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In document Remembrance of Homes Past (sider 71-81)

Yuri, artista visual, mora temporariamente na sala do minúsculo apar- tamento da sua tia, em São Paulo. Mas não apenas. Em trânsito entre a cidade natal, Fortaleza, as diversas cidades que visita de passagem em re- sidências artísticas e a São Paulo na qual cursa entrecortadamente um mestrado, Yuri diz que, ainda assim, «às vezes sente falta de espaço para trabalhar». Ao mesmo tempo, narra um excesso de lugares: por um lado, o seu ateliê é o seu computador, que ele chama «ateliê móvel»; por outro, os tantos lugares que conheceu em residências por diversas cidades não são «coisas rasteiras de passagem», mas lugares que ele nomeia como «re- lações» e «vínculos». Relações cultivadas apesar da velocidade com que passa pelos lugares, diz ele, graças à sua característica de ser «um cara que é uma espécie de fio desencapado que vai ligando os contactos» e ao re- curso da internet, que permite manter a comunicação e a troca com os lugares de passagem, e também com outros que ainda não visitou, for- mando uma série de «circuitos paralelos».

A posse simultânea de um excesso de lugares intercambiáveis é notá- vel no quotidiano das pessoas com as quais convivemos. Lugares que podem ser as passagens de Yuri nas suas residências artísticas ou, mais frequentemente, os cómodos multifuncionais que tornam reversíveis os espaços da casa e do trabalho (permitindo abrigar um ateliê, uma sala de ensaio, um estúdio musical ou uma ilha de edição em casa; ou um espaço de lazer com snooker e piscina no escritório, por exemplo). Ou, ainda, o excesso de lugares pode manifestar-se no «ateliê móvel» de Yuri e de tan- tos outros jovens criadores e empreendedores que ligam os seus compu- tadores na praia ou no café, ou trabalham nos seus celulares durante uma viagem de táxi ou de metro.

Delano, sócio da Gommus, empresa de music branding3alocada na

casa de um dos três amigos que a fundaram, enfatiza o quanto o funcio- namento do negócio é inseparável de uma espacialidade móvel, desejosa de certa ubiquidade, em grande medida tornada possível pelas facilidades tecnológicas recentes, utilizadas como prolongamentos da presença e da

3Trabalho de criação de uma «identidade sonora» para uma marca, utilizando a mú-

sica como canal para a geração de uma relação «afectiva» entre a marca e seu respectivo público-alvo.

Criatividade situada, funcionamento consequente e orquestração do tempo

disponibilidade. Além de trabalhar por e-mail e pelo celular, seja em casa ou em trânsito – «O i-phone é um mundo ali dentro; você abre e traba- lha», diz ele –, a empresa dispensou a existência de uma secretária, accio- nando o sistema «Siga-me» disponibilizado por uma empresa de telefonia fixa: «A gente usa o recurso de, quando não tem ninguém aqui, colocar o telefone fixo num número de celular, aí a gente atende da rua.» Delano diz que a combinação desses recursos «dá mobilidade para a empresa, não tem aquela coisa engessada, uma secretária aqui atendendo».4

A gestão dessa multiplicidade de lugares no quotidiano consuma-se nas configurações mais diversas na vida de cada uma das pessoas que acompanhamos. Em todas elas, se há um ponto de convergência é o de que não se trata nunca de uma substituição dos encontros presenciais, mas sim da potencialização do leque de opções para estar em contacto, que tinge a presença de mobilidade. Toda uma «geografia das relações» (Deleuze e Parnet 1998, 74) é tecida no accionamento em simultâneo desses recursos, numa lógica do «e, e, e», na qual o espaço para o encon- tro se multiplica e se redesenha de cada vez. Urry (2000) chama a atenção para essa ênfase na dimensão de mobilidade que caracteriza os fluxos contemporâneos, bem como para a dimensão de prolongamento das po- tencialidades de cada agente dada pela sua entrada na relação com os re- cursos tecnológicos e maquínicos: estes não são meros objectos ou ins- trumentos, mas agentes tão actuantes nas redes de relações quanto as pessoas. A associação entre pessoas e entorno espacial, máquinas ou tec- nologias é pensada por Urry valendo-se da noção de affordance formulada por Gibson (1977), na qual a clássica oposição entre sujeitos e objectos cede lugar a um entendimento do encaixe ou do acoplamento contin- gente, em si, como gerador da agência/acontecimento.

Tão manifesta quanto essa profusão de lugares habitados de modo intermitente na vida quotidiana, perfazendo uma permanência volante, é o assinalado desejo de espaço para trabalhar, criar e conviver, bastante reiterado nas conversas. Por um lado, aparece a afirmação de que a habi- tação de um lugar não cessa a demanda por novas habitações. Por outro,

4A escolha pela mobilidade gerada na associação do escritório físico com os recursos

tecnológicos é também accionada por Guilherme no seu trabalho como consultor free-

lancer, como uma via de optimização do tempo «em cidades cada vez mais cheias em

que você não consegue se locomover direito»: levar o escritório consigo o tempo inteiro é uma maneira de evitar engarrafamentos ou de os aproveitar para trabalhar. Guilherme, que «já está na mobilidade» por conta do trabalho que exerce – criando nomes e marcas para produtos e montando empresas para terceiros –, frequenta muitos lugares simulta- neamente e encontrou, assim, um modo de habitar também os deslocamentos.

explicita-se que habitar funciona como condição para criar. É preciso si- tuar-se, radicar-se, localizar-se – não definitivamente, mas, ao contrário, de cada vez e muitas vezes – porque criar é uma actividade situacional. Ou ainda, o traçado dessas brechas geográficas já é ele próprio criação, ao mesmo tempo em que dará lugar a actos criativos. Aleteia, multiartista que se está «ressituando» no Rio de Janeiro depois de nove anos em Lon- dres, enfatiza o quanto o próprio desenho do espaço já é criação, na me- dida em que «você cria no lugar, inspirado pelo espaço». Daí ser impor- tante que o espaço seja refeito e «ressingularizado» caso mude o projecto, pois «tudo depende do que você está criando».5Matheus, director de ci-

nema, roteirista e actor, vai nessa mesma direção «locativa» quando diz que alternar os espaços é, para ele, uma táctica de trajectividade para dri- blar o «bloqueio criativo»: «Quando tenho um bloqueio e não aguento mais escrever em casa, vou para algum lugar, um shopping, um lugar mo- vimentado.» O fotógrafo Mauro fala das «situações» desenhadas a cada projecto de curta-metragem como «tubos de ensaio»: é da relação com o lugar, situação feita dos encaixes entre pessoas, paisagens, mobiliário, re- cursos tecnológicos, máquinas, etc., que emergirá a experimentação. Se muda a locação, muda o projecto, muda a estética, muda tudo. Eis, por- tanto, um intenso privilégio da ocupação – episódica e situacional e, no entanto, perene no seu afirmar-se e executar-se.

As modulações da ocupação: a incubadora,

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