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Refracted Reflections

In document Remembrance of Homes Past (sider 66-71)

Desde 2008 que nos dedicamos à pesquisa das transformações no en- tendimento e no exercício da criatividade entre jovens profissionais das mais diversas áreas artísticas e empresariais, tendo como território de in- vestigação não um grupo em particular, mas um modo de operação que atravessa práticas diversas. Optamos, assim, por não delimitar de antemão um «objecto de estudo» através de indicadores sociológicos tais como classe, renda, género, ou idade, e sim por ir deixando emergir o desenho da rede de pessoas que partilhariam da pesquisa por meio dos encontros suscitados em campo – as indicações de outras pessoas com quem con- versar surgindo a cada vez, sinalizadas a partir de relações de similitude apontadas pelos próprios jovens profissionais. Procurar pela similitude e não pela semelhança, pelas relações/alianças e não pelos reflexos/filiações (Deleuze e Guattari 1997); por um modo de vida comum, que só emerge nas singularidades através das quais os agentes o fazem próprio – e não

* Em parceria com Maria Isabel Mendes de Almeida, no âmbito da pesquisa «Pro- fissionalização da criatividade, criativização da profissão: juventude, construção de si e desempenho profissional no Rio de Janeiro», empreendida pelo Centro de Estudos So- ciais Aplicados da Universidade Candido Mendes (Cesap-Ucam), com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro (Faperj) e em parceria com o Ins- tituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Agradecemos a competência e o especial empenho da assistente de pesquisa Fernanda Déborah Barbosa Lima no cuida- doso tratamento dos dados da pesquisa. Além dela, destacamos e agradecemos a dedica- ção e o esmero de Mariana da Fonseca Nolte e Elza Aparecida Oliveira, estagiárias do projecto. Ver Almeida e Eugenio, 2010.

por um suposto traço identitário estrutural que se «reflectiria» num com- portamento ou conduta padrão.

A mancha de uma «categoria» para os pesquisados delineou-se, assim, à maneira das classificações que apreendem sem prender e sem formar «todos» entitários, características do funcionamento web por tags e «nuvens de tags». E o diagrama da criatividade contemporânea que por essa via es- tamos a captar, ele próprio uma «nuvem de tags», permite visualizar as operações que circulam entre essas pessoas. Os pesquisados – e só os po- demos representar nesses termos a posteriori – acabaram por formar um grupo etário que trafega entre os 19 e os 41 anos, distribuindo-se equita- tivamente entre homens e mulheres, mas de modo bem variado em ter- mos de renda e local de moradia (diversos cariocas moradores das zonas sul, oeste e norte do Rio de Janeiro; mas igualmente vários moradores de outras cidades do Brasil ou do mundo; pessoas em trânsito pelo Rio quando as encontramos). Sem dúvida, esses indicadores dizem nada ou quase nada a respeito deles; ou sobre em que medida podemos chamá- -los de «eles» – porquanto o que os aproxima é antes da ordem do fun- cionamento, da maneira como procedem e actuam profissionalmente.

Como nos diz Latour, pensando junto com Tarde,

[...] o Todo é sempre inferior e sempre menor que as partes no interior das quais ele circula, à maneira de um agregado de formas provisoriamente liga- das. [...] o Todo não é mais que uma parte entre outras, que circula, à maneira de uma nuvem de qualidades agrupadas, no meio das mónadas bem mais com- plexas e bem mais emaranhadas que ele, uma vez que cada uma delas entre- possui todas as outras [Latour 2011, 10, tradução minha, ênfases retiradas e adicionadas].

Orientou-nos, assim, uma abordagem «quantitativa» nos termos de Tarde (2003) e de Latour: acessar as pessoas nas suas quantidades, que su- peram sempre em muitas direcções a questão de que estamos a tratar, e, por acumulação de encontros, coleccionados através de um procedi- mento tanto quanto possível descritivo, seguir ou «rastrear» as séries imi- tativas (ou a «epidemiologia das ideias») que fazem emergir uma «quali- dade» comum, um modo de operar no qual se agregam e conspiram juntas pessoas sempre tão diferentes entre si. Como diz novamente La- tour (2010, 4-7):

Um «carácter impessoal colectivo» não produz um comportamento; ele é, ele próprio, produzido por uma «multiplicidade de inovações individuais», o que não significa que devemos, então, cingir-nos exclusivamente à dimen-

Criatividade situada, funcionamento consequente e orquestração do tempo

são biográfica das pessoas, mas sim que o desafio é «encontrar meios de cap- turar o «ele» e o «ela» individuais sem perder de vista os modos específicos pelos quais eles são capazes de se misturar num padrão, num código, num conjunto de costumes, numa disciplina científica, numa tecnologia – mas nunca em alguma sociedade englobante. [...] o que é chamado lei estrutural por alguns sociólogos é simplesmente o fenómeno da agregação. [...] é equi- vocado considerar as variações individuais como se elas fossem desvios de uma lei, mas é igualmente equivocado considerar as variações individuais como o único fenómeno rico a ser estudado por oposição ou distância em relação aos resultados estatísticos. [...] o que observamos seja na variação in- dividual, seja nos agregados, são somente dois momentos detectáveis ao longo de uma trajectória desenhada pelo observador que está seguindo o rasto de uma dada série imitativa. Seguir essas séries (ou actores-redes, Latour 2005) é encontrar, dependendo do momento, inovações individuais e então agregados, seguidos por novas variações individuais. É a trajectória do que

circula que conta, não qualquer dos seus momentos provisórios.1

Com base no convívio etnográfico e em entrevistas sob a forma de conversas abertas, bem como nessa disposição para o rastreamento descri-

tivo, buscamos compreender as formas contemporâneas de operar a cria-

tividade no trabalho que circulam entre esses jovens. O procedimento tem-nos levado a perceber a emergência contemporânea de um agente social criativo que se manifesta em redes de agregados colaboracionistas ou na pessoa distribuída de um criador que se entende como posição na relação, como agenciador das suas próprias habilidades singulares, ad- quiridas na relação com o mundo, em conexão ininterrupta com a mul- tiplicidade do seu entorno. Fica clara a distância em relação ao entendi- mento romântico (Duarte 2004) do artista como génio solitário, como imagem máxima do indivíduo, como totalidade inteiriça, autoria insular ou bloco identitário, concebido em termos de autenticidade e originali- dade, movido pelo rompante da inspiração, pelo espontaneísmo, pelo

1Vale ressaltar que não se trata, nessa abordagem, da substituição do sociologismo

durkheimiano por um mero psicologismo: a noção de indivíduo em Tarde não corres- ponde, como em Durkheim, a um ente ou substância «micro» oposto ao ente «macro» da sociedade superorgânica. Quando se fala em pesquisa quantitativa ou rastreamento de trajectos individuais, a referência é a perspectiva monadológica, na qual o pensamento entitário cede lugar ao pensamento da diferença relacional e diferenciante: não há aqui oposição macro/micro entre sociedade e indivíduo (ambos correspondem apenas a cortes fractais de diferença), bem como atentar aos indivíduos não corresponde a nenhum psi- cologismo, uma vez que o «indivíduo já é ele próprio toda uma sociedade» (Tarde 2003, 83), feito de relações de relações.

fluxo livre e pela pulsão, e habitante da temporalidade espessa da duração e da experiência.

Aparece, no lugar dessa regionalização íntima do fluxo criativo, o en- tendimento da criação como vivência em conjunto, como geração não de significado, mas de direcção, de canalização e foco. Ou seja, como co-presença permanente entre pensar e fazer, como tarefa de «trabalhar com o que se tem», operacionalizando conexões insuspeitas. Tarefa que envolve, pois, clareza molecular e explicitação dos procedimentos, uma microética atenta a si e aos outros. E envolve, ademais, um funciona- mento que actua por liberação e por astúcia (De Certeau 2004), posto que tem de se negociar enquanto processo de subjectivação flexível num ce- nário contemporâneo de «sociedades de controlo» (Deleuze 1992), pau- tado pela captura dos valores da criatividade, da imaginação e da ludici- dade, pela lógica cada vez mais conexionista e rizomática do capital (Pelbart 2003; Boltanski e Chiapello 1999; Hardt e Negri 2005, 2006; Lazzarato 2006), num processo pelo qual os ingredientes do caldo de contestação contracultural dos anos 1960 e 1970 se teriam convertido, entre os anos 1980 e 2000, em valores mainstream, desenhando como nova normatividade a contaminação recíproca entre criatividade e pro- dutividade. Ou, dito de outro modo, desenhando o mundo «sem lado de fora» (Sloterdjik 2006) do «multiculturalismo asséptico» (Žižek 2006).

Diante desse cenário, percebemos entre os criadores com quem con- vivemos que, funcionando pela táctica do «viver junto» colaboracionista, por uma lógica de horizontalização da atenção, cálculo consequente e fa- bricação contingente de esboços (ao invés da orientação por planos e metas), pela não sonegação da informação, pelo compartilhamento e pela explicitação de procedimentos, coloca-se em marcha um jogo astu- cioso, capaz de conjurar a competição, driblar a normatização, gerando para si uma rigorosa regulação imanente (Jullien 2000, 28) no lugar da ri- gidez apriorística e conteudística da regra – e, assim, orquestrar a criati- vidade, negociando com a pressão do tempo.

Todo um diagrama da criatividade contemporânea2 se vai dese-

nhando através do cruzamento desses procedimentos diversos. Gostaria

2Ver, nesta colectânea, o capítulo 2, de Maria Isabel Mendes de Almeida, «Criativi-

dade contemporânea e os redesenhos das relações entre autor e obra: a exaustão do rom- pante criador», que complementa a presente reflexão ao abordar os aspectos do diagrama que não serão aqui tematizados directamente. O referido capítulo trata da criatividade contemporânea como procedimento que torna simultâneos o pensar e o fazer, acontece por explicitação, operação e colaboração, desvinculando-se do repertório romântico da autoria insular e da ideia «pronta» fornecida pela inspiração.

Criatividade situada, funcionamento consequente e orquestração do tempo

de, no escopo deste artigo, enfocar particularmente os aspectos desse novo modo de funcionamento da criatividade que se vinculam a trans- formações nas maneiras de pensar e efectuar as noções de espaço e de

tempo, bem como na gestão consequente e táctica da vida profissional.

A criatividade emerge, por um lado, como acto situado, que envolve a ocupação e uma constante retomada de lugar. Acompanhar de perto as práticas de espaço ligadas ao trabalho, por sua vez, revela-se como via privilegiada para dimensionar o quanto os próprios processos de sub- jectivação jovens passam a activar-se, contemporaneamente, através de uma lógica cada vez mais «lococêntrica» (Berque 2000), num movi- mento de externalização, espalhamento e abertura que se faz na nego- ciação consequente com o entorno e as circunstâncias. Por outro lado, as formas de orquestrar o tempo – esse que vem a ser o «nosso maior ac- tivo hoje», nas palavras de um dos entrevistados – dão acesso privile- giado aos modos idiossincráticos pelos quais se constroem, de maneira contingente, autonomias tácticas em relação às mais recentes e perversas mutações do mercado de trabalho.

Parto de duas aparentes contradições que, no entanto, só se apresen- tam dessa forma em decorrência do accionamento quase automático de certas categorias sociológicas duras. Ao deixarmos que a direcção do fun- cionamento seja explicitada pelas próprias pessoas que o experimentam, e ao voltarmos a atenção para os modos acidentais pelos quais se resol- vem localmente as conciliações, com mais ou menos sucesso de cada vez, vemos que a contradição se dissipa. Em relação ao espaço, uma sub- jectividade que a princípio parece desenhar-se em torno do «não lugar» (Augé 1994), cada vez mais distribuída, virtualizada e desterrada, que, de maneira aparentemente contraditória, assim se operacionaliza antes pelo (re)situar-se incessante, por estar cada vez mais «cheia de lugar», habi- tando não apenas os espaços, mas também as passagens. Em relação ao tempo, um modo de fazer que opera a co-valência e a simultaneidade entre o pensar e o fazer, que recusa o automatismo do talento e da ins- piração e, no entanto, tem de lidar com um tempo veloz de resposta e de «entrega» dos trabalhos, que se apresenta sob a forma de pressão e que parece contraditoriamente inviabilizar o cultivo por tentativa e erro da «pensação», ou da criatividade como processo estocástico (Bateson 1972), autopoiético e iterativo (Maturana e Varela 1997; Urry 2000). Ve- jamos como, situacionalmente, arranjos e singulares autonomias tácticas se desenham em relação aos modos de ocupar e criar que vêm alterando as práticas de espaço e tempo nas relações de trabalho.

O privilégio da ocupação e a multiplicação

In document Remembrance of Homes Past (sider 66-71)