condução da política econômica peronista. Porém, não foi só este fator que levou a tal situação. A reconfiguração do mundo no pós-guerra demonstrou que muitas outras nações (algumas delas arrasadas pela guerra), conseguiram, através de políticas adequadas e apoio dos Estados Unidos, reavivarem suas economias em prejuízo das economias dos países periféricos como a Argentina que tentou, sem sucesso, erguer-se com bases próprias.
8. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A economia argentina, que nas décadas de 1920 e 1930 baseava-se predominantemente no setor agrário, viveu um período de prosperidade elevando os representantes desse setor ao controle econômico e político do país. Pode-se afirmar que o retardo da industrialização da Argentina deveu-se ao atrelamento do setor agrário com o setor político, por meio do qual os proprietários rurais de maior posse e com maior prestígio político na localidade onde viviam se utilizavam desta situação para promover seus interesses, frente a uma população pobre e carente de conhecimento político.
Assim, a sociedade argentina sofreu por décadas com a perpetuação de um modelo político e econômico retrógrado, que atendia aos interesses de uma minoria ligada aos grupos mais ricos do setor agrícola nacional. A necessidade de rompimento com tal modelo de economia era latente, pois a produção rural perdia importância frente ao desenvolvimento das manufaturas e a industrialização, como formas preponderantes de crescimento econômico.
Na década de 1930, os homens que assumiram o poder na argentina trabalharam entre fraudes e golpes de estado, de maneira a estruturar um novo modelo econômico baseado na industrialização. Porém, por se tratar de um país em desenvolvimento e por não ter condições de desenvolver um processo industrial subsidiado única e exclusivamente pelo estado, o governo da época percebeu que tal plano só seria concretizado com a injeção de capital estrangeiro na economia e principalmente no carente setor industrial argentino.
Assistiu-se a uma grande injeção de crédito na Argentina, numa política de internacionalização de vários setores da economia, como telefonia, frigoríficos e setor portuário, que foram modernizados graças ao investimento internacional. As empresas estrangeiras que investiram na Argentina nesta época tinham o propósito de explorar vários setores da economia local, além de promover exportações e receber altos subsídios do governo argentino.
Esta política econômica de concessão de direitos às corporações estrangeiras e a assinatura de pactos comerciais entre Argentina e diversas nações desenvolvidas tinha o propósito de alavancar um processo de desenvolvimento do setor manufatureiro argentino, o que abriria caminho para os produtos Made in Argentina ganharem as prateleiras do mundo e tornarem o país de um simples exportador de matérias primas, a um grande fornecedor de produtos industrializados.
A balança comercial favorável que se apresentava nesta época, tornava possível ao governo argentino manter políticas subsidiarias e voltadas à proteção das empresas fixadas em solo argentino, embora muitas delas fossem de capital estrangeiro. Na verdade, o que se compreende a partir disto é que este quadro que se apresentava na década de 1930 - de uma indústria nacional dominada por corporações estrangeiras - era um preço a ser pego pela autonomia do setor em tempos vindouros.
Na década de 1940 se assistiu a instauração do conflito mundial que supervalorizou as relações internacionais, haja vista que a busca de parcerias comerciais e aliados em potencial se tornou ponto chave na condução da política das nações envolvidas no conflito, com países
tanto do eixo, quanto aliados buscando consolidar uma base de apoio que sustentasse as diferentes necessidades de suas economias em guerra.
Este contexto tornou países exportadores de matéria-prima ainda mais importantes, pois as sanções e privações trazidas às nações beligerante no conflito provocaram a necessidade de encontrar novos fornecedores, principalmente de bens de consumo de primeira necessidade, como a carne.
Com o surgimento de tal contexto, nações exportadoras de alimentos como a Argentina tornaram-se chave na política internacional, onde passaram a fornecer produtos para ambos os lados envolvidos no conflito. Como conseqüência desse florescimento da capacidade exportadora, no caso argentino, assistiu-se a um crescimento econômico nunca antes vislumbrado e mesmo improvável em tempos de paz, e que por sua vez levou a Argentina a apresentar taxas de crescimento próximas ao de países desenvolvidos antes da guerra.
Porém, a década de 1940 começou convulsionada dentro da própria Argentina, que após ver sua política sofrer com acusações de fraudes eleitorais, passou por um golpe de estado e a posterior instauração de um governo militar, que se intitulava defensor da pátria e dos interesses do povo argentino.
Findada a guerra, a política e a sociedade argentina sofreriam nova mudança, com a ascensão de novos atores políticos surgidos do fortalecimento do setor obrero, e dos sindicatos voltados a atender aos interesses deste grupo. Esse novo contexto fez Perón tornar- se o porta-voz das classes mais desfavorecidas e seu representante nas eleições de 1946, na qual sagrou-se vitorioso e tornou-se o “presidente de todos os argentinos”. Entretanto, é interessante analisar o que tornou Perón tão admirado pelos grupos trabalhadores e tão antipatizado no cenário internacional. Mostrou-se nesta monografia que foi a articulação da questão interna com as relações internacionais que conduziram para o fracasso da argentina peronista em termos de crescimento econômico duradouro.
Perón para legitimar sua política de justiça social e de defesa do setor operário, decidiu adotar uma conduta voltada a financiar o desenvolvimento da classe de pequena renda do país, através de um paternalismo estatal, onde a política de distribuição de rendas seria a base do plano de desenvolvimento econômico.
Identifica-se aí o primeiro grande erro de Perón, pois o desenvolvimentismo nacional não deve estar ligado às ações subsidiárias por parte do setor político nacional, mas sim vinculado a uma estruturação econômica e social que permita o natural desenvolvimento das políticas de bem estar social, principalmente saúde, educação e emprego.
Em segundo lugar, a aprovação de leis em defesa dos trabalhadores, bem como aumentos salariais, foram outorgadas por Perón sem um prévio estudo das possibilidades e das reais condições da economia argentina, o que remete para o imediatismo econômico e à intenção de agradar amplos setores sociais para a manutenção do governo diante das dificuldades já mencionadas.
Acredita-se que um estudo detalhado da situação econômica do período que antecedeu a chegada de Perón ao poder, poderia ter orientado suas equipes econômicas a perceber a inviabilidade de o governo patrocinar a ascensão econômica dos grupos trabalhadores, pois se por um lado a balança comercial era favorável nos anos da grande guerra, terminado o conflito os índices de exportação passaram a diminuir, dando um aviso de que a economia estava em desaquecimento.
O desaquecimento econômico requer contenção de despesas publicas, aumento de subsídios ao setor industrial, visando garantir a sociedade uma economia estável, e que garanta um bom índice de consumo, além de incentivar a relações comerciais de caráter internacional (incentivo a Exportação), evitando a estagnação e o posterior colapso do setor industrial.
Perón não atuou dessa maneira ortodoxa, pois a crença de que a sociedade Argentina conseguiria consumir a produção industrial local, a adoção da terceira posição e o descaso com o setor industrial e a política internacional foram equívocos da política peronista que custaram muito caro ao povo e a economia argentina.
A diminuição das exportações ao final da grande guerra, messes antes de Perón assumir a presidência da Republica, pode ser considerada um claro prenuncio de que um novo cenário político e econômico começava a se moldar. A bipolarização do mundo em blocos políticos e econômicos e a necessidade de parceria mesmo entre nações desenvolvidas, que garantissem uma economia estável sem os perigos de uma depressão como a de 1929, estava viva nestes dias de 1945.
Contudo, Perón assumiu o poder em 1946 tendo por objetivo estabelecer mecanismos que garantissem ao setor obrero a possibilidade de ascensão como instrumento legitimador do governo peronista e sua política de justiça social. Para difundir seu discurso nacionalista e obreirsta, Perón e seus aliados exploraram a situação internacional de forte disputa ideológica entre capitalistas e comunistas e procurou denunciar o imperialismo norte-americano.
Não se pode negar que o Departamento de Estado norte-americano atuou fortemente em relação à política peronista criticando-lhe o caráter militarista e denunciando o nacionalismo centralizador da administração de Perón. No entanto, o erro que se expressou por anos na historiografia é o de pintar essa disputa entre o governo Perón e os EUA como algo personalista, negligenciando-se a política externa norte-americana em relação aos países que tentavam maior nível de autonomia econômica e política, pois eram tidos como possíveis aliados ao comunismo liderado pela URSS.
A política americana em relação à Argentina peronista era na verdade uma política de manutenção de interesses e de áreas de influência, que se por um lado não era conquistada (devido à adoção da terceira posição), por outro não poderia pender para a esfera soviética. Ainda neste contexto, é interessante considerar que o governo dos Estados Unidos poderia ter atuado ainda mais duramente contra a Argentina, mas não considerava Perón uma ameaça a sua esfera de influencia na região, como seria mais tarde Cuba (após a revolução), que, como se sabe, sofreu com tentativas de golpes de estado patrocinados pela C.I.A. e com embargos impostos por instituições internacionais voltadas ao interesse capitalista.
É certo considerar que os EUA ocuparam-se em refrear a política peronista, mantendo- a sob controle, de modo que, com o passar do tempo e com o agravamento da situação econômica e das políticas peronistas, a Argentina fosse forçada a um alinhamento ao governo de Washington, algo que anos mais tarde de fato aconteceu.
O fracasso da política econômica peronista é, portanto, um reflexo de sua própria condução de governo, que contemplou setores da sociedade, convicções pessoais, e mesmo um maniqueísmo que compreendia os trabalhadores como um grupo a ser resgatado da marginalidade social e o setor industrial como o grupo responsável pelo sustento deste resgate, sem ponderar sobre as reais condições da sociedade argentina.