Del Bianco (2004: 277) descobriu que “os referenciais que balizam os tradicionais valores utilizados na seleção de notícias no rádio estão em mutação”, pois, apesar de ser os mesmos valores-notícia consolidados pela cultura profissional, estão sendo percebidos de maneira diferente, desta vez, “condicionados, em boa medida, pelo sistema organizativo das rotinas produtivas pela rede local informatizada conectada à internet”. A autora registrou em especial mutações no conceito de proximidade, tão caro ao rádio, o que pode também ser transposto ao jornal digital: o valor-notícia Proximidade já não faz sentido na internet, um mundo sem fronteiras.
Embora não vejam o jornalismo em meio a um processo de mutação, Ringoot e Utard (2005: 35) reconhecem que as empresas jornalísticas estão em mudança, ocorrendo: 1) uma extensão do domínio além da expertise jornalística, na direção da gestão da informação; 2) uma modulação da missão de informar levando em conta o destinatário; 3) uma coexistência temporal do fluxo de atualidade com a informação de arquivo; e 4) uma fragmentação e uma instabilidade dos públicos. “O terreno empírico de informação local on-line tem sido um revelador concentrado da multidimensionalidade de um movimento generalizado que afeta não somente o jornalismo, mas todas as práticas de mediação, até a produção cultural; não somente os atores, mas as organizações; não somente os produtores, mas os receptores da informação.”
A nosso ver, a mutação, no jornalismo, é um fenômeno que se manifesta de forma súbita tendo por trás todo um desenvolvimento sub-reptício para o qual concorre uma multiplicidade de fatores. O jornalismo não é uma atividade que siga uma linearidade na
história. A notícia, como temos dito, principal produto do jornalismo, é o corpus onde a mutação pode ser melhor observada. Pela própria natureza do produto-notícia, ele acompanha o contexto social, histórico, político e econômico e se submete ademais ao entorno local. Temos, portanto, que a hibridização de gêneros no jornalismo é uma conseqüência de todo o processo e não um fenômeno em si.
Por fim, a noção de mutação se aproxima dos estudos sobre o comportamento de seres vivos complexos em meio a processos de mudança. As espécies vivas evoluem para sobreviver aos ambientes. Assim também a notícia e seus subgêneros. Alguns desaparecem – como o ancestral artigo de fundo –, outros transmutam-se, ou seja, formam novas espécies por meio de outras, e mostram interessante capacidade de sobrevivência, como os folhetins. Muitos ainda estão por surgir, causados por novas mutações: a extinção completa das edições em papel e a unificação das redações.
A notícia que conhecemos continua a ser, na essência, um bem simbólico que nos ajuda a estandardizar o mundo (Motta); se antes, ela era apenas um produto oferecido que, no lado do consumidor, recebia seus conteúdos emocionais e sociais, tem hoje a possibilidade de receber uma influência mais direta. A notícia também continua a ser um modo de transmissão de conhecimento, apesar de perder a lateralidade única e transformar- se num caminho de mão dupla, como queria Barthes. E consegue fazê-lo por meio do hipertexto, ferramenta fundamental para a realização de todos os recursos que a internet proporciona, no momento, à interface jornalística com o leitor.
Algumas das mutações secundárias provocadas pela mutação da notícia podem ser sentidas em nosso dia a dia: como não está estampada num suporte plano, que se possa manusear fisicamente, perde parte da portabilidade – até que seja desenvolvida uma maneira de nos acompanhar em atividades frugais, como olhar as horas (e ler as notícias no relógio de pulso), da mesma maneira que hoje se toma café da manhã com o jornal de papel ao lado. Ela não precisa mais ser comprada na banca da esquina, o que gera conseqüências físicas – caminhamos menos – e sociais: não temos que nos relacionar com ninguém, nem dar “bom dia”, para captarmos “as novas”, o que altera o “ambiente de serviços” (McLuhan).
Pela observação, podemos esboçar alguns padrões por meios dos quais a mutação se verifica. Assim, por analogia à Genética, padrões de mutação na notícia seriam:
- Alteração permanente de um ou mais caracteres hereditários – a notícia deixa de ser lida, para ser apenas assistida;
- Alteração espontânea (surge espontaneamente ou é provocada por agentes) – a notícia nos weblogs, a notícia no “jornalismo participativo”;
- Alteração restrita ou moderada, observável num determinado local – a notícia captada não-diretamente pelos redatores e editores de um site, porém coletada de fontes da própria internet;
- Alteração que constitui uma fase típica na evolução gradual da notícia – a notícia novamente se misturando a opinião, a informação com a diversão, o que pode significar uma tendência;
- Alteração por variação descontínua, isto é, só uma característica muda, e assim a existência do “gene” é detectada – a notícia interligada pelo hipertexto, quando na mídia tradicional essa ligação entre textos era no suporte papel.
De acordo com o padrão e as características da mudança, poderíamos verificar se a mutação é real ou não:
1) mutação verdadeira – é a transformação visível e cabal. Exemplo: aceitação de novos gêneros, como a ciberentrevista e os flashes, com as conseqüentes mudanças na apresentação do produto;
2) falsa mutação – trata-se da mudança de um produto de um campo para outro, sem alterar muitas das características. Exemplo: quando um meio impresso transporta seu conteúdo à internet (Ver Tabela 8).
Entre as mutações verdadeiras, podemos criar algumas categorias ou classes de mutação:
a) mutação social (estabelece-se uma nova relação com o público: a notícia passa a ser buscada na tela do computador; o público participa da elaboração de um produto noticioso enviando relatos);
b) mutação pontual (resultado de uma alteração localizada, por exemplo, na adoção da pirâmide, ou quando se definiu o conceito de valor-notícia, que passa a reger a seleção dos fatos);
c) mutação categórica (ocorre no ambiente das redações, com o novo modus faciendi; é uma mutação na categoria profissional e é categórica enquanto radical).
Como se reconhece uma mutação? Podemos acompanhar uma mutação em processo neste momento que estamos vivendo, de adaptação da notícia ao meio cibernético. Seremos capazes de observar como se modificam as propriedades, a composição, a apresentação e o trabalho necessário para chegar a um produto, além das expectativas na interrelação com o público e os valores envolvidos. O texto jornalístico digital, como gênero específico dos cibermeios, continua a ter a notícia como um pilar importante. Mas todo o contexto foi objeto de uma mutação significativa – com a chegada das tecnologias da informação e da comunicação – que incidiu sobre o discurso periodístico como um todo, tendo nos produtos midiáticos a sua prova mais cabal. Uma mutação verdadeira se deu, por exemplo, quando veículos passaram a ser formatados especialmente para a rede ou mesmo quando sítios baseados na imprensa tradicional criaram produtos específicos para o espaço virtual. Os gêneros jornalísticos não alcançaram o espaço cibernético pura e simplesmente sem alterações. Todos eles – desde a nota comum até a pirâmide invertida – sofreram e sofrem uma mutação verdadeira, vertical, completa e radical.
As transformações internas, não-previstas, como percebemos, atingem não só o gênero textual, como a forma de apresentação nos sites. No passado, a notícia era uma espécie de produto de propriedade exclusiva dos trabalhadores em comunicação, os jornalistas. A Associated Press (2007) comunicou que passará a receber notícias produzidas pelos internautas e a pagar por elas. Proliferam sítios como o ohmynews.com e o nowpublic.com: inaugura-se mais um tipo de jornalismo: o jornalismo participativo, um dos tipos que transforma a antiga relação hierárquica dos newsmakers com a informação. E não só neste ponto o texto da notícia registrou modificações: também na maneira de “ir ao ar”, de apresentar-se ao público, nos sites, em específico. Observaremos melhor esse fenômeno na parte empírica desta pesquisa.