A comunicação nas redes se caracteriza por dois traços, segundo Salaverría (2006: 25, 101): 1) policronismo – o ato de elocução é único, os receptores são múltiplos no espaço e no tempo; 2) multidirecionalidade – troca personalizada e interativa de muitos para muitos, sem um centro único. No momento, o hipertexto e a hipermídia constituem uma revolução em si. A possibilidade de ligar unidades de informação por partículas de significado é uma grande descoberta do século XX, e se beneficia da tecnologia do hardware, do software e dos bancos de dados. Vimos que as três características principais da comunicação em rede são a hipertualidade, a multimidialidade e a interatividade (ver Parte I-2 Conceitos e Idéias). Entretanto, como atesta Salaverría, “para hipertextualizar (...) um texto jornalístico não basta espalhar sobre ele uns tantos links. (...) Para elaborar textos jornalísticos realmente hipertextualizados, o jornalista deve aprender a construir estruturas discursivas compostas mediante a articulação de elementos textuais, inclusive multimídia.”
A hipermídia – também chamada sistemas de hipermeios – é a “organização da informação textual, visual, gráfica e sonora através de vínculos que criam associações entre informação relacionada dentro do sistema”, como definem Caridad e Moscoso (In: Diaz Noci, [2001]: 89). Esses autores mergulham em uma outra classificação: a) hipertexto é quando os vínculos unem duas ou mais informações textuais: b) hiperáudio, quando se trata de duas ou mais informações sonoras; e c) hipervídeo, quando se fala de vínculos entre dados visuais. A hipermídia, segundo esses autores, é conjunto dos três, o que outros estudiosos vêem como multimídia. O jornalismo multimídia ou multiplataforma é aquele que articula os meios para a realização de coberturas. Isso se efetiva quando uma empresa
de comunicação coordena os esforços de seu pessoal dos respectivos diários impressos, emissoras de rádio, canais de TV e cibermeios32.
O texto predomina na tela eletrônica por duas razões: a dependência dos meios impressos – de fato, os maiores fornecedores de material noticioso no mundo ainda são os originários dos jornais; e uma questão técnica: o texto demora menos a ser processado e tem mais facilidade de ser repassado por vários tipos de navegadores. Não podemos nos esquecer de que, no Brasil e em todo o mundo, uma grande quantidade de pessoas ainda utiliza linha telefônica para se conectar; só uma minoria emprega a banda larga, pelo custo mais alto desse tipo de serviço, o que limita o uso do computador para muitas funções.
O hipertexto (HT) é o primeiro elemento do discurso multimídia. Landow (1995: 59-60) faz a distinção entre texto e HT: “Um texto é uma estrutura linear (...) fortemente hierarquizada: os elementos textuais, mais ou menos autônomos, estão ligados entre si por relações de ordem. Um HT é uma estrutura de rede: os elementos textuais são nós, ligados por relações não lineares e pouco hierarquizadas”. Recordamos aqui o conceito de “texto digital”: produto resultante de uma combinação de conteúdos lingüísticos, em que cada uma das unidades é chamada de “nó” ou “lexia”. Compor um hipertexto seria desenvolvê- lo em nós ou lexias33. No jargão profissional brasileiro, denomina-se “matéria” o texto jornalístico do dia a dia. Por analogia, no jornalismo digital, uma lexia ou um nó seriam matérias componentes de uma reportagem maior, mais abrangente. Em alguns casos, essa hipermatéria poderia tomar a forma de uma notícia contínua ou em série – a hipernotícia no ciberespaço.
Um segundo elemento do HT é o som. Hoje muitas rádios brasileiras já colocam sua programação ao vivo na rede. O problema é que muitos dos usuários não têm acesso aos programas adequados, o que ainda torna complicada a audição via internet. Idêntico impasse enfrenta a visão de imagens animadas na rede, que é o terceiro elemento do discurso digital. As fotografias, gráficos e ilustrações simples não requerem aplicativos especiais para ser visualizados, ao passo que os filmes e desenhos animados, sim, e visualizá-los corretamente às vezes é impossível ou significa despender tempo.
Outros elementos gráficos se juntam ao hipertexto para formar a mensagem jornalística hipermídia: ícones, botões, barras, gráficos e mapas – todos proporcionando ligação com informações que o usuário vai compondo na medida de sua vontade ou
32 Salaverría (2006: 37-38) cita a experiência do Tampa News Center (Flórida, EUA), que colocou a mesa de
redação no centro do prédio, com visão direta às três redações. Da mesa central são dirigidas as operações de cada meio em separado, assim como as coberturas combinadas.
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necessidade. Assim como os botões dão acesso a outros textos que não estão visíveis (são um hipotexto por detrás do hipertexto), também as bases de dados não se encontram na superfície da tela, devendo ser acionadas do nível mais profundo pelos links ou buscadores. Com Campbell e Goodman, Díaz Noci ([2001]: 114) afirma que um meio de comunicação pode oferecer três patamares de arquitetura da informação: a) nível de apresentação ou interface com o usuário, feito pelo programa de navegação com os ícones – flechas, botões, mapas; b) nível estrutural, que é o sistema de vínculos; e c) nível de base de dados, que permite manejar uma quantidade enorme de informações, impossível num veículo tradicional.
Mielniczuk (2003) considera o link um “elemento-chave da escritura hipertextual” e vê aí “o fator inovador”, relacionado à forma de organização por lexias e à própria formatação da informação, pelo sistema de interconexões. Para a autora, os links fazem a ligação entre os paratextos, os textos paralelos que se complementam, a ponto de os vínculos em si galgarem “o status de um texto, um texto com funções específica no ambiente hipertextual”. Os enlaces hipertextuais seriam, segundo Luciana Mielniczuk, correspondentes contemporâneos dos laços ou códices que uniam as tábuas de argila e madeira, nos livros da biblioteca de Alexandria, só que agora com moldura digital – a tela do computador.
Os programas auto-executáveis são aqueles que permitem ver gráficos animados e tornarão possível, no futuro próximo, a realidade virtual propriamente dita, com recursos táteis e olfativos, imagens em três dimensões e som perfeito, que farão a internet de hoje parecer um primitivo e infantil engenho. Por fim, os elementos que concorrem para reforçar a interface com o usuário e que são chamados de interativos: calculadoras e formulários; foros de discussão; enquetes; questionários e concursos de perguntas e respostas; jogos e a fórmula wiki, de contribuições simultâneas pelos usuários.
No livro Redação jornalística na internet, Salaverría (2006: 62, 113-115) nos conta ainda sobre uma figura rara no Brasil atual, o repórter ubíquo, aquele que goza de independência para desempenhar a função em qualquer lugar do mundo, por meio das redes telemáticas (conectadas ou sem fio) e dos dispositivos móveis (celulares, notebooks). Porém, o autor também ressalva que na maioria das redações do chamado novo jornalismo, os profissionais saem cada vez menos a campo. Aos donos das empresas interessa contar com colaboradores a distância e manter apenas uma pequena equipe fixa na retaguarda:
O jornalista de hoje (...) se vê obrigado a estar num contínuo ida-e-volta: da redação à rua, da rua à redação. Muitos lamentam, de fato, que nesse ir e vir os jornalistas permanecem na redação mais tempo do que o estritamente necessário e, pelo contrário, pisa pouco na rua. Na verdade, os jornalistas que trabalham para os meios na internet estão entre os que menos têm contato com o exterior. Dedicados quase sempre às tarefas de edição, na maioria dos cibermeios atuais sua tarefa se limita a reconverter ao suporte digital os conteúdos previamente elaborados por outros para o papel, o rádio ou a televisão. Estes jornalistas “digitais” se converteram assim em arremedos dos antigos redatores, cuja única função era processar informação que outros haviam gerado.
O problema do repórter ubíquo, segundo o autor, é que ele dispõe de cada vez menos tempo para escrever, o que exigirá dons especiais dos jornalistas para redigir com “rapidez e concisão”, sem esquecer “correção e precisão”. De que precisa um redator para escrever para a internet? “Saber escrever”, responde Salaverría (2006: 67, 70), acrescentando que lhe é dada “a oportunidade de multiplicar os itinerários do discurso”, graças ao hipertexto; de estreitar as relações com os leitores, via interatividade; e de enriquecer as mensagens, com os recursos multimidiáticos. “Sem dúvida, ao final, escrever bem na rede continua a ser em essência o mesmo de sempre: ser capaz de elaborar textos claros, precisos e amenos.” Os textos que “funcionam” na internet devem perseguir as seguintes qualidades, segundo o autor: correção gramatical, riqueza léxica, pertinência de tom e adequação retórica ao contexto. Duas regras são aconselháveis em relação aos documentos encontrados na própria internet: 1) quando se tratar de documentos na íntegra, em lugar de copiar, remeter o leitor ao documento original por meio de um link; 2) se algum hiperdocumento for inserido no texto, deve-se acrescentar um link à fonte.
Robert Darnton (apud Salaverría, 2006: 113-121) e outros autores compreendem a apresentação de textos na internet como em um sistema de camadas superpostas. Darnton sugere que a primeira camada (layer) cumpra a função de um abstract em um artigo cientifico, introduzindo o leitor no conteúdo, o que Salaverría chama de “nó de arranque”: como um lide sumário, não tem mais que dois parágrafos e “é um lugar idôneo para a pirâmide invertida”. Ainda tomando como exemplo um texto acadêmico, Darnton enumera seis camadas: Top layer: texto conciso sobre o assunto, como o de uma capa de livro; Segunda camada: aspectos do tema, em unidades isoladas; Terceira camada: documentação; Quarta camada: teoria e história; Quinta camada: pedagógica, jogos para ensinar e discutir em classe; Sexta camada: troca de informações entre os leitores e o autor. Com base em Thom Lieb, para quem “a disposição em camadas pode ser adequada até às breaking news”, Salaverría cunhou uma estrutura para as notícias, desde as mais
simples às mais complexas. Nós nos permitimos comparar essa estrutura à da mídia anterior – o jornal impresso:
1º nível: notícias hipertextuais básicas compostas de um único nó, onde se oferece uma síntese da informação, algumas vezes com um “avanço” informativo urgente. “As veteranas técnicas de redação baseadas nos cinco W e no lide se acomodam a este nível”, alerta o autor. Seria o que denominamos no Brasil uma “chamada de capa”.
2º nível: notícias simples, com dois nós: o primeiro, para adiantar a notícia, com um título e um parágrafo; o segundo, para desenvolvê-la em forma de pirâmide. “Para manter a devida coesão com o nó inicial, o segundo nó deve repetir o título e, eventualmente, o primeiro parágrafo”, indica Salaverría. Não possui recursos interativos (comentários, infografias) nem informações relacionadas por hipertexto. Seria a matéria principal ou uma retranca única.
3º nível: notícias com documentação, correspondem aos links que conectam a notícia principal com informações correlacionadas, que podem vir do próprio arquivo ou de fontes externas, como também podem ser meramente textuais ou multimídia. Seriam as coordenadas ou boxes.
4º nível: notícias com análise por algum especialista, sob a forma de crítica, resenha, artigo. Mesmo significado na mídia impressa.
5º nível: notícias com comentários dos leitores, enquete, fórum. Não existe correspondente na mídia anterior: as cartas de leitor entram geralmente em espaços separados e delimitados, longe do material informativo; a enquete on-line seria o “Povo fala” (entrevistas curtas com pessoas na rua) da TV ou do jornal.
O autor lembra que ainda pode ser incluída uma sexta camada, sugerida por Darnton: providenciar material didático para discutir a notícia na escola, o que já fazem o New York Times e a BBC, incorporando propostas pedagógicas para aproveitamento do noticiário nas salas de aula. Alguns periódicos brasileiros também se preocupam com isso e possuem programas para incentivar a leitura do jornal nas escolas fundamentais e médias, como é o caso d’O Estado de S. Paulo e do Correio Braziliense. Uma observação que gostaríamos de tecer é que quase nada desta estrutura proposta nos é inteiramente nova. Quando reiteramos que a notícia sempre foi virtual, temos em mente procedimentos já instituídos na cultura brasileira, como as reuniões de pauta (tormenta de ideas, um dos métodos de Salaverría para expandir a reportagem) e planejamento conjunto de coberturas
(nacionais, como o carnaval; ou internacionais, como a eleição do papa), que já obrigam a uma composição “em camadas”. No meio impresso, que é bidimensional, as camadas são apenas horizontais, o que as diferencia do meio digital, onde as layers podem ser “verticais”, sobrepostas umas às outras.
Muitos dos atuais gêneros jornalísticos, herdeiros dos meios impressos, ainda permanecem no ciberespaço. É o caso do modelo da pirâmide (invertida, normal, mista), que continua a ter utilidade, complementada por outros gêneros em erupção: flashes, bate- papos, relatos pessoais dos leitores, fóruns. Cremos que já existe um texto jornalístico digital e quando dizemos isso estamos falando do texto no sentido de composição que engloba a escrita, a imagem, o som. Em verdade, o texto jornalístico está se refazendo, conseqüência do processo de mutação que os vários gêneros estão sofrendo ao se adaptar à internet. Não podemos nos esquecer de que a notícia é, em si mesma, um gênero que apresenta relação direta com as convenções do meio social, montando um conjunto de forças interatuantes. Todo mundo sabe o que é uma notícia e, consciente ou inconscientemente, reconhece que ela tem papel importante no contexto cognitivo de apreensão do real e como agente estruturador da comunicação.
Na próxima parte – A notícia em mutação –, entraremos na questão principal desta tese. Nas seções anteriores, revisamos as teorias da notícia, a história da formação desse gênero, a relação com as tecnologias e com o hipertexto. Também empreendemos uma revisão dos conceitos de notícia, dos critérios de noticiabilidade, e discutimos os gêneros noticiosos e alguns tipos de escrita digital que já estão eclodindo. Estudaremos a seguir, mais detidamente, as modificações que a notícia sofre, segundo categorias e padrões de alteração que propomos, e dentro da hipótese de que esse processo configuraria uma trajetória de mutações da notícia. Nesta parte, procuramos definir padrões de mutação aplicáveis à evolução do texto jornalístico.
4 A notícia em mutação
Gêneros se metamorfoseiam, transformam-se, transmutam ou são resultado de um processo de hibridização? Como se dão os processos de passagem do gênero jornalístico dos suportes mais conhecidos (impresso/ televisivo/ radiofônico) para o suporte digital? Que transformações sofre a informação ao mudar de suporte? Utard (2003) aponta que o discurso eletrônico já tem seus fenômenos: as novas formas que surgem no meio digital seriam vítimas de um processo de embaralhamento, uma transformação que interfere nos produtos discursivos, em suas “formas visíveis”. Nesse caso, “o gênero é apresentado como caracterização da ´mensagem`, considerada um ´produto` informacional”.
No livro Le journalisme en invention. Nouvelles pratiques, nouveaux acteurs, Roselyne Ringoot e Jean-Michel Utard (2005: 15) dão ciência do trabalho de 27 pesquisadores, que compõem uma rede de estudos sobre o jornalismo iniciada em 2002, sob o título “Hibridação e criação de gêneros mediáticos. Realidades, representações e uso das transformações da informação”. A obra é uma apresentação dos primeiros resultados desse programa cooperativo, interdisciplinar e internacional com nove corpus de pesquisa. Entre esses resultados, “as novas tecnologias não aparecem como motores de transformações da informação, mas como um novo espaço e eventualmente como um acelerador dessa manifestação”. Trata-se de um ângulo diferente de observação do fenômeno de apresentação de produtos digitais jornalísticos: a digitalização não seria, assim, um agente de mudança em si, mas apenas um dos atores desta etapa de transição, de um processo de hibridação ou hibridização, que teria na rede um elemento precipitador.
Nesse sentido, Nélia Del Bianco (com Castells) observa que a comunicação mediada por computadores, mais especificamente a mídia digital, ao quebrar a idéia de unidirecionalidade, está levando à “hibridização dos media tradicionais e vice-versa”. Ela lembra que o termo foi cunhado por McLuhan (1971: 74-75) para mostrar a mistura entre os gêneros televisivos, cinematográficos e literários. De fato, o teórico canadense entendia que “o híbrido, ou encontro de dois meios, constitui um momento de verdade e revelação, do qual nasce a forma nova” e considerava-o “um momento de liberdade e libertação”, exemplificando com a hibridização na história da imprensa, quando o princípio da roda foi utilizado pela tipografia para criar “o equilíbrio aerodinâmico”.
Ao estudar as mutações que a internet provoca no ambiente do rádio, Del Bianco (2004: 90-91) chegou à conclusão de que a ausência de um modelo claro para as comunicações em rede provoca angústia “sobre sua aparência e forma no futuro”:
As mutações emergentes por hibridização desencadeiam um realinhamento do sistema, abrindo caminho para a convergência de processos e práticas. É nesse ambiente de modificações e reciclagens, onde uma forma não subsiste sem a outra, é que vão sendo moldadas as bases do processo de convergência ou integração entre novos e velhos meios. O modelo convergente, provavelmente, se resumirá à integração de vários meios de comunicação num ambiente flexível de rede, sem que um seja dominante em relação ao outro.
Hoje, alguns produtos jornalísticos digitais mostram essa hibridização: publicidade misturada com informação; comentário incluído na notícia; entretenimento com opinião; ficção com realidade. A mescla, se não é provocada pela rede, está levando a uma certa confusão nas classificações e causando rápidas mudanças. O suporte físico (papel) ajuda a visualizar as diferenças. Já o ambiente virtual esgarça o tecido, desorganiza o contrato social, decompõe as amarras que separavam o gênero informativo do opinativo desde o século XVII. O pacto social que estabelecia que o jornalismo deve informar e o leitor deve ler – e acatar, referendar as informações, acreditar no jornalista, respeitar a hierarquia, preservar os direitos autorais – está se desfazendo diante da nova realidade, das novas mídias e do hipertexto.
Segundo Ringoot e Utard, a discussão sobre o caráter normativo dos gêneros ressurge agora por causa da dificuldade em enquadrar produtos diferentes dentro de molduras antigas. Os gêneros sempre fixaram as condições das trocas simbólicas. “Transgressão de gênero é sinônimo de traição”, embaralha as identidades e as relações de troca. Falamos de uma “mistura de gêneros” para designar as “transformações perceptíveis nas produções mediáticas, embora esta noção “bastante fluida” cubra duas ordens de fenômenos: 1) confusão de funções sociais destes produtos culturais; e 2) contaminação cruzada de suas estruturas semióticas. Na verdade, dizem os autores, “as formas e os conteúdos dos produtos não se fixam mais nas modalidades de sua circulação social: a informação diverte (infotainment); a ficção pretende igualar o discurso da realidade (docuficção)”. Os gêneros nada mais são que uma “vontade de dominação dissimulada sob classificações genéricas e máscaras enunciativas”. A publicidade imita o discurso enunciativo da ciência, ou o apelo do jornalismo para vender. Entretanto, onde se configura uma “traição” é no terreno da informação:
De seu lado, o cruzamento entre a publicidade e a diversão é muito menos contra a natureza porque elas são da mesma espécie: efêmeras, lúdicas, transacionais. Mas as barreiras entre informação e promoção, entre realidade e ficção, entre jornalismo e animação, entre o sério e o lúdico se tornam porosas, e é toda a edificação simbólica que é ameaçada. (Ringoot e Utard, 2005: 21)
Marcuschi (2002) observa que a internet muda de maneira bastante complexa gêneros existentes e desenvolve alguns realmente novos. Ele enfatiza que são eventos textuais baseados na escrita. A escrita é o ponto de partida e a ela se agregam imagens e som. “O que se nota é um hibridismo mais acentuado, algo nunca visto antes, inclusive com o acúmulo de representações semióticas”. Os meios eletrônicos não estão colocando em xeque a estrutura da língua, e sim o uso que se faz dela, seja sob a forma jornalística, seja a literária ou a correspondência. Seria uma nova forma de textualização.
Ao mesmo tempo, ocorre uma nova relação com o espaço (Lamizet). As redes estimulam um complexo sistema de interrelação dos mídias, provocando a atenuação dos gêneros outrora facilmente classificáveis. A notícia é estruturada a partir dos diferentes usos que um leitor pode fazer dela, seja enviando-a para um amigo, acrescentando dados ou assinando seu nome embaixo, como se tivesse sido o autor. Ele também pode juntar comentários, mudar a ordem ou apresentá-la de outra maneira, com fotos e som, ao invés de esperar uma formatação vinda de cima, que um corpo de redatores lhe oferece. Esta é uma conseqüência adicional do novo meio: atenuam-se as fronteiras entre o usuário e o