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A leitura é um processo linear e a linearidade, uma seqüência de elementos que obedecem a uma ordem pré-estabelecida. A linearidade faz parte de nossas vidas ocidentais, que têm a linguagem como forma de organização. Na realidade cotidiana, que é um mundo originado na ação dos seres humanos, os “fenômenos acham-se previamente dispostos em padrões” e é a linguagem que fornece a ordem pela qual eles adquirem sentido:

Vivo num lugar que é geograficamente determinado; uso instrumentos, desde os abridores de latas até os automóveis de esporte, que têm sua designação no vocabulário técnico da minha sociedade; vivo dentro de uma teia de relações humanas (...) que também são ordenadas por meio do vocabulário. Desta maneira

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Pedra de roseta - bloco de granito negro com inscrições em três línguas: grego, demótico e hieróglifos egípcios, possibilitou a decifração destes últimos por Jean-François Champollion, em 1822, e Thomas Young, em 1823. In http://pt.wikipedia.org/wili/Pedra_de_Roseta. Acesso em 1 dez 2006.

a linguagem marca as coordenadas de minha vida na sociedade e enche esta vida de objetos dotados de significação. (Berger e Luckmann, 1985: 38-39)

Podemos entender a linearidade quando lemos, por exemplo, um livro ou o jornal diário.O consumidor do veículo impresso compra o produto na banca ou o recebe por assinatura, em casa; percorre rapidamente a primeira página em busca de novidades ou vai direto ao tema que lhe é próximo. Ao folhear o jornal, passando uma página após a outra, capta de uma maneira global grande parte do conteúdo e já procura assuntos determinados ou se deixa seduzir pelas ilustrações e títulos24. Ele pode dispensar aquilo que não lhe interessa imediatamente, deixando partes do jornal pelo caminho, ou guardar trechos do conteúdo, recortando-o. Não só a maneira de percorrer o conteúdo impresso é seqüencial, como o fio do texto só é bem compreendido se lido linha por linha.

Se estou lendo em casa ou no metrô, meu lugar é geograficamente determinado; uso os serviços públicos de transporte ou locomovo-me em meu carro particular – instrumentos que me levarão aonde quero chegar naquele dia; minha teia de relações com as pessoas se desenvolve a partir de um “bom dia” e os objetos que me cercam são, para mim, prenhes de sentido, pois me ajudam no trabalho ou na vida diária. Enfim, a vida parece percorrer uma linearidade entre o meu desejo e as minhas metas, e com as palavras eu consigo organizá-los, comunicando-me com os outros. Embora possa haver percalços e mudanças de rumo, a vida do ser humano nos aparece como traçada em uma linha.

Não podemos compreender o HT se não atentamos para as mutações que a tecnologia digital vem provocando também na forma de ler. Esta nova forma de leitura que está surgindo – “ao acaso, clicante, zapante, seletiva” - é também visual e tabular, “menos dirigida a uma postura meditativa que à exploração de novos territórios”.

Ao se transpor para a tela, a busca de notícias se transforma. Como diz Patiño (apud Jorge, 2006: 63-74) “na internet a leitura se faz por ‘clic’ e raramente o leitor percorre todas as páginas. O internauta lê, no máximo, cinco matérias e não percorre mais de três ou quatro páginas”. Enquanto a leitura do site é picotada e “sedentária”, a do jornal é “lenta, globalizante e nômade”.

Qual será a conseqüência? Para Malraux (apud Vandendorpe, 1999: 235-236), uma modificação das atitudes de leitura conduz necessariamente a uma modificação do imaginário, tal como, na Idade Média, aconteceu com a aparição do livro: “Toda revolução do imaginário, antes de se marcar pela substituição de um gênero por outro, se marca por

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Na França, segundo Patiño (2003), a leitura média de um jornal consome de 25 a 35 minutos. Para ler um site de notícias leva-se quatro vezes menos tempo: de 6 a 9 minutos.

uma mudança de liturgia. Nós descobrimos que podemos rezar sozinhos, que podemos imaginar sozinhos, que podemos escutar um livro como se nós estivéssemos rezando a Nossa Senhora.”

Sobretudo, nos novos mídias, os deslocamentos do leitor não são mais limitados à velha ordem começo-fim, nem pela ordem alfabética, nem por entradas temáticas. Cada palavra é virtualmente o lugar de um nó (elo) que permite o encadeamento com uma nova janela de texto. A curiosidade do leitor que seleciona o texto alcança uma satisfação imediata. (...)

Vandendorpe (1999: 125-126 e 208) lembra que uma tela de computador – com uma superfície limitada, dependente da atividade do usuário, ao fazer um clique no mouse – não oferece ao leitor uma “multidão de colônias de informação” e deve cativá-lo por outros procedimentos: “O HT deverá então elaborar seu design de modo a criar o equivalente tipográfico de uma composição atraente” e precisa adotar o princípio da renovação constante de seu “jogo de sedução, de maneira a reter a atenção do leitor”.

Pode ser um clip sonoro, um vídeo, a aparição de uma imagem, a abertura de uma janela, a modificação de atributos tipográficos de um texto, a mudança de um elemento icônico ou textual, em resumo, todos os procedimentos que retenham a atenção. (...) Quanto mais os ambientes são variados e relacionados ao objeto do HT, mais eles contribuirão para fazer da tela um espaço vivo e interativo, susceptível de fascinar o leitor. É nesta espetacularização do texto que reside a acepção mais revolucionária do computador como uma ‘máquina de ler’. Cada um dos tipos de leitura, no impresso e na tela eletrônica, apela a uma operação cognitiva diferente. No primeiro, percebemos objetos e temos tempo de criar esquemas adequados à sua assimilação; no segundo, nós nos adaptamos a esquemas temporários para apreender objetos novos e, ao fazer isso cotejamos as diferenças com o repertório que conhecemos. O internauta está sempre insatisfeito. O leitor zappeur (Lipovetsky) não espera que a leitura lhe traga conhecimento ou sabedoria. O objetivo é apenas “que seja uma arma contra a chatice e o aborrecimento”.

Nós não lemos hipermídia: nós navegamos ou surfamos nela. Para Vandendorpe, na medida em que se navega, a leitura é “fragmentada, rápida, instrumental e inteiramente orientada à ação. Como um surfista, o cibernauta não faz mais que deslizar sobre a espuma constituída de milhares de fragmentos textuais.” No suporte papel as páginas são “co- presentes”. Na tela, o que se chama de página – mas, na verdade, é a representação gráfica e visual de um espaço de notícias – requer a ação do leitor para aparecer. Quer dizer, a informação não está ao lado. Ele é quem tem que clicar sobre este ou aquele botão – e, em razão disso e de sua ansiedade, cansa-se.

A navegação por meio do mouse tende a suscitar deslocamentos caóticos e extremamente rápidos, pouco favoráveis à leitura. A consulta ao HT é caracterizada sob o signo do imediatismo e da urgência. Excitado pela promessa

de revelação que representa a simples existência de um link, o leitor de hipermídia quer atingir o destino antes mesmo de ter começado a ler. Este modo de leitura está muito distante da leitura meditativa ou intensiva, valorizada no passado. (Vandendorpe, 1999: 226-228)

Durante muitos anos a informática preferiu uma organização hierárquica linear (von Neumann), prova disso são as metáforas do escritório, empregadas no ambiente digital: desk (mesa) e desktop (computador de mesa), documentos, arquivos, fichários, diretórios, bloco de notas e até o formato em árvore, que permanecem até hoje. Embora as tentativas de definir a abrangência do hipertexto, no caso das notícias, levem alguns autores a apresentar uma extensa lista de características – “pluritextualidade” e “multisemiose” (Xavier); “multilinearidade” (van Dam); “hiperlinearidade” (Domingues25); os cinco processos de Castells – “imersão, integração e narratividade”; “convergência, personalização, memória, instantaneidade do acesso e atualização contínua” (Palacios. In: Machado e Palacios, 2003: 13-36); “intertextualidade” (Kristeva, apud Quadros, 2006); “continuidade, integralidade, transtemporalidade, versatilidade e multiplicidade” (Casasús, apud Díaz Noci e Salaverría, 2003: 30) –, as características do hipertexto que demonstram maior homogeneidade conceitual são: hipertextualidade, multimidialidade e interatividade, como descobriram, por exemplo, Salaverría, Díaz Noci, Armañanzas, Deuze e Santaella.

Palacios (In: Machado e Palacios, 2003: 17-20) compreende a convergência “dos formatos das mídias tradicionais (imagem, texto e som) na narração do fato jornalístico”, quando transplantada para o on-line, como multimidialidade e explica que ela é possibilitada pela digitalização da informação. A propósito da digitalização, Martín Barbero (2006: 52-53) a define como uma “aposta numa linguagem comum de dados, textos, sons, imagens, vídeos”, o que, segundo esse autor, demoliria “a hegemonia racionalista do dualismo que até agora opunha o inteligível ao sensível e ao emocional, a razão à imaginação, a ciência à arte, a cultura à técnica, o livro aos meios visuais”. Porém, é preciso desmistificar a convergência, “vendida como a grande revolução do jornalismo mundial” (Quadros e Larangeira, 2007) no início dos anos 2000. Avilés (2006) descarta: a) que a simples união dos meios seja convergência; b) que a convergência melhore a qualidade do produto; c) que aperfeiçoe a cooperação para economizar recursos; d) que facilite o trabalho dos jornalistas.

25 Diana Domingues sugere que “trabalhar com hiperlinearidade é trabalhar com hiperconectividade,

hipercórtex” – hipercaminhos de leitura em ambiente sistêmico, caracteristicos de uma rede neural. A autora acha que a internet reforça o pensamento associativo, hipermediado, hiperlincado. In Quadros, C. I.; Santos, M. S., 2006: 46.

As redações de vários veículos de um grupo se fundem para enxugar custos na empresa jornalística e evitar superposição de tarefas e papéis. O processo, que já foi empreendido por empresas brasileiras – como O Estado de S. Paulo e está sendo pensado também n’O Globo –, ao menos nos primeiros tempos não se faz sem demissão de uns e sobrecarga de trabalho para outros. E pode gerar também queda na qualidade do produto. Entretanto, não vemos a convergência como mera multimidialidade. A multimídia é o sistema conjugado de mídias. A convergência seria o modo de integrar esse sistema, ou como todo o sistema converge (texto, som, imagem, veículos e meios de produção), mantendo a independência em prol de um todo de informação.

1.3 Hipertextualidade: como fazer laços

Hipertextualidade é a característica que dá nome ao hipertexto. Torres e Amérigo (In: Díaz Noci e Salaverría, 2003: 75) destacam a natureza dos vínculos criados entre os hipertextos – os hipervínculos, hiperlinks ou simplesmente links, laços ou enlaces. Portanto, hipertextualidade se refere à capacidade de os textos se unirem em vínculos e serem recuperados a um clique do mouse ou comando do teclado. A hipertextualidade não é exclusiva das páginas digitais: é utilizada também nos CD-Roms. Os mesmos autores observam que, em contraste, a narrativa jornalística tradicional, na escrita e nos meios audiovisuais, segue um plano linear e absoluto, com leitura e escrita seqüenciais: começa e acaba diante do público, ou seja, tem princípio-meio-fim. Segundo os princípios de Aristóteles (2004: 51), “um argumento (...) bem construído não deve começar ou terminar em um ponto tomado ao acaso”, mas é completo quando tem um começo, um meio e um fim. O princípio é algo que não vem como conseqüência de nada e logo depois acontece outra coisa naturalmente; o meio acontece depois de outra coisa; outra coisa se segue a ele; e o fim é conseqüência de outro fato; depois dele nada se segue.

Janet H. Murray (1999: 49, 151), como Landow, preocupa-se com a reconfiguração da narrativa no meio digital e aponta os quatro princípios em Aristóteles que o HT questiona: a) seqüencialidade; b) existência de um único princípio e um único final da narração; c) magnitude da história, onde os limites transbordam as previsões do autor e passam às mãos do leitor; e d) noção de unidade da obra. Em suma: a ruptura da linearidade requer um novo posicionamento das técnicas de construção do discurso vigentes no mundo ocidental, justamente aquelas que Aristóteles codificou, na Retórica e

na Poética, quando afirmou que um discurso coerente e eficaz pressupõe “uma seqüência, provável ou necessária, de acontecimentos”26.

Como dizíamos, o HT contesta toda essa estrutura milenar: ele rompe com a seqüencialidade pré-estabelecida, deixando em aberto o final da narração. Mesmo que exista uma porta de entrada – ou seja, um lugar onde a história começa – o leitor pode ignorá-la e, empregando mecanismos de busca, chegar ao conteúdo por um dos links intermediários. O tecido da narrativa está mais nas mãos das moiras-usuários: são eles que traçam o fio e acompanham os laços que vão formar a tessitura, a corrente infinita, sem esquecer que, com poder discricionário, eles decidem de repente se desconectar, para decompor o conjunto e reconstruí-lo adiante de outra forma.

A hipertextualidade é possibilitada por códigos que etiquetam cada conteúdo, permitindo que eles formem o metatexto onírico, apenas existente na imaginação, e que nunca será totalmente reunido. No caso do jornalismo, a hipertextualidade atua como a faculdade de cada texto ser complementado por outros, formando uma teia cognitiva a que o leitor é estimulado a partir de algumas palavras-chave marcadas no interior do próprio conteúdo ou externamente a ele, por meio de outras palavras ou frases. Cada uma delas pode ser o lugar de um nó virtual que permite o entrelaçamento com uma nova janela de texto. A curiosidade do leitor que seleciona o texto alcança uma satisfação imediata. Convencionou-se que o lugar do HT é assinalado por uma frase ou termo sublinhado, indicando que ali há um link para outro texto, gráfico, peça em vídeo ou áudio. Esses últimos também podem ser apontados por ícones, que constituem outro elemento da hipertextualidade. Apenas para exemplificar – pois a iconografia digital constitui um assunto à parte, que merece análise mais acurada – apontamos os mais comuns: um ícone em forma de máquina fotográfica mostra a existência de um vínculo para fotos; a pequena imagem de uma televisão ou de uma câmera de vídeo leva a um arquivo de imagens, enquanto o desenho de um alto-falante conduz a um hipertexto sonoro.

É a hipertextualidade que muda ou substitui a configuração atual dos suportes da escrita, lá onde as finalidades (leitura, consulta, difusão de informações) se harmonizam com as especificidades do HT: notícias e informações, enciclopédias, catálogos. Ao mesmo tempo, o uso do hipertexto oferece uma expansão sem precedentes à forma do fragmento – entre essas formas encontra-se a escrita jornalística, que é por si só fragmentada, ou feita de pedaços de informação –, como também às obras com verbetes e muitas referências

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Ver também: Díaz Noci e Salaverría. Hipertexto jornalístico: teoria e modelos. In Díaz Noci e Salaverría Aliaga, 2003: 101.

(Vandendorpe, 1999: 233). Uma tendência que vem se afirmando é a de aplicar as contribuições particulares das teorias do HT às formas narrativas e às práticas do jornalismo, beneficiando-se da interação dos leitores de notícias com os hipertextos. “O jornalismo não necessita abandonar as formas tradicionais de apresentação narrativa (...), mas essas formas devem aumentar com um maior leque de itinerários que respondam aos modos que o leitor outorga sentido à informação”, prevêem Díaz Noci e Salaverría (2003: 32-33). O objetivo e o grande desafio está em “acoplar os modos de apresentar a informação” ao modo como nós pensamos, ou seja, às nossas estruturas mentais.