ou testemunha); de quem reporta (o repórter); de quem seleciona os materiais obtidos (o editor) e de quem os veicula (os meios). O modelo da pirâmide invertida veio dar consistência e solidez a essa relação fluida entre os acontecimentos e o relato noticioso, e trouxe, pari passu com a padronização da escrita jornalística, os conceitos de objetividade, concisão e brevidade, precisão e exatidão, imparcialidade e neutralidade.

Em 2005, no Congresso sobre Novos Meios de Comunicação, em Santiago de Compostela, o debate sobre o emprego desta fórmula centenária à escrita digital envolveu acadêmicos importantes: a professora Maria Cantalapiedra, da Universidade dos Países Bascos; o jornalista e professor Ramón Salaverría, da Universidade de Navarra; e o brasileiro Rosental Calmon Alves, ligado à Universidade do Texas (Estados Unidos). Cantalapiedra levantou o assunto, fazendo a apologia da pirâmide e Alves (In: Castilho, 2006) afirmou que “ir direto ao ponto, numa redação de estilo conciso, só ajuda a comunicação num meio nervoso e interativo como a web, especialmente ao se tratar de hard news, das notícias de última hora que são o forte do jornalismo na fase atual”.

Salaverría (2006) foi uma das vozes discordantes. Para ele, os aspectos de objetividade, imparcialidade e neutralidade atribuídos à pirâmide não se referem à “estrutura da narrativa”, mas ao “estilo jornalístico”. “A pirâmide invertida é um formato narrativo, não um estilo”, frisou na época, abrindo a polêmica. Nessa ocasião, Salaverría disse que a defesa da pirâmide nos meios digitais deriva de uma “visão anacrônica, um desconhecimento absoluto da estrutura e da forma como é lido um texto em meio digital”.

A pirâmide invertida tem, sem dúvida, sua utilidade em notícias de atualidade que não têm desenvolvimento hipertextual. Mas pretender que este formato deve ser o ÚNICO [destaque do autor] formato jornalístico válido nos meios cibernéticos equivale a mostrar uma absoluta ignorância e desprezo pela variedade de formatos textuais oferecidos atualmente pelos meios digitais (reportagens, crônicas simultâneas, relatos cronológicos, informações em formato de blogs, infográficos não-lineares) Curiosamente, todos esses formatos ‘transgressores’ são os que se encontram na vanguarda do desenvolvimento de uma nova narrativa hipertextual.

“O texto jornalístico que vemos na tela continua a ser um texto, mas não é igual ao discurso impresso”, alerta Díaz Noci ([2001]: 105-107, 110). Ao discurso digital se juntam elementos que vão conformar uma mensagem informativa, cujos cânones ainda não estão

totalmente determinados, mas alguns itens já estão se impondo. Noci os denomina “elementos do discurso multimídia”. No meio digital, multiplicam-se as formas de escritura e de leitura. “Discursividade e visibilidade se juntam estreitamente; reforçam-se, se apóiam mutuamente.” O texto abandona seu caráter linear e ganha ícones. Até a imagem “adquire uma nova temporalidade (...) e é lida como texto”. A respeito de ícones, Edo (2003: 39) comenta que alguns estão se tornando muito familiares: uma câmara fotográfica indica que se pode ter acesso a fotos; uma lupa significa movimento de aproximação (zoom); um arquivo aberto sinaliza o local para abrir algum documento; um alto-falante mostra que é possível subir o volume.

O hipertexto é, por definição, não-linear, mas devemos nos lembrar (com Kilian, 2000: 28) de que “linearidade” é somente uma metáfora “para qualquer seqüência um-de- cada-vez” – como A-B-C ou 1-2-3. “Porque decoramos certos padrões (...), quando colocamos informação numa seqüência numerada, por exemplo, imaginamos que #1 seja mais importante ou mais básico do que #2, porque estamos acostumados a escutar a parte importante ou introdutória antes de ouvir detalhes.”

Alves (apud Castilho, 2006) assegura que “a pirâmide invertida não significa uma narrativa linear”. A pirâmide rompe com a expectativa das narrativas lineares – como a de Aristóteles, com princípio, meio e fim –, trazendo para o início do texto os detalhes mais relevantes da história ou a conclusão. O professor lembra que “mesmo quando se experimentam técnicas de desconstrução, ou de narrativa não-linear, ainda vale o princípio da pirâmide invertida” no ciberespaço pois, escolhendo uma forma para organizar os dados, dizendo “logo do que se trata”, não se subtrai do usuário a possibilidade de que ele navegue pela rede através dos hiperlinks.

Nos textos atuais que vemos nos sites noticiosos, o formato pirâmide invertida ainda é o mais usual e chega a ser recomendado por Jakob Nielsen (In: Inverted Pyramids...), considerado o “papa da usabilidade na rede”:

Os jornalistas aderiram há muito tempo à abordagem inversa: começam o artigo contando ao leitor a conclusão (“Depois de um longo debate, a Assembléia votou o aumento das taxas em 10%”), seguido pela informação de apoio mais importante e terminando com os bastidores. Esse estilo é conhecido como `pirâmide invertida´ pela simples razão de que muda o estilo da pirâmide tradicional. Esta forma de escrita é útil para os jornais porque os leitores podem interromper a leitura a qualquer tempo e mesmo assim terão absorvido as partes mais importantes do artigo.

Na Web, segundo Nielsen, a pirâmide invertida tornou-se ainda mais importante desde que se descobriu que muitos internautas não rolam o texto: na maior parte das vezes

eles lêem apenas o início do texto. Leitores muito interessados, ou à procura de informações específicas, usam as setas de rolagem para ir até o fim.

Kilian (2000: 28) usa o exemplo da “famosa pirâmide invertida dos jornais” para demonstrar como se organiza o conteúdo de um site por meio de pontos-chave que, como na pirâmide, “devem aparecer nas primeiras linhas de uma seção, onde eles automaticamente assumem importância”. Moura (2002: 55) recorda que “o leitor do veículo virtual é apressado” e recomenda “um bom lide e uma boa amarração de idéias para dar continuidade até finalizar a reportagem (...) ou perdemos o freguês, que vai clicar em outro link e vai embora”. Marcos (apud Noci e Salaverría, 2003: 247) defende a pirâmide pela “necessidade de superar o caos” da abundância de informações despejadas por milhares de sites e assevera:

Sem dúvida, a permanente batalha pela atualidade imediata exige uma linguagem sóbria, estrita, como na mais genuína estrutura da pirâmide invertida. Outro fator que condiciona a criação de notícias e mensagens informativas é o tempo de leitura que os cibernautas dedicam aos meios digitais, uma média de sete minutos, três vezes menor que a empregada pelos leitores analógicos na consulta aos jornais de papel. É um paradoxo que o meio com maior capacidade informativa, com maior volume noticiável e difusão universal seja ao mesmo tempo o que obtenha registros temporais mais baixos em dedicação.

Na Tabela 6, alinhamos os principais argumentos na competição entre as duas propostas – a da pirâmide e a que chamamos hipernotícia, a notícia hipertextual ou a mensagem jornalística hipermídia.

Tabela 6 – Pirâmide x Hipernotícia

Pirâmide Hipernotícia

Estilo flexível Pasteurização

Economia de tempo e espaço Criatividade

Aceleração da produção Liberdade de expressão

Leitor apressado Multimídia

Organização da informação HT, links, apresentação variada Ritual estratégico: controle do autor “Texto ideal”: controle do

leitor

Rotinas profissionais Novos usos

Pompeu de Sousa e os autores que tratam da pirâmide não fazem distinção entre o que é estilo e o que é estrutura da narrativa. A pirâmide é um modelo formal, mas nenhuma forma se despe de ideologia quando se aplica às mídias. Assim como a TV fabrica mitos pela associação às imagens, também o ato de hierarquizar as informações, de estruturar

parágrafos em seqüência e de encadeá-los em ordem lógica carrega valores: a idéia de facticidade, de que os fatos são exatos, de que as informações foram repassadas com imparcialidade, de que os dados são objetivos, e de que tudo foi colocado a propósito numa forma concisa para economizar o tempo do leitor.

A hipernotícia – que seria um subgênero do gênero maior, o informativo, na internet – pode levar à pasteurização da notícia; o mesmo pode acontecer com a notícia no meio impresso, quando ambas são confrontadas com a realidade da escassez de recursos para as redações, onde os investimentos em máquinas e software são priorizados. A pirâmide não é uma estrutura única; ao longo do tempo, assumiu feições diferentes e por isso está sendo utilizada há quase um século e meio, fazendo sua entrada também nos sites noticiosos. A necessidade de padronização persiste no ambiente das redações do jornal, do rádio e da TV, assim como nas agências. A maioria das páginas de notícias brasileiras é assinante de agências nacionais e internacionais e, se não fosse adotado um modelo para enviar notícias, sua tarefa seria impossível. Entretanto, não se esquece aqui o perigo da excessiva padronização.

Com a eclosão da internet durante os anos 1990, a discussão sobre a pirâmide invertida voltou à tona. Os argumentos a favor eram de que esse modelo atende à necessidade do meio digital, em que é preciso escrever de forma sintética e com “densidade informativa”. Salaverría (2006: 113-114), junto com os que se batem contra a pirâmide, lembra que na internet não existem apenas notícias de última hora, como também reportagens, crônicas (seria equivalente a um relato cronológico), entrevistas, infográficos, colunas para os quais, diz ser a pirâmide “inservível”. Stovall (apud Salaverría, 2006: 114) afirma: “A primeira grande mudança que a Web trouxe ao jornalismo foi a habilidade de manejar muito mais informação do que o meio tradicional. Webjornalistas estão aprendendo a pensar ‘lateralmente’ suas matérias”. Pensar lateralmente quer dizer imaginar os desdobramentos de um assunto e prever complementações.

Não dispomos de dados suficientes para afirmar que os repórteres na Espanha e nos Estados Unidos fiquem tão presos à estrutura da pirâmide a ponto de serem proibidos de desenvolver outros ângulos das matérias. No Brasil, nas reportagens para domingo, nas produções para revistas ou em coberturas especiais de jornais impressos, no rádio e na TV, repórteres, redatores e editores estão acostumados a “pensar lateralmente”, compondo várias matérias coordenadas e, no caso da imprensa escrita, tudo isso é enriquecido com informação destacada em boxes e gráficos, que são complementados com ilustrações e

fotografias. Em cada uma dessas produções o repórter pode adotar um modo de escrever diferente. Portanto, quando se fala em pirâmide invertida não se menciona apenas o padrão lide/corpo: está-se tratando da maneira de ordenar as informações da mais para a menos importante. A estruturação de conteúdo com esse princípio parece incorporada ao discurso jornalístico em várias de suas modalidades, não obstante outros tipos de texto em formato cronológico ou sob a forma de listas, tabelas e infografias.