Dentre as muitas conceituações de notícia, a que nos parece mais adequada ao conceito da pirâmide invertida, enquanto estrutura para a comunicação jornalística, é a de Lage (1985: 16): “A notícia se define, no jornalismo moderno, como o relato de uma série de fatos a partir do fato mais importante ou interessante; e de cada fato, a partir do aspecto mais importante ou interessante”. Como toda narrativa, cuja raiz está no gênero épico, a espinha dorsal está na organização dos eventos em seqüências. O sistema da pirâmide – que é inverso ao do relato em ordem cronológica – se assenta sobre o tripé: 1) Base – é o lide, que introduz o assunto; 2) Corpo – é o desenvolvimento da matéria, onde se trata do tema proposto; e 3) Fecho – corresponde ao cume da pirâmide, que pode ser um decréscimo das informações, em importância, ou um dado futuro, que obrigue o leitor a seguir o assunto em outra ocasião (Jorge, 2006).
A idéia de iniciar o texto a partir de algumas questões fundamentais veio de Platão, Aristóteles e Pitágoras, 400 anos antes de Cristo. Em Roma, Cícero estabeleceu em Inventione quesitos para uma comunicação eficaz. Quintiliano, na Institutio Oratoria, sugeriu um “heptâmetro para disciplinar o discurso” (Pereira, 1985: 7-11). Cada um que se dedicasse à tarefa de escrever para ser compreendido deveria responder a perguntas básicas: Quis? Quid? Ubi? Quibus auxiliis? Cur? Quomodo? Quando? (Quem? Que coisa? Onde? Por que meios? Por que? Como? Quando?) A essas indagações corresponderiam, já no século XIX, os cinco Ws e um H que os norte-americanos sintetizaram. Os princípios do lead, o primeiro parágrafo da notícia, segundo os cânones norte-americanos, se fundamentam na regra dos cinco W e um H: Who, What, When, Where, Why e How, questões obrigatórias que devem ser respondidas no texto da notícia29.
Na Tabela 4, podemos ver a correspondência entre as perguntas romanas – primeiro com Quintiliano, depois com Cícero – e as do lide clássico norte-americano.
Tabela 4 – O texto jornalístico Perguntas-guia
Quintiliano Cícero EUA Brasil
Quis? Persona Who? Quem?
Quid? Factum What? O que?
Ubi? Locus Where? Onde?
Ad modum? Modus How? Como?
Quibus adminiculis? Facultas With what? Com que?
Quando? Tempus When? Quando?
Cur? Causa Why? Por que?
29
Do ponto de vista funcional, a pirâmide: a) começa do mais importante; b) responde às questões primeiras que surgem na cabeça do leitor acerca de um determinado assunto; c) adota o princípio da dedução: do geral para o particular; d) tem uma estrutura fixa, formando blocos de pensamento. Do ponto de vista psicológico, o lide e a pirâmide se consolidaram porque as informações transmitidas no início da leitura se fixam na memória do receptor, servem como estímulo para que continue a leitura ou a abandone, se não estiver em seu foco de interesse.
Grande número de textos é redigido às pressas, no calor do fechamento das edições. “O jornalismo se propõe a processar informação em escala industrial e para consumo imediato. As variáveis formais devem ser reduzidas, portanto, mais radicalmente que na literatura”, observa Lage (1986: 35). Os problemas concretos que os repórteres enfrentam no dia-a-dia – que acontecimentos merecem ser elevados à condição de notícia, que fatos selecionar entre os dados apurados – têm que ser solucionados rapidamente e determinam a escolha do texto jornalístico mais adequado. Altheide e Snow (In: Sousa, 2000: 35) destacam que as notícias são feitas de acordo com determinados formatos que se converteriam, segundo a lógica da mídia, em esquemas utilizados para compreender, apresentar e interpretar a realidade. Molotch e Lester (Sousa, 2002: 64-65) pensam que os conteúdos fornecidos pelas fontes, que o jornalista edita e difunde, transformam-se em conhecimento social e em referencial a partir de seu consumo.
Para Tuchman (apud Wolf, 2003: 196), a maneira de “apresentar os fatos mais importantes primeiro” (...) faz parte da busca de objetividade dos jornalistas e se insere entre os “rituais estratégicos” com que eles procuram se resguardar de críticas e ataques.
Devido às pressões a que o jornalista está sujeito, ele sente que tem de ser capaz de se proteger para o afirmar: ‘Eu sou um profissional objetivo´. Ele tem de desenvolver estratégias que lhe permitam afirmar: `Isto é uma notícia objetiva, impessoal, imparcial´. De igual modo, os editores e a administração do jornal sentem que têm de ser capazes de afirmar que o conteúdo do jornal é `objetivo´ e que a política informativa e a política editorial são distintas uma da outra (Tuchman. In: Traquina, 1993: 75).
Num estudo feito em 1989, Adelmo Genro Filho se propôs a desvendar “o segredo da pirâmide”, que é o de esconder, sob o manto da objetividade, a “ideologia burguesa” que reproduz e corrobora as relações capitalistas. A objetividade jornalística, no entender do autor, “implica uma compreensão do mundo como um agregado de fatos prontos e acabados”, com existência autônoma. O autor destacava a raiz positivista do modelo aplicado ao jornalismo. Para Genro (1989: 188), a premissa materialista é: “O material do
qual os fatos são constituídos é objetivo, pois existe independente do sujeito. O conceito de fato, porém, implica a percepção social dessa objetividade”. Genro desenvolve essa premissa em cinco outras: 1) a realidade objetiva é indeterminada, probabilística – envolve pessoas e é o “reino da liberdade”, já que implica criação; 2) conhecimento – processo infinito. Só é possível conhecer uma parte da realidade; 3) a realidade social pressupõe subjetividade como elemento inseparável do objeto e da teoria que busca apreendê-lo; 4) um sujeito produz um objeto e é produzido por ele; e 5) os fatos jornalísticos são recorte no fluxo contínuo, uma parte no todo. São construídos obedecendo a determinações ao mesmo tempo objetivas e subjetivas. A notícia decompõe o fato e o reorganiza sob uma nova lógica, fundada nos princípios vistos ao longo da história da imprensa: imparcialidade, objetividade, isenção. Dentro dessa lógica de organização, e atendendo a requisitos industriais cada vez mais presentes – rapidez, padronização – no capitalismo moderno, foi que se implantou o padrão básico da notícia, em fins do século XIX30.
Sobretudo, a pirâmide é um modelo, e Santaella (2001: 48-49) adverte que todo modelo é um “sistema matemático que procura colocar em operação propriedades de um sistema representado”. É, ao mesmo tempo, “abstração formal e, como tal, passível de ser manipulada, transformada e recomposta em combinações infinitas”, pois “visa funcionar como réplica computacional da estrutura, do comportamento e das propriedades de um fenômeno real ou imaginário” (Machado. In: Santaella, 2001: 48). Como modelo adaptado à cultura organizacional das redações e às rotinas de produção, a pirâmide invertida desempenha com eficácia três das quatro funções apontadas por Santaella (com Deutsch): 1) organizadora – ordena, relaciona dados e mostra similaridades e conexões; 2) heurística – leva a novos fatos e métodos; 3) preditiva – explica algo não sabido. Só não tem a ver com a função de mensuração, pois não é possível fazer nela, pelo menos até agora, testes físicos, quantitativos.
Os manuais de redação, desde Pompeu de Sousa31 (1950) até hoje, procuram aconselhar o uso da pirâmide e do lide. “Lide e a técnica de redação em forma de pirâmide invertida são preceitos, trazidos pelos manuais dos jornais diários, na parte noticiosa dos periódicos, sem exceção”, constata Rodrigues (2003: 105). Na Tabela 5, temos uma compilação das regras do Diário Carioca, adaptadas pelos outros veículos a partir desta primeira experiência de uma nova redação.
30
Ver também: <http://www.adelmo.com.br>.
31
Usa-se aqui a grafia original do nome de Pompeu de Sousa, embora ele mesmo tenha admitido a grafia “Souza”, mais tarde.
Tabela 5 - Conselhos de Pompeu
1. Ocupar o primeiro parágrafo das notícias com: a) um resumo das mais recentes informações, respondendo ao maior número das seguintes perguntas: que?, quem?, onde?, como?, e por que?; ou b) um aspecto sugestivo, interessante para o leitor.
2. Só matérias muito peculiares merecem ter outro tipo de abertura e isso apenas quando o elemento pitoresco, sentimental ou de surpresa exigir.
3. Ordenar o corpo da notícia pela hierarquia da importância e atualidade dos detalhes. 4. Usar parágrafos curtos e evitar palavras desnecessárias.
5. Não começar períodos ou parágrafos sucessivos com a mesma palavra. 6. Evitar palavras chulas e expressões de gíria.
7. Evitar fórmulas e expressões genéricas, preferindo a informação precisa. Fontes: Hohenberg, 1962: 70; Souza, 1992: 24-29.
Não por acaso, o manual da Folha de S. Paulo (2006: 93), que serve de base para o portal UOL, tem a seguinte compreensão da pirâmide invertida:
Técnica de redação jornalística pela qual as informações mais importantes são dadas no início do texto e as demais, em hierarquização decrescente, vêm em seguida, de modo que as mais dispensáveis fiquem no final. É a técnica mais adotada em jornais do Ocidente. Deve ser utilizada pelos jornalistas da Folha em textos noticiosos.
Em edições mais antigas (1992: 100), o verbete dedicado à pirâmide oferecia informações históricas: “Criada para servir melhor às necessidades dos clientes de agências noticiosas, que podiam transmitir o mesmo texto a todos e permitir a cada um utilizá-lo no tamanho requerido por sua diagramação sem necessidade de operações demoradas: bastava cortar pelo final na medida desejada. Acabou por servir também ao leitor que pode, igualmente, interromper a leitura do texto na altura que desejar sem ter perdido as informações fundamentais.”
Alguns style books não empregam a expressão pirâmide invertida ao falar sobre a escrita jornalística. Entretanto, a necessidade de padronização está presente. The New York Times (Jordan, 1976: 75, 115, 147) demonstra preocupações com o bom texto na recomendação de que o jornalista deve zelar por “fairness and impartiality” (justiça e imparcialidade), e evitar o uso de palavras ofensivas (“obscenity, vulgarity, profanity”). O
manual do Correio (Squarisi, 2005: 31) aconselha: “Comece pelo mais importante. E comece bem, com uma frase atraente, que desperte o interesse e estimule a leitura. No final, ofereça o prêmio cuidadosamente escolhido: um fecho de ouro, como inesquecível sobremesa a coroar um almoço de abade”.
A partir dos vários livros de estilo e da experiência nas redações, podemos sintetizar, como pressupostos da pirâmide invertida no jornalismo impresso: 1) o lide é a peça básica do sistema: um dos fatos é selecionado como o mais importante ou interessante; 2) o texto é blocado, isto é, estruturado em parágrafos interligados, em ordem de interesse decrescente; 3) os parágrafos têm tamanho igual e não devem ultrapassar cinco linhas; 4) o relato não contém opinião, apenas fatos; 5) deve ser escrito na terceira pessoa do singular (Jorge, 2006).
Em pesquisa com os jornais Clarín e La Nación, De la Torre e Téramo (2004: 98) verificaram que a pirâmide invertida “continua a ser a estrutura preferida pelos diários argentinos”. As autoras apontam as vantagens desse estilo: 1) busca chamar a atenção do leitor sobre a notícia, facilitando dados para que ele decida se quer seguir ou não lendo; 2) facilita o ajuste, seja quando a notícia é grande e é preciso cortá-la, seja quando é hora do fechamento e é preciso colocá-la na página do jeito em que está. E as desvantagens seriam: 1) diminui a curiosidade do leitor logo depois do interesse suscitado; 2) desenvolve no jornalista um estilo mecânico e estereotipado de escrever; e 3) redatores pouco experientes podem escrever lides muito grandes para conter todas as perguntas.