Tendo em conta a anterior problematização em torno da profissiona- lização da criatividade, propomo-nos, nesta segunda parte, ilustrá-la atra- vés das estratégias e justificações apresentadas pelos seus directos prota- gonistas, os jovens criadores da cultura hip-hop. Tais relatos permitem-nos dar conta de diferentes vivências do hip-hop, na duplicidade que esta ex- pressão acarreta, por um lado, enquanto ocupação ou modo de inserção profissional (mesmo que, em muitos casos, fugaz e assente no «biscate»), por outro lado, enquanto estilo de vida ou actividade resultante do en- volvimento mais ou menos intenso num conjunto de práticas culturais específicas e alternativas. As especificidades do hip-hop, enquanto uni- verso múltiplo e diversificado, levam-nos a levantar algumas questões adicionais, que servirão de fio condutor para a análise e discussão que se seguirá.
8 Qualquer uma das anteriores interrogações tem por base um conjunto de suposições
quanto ao modo legítimo de levar a cabo uma prática e, por isso mesmo, compreende uma dimensão ideológica e subjectiva que é necessário levar em consideração.
Viver (d)o hip-hop: entre o amadorismo e a profissionalização
Primeiro, como aludimos atrás, a compreensão das estratégias de pro- fissionalização adoptadas num domínio criativo é indissociável do pro- blema da definição das fronteiras que se erigem entre o que seria um do- mínio do tempo «livre» e um domínio caracterizado por actividades de «obrigação». Esta fronteira é tanto menos clara e objectiva quanto o nível de envolvimento com as práticas em questão configura um estilo de vida particular, que surge associado não só a momentos de «lazer» e assumi- damente lúdicos como a momentos de «dever». Na verdade, longe de estarmos perante dois universos estanques e irredutíveis, encontramo- -nos diante de uma nítida interpenetração entre ambos, perceptível de diversas formas. Seja pelo facto de as sociabilidades juvenis associadas às anteriores práticas se poderem constituir em contextos de obrigação (como a escola), seja pelo facto de nos interstícios desses mesmos con- textos (por exemplo, nos intervalos das aulas) se poderem desenrolar tais actividades.
Segundo, a própria idade e o estatuto ocupacional9 associado à
mesma – nomeadamente, neste caso, a situação escolar – explica a forma como se pode considerar a interpenetração entre os anteriores domínios, em virtude da forma como os tempos de obrigação e lúdicos podem ser geridos. A iniciação às diferentes vertentes do hip-hop encontra-se asso- ciada ao período em que decorre a escolarização, sendo, por esta razão, os grupos onde a maioria dos praticantes se inicia de origem escolar. Es- tando a iniciação e a posterior experiência de uma actividade dentro do
hip-hop ligada a um período de escolarização, o problema da transição
ocupacional apenas se coloca, de forma imperativa, no fim desse período de formação e se avaliam os possíveis cenários de iniciação profissional (mesmo que comportando diferentes opções em simultâneo). Nestas cir- cunstâncias, a ponderação em desenvolver uma actividade profissional (ou semiprofissional) dentro de alguma das vertentes do hip-hop está de- pendente de diversos factores. Desde logo, varia de acordo com o tipo de actividade, dentro de cada vertente, em que determinado protagonista se encontra envolvido, mas igualmente com o empenho dedicado à mesma (encarada como uma vocação), o que explica o modo como se alimentam determinadas aspirações acerca da possibilidade de prosseguir uma «carreira profissional» no meio.
9O mesmo poderíamos dizer a propósito do estatuto familiar, de um modo geral as-
sociado ao agregado familiar de origem e à dependência económica dos pais ou de outros familiares.
deixei a escola ja ha algum tempo. entretanto tive uma loja durante 4
anos q10fexou este verao passado. assim q fexei a loja fikei desmpregado i
resolvi, agora q ainda sou relativamente novo, dedicar me so a musica porque é o q gosto realmente de fazer.surgiu a oportunidade de poder comprar algum material i tenho u estudio praticamente pronto a fim de poder traba- lhar a serio. vou ver o q da. mas ja q posso vou agarrar esta oportunidade ate poder. logo se ve o q da. nao concordo em ter um trabalho q nada me diz e onde quase nada ganho ficando sem tempo para fzr o q gosto [MC, DJ, pro-
dutor e ex-writer, 24 anos (entrevista on-line)].
Esse é o objectivo de toda a gente... viver do que se gosta, não é? Eu pelo menos gosto de pintar e viver da pintura acho que é o ideal, acho que é o ponto máximo que a gente pode encontrar numa carreira... [Writer, 24 anos].
Em alguns casos, tais aspirações parecem ser concretizadas, permi- tindo desenvolver uma actividade regular no meio. É justamente o que podemos ver no testemunho que nos foi dado por um writer entrevis- tado:
R. – Felizmente tenho a sorte de fazer o trabalho, de trabalhar para isso, para fazer do graffiti a minha vida.
P. – Consegues viver do graffiti?
R. – Sim, viver não vivo, pá, bom, também não sobrevivo. P. – tens várias encomendas?
R. – Várias encomendas, encomendas de telas, encomendas de trabalho [Writer, 28 anos].
Em todo o caso, viver economicamente do hip-hop, enquanto activi- dade profissional principal, não é o mesmo do que obter alguns dividen- dos através de trabalhos pontuais e irregulares. Na verdade, de todos os entrevistados são poucos os que afirmaram viver exclusivamente (ou obter um rendimento substancial) do hip-hop. Na sua grande maioria, as experiências profissionalizantes inserem-se numa lógica que remete mais para o amadorismo (assente no «biscate» e num claro voluntarismo) do que para a profissionalização, sendo a possibilidade de viver do hip-hop en- carada pelos próprios como uma opção pouco viável, situando-se quase no plano utópico.
10Nas citações retiradas das entrevistas conduzidas on-line, realizadas através de pro-
gramas de instant messaging, optou-se por apresentar a grafia utilizada por cada entrevis- tado, mantendo-se as abreviaturas, as adaptações e as truncagens adoptadas, sem se pro- ceder a qualquer rectificação.
Viver (d)o hip-hop: entre o amadorismo e a profissionalização
[...] é coisa impossível viver do hip-hop, não é? E é uma realidade um bo- cado... as pessoas fazem isso, muitas porque não têm outra alternativa, não é? Mas quem opta, por opção é um bocado arriscado, não é? É um bocado fantasia. E eu sempre tive essa noção [DJ, MC, produtor, responsável por um
editora discográfica e editor de uma revista, 30 anos].
P. – achas q é possível viver do hip-hop em Portugal?
R. – Aqui em Portugal? NÃO! Nos dias de hoje pouca gente vive do hip- -hop em Portugal. temos um mercado fraco (90% pirata) o meu álbum a
solo totalmente produzido por mim ou com um ou outro beat11de produ-
tores especiais para mim so vai estar na rua quando os piratas se conscien- cializarem que ao puxarem um álbum da net não vão ajudar um artista, as minhas mix--tapes saem todas em CD-R por causa disso [DJ, produtor e ex-
writer, 18 anos (entrevista on-line)].
Aqueles que alimentam a aspiração de desenvolver uma carreira pro- fissional no meio admitem fazê-lo em acumulação com outra actividade profissional. De facto, nada impede que um trajectória (semi)profissional dentro do hip-hop prossiga paralelamente a uma inserção profissional nou- tra área (que corresponde à aprendizagem formal), permitindo assim as- segurar a independência económica.
P. – e actualmente qual é a tua função na editora?
R. – fui o fundador, no primeiro ano trabalhei sózinho, sou, neste mo- mento, co-proprietário da editora. acho importante referir que não sou pro- fissional
P. – isso era outra coisa que te queria perguntar... se vives profissional- mente do hip-hop?
R. – não, nem pensar.
P. – mas tens ideia de vir a viver ou achas q não é possivel?
R. – não me parece possível, quando era mais novo nunca vi essa possi- bilidade, era mais radical. Actualmente, até gostava, sempre podia fazer algo que gosto mas vejo essa possibilidade difícil [...] no fundo tenho a necessi- dade de ter um trabalho «chato» mas que me garante alguma segurança para mim e para os que estão comigo e para os que vierem... [...]
P. – então, já agora qual é a tua profissão?
R. – trabalho na área da informática de gestão. software de gestão [MC
e sócio de uma editora discográfica, 29 anos (entrevista on-line)]
Terceiro, as possibilidades de profissionalização que temos vindo a discutir relacionam-se directamente com o problema das representações
11Batida que delimita o tempo rítmico da música. Também utilizado com o sentido
produzidas em torno do hip-hop e dos modos legítimos de desempenhar uma dada actividade em cada uma das suas vertentes. Na realidade, al- guns protagonistas tendem a encarar o hip-hop de forma militante, e deste modo a rejeitar qualquer tentativa de comercialização ou negócio, quer seja sob a forma de cedências ao mercado, às editoras ou à indústria mu- sical (no caso da música), quer seja através da venda dos seus serviços ou de quaisquer outros produtos resultantes da sua actividade (no caso do
graffiti), e, portanto, põem de lado qualquer estratégia de profissionaliza-
ção. Nestes casos, o amadorismo apresenta-se como uma opção, atitude e modo de viver o hip-hop.
P. – já pensaste vir a dedicar-te profissionalmente ao hip-hop?
R. – eu nao vejo o hiphop como profissão. vejo como uma cena k gosto muito de fazer e especialmente como intervençao [MC, 23 anos (entrevista
on-line)]
Isto [as encomendas ] é o tal exemplo que eu te estou a dizer de graffiti... para mim isto não é pintar. Há muita gente que pode dizer: «Eh pá, não, mas tu continuas a pintar! Pintaste um bar...» Isso para mim não é pintar. [...] Ou seja, eu chamo graffiti pegar eu no meu dinheiro e comprar as latas, ou pegar eu e roubar as latas e fazer. Sem que me paguem para isso. Isso para mim é graffiti. O resto é prostituição. Prostituição que pode ser na arte ou na música [Writer, 30 anos].
Quarto, sendo o hip-hop um universo simbolicamente diferenciado (e em certa medida alternativo) de outros universos simbólicos, que pro- duz as suas próprias estruturas, modos de organização, formas de apren- dizagem e papéis, parece-nos relativamente óbvio que não exista uma transição linear entre a formação adquirida ao longo de um dado pe- ríodo e a actividade que se possa vir a desempenhar num momento pos- terior. De facto, todas as práticas associadas ao hip-hop, ainda que de al- guma forma se aproximem de outras que podemos encontrar na esfera cultural mais vasta, dão origem aos seus processos próprios de sociali- zação, que envolvem lógicas e modos específicos de formação, à mar- gem de modos e estruturas convencionais, sancionadas por instituições oficiais (ou oficialmente reconhecidas), assentando, pelo contrário, em processos de aprendizagem marcados pelo autodidactismo, inseridos em estruturas variáveis e adaptáveis às circunstâncias particulares onde se desenrolam (evento, encontro, etc.). Neste sentido, a profissionaliza- ção apresenta um carácter alternativo e flexível, com um grau de variação e instabilidade considerável, mas ainda assim, seja por razões instrumen-
Viver (d)o hip-hop: entre o amadorismo e a profissionalização
tais,12seja por convicção, suficientemente apelativa para justificar o in-
vestimento.