MacIntyre, ao investigar a moralidade contemporânea e o estado de desordem no qual se encontra, revelou os aspectos sociais que dele fazem parte. Não só para ele, mas para todos aqueles que estão atentos aos acontecimentos de sua época, a sociedade capitalista vivencia um mal-estar, fruto da irresponsabilidade e ganância daqueles que, embriagados pelo excesso de autoconfiança, desprezam riscos, ignoram a prudência e qualquer consideração ética que porventura os afastem dos lucros fáceis. Tal estado de desordem nos faz lembrar Aristóteles quando ensinava que “a vida do fazer-dinheiro é uma maneira restrita de vida, e claramente a riqueza não é o Bem que estamos buscando, pois ela só é boa enquanto útil, um meio para algo diferente”.388
Weber aparece nas reflexões de MacIntyre quando este trata sobre a pluralidade dos valores, bem como da cultura organizacional burocrática e também a respeito da racionalidade instrumental. No entendimento macintyriano, Weber compreende que a questão da origem histórica da civilização ocidental moderna possui como elemento primordial o que ele chama de espírito do capitalismo. Tal espírito é representado pelo ponto de vista que transforma o lucro e a acumulação de riqueza como um fim em si mesmo. Este modo de pensar em acumular é um fruto da mentalidade protestante ascética. Neste modelo de entender, o sucesso econômico é uma prova do favorecimento de Deus àqueles que foram eficientes e trabalharam arduamente para conseguir tal recompensa. Desse modo, a organização social é vista a partir do padrão de vida dos escolhidos independentemente do que fazem. Weber por sua vez, pressupõe que os valores humanos na sociedade hodierna originam-se a partir de decisões humanas, forjadas nas escolhas subjetivas. Assim, valores sociais, resultados de interações, são racionais, no sentido de que são conscientes, assim como são subjetivos porque não há oportunidade: tudo passa por uma valoração e interpretação subjetiva. Na compreensão weberiana, conforme MacIntyre,
Questões de fins são questões de valores e, no tocante aos valores, a razão cala; não se consegue resolver de forma racional o conflito entre valores rivais. Pelo contrário, é preciso simplesmente optar – entre partidos, classes, nações, causas, ideias.389
388Cf. ARISTÓTELES, 2005, p. 17. Referências à economia encontravam-se já nos primeiros parágrafos do
Livro I, i, 4 em que diz que a “economia doméstica busca a riqueza”. Para Aristóteles, a ciência da política, diretamente subordinada à ética, é a ciência mestra e se desdobra em outras altamente estimadas, como estratégia, economia doméstica e oratória. Livro I, ii, 4 a 8.
389
Na compreensão de MacIntyre, se Weber entende que esta é a maneira correta, então, sua postura poderia ser enquadrada perfeitamente nas dicotomias que estão contidas no emotivismo e oblitera exatamente aquela distinção para a qual o emotivismo tem de estar cego. Com isso surge uma ideologia que descobre sua forma clássica de procedimento na teoria sociológica da burocracia de Max Weber.
A teoria de Weber tem muitas falhas. Mas, em sua insistência de que a racionalidade de ajustar os meios aos fins da maneira mais econômica e eficiente é a principal tarefa do burocrata e que, portanto, a modalidade apropriada de justificativa do burocrata de sua atividade está no apelo à sua capacidade de empregar um grupo de conhecimentos científicos e, sobretudo, científicos sociais, organizados e compreendidos como sendo um conjunto de generalizações legiformes universais, Weber ofereceu a chave de grande parte da era moderna [...]. A vida social do século XX revela-se a reconfirmação concreta e impressionante da filosofia do século XVIII. E a legitimação das formas institucionais características da vida social do século XX conta com a convicção de que algumas afirmações fundamentais da filosofia anterior foram justificadas.390
Segundo MacIntyre, esse projeto convencional que atribuiu às ciências sociais a tarefa de explicar fenômenos sociais específicos por meio de generalizações que o perito gerencial possuiria, não deu certo. Se avaliarmos as ciências sociais dessa perspectiva, elas necessariamente aparecerão como desprovidas de realizações significativas. Ao ver de MacIntyre,
Não há, portanto, nada de paradoxal em oferecer uma previsão, vulnerável como todas as previsões sociais, sobre a imprevisibilidade permanente da vida humana. Por trás dessa previsão há uma justificativa do método e das descobertas da ciência social empírica e a refutação do que tem sido a ideologia predominante de grande parte da ciência social, bem como da filosofia convencional da ciência social. Mas essa refutação também implica uma grande rejeição das afirmações do que chamei de competência administrativa burocrática. E, com essa rejeição, pelo menos uma parte da minha argumentação se conclui. A reivindicação de status e gratificação do especialista recebe um golpe fatal quando reconhecemos que ele não possui um estoque consistente de generalizações legiformes e quando percebemos como é fraco o poder de previsão de que ele dispõe. O conceito da eficiência administrativa é, afinal, mais uma ficção moral contemporânea e, talvez, a mais importante de todas. O predomínio da modalidade manipuladora na nossa cultura não é, e não pode ser, acompanhado por muito êxito real na manipulação. Naturalmente, não estou dizendo que as atividades dos supostos especialistas não têm consequências e que não sofremos com essas consequências, e sofremos muito. Mas a ideia de controle social contida na ideia de competência do especialista é, de fato, um disfarce. Nossa ordem social está, em sentido bem literal, fora do nosso controle, e, na verdade, fora do controle de qualquer pessoa. Ninguém está nem poderia estar no comando.391
Desse modo, o perito–administrador não é mais do que uma fantasia tipicamente moderna, a fantasia de um poder exterior a nós e que se pretende praticar em nome do que é moralmente correto. Deste modo, o perito – personagem que representa o administrador – nada mais é do
390 Cf. MACINTYRE, 2007, p. 153. 391
que uma dissimulação bem fundamentada, objetiva e atua verdadeiramente como representação da vontade e de predileção parciais. MacIntyre conclui que “as consequências da profecia do século XVIII não têm sido a produção de controle social cientificamente administrado, mas uma imitação teatral de tal controle. É o êxito histriônico que concede poder e autoridade na nossa cultura. O burocrata mais eficiente é o melhor ator”.392
Daí o motivo pelo qual MacIntyre vê o desacordo moral contemporâneo em torno de questões como aborto, aquecimento global ou violação da privacidade por meio do uso da tecnologia, como sendo um debate no qual os envolvidos usam diferentes argumentos morais baseados em diferentes teorias morais que têm seus próprios contextos históricos e culturais em épocas ou situações diferentes. É por isto que, nos debates, as pessoas não se dão conta a que se referem os argumentos por elas aceitos e defendidos. Em debates públicos, por exemplo, os participantes usam os direitos humanos, fatos da natureza, valores morais, e as emoções para fundamentar pontos de vista conflitantes, sem serem capazes de esclarecer as interrelações e sem se referir a um fundo comum ou uma visão específica de mundo.
Vale ressaltar que MacIntyre não defende a posição de que todos nós devemos ter pontos de vistas iguais, porque a discordância moral seria um mal em si mesmo. O que ele critica é o fato de que em muitos debates contemporâneos são usados diferentes diretrizes e princípios morais que se contrapõem e, ainda, sem qualquer referência a como eles se relacionam uns aos outros. Como consequência, as declarações morais parecem ser apenas declarações de emoções e o “debate moral hodierno se caracteriza pela incapacidade endêmica de se chegar a qualquer acordo racional, onde cada partido se afirma a partir de pressupostos incomensuráveis, ainda que todos pretendam e afirmem sua posição como sendo de natureza racional”.393
Teremos alguma saída razoável para essa situação endêmica de conflitos que não avançam para alguma possibilidade de resolução, de modo que não se recaia numa burocratização manipuladora e instrumentalizadora da vida moral e nem em um relativismo das vontades particulares? Segundo MacIntyre, fundamentalmente nos restaria hodiernamente duas grandes vertentes em termos de o rumo a seguir para a moralidade: aprofundar o perspectivismo nietzschiano, caso não se consiga apontar para possibilidade de ancoragem racional para a
392 Idem, p. 186-187. 393
moral, ou retomar em novos termos a perspectiva do esquema aristotélico das virtudes, cujo abandono nos mergulhou nesse contexto adverso radical.