• No results found

Por que “Julio Bressane apresenta: São Jerônimo”? Por que os dois pontos? Os dois pontos são nossa questão neste capítulo, eles se preenchem em parte com as seqüências que acabamos de descrever, e a questão continua a se agitar em torno do peso da documentação a respeito do santo Jerônimo.

Júlio Bressane estudou Jerônimo por onze anos e teve acesso a um vasto elenco de informações, documentos, quadros, teses sobre esse homem casto, isolado no deserto a escrever em texto latino, no final do terceiro para o começo do quarto século de nossa era, falando e ditando as suas traduções bíblicas, “os comentários e sobretudo as maravilhosas e inimitáveis cartas às amigas e amigos”. Entre esses documentos destacamos a tese de doutoramento de Dom Paulo Evaristo Arns, de 1953, A técnica do livro segundo São Jerônimo, uma vez que é de Júlio Bressane o texto da contracapa da tese publicada em livro em 1993. Procedemos a uma leitura e estudo da obra em questão, em que Dom Paulo, no referido livro, assim expressa sua motivação para este estudo sobre São Jerônimo:

Queria saber como esse homem ditava as suas traduções bíblicas todas, os comentários e sobretudo as maravilhosas e inimitáveis cartas às amigas e aos amigos. Já me parecia ver, diante dele, aqueles escribas, que têm uma estátua guardada no Museu do Louvre. Esses escribas mantinham uma tabuinha de cera na mão esquerda e um estilete de ferro na direita e aí traçavam, com a habilidade de taquígrafos, as palavras que o autor ditava com a inspiração de gênio e, às vezes, com a pressa de um homem enfurecido. Também descobri que essas tabuinhas de cera, depois de corrigidas, passavam para a mão dos

partes, assim como os verdadeiros raccords são a tendência inversa das partes e dos conjuntos de se reunirem em um todo que lhes escapa” (DELEUZE, 1985, p.42).

copistas que as transcreviam em pairo e em pergaminho. Enquanto eles ainda se ocupavam da transcrição, já se ouvia, ao lado de Jerônimo, alguém reclamando que apressassem o trabalho, porque o navio estava partindo ou o cavaleiro se mostrava nervoso e impaciente (ARNS, 1993, p.6).

A tese de Dom Paulo é brilhante; às vezes temos mesmo a impressão de ver Jerônimo, não só o gênio irascível e indomável do escritor que se dizia “eu sou um dálmata, portanto tenho o direito de ser violento”, mas também os seus sentimentos mais ternos e generosos para com as “filhas espirituais e suas amigas”7, que o incitavam a não descansar no estudo e na propagação da Palavra de Deus, até então só conhecida no mundo ocidental através de traduções literais.

São Jerônimo, segundo Dom Paulo Evaristo Arns, é o melhor escritor latino-cristão de todos os tempos, opinião compartilhada por Júlio Bressane que, na contracapa do livro-tese, escreve:

[É] o mais importante e desconhecido intelectual do Ocidente [...] encarna o momento onde se impunha o saque ao melhor do mundo que se cerrava. Transformar, adaptar, contrabandear algumas algemas do passado (greco- latino) para o novo mundo (cristão) inevitável e urgente. Criou a Bíblia latina Vulgata [...].

A tarefa de Dom Paulo para redigir a tese foi para buscar as minúcias, e chegou a isso através da leitura de dez mil colunas dos Tomos da Patrologia Latina, Tomos 22 a 29 (a obra fora publicada no fim do século XIX por Migne e andava meio apagada nas bibliotecas), das cartas, dos pequenos bilhetes e das críticas feitas a Jerônimo. Também visitou os maiores especialistas em Jerônimo, na Alemanha e na França, assim como buscou a orientação de Fernando Cavallera, reconhecidamente o maior especialista em Jerônimo do início do século XX (ARNS, 1993, p.5-6).

A tese/livro nos mostra um esquema cronológico de observação de São Jerônimo, do momento em que este reunia o material (papiro, pergaminho, tabuleta e estilete), o trabalho das reproduções sucessivas de seus escritos por inúmeros leitores ou copistas, até o momento

em que estes vão repousar no fundo dos arquivos. Nessa tentativa de se aproximar de um dos maiores escritores cristãos do final do século IV, o autor reconstitui em parte a história do livro nos séculos IV e V.

Dom Paulo Evaristo Arns escreveu sua tese doutoral sobre Jerônimo reunindo textos por ele produzidos, procurando descobrir como é que ele conseguira levar seus escritos para dentro da história da literatura cristã e do mundo ocidental, e ao mesmo tempo desvelando o que passa despercebido aos que lêem os volumosos escritos do “santo doutor”, em uma pesquisa que durou 12 anos. A obra compõe-se de cinco capítulos. No capítulo 1 – O material – apresenta o papiro, o pergaminho, a tabuleta e o estilete; o capítulo 2 – A redação – se resumirá no ditado, na transcrição e no acabamento do exemplar-modelo; no capítulo 3, intitulado A edição, somos apresentados a definições sobre a publicação, formas do livro e suas subdivisões; no 4º capítulo – A difusão – evocará o esforço dos amigos e dos inimigos para garantir uma sorte mais ou menos feliz à obra literária de São Jerônimo, e o capítulo 5, denominado O livro e os arquivos, mostra os lugares onde serão conservados os manuscritos já bem modificados pelas reproduções sucessivas.

As palavras de Dom Paulo Evaristo Arns – “queria saber quando é que ele usava o papiro, folhas prensadas no Egito em forma de papel primitivo e quando ele se servia do pergaminho, couro curtido de boi para transformar em material de escrita” – demonstram o despojamento, a clareza e a simplicidade com que o autor desenvolve suas reflexões, parecendo o livro/tese exprimir-se por si mesmo como a seda se refere ao bicho que a produz. Segundo o autor, a técnica singular de redação do santo revela Jerônimo: um homem doente que “ditava” incansavelmente aos escribas quase sempre às pressas, parecendo carecer de tempo, com urgência, e ao mesmo tempo encontrando condições físicas para rever as cópias cheias de erros.

Dom Paulo nos apresenta um Jerônimo preso à tradição romana, seu gosto pela retórica, a busca da correção, seu temperamento impetuoso e sua independência, e sua determinação em divulgar o exemplar – a primeira cópia-modelo. Vemos São Jerônimo ora como um filólogo assistindo impassível ao trabalho do copista, preocupado com a difusão, com as diferenças singulares entre escrever e ditar, em que o ato de escrever se associa como primeiro-ato à vontade de difundir. Ora como um intelectual apegado ao zelo excessivo na transcrição, ora como um literato ou como um crítico atento aos arquivos, à conservação e propagação das cópias, à produção de sentidos e à difusão política de suas obras, bem como esboça o que denominamos hoje de crítica textual.

Júlio Bressane escreve na contra-capa deste livro editado em 1993:

JRNM na expressão de JRNM é “umbrae futurorum”: sombras dos que hão de ser. JRNM: o mais importante e desconhecido intelectual do Ocidente. O pano de fundo da vida de JRNM é a queda do Império Romano. É o fim de um mundo. JRNM encarna o momento onde se impunha o saque ao melhor do mundo que se cerrava. Transformar, adaptar, contrabandear algumas gemas do passado (greco-latino) para o novo mundo (cristão) inevitável e emergente. Criou a Bíblia latina, Vulgata, num século (o 4º de nossa era) onde as diversas versões existentes da Bíblia não passavam de um roto tecido de fábulas orientais. O homem estudioso em seu ambiente recluso, no deserto, em martírio criando beleza, buscando e conhecendo, mastigando, como Santo, sementes amargas que produzem os frutos doces... eis JRNM. Este admirável livro do cardeal Paulo Evaristo Arns é a primeira publicação de um estudo sobre JRNM em língua portuguesa.É muito.

Insistindo assim na importância da documentação e ainda tentando desenhar e apresentar o lugar dos dois pontos no título do capítulo, encontramos um texto em que Bressane desenvolve outras idéias a partir de São Jerônimo, intitulado Vida luz deserto, em uma reflexão sobre literatura e cinema através do filme Vidas secas, de Nelson Pereira dos Santos. O autor não faz observações históricas ou ideológicas, mas sobretudo estéticas, propondo um novo centro de observação, evocando dois temas: a tradução e o deserto, e um signo por onde esses dois temas poderiam se cruzar, que é o signo de São Jerônimo.

São Jerônimo é o padre do deserto que criou a monumental tradução latina da Bíblia, a Vulgata, centro de onde saíram todas as traduções da Bíblia em línguas românicas. São Jerônimo foi um dos escritores que moldou a linguagem e o imaginário ocidental, pela forte influência de sua tradução,

passou grande parte de sua vida nos desertos de Cálcis e depois Belém, entre o Oriente e o Ocidente, o primeiro de um dos grandes humanistas a sentir a dificuldade, a impossibilidade de se traduzir (BRESSANE, 1998, p.98). Bressane reproduz literalmente as palavras de São Jerônimo sobre a sua maneira de traduzir:

Traduzir palavra a palavra me parece deplorável. É preciso respeitar o caráter próprio de cada língua e visar na língua traduzida, um sentido, uma certa elegância e harmonia, a euphonia, preconizada pelos grandes críticos de Alexandria. Repudiar altamente a cacozélia, o zelo errado da literalidade que muitas vezes desemboca em cacofonias absurdas e linguagem ruim... (BRESSANE, 1998, p.98).

Segundo Bressane, São Jerônimo cria e inicia a literatura dos padres do deserto, que se estende até hoje (biografias dos santos anacoretas: Paulo, Hilário e Malco). O deserto principia a ser objeto da literatura, do pensamento, da filosofia, como um lugar do radical, do extremo, privilegiado centro de percepção dos rumores e ecos da inquietação espiritual. Bressane (1998) reflete sobre o deserto e a tradução sob o signo Jerônimo, inicialmente destacando o deserto como a geografia de um espaço tradutor silencioso, gestador inclemente de pensamentos nômades, lugar de um colapso do tempo, espaço pleno de luz, intraduzível em sua beleza visível: mundo material de luz, luz como movimento e como energia, lugar de metamorfoses de luz em vozes, em palavras, em gestos em música e em homem.

Deserto e tradução se tocam no signo Jerônimo – signo de luz – na apreensão da luz em seus diversos estados e técnicas, e em seus reflexos e refrações nos diversos meios pelos quais se movimentam, levando-nos a concluir que no filme Vidas secas a luz é a matéria que o precede e que o compõe. Vidas secas – um filme de cenas de luz.

Identificamos no filme São Jerônimo, de Júlio Bressane, uma referência explícita ao filme Vidas secas, de Nelson Pereira do Santos, na cena em que uma das religiosas, estudiosas da palavra de Deus com o mestre São Jerônimo, repete por quatro vezes: inferno, inverno, inverno, inferno. As palavras inferno, inferno, inferno, inferno são proferidas também por um dos filhos do casal de retirantes nordestinos, numa das cenas inesquecíveis do

filme Vidas secas, em que a câmera se movimenta como se tentasse atingir o sol, ou ir além do sol, como se buscasse alcançar as chamas do inferno.

A partir das conexões expostas, nos defrontamos com uma trama de tempos, Júlio Bressane apresenta: São Jerônimo. Respiremos. Um vento atravessa a elaboração, a feitura desta dissertação, e uma imagem predomina: o deserto.

O filme não se apresenta como sendo um filme não de causas, mas de efeitos, efeitos de um trabalho continuado, o trabalho de um tradutor – do hebraico para o grego, para o Latim e para o Latim Vulgar – em que os efeitos dos “outros”, através dos sons e das palavras, se tornam verdadeiras aventuras para o espírito. Um efeito de muitos “outros” que escreveram em diferentes línguas, percebendo em cada objeto (sons e palavras) ou em cada idéia organizações de mundos que passavam à margem, ou ainda como passagem de outras idéias de uns aos “outros”.

Com respeito a esta discussão sobre o lugar dos “outros”, Gilles Deleuze, no livro Lógica do sentido, no apêndice quarto, intitulado “Michel Tournier e o mundo sem outrem”, afirma:

O primeiro efeito de outrem é, em torno de cada objeto que percebo ou de cada idéia que penso, a organização de um mundo marginal, de um arco, de um fundo que outros objetos, outras idéias podem sair segundo leis de transição que regulam a passagem de uns aos outros. Olho um objeto e me desvio; deixo-o voltar ao fundo, ao mesmo tempo em que se destaca do fundo um novo objeto da minha atenção. Se este novo objeto não me fere, se não vem me chocar com a violência de um projétil (como quando batemos em alguma coisa que vimos), é porque o primeiro objeto dispunha de toda uma margem em que eu sentia já a preexistência dos seguintes, de todo um campo de virtualidades e de potencialidades que eu já sabia capazes de se atualizarem. Ora, um tal saber ou sentimento de existência marginal não é possível a não ser por intermédio de outrem (DELEUZE, 2003, p.313). O que São Jerônimo em seu trabalho de tradução não consegue ver ou pensar sobre, ele coloca ao mesmo tempo como visível para “outros”, e assim as palavras que não via estavam sendo vistas pelos “outros”, e assim vários “outros”, vários sons e várias palavras começam a se ligar e tornam-se idéias e mundo, porque são vistos e visíveis por “outros”.

As diversas línguas são como o que cresce pelas bordas, pelas contigüidades; o trabalho do tradutor relativiza o não-sabido, o não-percebido, pois introduz o signo do não- percebido naquele que ele percebe, e assim impulsiona-o a apreender o que ele não percebe e que é perceptível para “outro”.

Nesse sentido, é sempre pelo “outro” que passa o desejo de São Jerônimo. Pode ser este o fundamento do desejo no filme. O “outro” em São Jerônimo é um campo perceptivo organizado: o dos “outros” e o dele. A estrutura do mundo possível expresso no filme existe perfeitamente, mas não existe atualmente, fora do que o exprime.

A linguagem é a realidade do possível enquanto tal, desse modo o tradutor é um tipo de explicador dos possíveis e de seu próprio processo de realização no atual. O mundo possível de São Jerônimo, no filme de Júlio Bressane, situa-o no século IV, no início do cristianismo, ao lado dos padres do deserto e como consultor do Papa Damaso. O filme fixa a imagem de um deserto – sumário e superficial – em torno do qual se organizam esses elementos, e nesse imenso lugar pleno de luz está São Jerônimo com seus livros, um leão e o esqueleto de um crânio. Por mais central que seja esta imagem no filme, ela é marcada pelo signo do provisório, do efêmero, condenada a ser desviada pelos sons do vento, trazendo canções de outros lugares, palavras e sotaques também de outros lugares.

O nosso caminho se bifurca novamente e a palavra técnica nos detém. Ela se encontra no título e no objetivo da tese de Dom Paulo Evaristo Arns, como também no objetivo de nossa dissertação, que é problematizar a técnica composicional no cinema, pesquisando a técnica de criação de São Jerônimo, de Júlio Bressane, através de uma reflexão sobre o tempo e o que surge na temporalidade da imagem cinematográfica, e as possíveis técnicas de ver, sentir e ouvir o tempo como um lugar que mostra o próprio tempo.

Dom Paulo esclarece que “palavra técnica, aos olhos dos modernos, toma um sentido cada vez mais complexo. Em geral, é empregada significando o conjunto dos procedimentos

de uma arte, de um ofício” (ARNS, 1993, p.10). Júlio Bressane realiza um filme utilizando na técnica de sua composição movimentos aberrantes de recepção da luz e do som, ordenando e encadeando movimentos, libertando as imagens da cadeia do presente, à procura de outras “falas”, outras imagens. Não mais como ação e reação, mas forçando passagens entre a tradição dos clichês cinematográficos: tradição dos making off, dos espaços iluminados, das imagens objetivas e subjetivas, da câmera na mão, dos enquadramentos, dos movimentos de câmera e dos planos fixos. São Jerônimo, parece projetar uma mise-en-scène do tempo no deserto.

Muitas terras parecem ter passado pelo filme sendo feito. A luminosidade nos leva a lugares onde nada está seguro de estar lá, somos conduzidos para fissuras, instantes, civilizações, literaturas, pinturas e cinema, elementos ultrapassando a direção que criam, tudo preenchendo a superfície. Pensamentos se desenvolvem e se recobrem, obstáculos do pensamento, mas também a morada e a potência do pensamento.

Repousamos novamente no circuito – o filme sendo feito e o peso da documentação; nesse pequeno circuito, uma imagem bifacial – ora um filme que se reflete num filme sendo feito, ora ele se toma por objeto de um processo a se constituir. Uma imagem de um espelho que se recria. São Jerônimo é um filme que nos apresenta um modo de composição a mostrar o próprio tempo.