3.2 Metodevalg
3.2.2 Fokusgruppeintervju
A categoria temática do perfil do gestor brasileiro agregou três temas: a má formação do ges- tor, o gap entre as gerações e a nova geração de gestores.
Um dos principais temas relacionados ao perfil do gestor brasileiro abordado pelos entrevista- dos foi a diferença existente na qualidade da formação profissional dos gestores nas organiza- ções. Mais especificamente, alguns depoimentos enfatizaram a má formação dos gestores no Brasil. Além de características pessoais como capacidade e velocidade de aprendizado dife- rente, estilo pessoal de trabalho e tipo de formação educacional obtida, os entrevistados afir- maram que, em geral, as pessoas no topo são bem preparadas e formadas, mas as pessoas que estão na gerência média e na base da organização apresentariam algumas deficiências, entre elas a falta de informações, de responsabilidade, de comprometimento, de visão abrangente do negócio e a falta de preparo profissional geral. Algumas afirmações a esse respeito foram:
"Realmente o top management, os primeiros 2, 3, 4, 5 executivos dentro da empresa acho que geralmen- te são muito bons... o problema é o middle management aqui no Brasil. Aí que essas coisas como falta de informação, falta de comprometimento com prazos e desresponsabilização acontecem..."
"Em comparação com a Argentina, eu achei as pessoas aqui no Brasil muito boas. Mas isso variava um pouco, por exemplo, os gerentes eram muito bons, mas os analistas, as pessoas que eram juniores, eu não achei elas muito bem preparadas. Muito limitado o conhecimento deles....talvez eles conheciam muito seu trabalho, mas não tinham uma visão sistêmica. Conheciam muito seu processo, seu trabalho, sua companhia, mas talvez outra companhia, outro processo, outro lado, conheciam muito pouco. Tal- vez eles estivessem fazendo as coisas da mesma forma há muito tempo, sem pensar que talvez poderiam fazer as coisas diferentes e melhor"
"Agora, o que eu achei é que as pessoas que têm nível baixo na empresa não são muito bem preparadas comparado com outros países, EUA ou Espanha"
"O middle management realmente é muito inferior. E isso causa muitos problemas nas organizações... Por exemplo, as decisões podem ser bem tomadas, são boas etc, mas as pessoas que estão abaixo não são capazes de executá-las. Então você tem uma boa estratégia, uma boa organização, mas depois as pessoas que deveriam fazer isso não conseguem ou levam muito tempo para conseguir"
Ainda com relação ao perfil do gestor, outro tema recorrente foi o gap entre as gerações em função do surgimento de uma nova geração de gestores. Para os entrevistados, há uma gera- ção de gestores no Brasil – geração mais antiga – que começou a atuar no contexto de gestão brasileiro na época da ditadura militar anteriormente à abertura econômica e comercial do país. Segundo os depoimentos, essas pessoas ainda atuam a partir de referenciais de um país
desse período e não de um país aberto aos movimentos da globalização e internacionalização das práticas de gestão. Alguns relatores a esse respeito:
"Acho que as gerações brasileiras têm um gap muito grande. A geração do governo militar é muito dife- rente de seus filhos. Seus filhos são camaleões, seus pais são um pouco mais tartaruginhas"
"Eu dividiria a gestão brasileira em dois tipos. Uma gestão com um backgroud de profissionais mais governo militar, que ainda custa mudar – as elites brasileiras são muito assim – e um brasileiro novo, muito aberto ao mundo, com olhos para fora"
"Então, acho que no Brasil existe um desvio muito grande entre os grupos que atuam com práticas já avançadas e outros grupos que atuam com práticas não tão avançadas assim"
"Tem um choque muito grande entre as pessoas... tem um pessoal que ainda está um pouco embaixo que foi educado com um tipo de gestão meio americana com uma pessoa com 50, 60 anos hoje que não teve tanto contato com essa cultura americana porque na época que eles formaram não tinha toda essa enxurrada de gurus americanos da administração...Tem um choque, é nítida pra mim essa diferença, a diferença entre gerações dos administradores que tem hoje 60 anos e os administradores que tem 30 e 40..."
A nova geração de gestores apontada pelos entrevistados é uma geração de gestores interna- cionalizada, cosmopolita, mais bem preparada profissionalmente e mais orientada a dimen- sões objetivas da gestão como o foco em resultados. Esse gestor não seria um “clone” dos gestores estrangeiros, mas alguém que conseguiria adequar as práticas internacionais às ne- cessidades locais, seria um gestor bastante valorizado em outros contextos de gestão. Os de- poimentos abaixo ilustram essa questão:
"O Brasil está mudando, a nova geração que começou a trabalhar aqui depois do plano real está mudan- do cada vez mais. Tem muitas pessoas boas no Brasil. Principalmente agora que muitas pessoas foram fazer MBAs fora, eles estão super preparados"
"Acho que se eu olho o gestor de hoje em relação ao gestor de 15 anos atrás ele é um líder mais cosmo- polita, mais voltado pro que está acontecendo lá fora, pra adoção de práticas internacionais de gestão, mas ele mesmo valoriza esses traços marcantes da cultura local. Então ele respeita isso, procura interna- lizar alguns desses aspectos, e nesse sentido seu perfil foi um pouco modificado..."
'"Há mudanças marcantes no perfil do executivo de 15 anos atrás com relação ao perfil atual, eu diria que hoje há uma preocupação mais forte com o foco em resultados, padronização, sistematização, ra- cionalização dos processos, mas sem perder os traços fundamentais da cultura... "
"Acho que a transformação do gestor brasileiro é mais orgânica mesmo. Ele incorpora conteúdos novos a uma base fértil que ele já tem, transforma e cria um perfil diferente. Não é a toa que o executivo brasi- leiro é valorizado"