• No results found

Ao iniciar a sua interpretação sobre a teoria aristotélica das virtudes, MacIntyre nos diz que devemos entendê-las como aquelas disposições que não apenas amparam as práticas e nos permitem alcançar os bens internos a elas, mas que também nos mantém na busca imprescindível do bem, possibilitando-nos superar os perigos, males e tentações com os quais nos deparamos, e que este tipo de bem nos procede sempre mais de autoconhecimento e, mais ainda, do conhecimento do que é o bem. Para muitos, tais como, D’Andrea,424 esta interpretação feita por MacIntyre é o cerne da inovação por ele defendida sobre o retorno ao edifício teórico aristotélico como modo de superar o emotivismo que se alastrou em nosso tempo. Na compreensão de MacIntyre, a prática tem um sentido diferente do uso ordinário. Assim, prática será

qualquer forma coerente e complexa de atividade humana cooperativa, socialmente estabelecida, por meio da qual os bens internos a essa forma de atividade são realizados durante a tentativa de alcançar os padrões de excelência apropriados para tal forma de atividade, e parcialmente dela definidores, tendo como consequência a ampliação sistemática dos poderes humanos para alcançar tal excelência, e dos

responsabilidades. Assim, as consequências deveriam ser levadas em consideração quando se faz juízos sobre o correto e incorreto. E uma ação seria justa se, e somente se, o seu resultado total fosse o melhor possível. Existem, todavia, vários outros tipos. Alguns autores contemporaneamente utilizam o termo “utilitarismo” para demonstrar um tipo de consequencialismo. Por outro lado, outros reservam o termo “utilitarismo” para o ponto de vista que relaciona o consequencialismo com a premissa hedonista de que apenas o prazer tem valor intrínseco. Outros reservam o termo para o ponto de vista que combina o consequencialismo com a premissa eudaimonística de que a felicidade tem valor intrínseco, isto pode ser visto no Dicionário de Filosofia coordenado por Thomas Mautner. O consequencialismo também é contrastado com teorias morais e com a ética da virtude. Ao criticar as teorias consequencialistas, que veem as consequências da ação como o foco principal do nosso pensamento a respeito da ética, as teorias da virtude ética insistem que é mais o caráter da ação, e não as consequências, que devem ser o foco principal. Alguns especialistas em ética da virtude afirmam que as teorias consequencialistas desconsideram o desenvolvimento e a importância do caráter moral. Por exemplo, há defensores de que as consequências em si não possuem conteúdo ético, a menos que resultem de uma virtude como a benevolência, por exemplo. A ética da virtude e o consequencialismo podem não ser amplamente antagônicos. Este fato é explicado por teorias consequencialistas que consideraram o caráter de várias maneiras (Cf. PARFIT, 1986, p. 127). Por exemplo, os efeitos sobre o caráter do agente, ou quaisquer outras pessoas envolvidas em uma ação, podem ser considerados como uma consequência importante. Do mesmo modo, utilizando uma teoria consequencialista pode-se ter como objetivo a maximização de uma virtude particular, ou conjunto de virtudes. Por fim, pode-se optar por um determinado tipo de consequencialismo, como aquele que argumenta que a atividade virtuosa, em última análise, produz as melhores consequências (Cf. BLACKBURN, 1997).

424

conceitos humanos dos fins e dos bens envolvidos. O jogo da velha não é exemplo de prática nesse sentido, nem jogar uma bola com habilidade; mas o jogo de futebol é, bem como o xadrez. O serviço de pedreiro não é uma prática, mas a arquitetura é. Plantar nabo não é uma prática, mas a agricultura é. O mesmo se aplica às pesquisas da Física, da Química e da Biologia, e também ao trabalho do historiador, e à pintura e à música.425

Os exemplos supracitados, principalmente no que diz respeito a toda uma sucessão de pesquisas científicas em várias áreas como a Física, Química e Biologia, são segundo MacIntyre aquilo que possibilitará uma releitura do conceito de técnica em Hans Jonas. Na discussão do referido filósofo, também aparece outra ideia importante: no que diz respeito aos bens internos e externos às práticas, estes bens não podem ser particularmente apropriados, também não sendo possível tratá-los de modo isolado.

Existem, portanto, dois tipos de bens que é possível conquistar ligados ao jogo de xadrez e a outras práticas por acidentes das circunstâncias sociais [...] bens como prestígio, status e dinheiro. Sempre há modos alternativos de alcançar esses bens, e sua conquista nunca se dá apenas engajando-se no exercício de uma determinada prática. Por outro lado, há os bens internos à prática do xadrez, que não se pode alcançar de nenhum outro modo que não seja jogando xadrez ou algum outro jogo do mesmo tipo. Nós os chamamos de internos por dois motivos: primeiro, como já afirmei, porque só podemos especificá-los dentro do xadrez ou de algum outro jogo do mesmo tipo, e por meio de exemplos desses jogos (por outro lado, a pobreza do nosso vocabulário para falar de tais bens nos obriga a recorrer a artifícios como o que usei ao escrever ‘certo tipo especialíssimo de’); e, em segundo lugar, porque só podem ser identificados e reconhecidos pela experiência de participar da prática em questão. Aqueles a quem falta a devida experiência são incompetentes, portanto, como juízos dos bens internos.426

De tal modo, para alcançá-los é imprescindível ter aceitação das regras adequadas à prática, que são submetidas a padrões de excelência. Por conseguinte, uma prática abarca exemplo de excelência, subordinação a regras e aquisição dos bens porque continuamente é um modo de agir que permite a situação na qual as virtudes são exercidas e, de alguma maneira, granjeiam seu significado. Tal situação é sucessivamente constituída, estruturada, abarca e compreende vários elementos e/ou aspectos distintos cujas múltiplas formas possuem relações de interdependência; muitas vezes de difícil compreensão, é coerente e, ainda, é socialmente estabelecida, como o lugar em que se necessita estar atento para abraçar o que é proposto como exemplo de excelência. MacIntyre utiliza o caso do pintor para ilustrar sua ideia:

Essa excelência – o próprio verbo ‘exceler’ o insinua – precisa ser entendida historicamente. As sequências do desenvolvimento descobrem seu sentido e finalidade numa progressão rumo e para além de uma série de tipos e modalidades de excelência. É claro que há sequências de declínio, além das de progresso, e raramente se deve entender o progresso como linear. Mas é na participação das tentativas de manter o progresso e reagir de maneira criativa aos problemas que se

425 Cf. MACINTYRE, 2007, p. 316. 426

encontra o segundo tipo de bem interno à profissão de retratista, pois o que o artista descobre dentro da busca da excelência na pintura de retratos também se aplica à prática das belas artes em geral – é o bem de um certo estilo de vida. Essa vida pode não constituir a totalidade da vida de alguém que seja pintor durante muito tempo ou pode, ao menos por um período, como aconteceu com Gaugin, absorvê-lo à custa de quase todo o resto. Mas o pintor viver uma parte maior ou menor da vida como

pintor é o segundo tipo de competência que só se adquire sendo pintor ou sendo alguém disposto a aprender sistematicamente o que o retratista tem a ensinar.427

Ficou claro, nas palavras de MacIntyre, que a prática é uma atividade que requer obediência à autoridade, exemplo de excelência em vigor. No entanto, esta obediência não impede que haja mudança, o que é evidente ao se examinar que estas – as práticas – encerram uma história. Por isso, sem acatar a autoridade dos exemplos considerados melhores não se pode ser iniciado em uma prática e, menos ainda, criticá-la. No que se refere ao modo pelo qual se inicia uma prática, isto só é possível se a pessoa for acolhida, porque se faz imperativo entrar em relação não somente com os que a exercitam, mas principalmente com sua tradição. De fato, é esta que possibilita diferenciar a prática efetiva da situação institucional na qual se concretiza algo substancial, tendo em vista o poder corruptor das instituições.

As instituições ocupam-se, característica e necessariamente, do que chamo de bens externos. Envolvem-se na captação de verbas e de outros bens materiais; estão estruturadas em termos de poder e status como recompensas. Também não poderiam fazer de outra forma se pretendem sustentar não só a si mesmas, mas também às práticas das quais são os suportes, pois nenhuma prática sobrevive nenhum período de tempo sem o sustento das instituições. No terreno das práticas, a autoridade dos bens e dos padrões funciona de forma a excluir todas as análises subjetivistas e emotivistas do juízo.428

Agora, para melhor se entender a relação entre as práticas e as virtudes, é sumamente importante um esclarecimento acerca dos bens. No tocante aos bens externos e internos, MacIntyre assevera que “os bens externos são, portanto, objetos de uma concorrência em que deve haver tanto vencedores quanto derrotados”429 e têm como atributo ser posse ou propriedade habitual de um indivíduo ou um grupo, como, por exemplo, o poder, a fama e o dinheiro. Todos estes são bens contingentes e podem ser alcançados de “modos alternativos, e sua conquista nunca se dá apenas engajando-se no exercício de uma determinada prática”.430

Em contrapartida, os bens internos às práticas incluem a competição na busca da excelência, obediência às regras que foram incorporados ao longo da história e constituíram determinado modo de vida. Diferentemente dos bens externos, estes só serão obtidos por meio do

427 Idem, p. 319-320. 428 Idem, p. 326-327. 429 Idem, p. 321. 430 Idem, p. 317.

engajamento em alguma prática. Por isso, só podem ser reconhecidos e identificados com a experiência de compartilhar da prática.

Ingressar em Ingressar em uma prática é ingressar em uma relação não só com seus participantes, mas também com aqueles que nos precedem na prática, em especial aqueles cujas realizações tenham ampliado o alcance da prática para que atingisse o ponto atual. É, assim, a realização, e a fortiori a autoridade, de uma tradição com a qual agora me deparo e com a qual devo aprender. E para este aprendizado, e para o relacionamento com o passado que ele acarreta, as virtudes da justiça, da coragem e da sinceridade são pré-requisito exatamente da mesma maneira e pelos mesmos motivos que o são no sustento dos relacionamentos atuais dentro das práticas.431

Vale ressaltar que os bens internos às práticas possuem como características o enriquecimento de toda a comunidade e não somente de quem a praticou, pois o praticante é um exemplo para sua comunidade. Assim, as práticas são espaços de realização das virtudes, visto que estas últimas são essenciais para a realização dos bens internos que dão sentido às práticas como tais. Desse modo, MacIntyre propicia uma aproximação inicial à definição da prática ligada à virtude nas seguintes palavras: “A virtude é uma qualidade humana adquirida, cuja posse e exercício costumam nos capacitar a alcançar aqueles bens internos às práticas e cuja ausência nos impede, para todos os efeitos, de alcançar tais bens”.432 Assim, as virtudes estão

evidentemente relacionadas às práticas, pois são elas que determinam a natureza das relações entre os sujeitos no interior das práticas.

Na compreensão de MacIntyre, o exercício das virtudes provoca uma escolha, que se mostra na forma de uma decisão racional de aperfeiçoar e encorajar, diminuir ou impedir emoções e desejos. Sua decorrência inicial é o de treinar o indivíduo para o autocontrole, aperfeiçoando os sentimentos e exigindo o uso da inteligência. Em tais condições, MacIntyre crê ter contornado a questão da determinação biológica em sua teleologia, atribuindo relevância à institucionalização da conjuntura na qual o indivíduo se inscreve e procura sua autorrealização. O conceito de indivíduo enquanto figura abstrata de um ser racional e volitivo que independentemente de outros, instituiu seus próprios fins é reinterpretado, sendo sempre um papel ou exercita uma prática. A situação provê ainda os critérios a serem incorporados para julgar o comportamento individual. Nesse sentido, o ajuizamento de valor passa a ser compreendido como um julgamento de fato, refratário à arbitrariedade que lhe é conferida pela abordagem relativista. Diante dessa situação, MacIntyre adentra um outro momento, a vida como mensageira de uma unidade, de uma coesão que provê um telos às virtudes.

431 Idem, p. 326. 432