as tecnologias locativas e outros dispositivos
espaciais
A pertinência desse acto de tomar lugar visibiliza-se em dois dispositivos
espaciais contemporâneos: no mundo dos empreendedorismos e negó-
cios, a «incubadora de projectos»; no mundo das artes, a «residência
5Quando se mudou com o marido músico e a filha pequena para o novo aparta-
mento no Rio de Janeiro, Aleteia decidiu abrir a casa para a montagem circunstancial de uma exposição e convidou artistas diversos a escolherem o quarto ou a parede com os quais queriam «se relacionar» para propor uma criação situada. Depois de um fim-de-se- mana em que o apartamento se converteu numa galeria de arte improvisada, a casa entrou em reforma e todos os trabalhos que restavam traçados pelas paredes foram demolidos. Enquanto visitávamos a casa em obras, Aleteia contava que não faria nenhum sentido manter nada, pois o trabalho tinha sido a própria ocupação. Se fossem levados a outro lugar, tornar-se-iam outra coisa.
Criatividade situada, funcionamento consequente e orquestração do tempo
artística». Por iniciativa privada de empresas e universidades ou por iniciativa pública de incentivo àquilo que vem sendo chamado «indústria criativa» (Florida 2002), a «incubadora» tem emergido como fornecedora não apenas de recursos financeiros mínimos, mas principalmente, como
fornecedora de lugar: espaço físico para a implementação de ideias, negócios
incipientes, futuras empresas, etc. A incubadora consiste precisamente na concessão de um lugar para que a criatividade se instale e aconteça.
João, um jovem administrador que hoje se divide entre a gestão do ateliê do seu pai artista e os seus empreendimentos – uma rede alternativa de hospedagem para estrangeiros em casas de cariocas que, justamente, busca «capitalizar» o «activo» da hospitalidade brasileira; e dois restau- rantes que, na mesma direção, exploram a mistura entre a culinária gour-
met e os temperos e modos de fazer regionais brasileiros – contou-nos da
importância inicial, na sua trajectória, do Programa Iniciativa Shell, uma incubadora para jovens empreendedores. Ele e o seu amigo beneficiaram de espaço para fazer acontecer uma ideia. Acompanhando o quotidiano da Incubadora Genesis, mantida pela PUC-Rio, pudemos dimensionar o que vem a ser esse apoio: a cessão temporária de um espaço físico, até que a empresa em gestação ganhe corpo para se firmar como aconteci- mento no mundo. Por vezes, trata-se mesmo tão-somente do espaço, ou de um acompanhamento sob a forma de orientação em gestão de negó- cios; por outras, envolve também a possibilidade de convívio porta a porta com outras iniciativas, com intensa troca de experiência.
Alexandre, designer, também comemora a aprovação da sua empresa recém-criada no programa Rio Criativo, incubadora mantida pela Fede- ração de Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan). Inicialmente, ele e a sócia, Renata, alojaram a ideia da empresa em casa, por conta do «custo admi- nistrativo e operacional menor» que permite «ser competitivo em outras coisas», uma conta consequente fundamental para quem está a iniciar um empreendimento (retomarei a questão da lógica consequente adiante). A adequação «ao que condiz hoje», como diz Alexandre, orienta a es- colha situacional e contingente do espaço, tanto em termos do seu en- caixe com o projecto criativo que está a ser levado a efeito a cada mo- mento, quanto em termos financeiros. A aprovação na incubadora permitirá agora que a empresa cresça e se espalhe: tanto literalmente, porque ganhará mais espaço físico, quanto na expansão, pensada como correlata, em termos de superfície de contacto com o mundo, visibili- dade e rentabilidade.
As propriedades-possibilidades (ou affordances) disponibilizadas pela incubadora estão em relação de similitude, para os artistas, com as ope-
radas pela «residência artística». Como noticiado pelo jornal O Globo de 17 de agosto de 2010, as residências, essas «casas de criação», seriam um «fenómeno que se consolidou entre jovens de 20 a 40 anos». Promovidas por museus e outras instituições de arte públicas e privadas, no país ou ao redor do mundo, que «convidam artistas a terem um novo e tempo- rário espaço de criação», ou mesmo produzidas pelos próprios artistas em redes de permuta de casas ou sítios afastados dos grandes centros ur- banos, as residências seriam «um modo de parar e pensar sobre o que se está fazendo e ter perspectivas diferentes da sua», segundo o curador do Museu de Arte Moderna (MAM) Luiz Camillo Osório, citado na repor- tagem. A possibilidade de contaminação e colaboração aberta pela exte- riorização do processo criativo na ocasião-residência fica clara, por exem- plo, na experiência contada por Domingos, artista visual «com uma pegada superurbana» que viu o seu trabalho transformar-se na relação com a paisagem rural do programa de residências da ecovila Terra Una:
Meu trabalho teve uma relação bem intensa com o lugar, trabalhei com ferreiros em uma forja de fundo de quintal. Desenvolvi uma relação com a paisagem. Na cidade você tem paradigmas de ritmo e tempo urbano. Na ecovila isso se transforma [O Globo, 17 de Agosto de 2010].
Para além dos dispositivos da incubadora e da residência como opera-
dores de ocupação, vemos que o desejo de situar-se para criar encontra si-
multaneamente diversas outras vias para acontecer. Entre as pessoas com as quais convivemos no Rio de Janeiro, a associação entre amigos, com actuações profissionais diversas, mas unidos pelo desejo de radicar-se, permite diversas vezes o aluguer de casas espaçosas cujos quartos são compartimentados: uma empresa de design pode coabitar com uma sala de ensaios para dança e teatro, um grupo que faz music branding e um pesquisador que deseja um escritório para abrigar a sua ampla biblioteca. Esses lugares podem ser iniciativas informais de amigos ou podem ser formalmente pensados como coworking spaces, espaços que são rateados e alugados a terceiros, não necessariamente amigos ou conhecidos, mas profissionais diversos que chegam através da rede ampla de contactos e, portanto, se aproximam e se ligam por uma postura comum à qual se atrelam os valores da criatividade, da versatilidade, da inovação e da sim- plicidade. A artista visual e promoter de festas Adriana há pouco decidiu transformar o espaço sobressalente do prédio de uma das suas casas noc- turnas num coworking space. Divulgou a chamada na mala directa das fes- tas que organiza, argumentando que
Criatividade situada, funcionamento consequente e orquestração do tempo
o home office pode ser cool e ter as suas vantagens, porém, um espaço criativo e agradável, com um certo horário, pode vir a ser muito mais produtivo, o ideal para profissionais independentes que precisam de um office moderno e com bossa para receber os seus clientes ou até mesmo para se organizar me- lhor, fazer contactos e aguçar a criatividade. As vantagens são inúmeras, pois você não precisa de se preocupar com contrato de aluguer, fiador, contas (luz, internet, faxina...), a localização é perfeita e você pode até mesmo vir de bike, que teremos lugar para guardá-la.
Recentemente, acompanhámos a ocupação do amplo telheiro de uma fábrica de chocolates desactivada, que vem sendo meticulosa- mente esquadrinhado por colectivos e artistas independentes, cada qual se responsabilizando por reformar o seu pedaço de espaço e co- locá-lo ao seu gosto e em pleno funcionamento. A co-extensividade entre o movimento de ocupar um espaço e a criação em si fica parti- cularmente explícita na experiência da artista visual Maíra. Ela alugou um exíguo espaço de apenas um metro quadrado na fábrica. Chamou- -lhe «Atelier 1m2» e criou um blogue para documentar, dia a dia, o seu
processo relacional com o lugar, desde as negociações para o contrato de aluguer até aos movimentos de habitá-lo, receber pessoas, etc. A primeira «obra» gerada no ateliê é, pois, o próprio ateliê, produzido no uso, na habitação e no accionamento das singularidades acidentais do espaço como matéria para alimentar o projecto. A mais recente ini- ciativa de Maíra em torno do seu 1m2foi inscrevê-lo como projecto
no site Multidão, que recentemente trouxe para o Brasil o conceito de
crowdfunding (financiamento colectivo de um projecto que precisa de
dinheiro e não tem o perfil para ganhar um edital). Pedia 5000 reais para «mobilar» o seu pequeno quadrado de chão. Como contrapartida, confeccionou uma série de aguarelas azuis, com preços de 20 a 100 reais, feitas a partir da extracção, para uso como tinta, de um misterioso pigmento azulado que estava entranhado no chão de lajotas de seu 1m2(provavelmente resíduo de algum corante da época em que a fá-
brica de chocolates estava em actividade). Uma mancha acidental, ins- trumentalizada como carro-chefe para dar singularidade às aguarelas limitadas. Em troca da contribuição – via site Multidão, para que o seu projecto arrecade os 5000 reais –, Maíra ofereceu a cada doador uma dessas aguarelas únicas. Deu certo e o dinheiro foi obtido. Mas, como mobilar um espaço tão reduzido? Novamente, a «resposta» a esse im- passe foi construída em relação com o espaço: nas duas vigas de ferro que passam pelo tecto, Maíra prendeu roldanas que sustentam o novo mobiliário, flutuando no ar ao redor do seu pedaço de chão. Com esse
acto, Maíra acaba por ocupar bem mais do que o 1m2pelo qual paga
o aluguer.6
Para além da singular experiência de Maíra, o atravessamento comum às diversas iniciativas de espaços de cowork concentra-se, de facto, no prin- cipal efeito que ela própria vislumbrou e foi sua intenção inicial ao alugar o minúsculo ateliê: são espaços que permitem a optimização dos lugares e o barateamento dos custos, além de promoverem a exteriorização do trabalho e a ampliação da visibilidade e da rede de relações. Mas, como pudemos observar com frequência na experiência de outros profissionais que optaram por alojar-se em espaços de cowork, a convivência não ul- trapassa necessariamente a contiguidade de actividades profissionais que se inter-relacionam mantendo-se, no entanto, independentes e relativa- mente alheias umas às outras. Dependerá da maneira como cada profis- sional ou grupo de profissionais activar a sua presença no espaço: ele, em si, não é garantia de relação colaborativa.7 Tão contemporâneo
quanto o cowork é o fenómeno da formação de colectivos – agregados colaboracionistas em torno de uma actividade comum. Estes podem ter um funcionamento virtual e encontros deambulatórios, sem endereço fixo, mas também costumam instalar-se em apartamentos ou casas a prin-
6No entanto, tudo isso não foi exactamente planeado. A intenção inicial era ter
mesmo um espaço para montar um ateliê. Interessou-se pela fábrica de chocolates, mas só podia pagar o valor de 1m2. Com esse espaço, não dava para montar ateliês como os
dos seus vizinhos: cercados por baias e ocupados com cavaletes, mesas, estantes, compu- tadores e todo tipo de materiais que servem de base para as criações – tintas, papéis, telas, etc. Mas dava para ter acesso livre ao telheiro, que estava a ser esquadrinhado como espaço de cowork, e encontrar pessoas, fazer contactos, estar por ali. Assim, o 1m2começou por
ser o que era financeiramente possível para ela no momento: não tanto um espaço de tra- balho, mas uma táctica para estender-se, ampliar a rede, ter acesso a um ambiente que co- meçava a fervilhar e poder abrir-se a oportunidades futuras e colaborações possíveis. Não daria, dadas as proporções reduzidas que a sua verba permitia pagar, para trabalhar no es- paço, mas daria para trabalhar com ele, utilizando-o como via para estar naquele ambiente rodeado de outros artistas. O que veio depois, a transformação do ateliê em obra, só en- fatizou ainda mais essa direção: trabalhando com o que o espaço tinha (dimensões redu- zidas, mancha azul, vigas de ferro no tecto, impossibilidade de mobilar...), Maíra não só obteve o que imaginou inicialmente (o acesso a trocas com outros criadores no quoti- diano), como viu emergir pouco a pouco o projecto de uma nova obra.
7De modo que, em todos os espaços de cowork que conhecemos, tanto encontramos
pessoas e negócios que exploravam activamente os «vizinhos» como parceiros quanto outras que, mais pragmaticamente, apenas alugavam um espaço para as suas atividades – situação, por exemplo, mais explícita e frequente no ambiente da LX Factory, em Lisboa. Obser- vámos aí que, embora houvesse conversa e cordialidade nos momentos de intervalo, as salas de cowork eram envoltas por um espesso silêncio e as pessoas trabalhavam lado a lado, porém de fone no ouvido e absortas nas suas actividades individuais.
Criatividade situada, funcionamento consequente e orquestração do tempo
cípio residenciais, mas que são por essa via convertidos em galerias de arte, escritórios de produção, sala de reunião e trabalho.
Em reportagem intitulada «Solução caseira», O Globo de 24 de Outu- bro de 2010 noticiou a «tendência entre artistas plásticos e curadores ca- riocas» de converter quartos de apartamentos em galerias de exposições. Hércules, um jovem curador, decidiu deixar o Brasil por uns tempos e viver em Amesterdão. Lá, começou a usar o espaço do seu apartamento para produzir as exposições do seu Projeto Teto. Um pouco como fez Aleteia com o seu apartamento carioca antes da reforma, mas no caso do projecto de Hércules a conversão não foi episódio único, mas o modo de viabilizar o seu trabalho.
No Rio, acompanhámos várias iniciativas mais pontuais: o jovem curador Bernardo também converteu a enorme casa comprada pela sua família no Jardim Botânico, e que na sequência entraria igualmente em reforma, numa exposição que durou apenas um fim-de-semana, cujos ar- tistas foram todos convidados por ele pelo Facebook. Franz, artista e cura dor, falando da ocupação de um ambiente residencial por uma mos- tra que organizou, deixou claro o quanto não se tratava exactamente de uma exposição, mas de um «evento»: o próprio facto de que «o telheiro muda o tempo inteiro», de modo que o visitante era pensado como al- guém disposto a «habitar com a gente».
O conceito de criatividade como acto situado é, assim, desenhado pelas pessoas com quem conversámos, nas suas iniciativas de ocupação e co- laboração e nas suas afirmativas de que a criação acontece na relação com o entorno e não «dentro da cabeça». Sem apontar para uma mesma es- colha, ele pode manifestar-se na preferência pelo home office ou na sua exacta recusa; no recurso à mobilidade permitida pelas tecnologias; na agregação em colectivos ou no aluguer mais «impessoal» de um coworking
space; no uso circunstancial ou permanente da residência transformada
em espaço «semipúblico»; no accionamento da incubadora ou da resi- dência artística, etc. De qualquer modo, na singularidade desses arranjos uma direção comum se visibiliza e um amplo movimento é assim posto em marcha, desentranhando a criatividade do ensimesmamento român- tico e instalando-a, ao contrário, na própria acção de distribuir-se no mundo, espalhar-se nos espaços ocupados, ampliar as redes de relações e as áreas de contacto, as oportunidades de encontro e as situações de habitação. Criar é algo que acontece no desinsularizar-se. É uma capaci- dade relacional, não substancial. Estender-se no mundo já é acção cria- tiva, além de erigir-se em condição para criar.