9. BEGRENSNINGER OG MULIGHETER
9.5 UNIVERSELLE OG TILPASSEDE TILTAK
Ao longo desta pesquisa percebemos que o período entre 1945 e 1961 foi de ordenamento dos partidos políticos e que os mesmos se estruturaram a favor ou contra Getúlio Vargas, especialmente depois que este criou dois partidos, o PTB e o PSD.
Essa estrutura entrou em crise após a renúncia de Jânio Quadros e a ascensão de João Goulart, ocasionando a Campanha da Legalidade liderada por Brizola que, através do rádio, mobilizava os militantes políticos na tentativa de manter a ordem constitucional e o presidente no poder.
Os seus discursos ficaram guardados na memória dos depoentes e, em alguns casos, transformaram-se em lembranças subterrâneas. A campanha contra os preparativos golpistas de 1963 e 1964 não teve o efeito desejado e os vencedores da Campanha da Legalidade foram derrotados, fazendo com que as atitudes e mobilizações dos simpatizantes de Brizola e Jango se tornassem ocultas.
Muitos brasileiros acreditavam na união de Jango e Brizola e na força política que estes possuíam para liderar o movimento de reação contra os preparativos golpistas. Porém, com a renúncia de Jango e logo após seu exílio no Uruguai, a população foi tomada por um sentimento de tristeza como foi relatado por Odilon Vieira e como foi possível perceber no decorrer deste trabalho.
Entre as motivações do apoio emocional dado aos líderes Brizola e Jango, estava a encampação das empresas internacionais. Isso fez com que desencadeasse o estremecimento das relações entre Brasil e EUA. Em alguns gaúchos, propiciou um sentimento nacionalista que passou a ser o marco identificador de Brizola em relação a sua ideologia mobilizadora dos anos 1963 e 1964.
Em 1963, com a criação dos grupos de onze, a ala conservadora do governo acreditava que o Brasil corria um risco iminente frente ao comunismo, de tal maneira que os “comandos nacionalistas” ou “grupos de onze” eram vistos como autênticas células prontas para instalar o comunismo no Brasil.
À medida que o confronto ideológico acirrava-se, na passagem do ano de 1963 para 1964, mais destaque se dava a esses grupos “subversivos” e mais esperanças se depositavam sobre sua suposta capacidade de reação. Houve, com isso, momentos particularmente tensos, o que gerou prevenções recíprocas entre os militares e Brizola.
As esquerdas perceberam o comício na Central do Brasil como uma vitória frente aos grupos conservadores, pois as esquerdas almejavam ter como aliado Jango
nas mudanças políticas, econômicas e sociais. Nesse contexto de comoção popular, os grupos de onze seriam uma garantia para manter a mobilização da população contra as forças armadas e contra os partidos que se uniam em uma coalizão golpista.
Acreditava-se ou sugeria-se a existência de 1.298 grupos de onze, como consta em um texto apreendido pelo Exército em Niterói, que se encontra no Laboratório de História da Unifra, como já foi relatado no decorrer desta monografia. Neste documento consta como seria a atuação dos grupos de onze, destinados à perturbação da ordem pública e ao terrorismo, o que conduz para a avaliação do teor ideológico dessa fonte, no sentido de ser um texto que explora o antagonismo de discursos ideologicamente orientados.
Os conservadores compreendiam que a atitude de Brizola era para levar a população ao desregramento e ao caos, enquanto para Brizola ocorria justamente o contrário. Havia assim, uma luta pelo sentido correto acerca dos grupos de onze entre conservadores versus Brizola, uma luta ideológica, no momento em que a América Latina estava em um período de pós-revolução cubana, onde se propagavam imagens e representações que produziam políticas de ações violentas.
No entanto, por mais emotivas que tenham transparecido as recordações das fontes orais e por mais que a ideologia nacionalista tenha tido uma importante influência nas representações que restaram sobre aquele passado, reconhece-se que a população, normalmente, se alia a um dos lados do confronto ou “fazem suas apostas” na tentativa de suprir alguma necessidade imediata como o desejo de melhores oportunidades sociais e políticas, de melhor trabalho, de menor custo de vida, de maior consumo, de maior poder ou prestígio pessoal.
Ao longo da monografia, foi possível perceber que muitos que se inscreviam nestas listas de “grupos de onze” almejavam algum tipo de ajuda imediata, sem que houvesse uma ideologia nítida no posicionamento político a favor de Brizola.
Entre as representações percebidas nas diversas fontes encontra-se a dicotomia estabelecida entre a legitimidade ou o caráter subversivo das mobilizações populares da década de 1960. Para fazer frente a essa dicotomia, empregamos nesta pesquisa os termos ordem e desordem para compreendermos os grupos de onze através de um olhar antropológico. Percebemos que os militares acreditavam que Brizola estaria levando a população ao desregramento, enquanto que, no entendimento de Brizola, eram os militares que procediam assim.
A desordem imaginada pelos militantes que apoiavam Jango e Brizola era aquela empregada pelas forças militares e pelos grupos conservadores, através de meios violentos e inconstitucionais. Já para os militares ocorria o inverso, pois acreditavam que os adversários estavam rompendo com as bases sobre as quais a sociedade se organiza. Os grupos de onze, e mais tarde o comício da Central do Brasil, seriam dois movimentos que, vistos sob o olhar dos militares, levariam a população ao caos. Para os janguistas, as atitudes violentas que se seguiram, estas sim, estavam levando a população ao desregramento, pois acreditavam que tanto o comício quanto a mobilização dos grupos de onze eram estratégias legítimas de resistência.
O que se conclui dessa dicotomia é que ordem e desordem são conceitos que se complementam, no lugar de se oporem de forma excludente. Não há sentido de ordem sem a perspectiva da desordem e as constantes inversões que ocorrem em relação a esses dois conceitos são fundamentais para a manutenção da dinâmica social. Podemos dizer, conforme esclareceu Balandier que, o que inicialmente pensamos ser demonstrações de crises sociais com os confrontos inerentes a elas, na verdade eram estratégias de ação política para domesticar os conflitos e torná-los vetores de acomodação ou mudança social.