7. FUNDAMENTAL VERDSETTELSE
7.1 V ALG AV FUNDAMENTAL VERDSETTELSESMODELL
A convicção de que tudo o que acontece no mundo deve ser compreensível, pode levar-nos a interpretar a História por meio de lugares-comuns. Compreender não significa negar nos fatos o chocante, eliminar deles o inaudito, ou, ao explicar fenômenos, utilizar de analogias e generalidades que diminuam o impacto da realidade e o choque da experiência. Significa, antes de mais nada, examinar e suportar conscientemente o fardo que o nosso século colocou sobre nós — sem negar sua existência, sem vergar humildemente ao seu peso. Compreender significa, em suma, encarar a realidade sem preconceitos e com atenção, e resistir a ela— qualquer que seja. (ARENDT, 1979, p. 10)
O relatório49 de Trocourt sobre a Escola Alemã na Riograndense é importante fonte de registro para se conhecer os alicerces e as praticas educativas dessa escola. Uma das possibilidades que o documento apresenta é a ligação da Escola Alemã, da comunidade ou do professor João Trocourt o nazismo.
Esse relatório indica subvenções ao NSDAP e a grande admiração do professor pelo “Führer”, Hitler. Canções alemãs de cunho nacionalista e o hino da Alemanha eram frequentes durantes as aulas do professor, porém não se sabe se essas canções faziam parte dos hinos da Juventude Hitlerista da Alemanha. (SILVA, 2006, p. 26)
Escrito em 1936, o relatório traz um breve histórico sobre a formação da Colônia, a criação da escola, as visitas importantes que a colônia recebia (como a do Cônsul Geral Dr. Speiser), o número de alunos e as práticas escolares e culturais que faziam parte do seu entorno. Devo ressaltar que a sigla NSDAP50 e a palavra Führer são citadas neste documento, dado que há um relato das atividades do partido que são desenvolvidas no local, nos levando a
49Este documento se encontra conforme o original em anexo.
acreditar na possibilidade de existido mesmo um vínculo ao nazismo. “Die erste Veranstalung die wir machten, war die Feier des 1. Mai; zusammen mit dem Stuetzpuenkt der NSDAP. Eine einfache, aber eindrucksvolle Feier.”51(TROUCOURT, 1937)
Mais adiante, o professor continua: “Radioabende” liessen uns vieles von Deutschland miterleben. So die Olympischen Spiele, den Parteitag, die grossen Reden des Führers usw.”52
Figura 40: Visita do Cônsul Geral Dr. Speiser à Colônia Riograndense, 1938.
É evidente que a referência ao partido nazista, não existia somente na escola da Colônia Riograndense, mas também em outras escolas alemãs espalhadas pelo Estado de São Paulo ou pelo Brasil, de acordo com as considerações de Dietrich:
Os professores iniciavam a aula com o Heil Hitler e em seus uniformes era visível a suástica nazista. Os alunos se reuniam em movimentos como 'Juventude Hitlerista' e cantavam os mesmos hinos da Juventude Hitlerista da Alemanha. (DIETRICH, 2001).
As repercussões da Segunda Guerra também chegaram à Colônia Riograndense. Nas colônias localizadas na zona rural este processo se deu mais lentamente, mas não com menor importância. A Colônia Riograndense, nesse período, já era considerada uma das maiores produtoras de alfafa do Brasil, e seu produto era vendido para alimentar a cavalaria do Governo paulista. Dessa forma, a colônia chamava a atenção por seu auge econômico e
51 A primeira comemoração que fizemos foi a festa do 1º de maio, juntamente com o Grupo de Apoio ao NSDAP. Uma festa simples, mas impressionante. (FÉLIX, 2000, p. 70)
52Transmissões de rádio permitiram-nos saber muita coisa da Alemanha: os Jogos Olímpicos, o Dia do Partido, o grande discurso do “Führer”, etc. (FÉLIX, 2000, p.71)
mesmo por apresentar e cultivar práticas culturais, educacionais e linguísticas diversas da região. Dessa forma, a colônia tinha grande representação social no contexto em que estava inserida, por isso, não passava despercebida aos olhos da sociedade.
Com os desdobramentos da 2ª Guerra Mundial, tendo o Brasil se posicionado contra a Alemanha, esses alemães que ora foram convidados a se instalarem no Brasil, começaram a ser associados ao nazismo e a pessoa de Hitler, embora nem todos fossem simpatizantes ou fizessem parte do partido nazista. A partir disso, de convidados que foram através das várias propagandas que se fazia na Alemanha acerca do Brasil, e no caso, dos lotes de terra da Colônia Riograndense, os alemães passam a ser considerados como pessoas não-gratas, não quistas pela sociedade brasileira, pessoas perigosas, parceiras de Hitler.
De acordo com as reminiscências dos entrevistados, o período da Segunda Guerra Mundial foi uma época bastante conturbada na Colônia Riograndense, pois a polícia invadia as casas dos colonos que julgavam suspeitos e realizava a apreensão de objetos considerados "armas brancas" no contexto da guerra, como máquinas fotográficas, rádios comuns e rádios transmissores da comunidade. Livros, objetos e cartas pessoais, revistas, entre outros também eram queimados e confiscados pela polícia. O que sobrou de material escrito foi o que os alemães conseguiram esconder, como relata Hoffmann:
A polícia veio procurar principalmente livros, eles achavam que os alemães tinham livros de propaganda de Guerra, mas que eu saiba não tinha nada disso. Inclusive meu avô, Heinrich Wrede, pai da minha mãe, era pastor, e até ele não gostava muito de Hitler porque ele perseguia os pastores, os padres, mandava tirar a Cruz das Igrejas, ele não gostava de Hitler. Ele tinha muitos livros, mas tudo livros religiosos, sacros, nada de política. Inclusive, tem um monte ai. Mas a policia não sabia ler em alemão. Então tivemos que esconder muitos livros. (...). Eu sei que certa pilha de livros foi escondida dentro do banheiro de fora, e não é que eles foram procurar lá, mas por sorte, tinha um enxame de abelha lá dentro e eles não entraram, porque as abelhas vieram na porta. (HOFFMANN, 2005)
Oliveira, ex-aluno da Escola Alemã da Colônia Riograndense, em seu relato, comenta a experiência que vivenciou como brasileiro e falante da língua alemã.
Foram na colônia, tomaram as coisas, revistas lindas, que nada tinha ver com a guerra, nem com nada... Eles levavam embora livros, estatuetas, tomavam tudo. Foi uma rapinagem. E eu fui nomeado tradutor, o que me marcou demais.
Em casa nós fizemos uma reunião pra ver como é que eu ia fazer, que atitude devia tomar. Eu não queria fazer aquilo. (OLIVEIRA, 2009)
Mais adiante, Oliveira retrata uma situação em que foi obrigado, como intérprete, a adentrar a casa de pessoas que haviam convivido com ele na Colônia, juntamente com a polícia:
Tinha a família desse alemão que me levou para Assis quando eu quebrei o braço, o nome dele era Alberto Scher (sic) e era amicíssimo do meu padrasto. Era um líder entre os alemães, uma criatura boníssima, fora de série.
Um dia esse fdp desse Horácio Lobo vai com a polícia lá em casa, me pega e me leva na casa dele. Ele tinha um livro de poesias alemãs, ele pegou o livro e levou. O Alberto não estava em casa. Estavam os pais dele, velhinhos, e eles diziam pra mim: - Mas Waldemar, é poesia, de 50, 100 anos atrás. Porque fazer isso?
- Frau Scher, o que é que a Sra. quer que eu faça? Não sou eu não, são eles! - Eu sei, eu sei....
- A guerra marcou por essas coisas. Coisas pessoais, particulares. (OLIVEIRA, 2009)
As repercussões da Segunda Guerra na Colônia Riograndense trouxeram uma conotação negativa a seus moradores. A ligação com o partido Nazista fica identificada a partir do relato do Professor João Trocourt, que de certa forma era como o líder do partido na colônia, já que era o responsável por receber e repassar recursos a escola, clubes e associações. Não se pode afirmar quantos integrantes faziam parte da organização de simpatizantes do NSDAP, e nem mesmo quem eram, além do Professor Trocourt. A disciplina era rígida, quem não a seguisse era castigado, como recorda Hoffmann (2005) ao se indagado sobre a existência de castigos: “tinha sim, eu vi, ele batia em alguns alunos. Mas era uma disciplina, para entrar ele ficava na porta, e cada qual dava a mão, e para ir embora a mesma coisa. Dentro da classe não se ouvia uma borracha cair, era silencia absoluto.”
De acordo com o relatório de Troucort, festas escolares eram feitas com a ajuda do Grupo de apoio ao NSDAP, e o Hino da Alemanha era entoado sempre. As transmissões de rádios diretas da Alemanha eram ouvidas atentamente por seus conterrâneos no Brasil. Dessa forma, de mansinho, os ensinamentos do partido iam se incutindo nos alunos.
Com a presença da policia constantemente invadindo casas, sem distinção, e queimando todo tipo de material impresso, o Grupo de apoio ao NSDAP foi perdendo seus adeptos e seu espaço na Colônia Riograndense.
Diante do exposto nesse capítulo, pode-se afirmar que a escola era o lugar legítimo de acesso à cultura e à língua. O seu fim acarretou perdas irreparáveis naquela colônia, como o desuso da língua alemã pelos descendentes e a ruptura de um projeto maior da comunidade: de valorização da cultura e língua alemã e promoção efetiva da cidadania. Fato este, que Rosa Ludwig ressalta também em sua fala: “os filhos vão crescendo, vão esquecendo a língua dos antepassados, e acabam sendo descendentes, que carregam o nome dos pais ou avós, que um dia vieram da Alemanha, mas que não falam mais o alemão.” (LUDWIG, 2005)
O alemão, portanto, representava, além da língua da comunicação corrente, o veiculo transmissor por excelência dos valores e da tradição cultural. Significava, por isso, a condição sem a qual a identidade teuto-brasileira, com muita rapidez, teria desaparecido do cenário colonial. (RAMBO, 1996, p. 178)
Dessa forma, com o fim da Escola devido a Nacionalização do Ensino e mesmo com as repercussões da Segunda Guerra Mundial no cotidiano da Colônia Riograndense, com as severas proibições quanto ao uso da língua alemã nas diversas esferas sociais e culturais, o idioma, transmissor dos valores e da tradição alemã, foi aos poucos deixando de fazer parte do contexto da colônia.
O convívio escolar com os filhos dos brasileiros, com a língua portuguesa e com os hábitos do Brasil, permitiu que a geração dos filhos dos imigrantes optasse pelo uso do português, uma vez que era dessa forma que eram compreendidos pela sociedade, pelos amigos, na escola, enfim em suas relações sociais.
O casamento com pessoas de fora da Colônia Riograndense e que não tinham ligação com os alemães, forçou, ainda mais, a integração. Pais que sabem alemão dialetado e não foram alfabetizados em alemão, não conseguiram repassar sua formação aos filhos. Filhos alfabetizados em língua portuguesa tendem a rejeitar a falta de escolaridade dos pais, e consequentemente o dialeto alemão falado por eles.
Assim, a língua alemã acabou perdendo força, facilitando o processo de aculturação ocorrido anos mais tarde na colônia.