3.2 Metodevalg
3.2.1 Utvalg
A categoria da admiração pelo estrangeiro foi formada a partir de três grandes temas: a ado- ção acrítica dos referenciais e práticas de gestão internacionais, a adoção com uma postura crítica e a necessidade de valorização das práticas locais.
Os comentários dos entrevistados revelaram que os brasileiros são bastante abertos aos refe- renciais e práticas internacionais. Há situações em que as organizações no Brasil se espelham fortemente nas referências e práticas estrangeiras – principalmente as norte-americanas – atri- buindo a elas um respeito e uma admiração excessivos. Os comentários abaixo ilustram essa questão:
"Acho que o brasileiro gosta muito e admira muito o que vem de fora, querem sempre acompanhar ver etc. Eles têm a abertura de espírito para ver outras coisas e para acessar novas práticas e pra desenvol- ver"
"O brasileiro ainda olha pra cima quando vem o executivo da América do norte ou da Europa. Eles o- lham pra cima. Eles têm excesso de respeito. Eles imaginam que os americanos ou os britânicos sabem de alguma coisa que os brasileiros não sabem. Então tem o excesso de respeito"
9 5 9 Discordo NCND Concordo 12 2 6 Discordo NCND Concordo
"Acho que quanto às práticas administrativas que vem de fora o brasileiro ‘paga pau’, acaba aceitando muito isso. A gente acaba comprando todos os livros que os americanos compram, ‘pagando pau’ pra todos os gurus como os americanos. Nisso os brasileiros são meio vendidos, compra isso, compra mes- mo. Pelo que eu vejo a gente aceita muito bem a promessa, a gente acredita na promessa de resolução dos nossos problemas"
"Acho que a gente aceita as práticas americanas. Ah, o cara é americano, ah o cara é estrangeiro. A gen- te tem o mito de que o estrangeiro é melhor do que a gente. Isso existe. E não é, é tão errado e certo quanto. É igual, mas a gente tem esse mito de que o estrangeiro é melhor"
No entanto, apesar do referencial e das práticas estrangeiras ocuparem um espaço significati- vo na gestão no Brasil, os entrevistados também reconhecem que é forte o movimento dos brasileiros em direção a um “espelhamento” mais crítico, isto é, a uma adoção de referenciais e práticas internacionais de maneira mais criteriosa. Os entrevistados comentam que apesar dos brasileiros olharem para aquilo que está sendo feito fora do país com curiosidade e respei- to, eles possuem consciência de que os referencias e práticas de gestão internacionais não ne- cessariamente são adequados ao Brasil e às necessidades das organizações locais. Os brasilei- ros conseguiriam até mesmo diferenciar aquilo que pode ser adaptado daquilo que não pode nem ser adaptado e deve ser descartado. Pode ser encontrada ainda nas afirmações dos entre- vistados a capacidade que o brasileiro possui de “abrasileirar” aquilo que considera necessá- rio. O Gráfico 16 indica que a leve maioria dos entrevistados, 12 de 20, discorda que as solu- ções estrangeiras são adotadas sem as devidas adaptações. Algumas das declarações a esse respeito foram:
'Não acho que eles acham que as idéias que vem de fora são melhores. Acho o contrário. Acho que eles estão melhorando...quando cheguei aqui pela primeira vez o Brasil era mais fechado. Não estava expor- tando nem importando muito, agora está abrindo um pouquinho e vendo que tem vantagens em ter co- nexões com outros países"
"As pessoas tendem a olhar para o que é de fora, acho que de duas formas. Primeiro, com respeito e com aquele quê de que as melhores práticas estão lá, na maioria das vezes, e que nós temos sempre que estar olhando o que é feito lá fora. Só que, ao mesmo tempo, até um pouco contra isso, as pessoas tem um pouco de pé atrás, porque elas falam olha, isso é lá fora, não necessariamente aqui vai funcionar" "Então, você tem os dois lados. Por um lado você quer olhar para o que é feito lá fora, você quer apren- der a fazer melhor, mas por outro as pessoas tem um pé atrás quando você vem com uma recomendação do tipo ‘lá fora é assim, vamos fazer aqui do mesmo jeito’. Porque as pessoas acham que na maioria das vezes isso não pode ser adaptado ao Brasil. É meio paradoxal"
"Acho que as coisas aqui, com relação ao estrangeiro, são sempre abrasileiradas. O Brasil se adapta muito aos benchmarks, tem que fazer, não tem jeito. Mas no final termina sendo a forma à la brasileira"
As declarações dos entrevistados apontam também para a necessidade de valorização das prá- ticas nacionais. Além do brasileiro possuir a capacidade crítica de avaliação da possibilidade de adaptação ou adoção de práticas e referenciais estrangeiros, alguns dos entrevistados enfa- tizam que o Brasil deve valorizar mais as práticas e conhecimentos desenvolvidos localmente.
Os depoimentos apontam a existência de práticas e conhecimentos desenvolvidos no Brasil que são valorizados e reconhecidos por outros países e que deveriam ser “exportados” de ma- neira mais intensa. Alguns dos comentários foram:
"Aconteceu que quando um grupo estrangeiro comprou o BomPreço lá no nordeste eles ficaram muito impressionados com a capacidade e práticas logísticas que ele tinha. Outro exemplo, acho que o modelo de carros de baixa plataforma, para carros de baixo custo, desenvolvidos pela Volks ou Fiat aqui no Brasil foi utilizado lá fora. Há casos desses. No projeto que estamos fazendo atualmente há algumas práticas sobre distribuição de energia aqui que são bem conhecidas lá fora pelo grupo. Não sei se vão aplicar lá, mas há um reconhecimento. Há muita coisa daqui a ser escutada"
"Mas o que não acontece, ou acontece pouco, é as práticas brasileiras sendo acessadas lá fora...poderia acontecer mais. O sistema financeiro é um exemplo. Quando eu cheguei no Brasil, vindo da Itália, lá uma transferência entre bancos era capaz de demorar 3 a 4 dias. Os bancos italianos são muito ineficien- tes. Aqui no Brasil é na hora! O país desenvolveu muito a tecnologia bancária. Em Portugal tem um banco que diz que ganha sempre o prêmio de melhor site de internet banking da Europa. Pode ser que seja. Mas com certeza é muito pior do que o internet banking que utilizo aqui no Brasil. Não tem como comparar. Então, acho que essa valorização das práticas deveria ser feita"
"Acho que o brasileiro médio não tem muita confiança em si mesmo e no Brasil. E eles preferem e es- peram para ver o que um europeu tem a dizer, achando que o europeu deve saber melhor. O que é estra- nho, porque os europeus bagunçaram suas próprias economias por centenas de anos...então porque as pessoas pensam que eles saberiam? O EUA é um país difícil, um país vergonhoso em muitos aspectos. E ainda, quantos brasileiros olham para esses gurus e heróis americanos achando que eles sabem algo que os brasileiros não sabem? Acho que é justamente o inverso. Acho que os brasileiros poderiam ensi- nar ao mundo uma grande quantia de coisas...Olhe para Itaipu, por exemplo, e a forma como esse proje- to foi administrado. É incrível, fantástico. A produtividade em nossas fábricas no Brasil é muito mais al- ta do que a produtividade de nossas fábricas na Europa e nos EUA. Então, um dos aspectos negativos da gestão aqui é que ela não tem suficiente confiança em si mesma"