6. FREMTIDSREGNSKAP
6.2 B UDSJETTERING FREM TIL STEADY STATE
No início da República, nas primeiras décadas do século XX, o Brasil inicia uma campanha de políticas e ações voltadas para a configuração de um projeto nacionalizador, que buscava incutir na sociedade ideias e valores de uma homogeneização necessária para que o país se modernizasse.
Bezerra aponta que o ensino de alemão no Estado de São Paulo era acompanhado de perto tanto pelos inspetores escolares estaduais, quanto por representantes do governo alemão, e salienta os decretos e leis que passaram a ser regulamentados para esse fim. Entre eles estão a “Lei 1950, de 8 de dezembro de 1920, que alterou a idade mínima para ingresso na escola para nove anos, e a obrigatoriedade do ensino da língua nacional, especialmente nos estabelecimentos particulares.” Ainda, o Decreto nº 3356, de 31 de maio de 1921, que regulamentou a Lei nº 1750, de 8 de dezembro de 1920 – Reforma da Instrução Pública – através da qual se proibia as aulas para crianças menores em outra língua que não fosse o português. Em 1925 a lei nº 2095, de 24 de dezembro, define que só os brasileiros natos ou os portugueses natos poderiam lecionar as disciplinas de português, história e geografia, - consideradas disciplinas básicas para a divulgação do ideário nacionalista. (BEZERRA, 2007, p. 94- 96).
Assim, com a Campanha de Nacionalização compulsória do governo, começa a haver uma indagação: como poderia ser brasileiro quem não falasse o português? As escolas passam a ser vistas, nesse contexto, como locais ideais para que se formassem desde a infância e juventude, cidadãos patriotas. Deste modo, as escolas étnicas passaram a ser consideradas como espaços que não atendiam à implementação de políticas e práticas pedagógicas consonantes com a campanha de nacionalização.
Esta polêmica coincide com acontecimentos que precedem a segunda Grande Guerra. Sendo estes dois fatos determinantes para a proibição de escolas em línguas estrangeiras, tornando obrigatório o uso do idioma nacional.
Félix menciona umas das principais reformas de Capanema, que foi o decreto 406, com medidas nacionalizadoras a todas as escolas de língua estrangeira no país.
Uma das principais reformas no Estado Novo foi a do Ministro da Educação e Saúde Gustavo Capanema que empreendeu dura ação repressiva contra as escolas mantidas pelas colônias alemãs no sul do país. A nacionalização do ensino começou em 1938 com o Decreto 406 determinando, entre outras coisas, que o material didático fosse em português, que os dirigentes escolares fossem brasileiros natos e que o ensino de
língua estrangeira fosse proibido para menores de 14 anos. Seguem outros decretos federais, estaduais e municipais reorganizando ou criando novas escolas nas áreas de colonização, nomeando professores, proibindo a importação de material didático e o emprego da língua alemã em público, etc. o projeto de nacionalização empreendido pelo Estado Novo consegue fechar mais de duas mil escolas, sobretudo depois de 1942, quando o Brasil rompeu relações com a Alemanha. Do comércio de compensação com a Alemanha aos ataques nacionalistas contra um “perigo alemão”, a era Vargas marca o auge da história da Imigração e da Colonização Alemã no Brasil.(FÉLIX, 2004, p. 44)
Para inserir uma doutrina patriótica ao processo de educação, mais tarde Vargas usou de vários instrumentos criados através de uma série de decretos, dirigidos ao combate das influências estrangeiras em todas as escolas. As escolas comunitárias e particulares foram as primeiras a receberem as medidas adotadas. A língua estrangeira era associada ao problema da propaganda nazista e fascista. Diante desta nova realidade, com a Campanha de Nacionalização do Governo Vargas, os colonos alemães presenciaram a paralisação do trabalho educacional que cultivaram durante anos.
Para colocar o seu projeto em prática, o governo buscou construir e manter escolas em área de colonização estrangeira45, estimular o patriotismo por parte dos estudantes, fiscalizar o ensino de línguas estrangeiras e proibir expressamente que se fizesse o uso de língua estrangeira em assembleias e reuniões públicas, e ainda que alguma escola fosse dirigida por um estrangeiro. Enfim, as escolas alemãs caminham para seu desaparecimento.
Na Colônia Riograndense, a escola permaneceu até 1938, ficando em seu lugar escolas rurais públicas, com o ensino obrigatório da Língua Portuguesa. Oberacker ressalta que os descendentes de alemães haviam construídos três escolas, duas em São José das Laranjeiras e uma na Colônia Riograndense, e no inicio da nacionalização (1937/38) essas escolas foram temporariamente fechadas. Uma das escolas da cidade (Laranjeiras) tornou-se escola pública e a da colônia ficou inutilizada, sendo que as crianças da Colônia Riograndense passaram a estudar na escola do Bairro Castelo Branco, onde residiam os alemães russos.
Der Staat hat bis heute seinen dortigen staatsbürgern trotz wiederholter Bitte keinen Lehrer gestellt. Sonnst besteht u. W. nur noch in der ruβlanddeutshen Siedlung Castelo Branco eine Schule, die wohl auch von Kindern der Deutschriograndenser besucht wird. (OBERACKER, 1965, p. 397)46
45
Decreto nº 1.545, de 15 de agosto de 1939. Instrui os Secretários Estaduais de Educação para a construção de escolas públicas nas áreas de colonização estrangeira. Determina o estímulo do patriotismo. In: Lex-Coletânea de Legislação. São Paulo: Lex, 1939.
46O Estado não designou até hoje aos seus concidadãos de lá nenhum professor, apesar dos insistentes pedidos. Fora isso e segundo nosso conhecimento, só sobra uma escola na colônia dos alemães russos no Castelo Branco e está sendo frequentada pelas crianças da Riograndense. (FELIX, 2000, p. 48)
Wrede comenta as dificuldades encontradas pelas crianças durante o processo de mudança do idioma alemão para português nas escolas:
Foi muito difícil para quem estudou naquele tempo. Para o professor João Trocourt, que veio do Rio Grande do Sul, que falava muito bem o português, não foi difícil, mas para as crianças foi muito difícil (...). Ai acabou a escola alemã e começou as escolinhas em português. Acabou tudo, por que o professor era pago pelos pais dos alunos (...). Não podia mais falar em alemão, era uma ofensa muito grande para o nosso governo. Era proibido por causa da guerra. Era assim mesmo na igreja. (grifo meu) (WREDE, 2005)
Pela fala de Wrede é possível perceber a concepção que os alemães tinham da educação no Brasil, quando ela diz “acabou a escola alemã e começou as escolinhas em português”, é a ideia de terem perdido o que com sacrifício conquistaram: uma escola organizada, com professores que falavam sua língua e que tinha material didático exclusivo, para terem em seu lugar as escolinhas com professores brasileiros, que falavam o português e que estavam baseadas em uma cultura escolar diferente daquela por eles conhecida e concebida.
Nos anos que se seguiram outras escolas foram sendo construídas para atender a população em seus próprios bairros, facilitando o acesso dos alunos. Sabe-se que existiram escolas no Bairro da Estiva, Castelo Branco, Água dos porcos e em São José das Laranjeiras, todas para atender a comunidade de imigrantes. Os alunos passaram a estudar nessas escolas até a quarta série, e terminavam seus estudos em Maracaí ou em Cruzália.
Houve a iniciativa por parte dos imigrantes de providenciar um professor particular para ensinar a língua alemã para as crianças. Essas aulas eram dadas pelo professor Heinrich Pichol, duas vezes na semana. Ele tinha vários grupos de alunos, que se dividiam de acordo com o bairro em que moravam.
“Tivemos aulas particulares, não na escola, era na casa do professor, ele também ia até Laranjeiras e Estiva e dava aulas lá. Era o Sr. Heinrich Pichol, hoje ele está em Santa Catarina.” (HOFFMANN, 2005).
Ludwig também se recorda que teve professor particular após o fechamento da escola:
(...) depois os meus pais arrumaram um professor particular para eu e minha irmã aprender o alemão e nós aprendemos. Mas também não durou muito tempo. Minha mãe sabia muito bem o alemão e fez com que a gente entendesse bem, aprendesse a ler e escrever muito bem. Eu falo, leio e escrevo o alemão, como o português. (LUDWIG, 2005)
No entanto, com o tempo essas iniciativas particulares foram se enfraquecendo, e a língua alemã foi caindo cada vez mais em desuso, dado que as crianças foram aprendendo o português na escola, e com isso se sentindo parte da sociedade brasileira. Aprender alemão não representava mais os mesmos ideais de outrora.
Além da Nacionalização do Ensino e fechamento das escolas de línguas estrangeiras, que influenciaram diretamente o desenvolvimento da colônia, outro fator que marcou a história do lugar foi a Segunda Guerra Mundial. A partir daí, os colonos passaram por momentos difíceis, e de convidados que foram para habitar um pedaço de chão no interior do Estado de São Paulo, passaram a ser vistos como o perigo alemão, como pessoas não- gratas.