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Finalizando este estudo, cujo objetivo foi compreender o que as pessoas presumem ser necessário para manter um relacionamento conjugal/amoroso satisfatório nos dias atuais por meio dos relatos expostos nas comunidades da rede social Orkut, atingimos o consenso que uma relação conjugal/amorosa satisfatória é complexa e multideterminada.

Ressaltamos que o método escolhido para este estudo foi de extrema importância, pois contribuiu não apenas para a investigação da satisfação conjugal, como também para abordarmos o tema da solidão do indivíduo contemporâneo, carente de parâmetros externos que avaliem e legitimem seus próprios sentimentos e a criação desses ambientes de encontros coletivos veio subverter todos os parâmetros vigentes de comunicação à distância, dando lugar a uma época em que contatos interpessoais ocorrem virtualmente, possibilitando desta feita que estranhos se sintam tão próximos e com afinidades a ponto de estabelecerem relações virtuais com sentimento de pertencimento.

Sob esta perspectiva, optamos por realizar a pesquisa empírica na internet, de maneira assíncrona – off-line – ou seja, a comunicação mediada pelo computador possibilitou-nos transpor barreiras físicas e sociais, a fim de encontrarmos pessoas que dão vida às comunidades virtuais e que expressam suas opiniões acerca de assuntos polêmicos, sem medo de rejeição, confrontos ou julgamentos.

Entretanto, percebemos que essas pessoas encontram dificuldades de expressarem tais sentimentos na vida presencial, mesmo que seja para seus parceiros, conforme podemos constatar no relato de Luciana “O que eu mais

estou sentindo falta é isso, um lugar para desabafar sobre o que faltou, o que aconteceu que não deu certo. Então, resolvi abrir este tópico, para que possamos colocar para fora”!

Observamos que os participantes das comunidades virtuais pesquisadas partilharam intimidade, significados, regras e normas próprias e reiteramos que os relatos escolhidos conforme critérios preestabelecidos dependeram em

grande parte da habilidade dos usuários no uso de linguagem escrita apropriada de expressarem suas experiências e emoções na rede virtual.

Desta forma, pudemos ter acesso ao que as pessoas estão dizendo a respeito da satisfação conjugal de uma maneira espontânea, sem questionários, escalas, tabelas ou entrevistas e estas ferramentas são utilizadas frequentemente em pesquisas desta natureza.]

A análise do conteúdo dos nossos relatos, realizada de forma qualitativa, possibilitou-nos comparar resultados com outros estudos realizados de maneira quantitativa e qualitativa de outros pesquisadores, descritos no capítulo anterior desta dissertação.

O destaque nos nossos resultados é o componente amor, percebido como não sendo mais suficiente para a sustentação da satisfação conjugal, uma vez que no início aquilo que é percebido como fonte de satisfação, se não houver ajustes e adaptabilidade frente às variáveis internas e externas no decorrer da relação, pode-se tornar fonte de frustação e insatisfação.

Nos nossos relatos, o componente que mais se destaca como base para o desenvolvimento da intimidade e da satisfação na relação conjugal/amorosa é a cumplicidade, construída no dia a dia, no cotidiano do casal, com o respeito e apoio mútuo. Os casais, enquanto cúmplices sentem-se protegidos e ao mesmo tempo fortalecidos no enfrentamento de crises.

Foi deveras interessante encontrar o componente diálogo/comunicação como o mais ausente nos relatos que discutiam “o que faltou para dar certo?”, contribuindo para o rompimento nessas relações. Percebemos que o convívio com as diferenças e a maneira como são percebidas implica em um constante processo de reflexão (valorização e respeito com as próprias individualidades) e negociação por meio da abertura de um canal dialógico, propiciando a comunicação emocional e a intimidade entre os envolvidos.

Nos nossos resultados, as demandas dos relacionamentos conjugais/amorosos contemporâneos apontam para uma relação democrática, com equidade de gênero, na qual os relacionamentos puros são privilegiados,

o respeito à própria individualidade e a do outro precisam ser valorizados a fim de consolidar o compromisso conjugal.

O trabalho conjugal demanda comprometimento, dedicação, constância e paciência. Não obstante, as crenças e expectativas que são trazidas para as relações são confrontadas o tempo todo, à medida que a satisfação almejada se dará em torno do processo da construção da relação em função de dados do cotidiano e das habilidades interpessoais e sociais e não das crenças. Villa (2005) já havia indicado em seu estudo a relação genérica entre habilidades sociais e interpessoais com maior satisfação conjugal.

Corroborando o estudo de Norgren, Souza, Kaslow et al (2004), os resultados encontrados neste estudo nos possibilitaram constatar que mais do que a escolha acertada do(a) parceiro(a), o comprometimento com a construção da relação conjugal/amorosa se faz necessário. Estamos falando do amor confluente que, de acordo com Giddens (1993), é incerto e se consolida à medida em que se afasta da “pessoa especial” e se aproxima do “relacionamento especial”.

Neste contexto aparece o reconhecimento da efemeridade das relações conjugais/amorosas contemporâneas. O que as manterá será a obtenção, por parte de cada um dos parceiros, de benefícios suficientes que justifiquem a sua continuidade. De acordo com Costa (1999), o recurso favorável para manter e alimentar o casal é a reciprocidade, pois, do contrário, viver-se-á a solidão a dois, o que se configura fatal para a relação.

Diante do exposto, frente a um cenário multifacetado repleto de incertezas, esperamos ter contribuído para que os psicólogos possam aprofundar seus conhecimentos, principalmente para o atendimento clínico com casais e o desenvolvimento de práticas de promoção de saúde, indicando como a comunicação mediada por computadores e os espaços criados e desenvolvidos por ela a cada dia podem se tornar não só contexto de nossas pesquisas, mas, principalmente, o lócus de novas práticas que respondam às necessidades dos indivíduos, favorecendo sua autonomia e seu protagonismo.

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ANEXO I

RELATOS

Para efeito de apresentação, os nomes dos internautas foram substituídos, tudo o mais permanece inalterado.

Palavras chaves: Relação amorosa/ conjugal satisfatória.

Aparecem 1000 comunidades, seguindo o critério de exclusão, seguem os 14 relatos.

Para a classificação dos componentes de satisfação, foram selecionados no máximo 05 descritores.

Título da Comunidade: Pessoas.

Categoria: Mulheres e Homens com conteúdo. Número de membros: 2.098

Pergunta disparadora: O que mantêm uma relação a dois, satisfatória? Helena - Mulher Madura- 09/12/06.

Em uma relação de sentimentos entre duas pessoas que se querem e se amam, o que vocês acham que mantém a relação satisfatória, boa, harmônica, alegre e amorosa?? quais itens vocês colocam em uma linha de pensamento?? para que ela seja, quem sabe, vivenciada por anos..ou por meses ou por dias apenas.?

1- Lara - casada - 36 anos -09/12/09.

Componentes: Maturidade, respeito mútuo, segurança econômica, satisfação sexual mútua e amor.

O que mantêm uma relação a dois, satisfatória?

São muitos os fatores. Maturidade é essencial aos amantes. Depois vem respeito mutuo, equilíbrio emocional de ambas as partes, tesão (manter sempre a chama acesa), sentimento verdadeiro (existem muitos

relacionamentos que são mantidos por medo de ficar só, acomodação, etc.), independência financeira e emocional (Estar com o outro, não por uma necessidade, mais sim porque quer estar), Admiração ( O brilho no olho, quando um fala ou relata algo referente ao outro).

Fico triste quando vejo nos casais todas essas virtudes num inicio do

relacionamento e com 2, 3 anos vejo esse mesmo casal não terem mais essa sintonia, não vibrarem mais na mesma freqüência. Aí me pergunto; Onde eles falharam? No convívio? Na administração dos problemas?

2- Kadu: casado - 46 anos - 10/12/06.

Componentes: Compreensão, respeito mútuo, cumplicidade, amor e segurança econômica.

Algumas palavrinhas, apenas! Nada de linha de raciocínio! (não me atrevo a tanto),

1- Acho que relacionamento só pode ser considerado com alguns ANOS. Meses e dias é um CASO...

2- Relação satisfatória, boa, harmônica, alegre e amorosa é uma UTOPIA. Existem brigas, discussões, desentendimentos, choque de personalidades e outros espinhos. Mas uma rosa TEM espinhos também e não é por isso que a gente não aprecia seu perfume.

3) Penso que o CIÚME é o mais daninho dos sentimentos que destrói uma relação.

4) Eu vejo um casal (numa relação) como duas pessoas, abraçadas, em pé sobre um poste muito alto num dia de ventania: se não houver cumplicidade ambos se machucam.

5) É preciso compreensão, estar presente sempre que for preciso, mas sem sufocar.

6) Respeitar o espaço do(a) companheiro(a) é fundamental.

7) Felicidade não existe! Este sentimento é um conjunto de pequenas coisas que se mantêm ao longo dos anos. Aqueles momentos bons, inesquecíveis. Nada de grande! Pode ser um bilhetinho deixado no espelho do banheiro. Pouca coisa, mas que deixa marcas.

8) E o amor? Existe? SIM! Claro que existe! É quando a gente acorda de

manhã e acha aquele cabelo desarrumado e o rosto cheio de marcas da fronha do travesseiro uma visão maravilhosa.

9) Para completar, uma frase do Woody Allen:

"Dinheiro não traz felicidade, mas propicia uma sensação surpreendentemente tão parecida que é necessário um especialista para distinguir a diferença"

3- Maitê: casada - 47 anos - 10/12/06.

Componentes: Confiança, bom humor, amor, flexibilidade e empatia. Confiança, bom humor, criatividade, iniciativa, capacidade para se colocar no lugar do outro, flexibilidade, coragem e espírito de equipe. E muito AMOR, pois ele é a base de tudo.

Componentes: Respeitar a independência do outro, consenso e Amor O amor como diz Maitê tem que estar presente. E tudo flui.

Hoje em dia esta complicado, mas fiz o tópico porque os parâmetros de vivencia estão diferentes, os valores tb.

Nas palavras ficam bem..mas no convívio ou em um novo relacionamento não sei..São duas pessoas diferentes com histórias diferentes..

Mas o básico é não sufocar, esta linha é meu lema..rs.e o amor a base..e vamos tocando pra frente...

Título da Comunidade: Romances e relacionamentos Categoria: Mito do amor romântico

Número de Membros: 6.124

Pergunta Disparadora: Por Que Casar?

5- Antônio: 32 anos - 09/03/08.

Componentes: Relacionamento igualitário, valores compartilhados e divisão de tarefas.

Já fui casado e quero casar de novo.

Casamento não é só um ser burro de carga e o outro domestica, alias isso é passado, as coisas são compartilhadas, um lava os pratos o outro as roupas um faz a comida o outro varre a sala etc, essa historia de que a mulher tem que cuidar da casa e o homem trabalhar fora é antiga e sem graça.

Então por que casar? O motivo é simples, compartilhar a sua vida com alguém e formar uma família. Isso é uma grande felicidade, você ter alguém que

trabalhe e lute junto pela vida e com isso gere frutos.

Sinceramente, minha vida de casado era mais fácil e melhor que a de solteiro. Espero logo me casar novamente.

6- Isadora: 26 anos - 13/05/08.

Componentes: Relacionamento igualitário, valores compartilhados e divisão de tarefas.

Tenho 26 anos e já casei duas vezes. Gosto de compartilhar a vida, ter com quem conversar no final do dia. Não tive uma família legal e não falo com eles, logo sou carente e dependente emocionalmente de meus amigos e amores. Não acho isso o fim do mundo, mas concordo que quando se casa a gente tem

certa tendência a não se cuidar tanto, pensar em dois ao invés de pensar só em si. Acredito que o casamento falido é o do modelo antigo: homem hétero, porco chauvinista, provedor, proprietário, infiel e mulher Amélia. Mas existem N variações desse tipo. O de morar em casas separadas, o relacionamento aberto, da divisão de tarefas e contas da casa. Doentio é viver ilusões, projeções do nosso inconsciente achando que tal pessoa te completa, e etc. Mas se relacionar é saudável. Seja de que forma for. Atualmente não estou casada e não penso em casar de novo tão cedo. Mas não descarto a possibilidade se aparecer alguém legal. "Tenho fases como a lua..."

Título da Comunidade: Outros

Categoria: Homens – sexo e Mulheres – amor. Número de Membros: 382

Pergunta disparadora: Fantasias românticas impedem realizações?

7 - Júlia: 57 anos - 22/04/06

Componentes: Cumplicidade, expressão de afeto, respeito mútuo, compartilhar valores e evitar repetição e tédio.

Estou casada faz bastante tempo (33 anos), gosto de me manter casada, gosto de rotina, acordar junto, dormir junto, passar sábados domingos, feriados, férias juntos, dividir problemas, buscar alternativas, enfim os problemas do dia a dia, o romantismo não pinta sempre, não vivemos mais o amor de Romeu e Julieta, mas ficaram muitas coisas boas, cumplicidade, carinho, respeito, se sinto falta do romantismo dos vinte anos? É lógico que sim (todas as mulheres,