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In document Remembrance of Homes Past (sider 46-52)

Os anteriores problemas colocam-se de forma diversa em cada uma das vertentes do hip-hop, na medida em que, representando diferentes manifestações expressivas com princípios internos próprios e uma relativa autonomia entre si, encerram possibilidades distintas de profissionaliza- ção. São, a este nível, evidentes as diferenças, à partida, entre a vertente musical, com as suas estruturas e agentes especializados, os seus meios de divulgação e produtos, a que correspondem públicos e mercados di- versificados, porém já estabelecidos, e o graffiti, actividade eminentemente informal (ou mesmo ilegal), sem meios ou circuitos de divulgação e co- mercialização próprios e constituídos.13A inserção da primeira numa es-

trutura e num modo de organização previamente existentes, onde pon- tuam as editoras e a indústria discográfica, o marketing e a divulgação de artistas, contrasta claramente com a segunda, onde o afastamento em re- lação aos circuitos formais e comerciais é a característica central.14A lista

de trabalhos remunerados é vasta e variável de acordo com as respectivas vertentes e com o grau de «exterioridade» das iniciativas e actividades em causa. De iniciativas empresariais diversas, como a criação de editoras, revistas, lojas de roupa ou de discos, às actuações em concertos, passando por projectos de formação, como workshops, ou pela organização de even- tos, são múltiplas as formas encontradas para obter algum rendimento com o hip-hop.

Pela complexidade e orientação para o mercado, é no caso da música que encontramos maior número de agentes e estruturas e, por isso mesmo, tornam-se mais evidentes as possíveis vias de profissionalização. Porém, sendo um meio relativamente pequeno e amador, os ganhos ob- tidos com as actuações ou com a venda de CD são encaminhados para

12 Nos casos em que este investimento alimenta a própria actividade. Veja-se, por

exemplo, o papel das encomendas, no caso do graffiti, no financiamento da actividade artística própria.

13Ou, pelo menos, sem os mesmos meios, tendo em conta que a profissionalização

no caso do graffiti se dá sobretudo à custa de actividades que colocam os seus praticantes numa posição exterior, como seria o caso das encomendas para decorar vários espaços ou mesmo das exposições em galerias de arte.

a própria actividade, servindo para compensar o investimento (por exem- plo, o aluguer de um estúdio de gravação). Na realidade, os ganhos pa- recem canalizar-se mais para a actividade do que para o praticante.

P. – Mas nunca pensaste vir a ganhar alguma coisa com o hip-hop? Ou seja, já pensaste se era possível viver do hip-hop?

R. – Nao acredito muito nisso talvez por nao estar mt interessado, o di- nheiro que pretendo fazer do hiphop será para comprar material para con- tinuar, e olha que ja investi muito...hehe por isso o hiphop é que vive de mim. :P e de todos como eu. Se fizer o balanço o que recebi ate agora foi 1% do que gastei [DJ e produtor, 23 anos (entrevista on-line)]

Contudo, o hip-hop caracteriza-se pela diversidade de processos de pro- dução e criação musical. Assim, tanto encontramos artistas inseridos em grandes editoras ou mesmo multinacionais, claramente orientados para o mercado e para as vendas, como artistas cuja escala é não só mais reduzida como os processos de produção, de natureza artesanal, escapam à lógica e à estrutura do mercado. É dentro desta última variante que encontramos um circuito de produção alternativa, paralelo ao das editoras tanto de grande como de pequena dimensão, e que assenta numa estrutura ama- dora e caseira, onde pontuam as mixtapes15que circulam de mão em mão

ou, caso encerrem algum intento comercial, são distribuídas de forma li- mitada, através de lojas especializadas em música rap.16Pelo contrário, a

versão comercial do rap encontra-se associada às regras de mercado e ao jogo económico estruturado em torno de editoras externas ao hip-hop, no- meadamente às multinacionais da indústria discográfica, que, por esta razão, parece desvirtuar as referências fundamentais da cultura hip-hop.

R. (1) – Não, é tipo: eu posso ter muito material, ser muita bom e conti- nuar a fazer rap underground. O que diferencia isso é o objectivo. Se eu fizer uma coisa pra vender, é uma coisa comercial. Isso é uma coisa que se nota, claro que depois...

R. (2) – Mas... Não é uma coisa pra vender... é uma coisa que tenhas que mudar os teus princípios, ou algo em que tu acreditas.

15 Gravação caseira contendo temas musicais originais (do próprio autor) ou colectâ-

neas (normalmente remisturadas) de artistas da preferência do autor. Inicialmente, eram realizadas em cassete (tape), mais tarde, com o advento do digital, apresentam-se sob forma de CD.

16Veja-se o caso do papel desempenhado pela loja King Size, em Lisboa, que até ao

seu desaparecimento, em Julho de 2005, era um dos principais pontos de divulgação e venda de rap nacional de tipo underground.

Viver (d)o hip-hop: entre o amadorismo e a profissionalização

R. (1) – Pra mim basta ser pra vender. Eu faço uma letra, não é o que sai de mim, é uma coisa pra vender, isso é [MC, DJ, 18 e 17 anos].

Se em muitos aspectos a identificação de circuitos underground e

mainstream pode ser aplicada às diferentes manifestações expressivas do graffiti e aos distintos modos de organização que estas envolvem, o seu

alcance não é exactamente idêntico ao que podemos descortinar no caso da música. Desde logo, porque o graffiti, atendendo aos seus suportes pri- mordiais (muros, mobiliário urbano, transportes públicos, etc.), se apre- senta como uma cultura inerentemente de rua oposta, por definição, a outros espaços e circuitos. Deste modo, os obstáculos à sua transposição da rua para outros locais e suportes são tanto de ordem prática como de ordem ideológica, envolvendo diferentes pressupostos de autenticidade e, por isso mesmo, apresentando diversos graus de legitimidade.

Neste sentido, tal como no caso da música, a oposição entre processos de produção artística que podemos qualificar informais, ou até mesmo ilegais (veja-se o caso do bombing),17em contextos não previstos para o

efeito, e processos de produção artística que podemos considerar formais, em espaços e com estruturas previstas para o efeito, apresenta contornos particularmente significativos no caso do graffiti, uma vez que a sua aber- tura ao exterior assume diferentes vias, algumas com carácter oficial ou institucional, outras com carácter não oficial, ainda que envolvam algum grau de formalidade. Por outro lado, estas mesmas vias tanto podem pos- suir evidentes intuitos comerciais e profissionalizantes, como apresentar propósitos estritamente amadores. Do ponto de vista pessoal, porém, nada impede que o mesmo protagonista compatibilize, no que respeita à sua posição e percurso no meio, opções aparentemente inconciliáveis, ainda que possa mobilizar para esse efeito diferentes justificações.18Das

encomendas para executar a decoração de variados espaços às exposições em galerias de arte, passando pelos concursos, as demonstrações e os

17 Significa, literalmente, «bombardeamento». Dadas as condições em que habitual-

mente é executado, envolve maiores riscos e menor elaboração estética do que outras formas de graffiti. Duas variantes comuns: street bombing (pintura rápida de rua) e train

bombing (pintura parcial ou completa de carruagens de comboios ou do metropolitano).

Pelo contrário, o chamado hall of fame corresponde a uma forma de pintura mais elabo- rada, normalmente realizada em locais autorizados ou, pelo menos, tolerados pelas au- toridades públicas ou pelas entidades privadas.

18O reconhecimento oficial do graffiti, paradoxalmente, contribui para anular a sua

especificidade e o seu significado originais e, deste modo, tende ser encarado de forma ambivalente por muitos praticantes.

workshops, são várias as modalidades de enquadramento da prática do graffiti que ocorrem à margem do seu local habitual, a rua.

É assim, eu acredito que em quem está pelo menos mais ligado a isto, tem é o medo que o graffiti venha do estado mais purista para dentro da ga- leria, estás a perceber? Que se pinte directamente na parede. A maioria das pessoas que ouve falar do graffiti, se visse isto, não iria sequer compreender que estavam aqui seis artistas de graffiti [...]. E o que eu tento fazer neste mo- mento é [...] mostrar-lhes o que é que se pode fazer de diferente, com um intuito mais artístico, dentro do graffiti. Essas pessoas, o que viram na rua é

um tagging,19um graffiti como ele realmente é na rua. E julgam que numa

parede, dentro de uma galeria, será exactamente a mesma coisa. E isto é a visão mais artística do graffiti [Writer, 27 anos].

Nestas circunstâncias, as estratégias de profissionalização apresentam um carácter predominantemente exterior, concretizando-se por duas for- mas essenciais: ou através de uma aproximação às artes plásticas, com a realização de exposições e consequente venda de telas; ou através da acei- tação de encomendas para realizar a decoração de espaços diversos. Estas actividades podem envolver remunerações variáveis, sendo que, no caso das exposições, as mesmas podem nem sequer estar presentes (a com- pensação pode esgotar-se na própria exibição; não sendo acompanhada pela eventual venda dos produtos expostos).

No caso do breakdance, as possibilidades de profissionalização encon- tram-se limitadas tanto pelo carácter mais restrito do meio, e consequen- temente pela menor procura, como pela sua existência quase exclusiva enquanto actividade performativa. Os circuitos de actuação revelam-se, deste modo, de importância crucial. A cada local de actuação, depen- dendo da sua natureza, corresponde uma variante dentro da prática do

breakdance e, por esta razão, podemos atribuir-lhe um sentido igualmente

diverso. Próximas do sentido original do breakdance enquanto «arte de rua», temos as actuações ou manifestações mais ou menos improvisadas, que se realizam em locais não concebidos à partida para esta (ou qualquer outra) forma de expressão corporal ou performance, como átrios das esta- ções de metropolitano, praças ou outros locais públicos onde se possam juntar crews (grupos) de b-boys/girls. Dado que os espaços de actuação são improvisados e os acontecimentos espontâneos (ou semiprogramados),

19 Realizar ou disseminar o tag ou a assinatura (pseudónimo) que identifica o autor

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distinguindo-se por possuírem uma dose considerável de imprevisibili- dade, as características deste primeiro modo de organização do breakdance são sobretudo informais (consistindo, essencialmente, em sessões de im- proviso, à volta de uma roda).

É assim: normalmente começa com jams...20O pessoal começa a treinar

juntos no metro... [B-boy, 20 anos].

Em contraste com as performances de rua, podemos considerar as ac- tuações que ocorrem em locais de espectáculo, com um carácter instituído. Do ponto de vista simbólico este segundo tipo pressupõe, ao contrário do anterior, a organização formal das práticas, em lugares destinados para aquele fim (associações, salas de espectáculo, etc.), associados a aconte- cimentos programados (encontros hip-hop, campeonatos com patrocínios oficiais, etc.). Dentro das manifestações formais, podemos incluir as ac- tuações em festas hip-hop (onde se podem encontrar por vezes outras ma- nifestações do hip-hop) que decorrem em discotecas, bares e outros locais onde seja possível apresentar este tipo de performance;21mais raramente,

através do acompanhamento de músicos rap em concertos ou, ainda, mediante actuações (sob forma de coreografias e de battles)22em campeo-

natos de âmbito nacional e internacional. As competições funcionam como

um importante factor de motivação e, de certa forma, alimentam as pró- prias actuações privadas, particularmente os ensaios que antecedem as participações nas competições e que lhes servem de preparação. Também por isso, correspondem a um modo de consagração e reconhecimento da actividade desenvolvida por um indivíduo ou grupo, ainda que se afastem da lógica que presidiu às primeiras expressões do breakdance en- quanto prática de rua.

Nós agora é diferente, nós sabemos que há futuro nisto. Sabemos que há campeonatos lá fora, sabemos que dá para fazer shows como deve ser [B-boy, 23 anos].

20Encontro/sessão de improviso. Pode ocorrer nos ensaios ou em encontros impro-

visados em ruas, praças ou noutros espaços públicos.

21Devemos mencionar, também, a integração do breakdance em academias ou giná-

sios. Contudo, esta tende a ser internamente desvalorizada pelos praticantes de rua, en- carando-as como uma adulteração do verdadeiro sentido do breakdance.

22São uma forma de competição entre duas ou mais pessoas com o objectivo de ava-

liar quem possui o melhor desempenho ou detém mais talento. Podem, por outro lado, ter um âmbito informal e improvisado ou inserir-se em competições oficiais. São comuns tanto no breakdance como na música rap (entre MCs ou entre DJs).

As implicações simbólicas das estratégias de profissionalização da criatividade que relatámos antes são particularmente evidentes nos casos em que as mesmas colocam os seus praticantes numa posição liminar (ou mesmo exterior) em relação ao meio, pondo em causa as fronteiras do mesmo e a própria legitimidade dos primeiros enquanto membros. Deste modo, se, por um lado, a relação com o exterior representa uma interpenetração entre as esferas económica e cultural, por outro lado, a mesma tem implicações simbólicas para o funcionamento do meio. De um modo geral, a maioria das actividades remuneradas coloca os seus protagonistas numa posição ambivalente, entre a suposta fidelidade aos princípios e valores do hip-hop enquanto actividade de rua, lúdica e ama- dora, e o hip-hop enquanto negócio, comércio e forma de profissionali- zação.

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